Isaías 52.7-10

Auxílio Homilético

06/01/2009

Prédica: Isaías 52.7-10
Leituras: Mateus 12.14-21 e Colossenses 1.24-27
Autor: Fernando Bortolleto Filho
Data Litúrgica: Epifania de Nosso Senhor
Data da Pregação: 06 de janeiro de 2009
Proclamar Libertação - Volume: XXXIII

1. Introdução

Uma prédica para o dia da Epifania, baseada em Isaías 52.7-10, anuncia que “Deus reina” (v. 7) e reina “à vista de todas as nações” (v. 10). A manifestação de Deus aos povos é celebrada no culto desse dia. Temos nos textos um sentido fundamental de universalidade: da salvação do Senhor que se estende aos gentios.

O texto central da prédica tem um tom característico de outros textos de Segundo Isaías, júbilo e exultação, pois o Senhor salvou, consolou seu povo e retorna triunfante a Sião. Os outros textos, do Novo Testamento, trazem a palavra “gentios” como ponto de identificação e união com o texto principal. Mateus reproduz a apresentação do Servo de Javé num momento em que a atuação de Jesus já despertava inconformismos; o Servo do Senhor é também o servo que padece, e “em seu nome esperarão os gentios” (Mt 12.21). Em Colossenses, o evangelho anunciado pela igreja é o “mistério”, agora revelado aos gentios. Assim como em Segundo Isaías, esperança e glória (v. 27) caminham juntas com as aflições do Servo de Deus (v. 24).

A Epifania é o desfecho do período de Natal (na verdade, a celebração da Epifania é mais antiga do que a celebração do Natal; o Natal esteve “embutido” na Epifania durante um certo período). Na Epifania, a glória divina manifesta-se na humanidade de Jesus.

2. Exegese

O texto da prédica está num bloco do livro de Isaías atribuído a um profeta anônimo, o qual costumamos chamar de Segundo Isaías (DeuteroIsaías). O bloco, que engloba os capítulos 40 a 55, está ambientado no contexto do final do exílio babilônico. Ciro, o soberano persa, é citado algumas vezes, e Jerusalém não é o lugar atual de habitação, mas um destino. Consolação, ânimo, salvação e esperança são ingredientes constantes nos textos desse bloco.
É possível dividir o bloco de Segundo Isaías em duas partes principais:

40-48 e 49-55. Nosso texto encontra-se na segunda parte, na qual encontramos Jerusalém em destaque como destino glorioso do “segundo êxodo”. O capítulo no qual se encontra a nossa perícope (52) tem, segundo S. Croatto, quatro “fragmentos literários”: 1-2, 3-6, 7-10, 11-12 (1998, p. 256). São poemas breves, intimamente relacionados, cheios de sentido e inspiração.

A propósito, Croatto também coloca em destaque a qualidade do texto hebraico de Segundo Isaías, sobretudo a qualidade poética (1998, p. 19). Os versos são bem articulados e a utilização de imagens é bastante criativa. Isso nos deve servir de alerta para que leiamos o texto com percepção aguçada, observando bem a escolha das palavras, notando também o ritmo e os sons. O binômio profeta-poeta aparece com propriedade em grande parte dos textos do livro de Segundo Isaías.

A perícope deve ser lida como um “hino de júbilo”; as expressões dos v. 8 e 9 são bastante características. A presença de Javé, anunciada na perícope anterior (v. 6), é celebrada com grande alegria (Schökel & Sicre, 1988, p. 337). Os gritos das sentinelas são de júbilo (não de guerra); até as ruínas de Jerusalém gritam de alegria (aqui um contraste proposital: as ruínas e o canto).

Nosso profeta fala a exilados, gente que viveu a experiência criadora de um divisor de águas na história do povo de Deus. O exílio foi resultante da ação dos exércitos de Nabucodonosor, o soberano da Babilônia que comandou sua nação num período de grandes conquistas. O império babilônico sucedeu o império assírio, também desastroso para as populações da Palestina. A atitude definitiva da Babilônia foi precipitada por uma série de demonstrações de fraqueza e falta de habilidade para a leitura da realidade internacional por parte dos descendentes do rei Josias, período no qual atuou incansavelmente o profeta Jeremias. O resultado final foi a destruição de Jerusalém depois de um cerco cruel e prolongado, culminando com mais uma deportação seletiva. O exílio foi o destino de certa parte da população, principalmente das pessoas que representavam perigo, segundo a interpretação do poder babilônico.

Para a Babilônia, o esplendor e a queda não estiveram distantes. Passa- do o período de Nabucodonosor, a nação entrou em declínio, sobretudo por motivos administrativos e políticos internos. A partir de 539 a.C., temos então o período persa, trazendo a liderança de Ciro, mencionado com grande entusiasmo (talvez demasiado) pelo Segundo Isaías. Chegava ao fim o marcante período do exílio. Por isso a restauração de Jerusalém ocupa lugar marcante em nosso texto.

