Isaías 44.6-8

Auxílio Homilético

20/07/2014

Prédica: Isaías 44.6-8
Leituras: Mateus 13.24-30, 36-43 e Romanos 8.12-25
Autora: Helga Rodrigues Pfannemüller
Data Litúrgica: 6º Domingo após Pentecostes
Data da Pregação: 20/07/2014
Proclamar Libertação - Volume: XXXVIII


1. Introdução

O texto do evangelho traz a parábola do joio e do trigo. Joio e trigo representam duas formas de pensar e de viver coexistentes entre as pessoas do mundo. Jesus identifica a boa semente com os filhos do Reino e o joio com os filhos do maligno. Ambos convivem no campo (mundo). No início, é quase impossível separá-los sem trazer grande prejuízo à plantação. Por isso Jesus compara o reino de Deus a essa plantação em que a boa semente e o joio convivem lado a lado até o dia da colheita. O dia da colheita representa o fim do mundo, o dia do juízo de Deus. Quando esse dia chegar, os anjos de Deus “colherão” aqueles que lhe pertencem, enquanto os outros serão lançados na fornalha acesa.

O texto de Romanos fala que somos filhas e filhos de Deus graças a seu Espírito, que se une a nós para que possamos dar testemunho de nosso Pai. Nosso testemunho deve ser dado mesmo em tempo de sofrimento, em sinal de confiança ao Pai e na força de seu Espírito.

Em comum com o texto da pregação, as leituras bíblicas têm a promessa da salvação como objeto de nossa esperança, mesmo em meio ao sofrimento e às muitas outras soluções ou no caminho que o mundo nos oferece. Apesar do exílio, mesmo tendo que conviver com o joio ou mesmo gemendo com a criação inteira, é possível confiar naquilo que não vemos e perseverar naquilo que aguardamos.

2. Exegese

O texto da pregação faz parte do Dêutero-Isaías ou Segundo Isaías (Is 40-55). Seu contexto é o fim do exílio babilônico vivido pelo povo de Israel (meados do século VI) bem como o período pós-exílico (a época persa, 538-330 a.C., ou até a época helenista em seguida). Os temas centrais da pregação do profeta do exílio são a releitura do Isaías histórico (reinterpretação dos oráculos de ameaça e castigo dentro de um plano maior de salvação) bem como a reunião de todo o povo de Israel, disperso por todos os países do império babilônico (cf. Croatto, p.11-13).

J. Severino Croatto estabelece uma unidade entre os versículos 6 a 23. O conteúdo dessa unidade é a relação de Javé com os outros deuses. Apesar do desespero do povo exilado, Isaías busca resgatar a esperança e a confiança do povo em Javé como único salvador possível. Dentro dessa grande unidade, Croatto divide ainda o bloco em outras quatro unidades menores: v. 6-8 (disputa com os outros deuses), v. 9-20 (sátira sobre eles), v. 21-22 (exortação) e v. 23 (hino) (cf. Croatto, p. 106).

V. 6a – O texto começa com a fórmula do mensageiro (“assim diz Javé”), indicando quem fala ao povo. Os títulos “rei de Israel”, “Javé dos exércitos” e “redentor” são citados. A quantidade e a riqueza dos títulos dados a Deus revelam sua identidade e revestem-no de uma majestade transcendental. “Javé” (Jahwe) caracteriza-o como o Deus de eternidade a eternidade. “Rei de Israel” aponta para o Senhor da comunidade, que é também aquele que salva e renova seu povo (“Redentor”). “Javé dos exércitos” representa o Deus do universo, de todos os poderes e forças tanto terrenas como celestiais.

V. 6b – A redenção de Israel não é um fato isolado dentro da história, mas tem a ver com o todo universal (cf. v. 22 e 23). Javé comprova-se como Deus à medida que ele resgata o povo de Israel. E assim ele limita radicalmente todos os falsos deuses e ídolos que poderiam estar no horizonte de esperança do povo de Israel. Antes, ao lado e depois de Javé não existe nenhum poder efetivo (que possa realizar a salvação do povo exilado). Pois ele é “o primeiro e o último”, e não existe ninguém além dele.

V. 7 – Segundo Croatto (cf. p. 110), o versículo 7 tem um nítido caráter de disputa judicial: “devemos visualizar uma assembleia em tribunais, nos quais Javé desafia aqueles que pretendem ser como ele – ou seja, Deus – a falar e anunciar o futuro” (idem). O interrogatório é aberto por Deus com um desafio: “Quem é como eu?”. O processo chega a seu ápice, e assim também o texto alcança sua tensão máxima. Deus apresenta-se como o único capaz de anunciar os acontecimentos da história desde os primórdios de Israel.