A perícope que estamos analisando fala de uma proclamação (v. 7); há uma boa notícia a ser proclamada. O texto aponta para os pés daquele que proclama. Há aqui uma ideia de dinamismo, de deslocamento, de chegada, após a caminhada (a Nova Tradução na Linguagem de Hoje diz: “mensageiro correndo pelas montanhas”). O conteúdo básico da proclamação não poderia ser outro: “reina o teu Deus”. Quase todos os reis de Judá e Israel fizeram o povo sofrer; agora reina Deus. O anúncio do reinado de Deus resume os três elementos apontados anteriormente no mesmo versículo: a paz, o bem e a salvação. Essas expressões fortes significam reversão em relação aos tempos de opressão. Ao comentar os três elementos, S. Croatto destaca o aspecto concreto deles, dizendo que eles englobam “tudo o que se pode imaginar como felicidade de um povo” (1998, p. 263).

Nesse sentido, o aspecto real e concreto do anúncio é amplificado nos gritos das sentinelas (v. 8). É uma realidade, pois os olhos vêem. Esse anúncio real repercute através do próprio texto, pois o anúncio do mensageiro, a chegada de Javé reinante, que os atalaias vêem, chega aos olhos de todas as nações (v. 10). A boa notícia do mensageiro (v. 7) provoca os gritos dos atalaias (v. 8) e provoca também o júbilo em Jerusalém. O texto mostra um desenvolvimento crescente.

No v. 9, a atenção recai totalmente sobre Jerusalém; os dois versos do poema terminam com a palavra Jerusalém. O anúncio das boas-novas provoca uma “explosão” de alegria (a Tradução Ecumênica da Bíblia traduz o primeiro imperativo por “explodi”) para as ruínas de Jerusalém. Aqui, o recurso do contraste: ruínas – alegria. As ruínas não serão mais um marco para lamentos, pois Javé age. A ação de Javé aparece aqui em dois verbos de fundamental importância para o Segundo Isaías: consolou e remiu. O júbilo e a alegria não deveriam ser momentâneos, mas deveriam conduzir a uma outra postura. As ruínas apontam para uma reconstrução necessária. Remir é aqui sinônimo de reconstruir; por isso a ideia de um “novo êxodo” é marcante no Segundo Isaías. O tempo é de esperança. Javé faz novas todas as coisas.

Chegamos ao v. 10, com a utilização da imagem de mais um elemento do corpo: o braço. O primeiro versículo da perícope (v. 7) termina com a palavra salvação. Também com ela a perícope é fechada. Javé é o Deus que usa seu braço para salvar, e todos os confins da terra verão. Comentários desse texto normalmente fazem referência ao início do Salmo 98, o qual utiliza a mesma expressão, manifestando alegria pela vitória e salvação. O tom no Segundo Isaías é ampliado, pois todas as nações verão. Trata-se de uma teofania abrangente. Por isso Ciro recebe referência destacada; ele é parte daquilo que o profeta via para a manifestação abrangente da glória de Javé. Ele era o instrumento de Javé para a derrota do opressor. Certamente o sentido de universalidade deve ser destacado aqui.

3. Meditação

Procurando transpor o texto para nossa realidade, seguem algumas indicações:

1 – Como indicamos acima, o nosso profeta era poeta. É interessante (e desastroso) perceber que atualmente a poesia se tornou um elemento ausente. O mundo pragmático demais no qual vivemos deixou a poesia na lista daquilo que é acessório ou dispensável. Não é incomum falar com estranheza de pessoas que lêem ou estudam poesia.

Mesmo os textos bíblicos escritos em versos são lidos muitas vezes como se não fossem (devemos reconhecer que até mesmo a diagramação dos textos, em muitas edições da Bíblia, deixa de favorecer a percepção dos textos escritos em verso). Com isso, além dos possíveis equívocos de interpretação, deixamos de reparar em sutilezas que podem enriquecer nossa leitura.

Destacar a beleza dos textos bíblicos também é um recurso para enfrentar a insensibilidade reinante em nossos dias, nos quais tudo é medido por seu valor monetário. O que percebemos no Segundo Isaías é que os belos textos do profeta em nada retiram sua capacidade de perceber de maneira aguda a realidade que o cerca.

2 – Uma outra questão importante para uma prédica seria observar a capacidade profética de leitura da história. Devemos perguntar: Como o povo de Deus em nossos dias tem lido a história? Seria de maneira inocente de- mais? Ou poderíamos também perguntar se houve um esforço sério para a interpretação do agir de Deus na história atual. O Segundo Isaías concentra sua mensagem nos movimentos da história.