V. 8 – Este muda radicalmente o discurso. A cena do tribunal dá lugar ao diálogo de Deus com suas testemunhas. A elas é dito: “Não vos assombreis, nem temais”. Pois elas não apenas fazem parte do plano salvífico de Deus, mas também foram informadas de seus planos que ninguém mais conhece. Assim também como Jesus informou seus discípulos sobre aquilo que estava por vir: “Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho dado a conhecer” (Jo. 15.15). Como pessoas escolhidas para conhecer seus planos (os planos que ninguém mais conhece), os membros da comunidade de Javé devem testemunhar que ele é a única rocha: “Vós sois as minhas testemunhas. Há outro Deus além de mim? Não, não há outra rocha que eu conheça”.

3. Meditação

Nos tempos sombrios da vida, muitas vezes temos dificuldade para manter nossa confiança unicamente em Deus. Isso acontece principalmente quando parece que Deus nos abandonou com nossos problemas e nossas dificuldades. Em meio ao sofrimento e à desgraça, parece que nossas orações não estão mais sendo sequer ouvidas e muito menos serão atendidas por nosso Pai. Diante do aparente silêncio de Deus buscamos outras alternativas. São os momentos em que nos deparamos com soluções mais rápidas, mais fáceis e mais palpáveis para nossos problemas. Afinal, que mal fará aquela “simpatia” que alguém me indicou? Que mal há em participar daquela corrente que eu recebi pela internet? Que mal existe em buscar a cura numa cirurgia espiritual?

Também o povo de Israel teve dúvidas e experimentou tais sentimentos. Também para eles foi difícil confiar que a salvação só pode vir de Deus. Tão difícil, que foi preciso que Deus mesmo argumentasse a seu favor: “Vocês são meus escolhidos. Fui eu quem os criei desde o ventre, sou eu quem vos ama e vos ajuda. Confiem! Não se iludam, pois não há ninguém além de mim! Não vos assombreis e nem temais!”.

Quanto amor é possível experimentar a partir desse desabafo de nosso Pai. Mais do que vir ao nosso encontro, ele ainda nos traz uma prova definitiva de sua ligação conosco. Essa prova está no fato de que somente a nós foram revelados os seus planos de salvação – não só agora, no momento de sofrimento, mas desde os primórdios da criação. É como se Deus dissesse: Onde está a sua memória, ó Israel?

O texto de Isaías é um anúncio de esperança, mas vejo principalmente nesse texto o argumento de Deus para que seus escolhidos se mantenham firmes nessa esperança. O fato de que nos foram revelados, desde a eternidade, seus bons planos para conosco (Gn 21.33) é a maior prova disso. Aqui podemos enxergar bem clara a curva cristológica: o Deus da eternidade continua revelando-nos seus planos por meio de Jesus. No Evangelho segundo João 15.15, Jesus chama-nos de amigos, porque ele compartilhou conosco tudo aquilo que ele ouviu do Pai. Assim como o povo da eterna aliança, fomos escolhidos por Jesus e fomos enviados por ele a dar frutos, a fim de que tudo o que pedirmos ao Pai em seu nome nos seja concedido.

Nisso podemos confiar. Por isso devemos não só permanecer firmes, mas devemos anunciar: Israel é o povo de Deus terrestre, mas a igreja de Cristo é o povo de Deus celeste. Se os anjos são os servos de Deus (como mostra a parábola do joio e do trigo), nós somos seus filhos e filhas – herdeiros e cooperadores de sua obra. Essa confiança torna menores os sofrimentos que nos afligem na vida. Joio em meio ao trigo. Espinhos em meio às rosas. O bem e o mal estão sempre entrelaçados e inseparáveis desde a raiz. É preciso confiança em Deus para deixar crescer aquilo que a gente gostaria de arrancar logo fora. É preciso confiança em Deus para viver nossa vida do jeito que Ele quiser. Viver em meio à vaidade da criação, em meio ao cativeiro da corrupção e aos gemidos da criação (Rm 8.20-22).

Mas nós podemos viver assim, porque Deus já nos revelou os seus planos. Ele já nos adotou como filhos e fez-nos seus herdeiros e coerdeiros e coerdeiras com Cristo. E “se com ele sofremos, também com ele seremos glorificados” (Rm 8.17).

4. Imagens para a prédica

“Um pastor estava fazendo visitas de casa em casa para conhecer os membros de sua igreja. Fazia pouco tempo que começara o trabalho na cidade.

Em uma rua, avistou uma mulher que, de repente, jogou a sombrinha para cima, deixando-a cair. A mulher levantou a sombrinha do chão e repetiu o mesmo gesto por mais duas vezes.

Depois, ela se dirigiu para a esquerda do caminho, pois havia chegado a uma encruzilhada. O pastor apressou-se e alcançou-a. Apresentando-se, perguntou o nome dela. Ela, admirada, disse:

– Mas, pastor, o senhor ainda não ouviu falar de mim? Sou a mulher mais religiosa de toda a comunidade. Eu faço tudo com oração.

– Muito bem – disse o pastor. – Assim deve ser mesmo: orar em todas as situações. Aliás, tenho uma pergunta: por que a senhora jogou sua sombrinha para cima?

– Já disse – respondeu a mulher. – Faço tudo em oração. Quando cheguei à encruzilhada, orei: “Meu Deus, devo ir para a esquerda ou para a direita? Jogarei minha sombrinha para cima e verei em que direção ela cair; então será esse o caminho pelo qual devo ir”.

– Bem, já que a senhora agiu assim, não compreendo por que jogou a sombrinha três vezes para cima.

– É como lhe disse, pastor. Faço tudo com oração. Mas a sombrinha não queria cair para o caminho que eu queria ir. Por isso joguei-a tantas vezes para cima até que caiu para a direção por mim desejada” (Alcides Jucksch, Amor sem
Fronteiras).

5. Subsídios litúrgicos

Versículo de acolhida: “Porque, na esperança, fomos salvos. Ora, esperança que se vê não é esperança; pois o que alguém vê, como o espera? Mas, se esperamos aquilo que não vemos, com paciência o aguardamos” (Rm 8.24-25). Sugiro usar o versículo de João 15.15 como palavra da graça. Jesus Cristo diz: “Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho dado a conhecer”.

As leituras bíblicas podem ser introduzidas da seguinte forma:

Romanos 8.12-25: Somos filhos e filhas de Deus, sem que precisemos fazer algo por isso. Mesmo quando fazemos algo errado, o seu amor não nos abandona. Não somos servos que precisam fazer aquilo que os outros mandam. Com a comparação entre os filhos e os servos, o apóstolo Paulo agradece a Deus por sua dedicação e cuidado a nós. Na carta à comunidade de Roma no capítulo 8, versículos 12 a 25, ele escreve: ...

Mateus 13.24-30,36-43: Joio em meio ao trigo. O evangelista Mateus usa essa imagem da natureza para responder a pergunta que ocupa pessoas de todos os tempos e lugares. A pergunta sobre como devemos lidar com o fato de que entre as pessoas cresce tanta erva daninha, tanta coisa incompreensível e repugnante acontece, que nos aterroriza e amedronta. Essa pergunta foi respondida por Jesus da seguinte forma: ...

Se alguém quiser aprofundar-se um pouco mais em João 15.15, é possível encontrar uma bonita oração a esse respeito:

Meus amigos (Jo 15.15)

Senhor, tu nos chamaste de teus amigos.
Tenho amigos que te amam muito.
Tenho-os em alta consideração
E te agradeço por me teres dado tais amigos.

Senhor, tenho amigos que te odeiam.
Apesar disso, eu os amo.
Senhor, tu que transformaste o coração de Paulo,
Que te odiava,
Faze que esses meus amigos reconheçam teu amor.

Senhor, tenho amigos que riem de ti.
Choro por eles.
Senhor, tu que choraste por Jerusalém,
Não deixes esses meus amigos perecerem em sua tolice.

Senhor, tenho amigos que são indiferentes diante de ti.
Preocupo-me muito com eles,
Que não são nem quentes nem frios.

Senhor, tu que em relação a nós não és indiferente,
Dá-me forças para, através de minha vivência cristã,
Chamar esses meus amigos à decisão.

Johnson Gnanabaranam, Uma nova dança, p. 69

Hinos: HPD 94 – Corações em fé unidos; HPD 206 – Quão bondoso amigo é Cristo; HPD 213 – Senhor, tu tens sido; HPD 214 – Quem só em Deus, o Pai, confia; HPD 412 – Amizade; HPD 456 – Deus é meu amparo.

Bibliografia

CROATTO, José Severino. Isaías: a palavra profética e sua releitura hermenêutica. Petrópolis: Vozes, 1989.
FREY, Hellmuth. Das Buch der Weltpolitik Gottes. Kapitel 40-55 des Buches Jesaja. 4. ed.


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Autor(a): Helga Rodrigues Pfannemüller
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 6º Domingo após Pentecostes
Testamento: Antigo / Livro: Isaías / Capitulo: 44 / Versículo Inicial: 6 / Versículo Final: 8
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2013 / Volume: 38
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 28657
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