3 – Colocando nossa atenção na mensagem específica de nosso texto e no momento do calendário cristão para o qual ele se dirige, o que poderíamos dizer sobre a manifestação de Deus? Nosso texto traz a palavra salvação em destaque; é certo que a história bíblica é sempre uma história salvífica. A Epifania comemora a manifestação salvífica definitiva de Deus em Cristo, colocando nele o ponto culminante da história, que mostra Javé, em diversos momentos, restaurando seu povo. A divindade encontra nossa humanidade em Cristo, a fim de renovar toda a humanidade. Também tendo em vista o início do ano, é sempre um momento oportuno para renovar as esperanças e perceber que há sempre oportunidade para um novo êxodo de libertação.

4 – Merecem destaque especial as três palavras do v. 7, que destacamos acima: paz, bem e salvação. O profeta sempre faz o seu anúncio de maneira concreta, tendo em vista elementos concretos da vida do povo.

O que significaria para nosso povo brasileiro um anúncio de paz, bem e salvação? Podemos pensar em muitas possibilidades. Temos vivido dias de grandes manifestações de violência. Mulheres e crianças são vítimas constantes, mesmo no contexto doméstico. Em relação à criminalidade, muitas vezes, atitudes das autoridades policiais não-preparadas acabam gerando mais violência. Nesse contexto, anunciar paz, bem e salvação é significativo e obriga-nos a pensar em ações concretas.

5 – Merece também ser destacada a referência aos povos, às nações. A manifestação gloriosa de Javé é um testemunho para todos os povos. A manifestação da glória de Deus é abrangente e inclusiva: Deus deseja reconciliar consigo todo o mundo.

Temos que reconhecer uma situação negativa quanto às relações entre as nações. Por exemplo, torna-se cada vez mais agudo o problema das fronteiras. A atitude intolerante (e muitas vezes violenta) das nações do hemisfério norte diante do crescente fluxo migratório é preocupante. Também podemos citar a questão das fontes energéticas como geradora de problemas ambientais, afetando todo o mundo, principalmente na capacidade de produção de alimentos. Para o início do v. 10, a Tradução Ecumênica da Bíblia traz: “O Senhor desnuda, sob os olhos das nações, o braço que desdobra a sua santidade”. O braço desnudado de Javé traz paz e justiça entre as nações.

4. Imagens para a prédica

1 – O pregador ou pregadora poderia escolher pequenos poemas ou trechos de poemas de autores brasileiros ou latino-americanos para um toque de sensibilidade na prédica. Pensando em nosso imenso país, isso poderia ser feito com a especificidade regional, tendo em vista a junção criativa de beleza, sensibilidade e crítica social.

2 – Uma prédica sobre Isaías 52.7-10 deve ser rica em dados concretos da situação mundial. O chamado para a consideração do que Deus faz à vista de todas as nações é muito forte no texto. O pregador deverá observar, no momento próprio para a utilização do texto, as questões mais candentes. Por exemplo, no momento em que escrevemos esses apontamentos, acompanhamos o impasse (para não dizer: quase total fracasso) das negociações dos representantes das nações na Rodada Doha em Genebra.

5. Subsídios litúrgicos

1 – Para a oração do dia (Manual do Culto, p. 142-143): Deus Eterno,
por uma estrela
Tu levaste os magos para adorar teu Filho. Guia as nações do mundo pela tua luz
para que toda a terra venha a enxergar a tua glória, todo joelho se dobre ao nome de Jesus
e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para tua glória. Amém.
2 – Para este momento do calendário cristão, os hinos que exaltam
Jesus como rei são bem-vindos.
3 – Em conformidade com o que colocamos no tópico sobre “Imagens para a prédica”, um momento de intercessão poderia abordar, a partir de orações breves da comunidade, as questões mundiais mais candentes no momento.
4 – Para o momento do envio (Manual do Culto, p. 153): Andem no mundo como filhos e filhas da luz, procurando descobrir as coisas que agradam ao Senhor e sejam luz para o mundo todo.
Assim brilhe a sua luz para que os outros louvem o Pai, que está no céu.

Bibliografia

CROATTO, J. S. Isaías – A palavra profética e sua releitura hermenêutica – V.II: 40-55. A libertação possível. Sinodal/Vozes: São Leopoldo/Petrópolis,
1998.
IGREJA PRESBITERIANA INDEPENDENTE DO BRASIL. Manual do Culto. São Paulo: Pendão Real. s/data.
SCHÖKEL, L. A. & SICRE, J. L. Profetas I – Isaías / Jeremias. São Paulo: Paulinas, 1988.


 


Autor(a): Fernando Bortolleto Filho
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Epifania

Testamento: Antigo / Livro: Isaías / Capitulo: 52 / Versículo Inicial: 7 / Versículo Final: 10
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2008 / Volume: 33
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 18577
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A vida cristã não consiste em sermos piedosos, mas em nos tornarmos piedosos. Não em sermos saudáveis, mas em sermos curados. Não importa o ser, mas o tornar-se. A vida cristã não é descanso, mas um constante exercitar-se.
Martim Lutero
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