Isaías 63.15-64.3

Auxílio homilético

06/12/1987

Prédica: Isaías 63.15-64.3
Leituras: Lucas 17.20-30; Romanos 15.4-13
Autor: Milton Schwantes
Data Litúrgica: 2º Domingo de Advento
Data da Pregação: 06/12/1987
Proclamar Libertação - Volume: XIII
Tema: Advento

I - Oxalá que fendesses o céu e descesses!

Em minha experiência, trata-se de um belo texto para advento. O problema é que ele é bastante complicado para quem o escuta pela primeira vez. Após uma primeira leitura, são poucas as informações que permanecem.

Esta perícope requer meditação. Aqui, ler e reler, orar e meditar se constituem em excelentes ferramentas para a compreensão. Aos poucos o texto se vai abrindo. Vai revelando seus segredos. Vai assinalando seus tesouros. Calma e paciência - estes preciosos dons do Espírito - são valores inestimáveis diante destes nossos versículos.

Faz bem preparar a pregação com um grupo. Aqui, este benefício vale em dobro. Junto a outros, num ambiente meditativo, este texto saberá soltar-se.

Para a própria pregação, recomendaria o jeito da meditação. Convidaria a comunidade ao pensar junto, ao perceber em contato com o próprio texto, repetindo seus versículos, recolocando suas imagens. Até conviria seguir o texto, versículo por versículo, interpretando um por um e atualizando-o. Confesso que não fiz esta experiência com este nosso texto, mas, à luz de tentativas similares, imagino que seria oportuno.

Talvez até fosse conveniente reduzir os versículos. É o que propõe a própria ordem de perícopes. Sugere reduzir o texto a 63.15-16 + 64.1-4. E uma boa proposta, tendo em mente o ouvinte do sermão.

II – Reconstruindo

Encontramo-nos no pós-exílio. Com a vitória dos persas sobre os babilônios, em 539 a. C., alteram-se também as condições de vida tanto dos exilados quanto dos remanescentes. Aos exilados é permitido regressar à sua pátria. E a terra de Judá, onde viviam os remanescentes, toma-se interessante para o projeto de dominação internacional dos persas. Começa a reconstrução de templo e cidade de Jerusalém.

Nesta época, aluaram diversos profetas. Sabemos de Ageu e de Zacarias. Sua pregação se dá em tomo de 520. Já se situam, pois, na segunda década após a vitória persa. Tanto Ageu quanto Zacarias propugnam a reconstrução do templo.

Habitualmente também se localiza o conjunto de Is 56-66 neste período inicial de pós-exílio. Costumamos designar estes capítulos de Terceiro Isaías ou de Trito-lsaías. Na verdade, estamos aí diante de uma coletânea de textos da comunidade pós-exílica.

Poder-se-ia discutir, se esta coletânea de Terceiro Isaías é anterior ou posterior a Ageu e Zacarias. Possivelmente podemos encontrar em Is 56-66 textos de diferentes períodos desta época inicial do pós-exílio.

Nossa perícope, situa-se claramente neste período. Pode-se deduzi-lo do v. 17: os nossos inimigos pisaram o teu santuário. Esta é uma referência à destruição do templo. Estamos em tempos de reconstrução.

Ill – Lamentando

Nossa perícope faz parte de um texto maior que vai de 63.15 até 64.12. E esta grandeza maior é um salmo de lamentação do povo. C. Westermann diz tratar-se do mais impactante salmo de lamentação do povo (p. 311). Em tais salmos, via de regra lemos petições, lamentações, confissões de pecado e de confiança. Nos versículos que compõem a perícope prevalecem:

a petição (olha! volta! oxalá!) a confissão de confiança (tu és o nosso pai)
a lamentação ou a queixa (Por que endureces? Somos um povo sobre o qual não exerces o teu domínio.)

Em nossos versículos não aparece, pois, a confissão de pecado. Mas, ela é parte do texto maior, do todo do salmo de lamentação. Encontro-a em 64.5-7: Nós pecamos... Éramos como pessoas impuras... Não há ninguém que evoque o teu nome. Portanto, as lamentações e as queixas, que são apresentadas a Javé, em especial em 63.17-19, não prescindem a consciência de pecado. Estão ladeados por ela. A queixa não é, pois, fruto de orgulho auto-suficiente. É antes expressão de profunda dor e de sofrimento angustiante. Lamentação é grito, não é orgulho.

A lamentação não é uma das tônicas prediletas de tempos de reconstrução. Já se pode observá-lo em Segundo Isaías. Em Ageu e Zacarias vê-se o mesmo. No restante de nosso próprio Terceiro Isaías não prevalece a lamentação. Esta era a tónica dos tempo do exílio. Aí muito se lamentava. Isso inclusive deu origem a um de nossos livros bíblicos: as Lamentações de Je¬remias. São o cancioneiro da comunidade que se reunia junto às ruínas do templo.Choravam suas dores. Lamentavam-nas quase sem esperança.

No pós-exílio, via de regra, celebra-se a esperança. É o que se lê em Ageu. É o que delineiam as visões de Zacarias. É o que o próprio Terceiro Isaías apresenta em seu cap. 65: Vou criar novos céus e nova terra... Os homens construirão casas e as habitarão (v. 17,21). Vive-se a euforia da utopia. Neste contexto, nossa lamentação destoa. Põe os olhos na realidade. Não admite que a utopia se descole da vida real, do dia-a-dia. Em meio ao euforismo, em meio a planos e projetos arrebatadores, nosso salmo nos põe com os pés no chão. Não nega a esperança Afinal, suplica pelo advento de Javé: Oxalá que fendesses o céu e descesses. Mas, barra uma esperança que perde o senso da dor presente, do grito da lamentação, do povo oprimido pelos persas e sua sábia, porém, extorsiva administração.

Olha desde o céu!

Já nosso primeiro versículo (v. 15) contém uma tensão palpitante. O apelo do salmista é dirigido ao Deus distante, ao que está no céu, em sua morada santa e gloriosa. A este Deus majestoso está dirigida a petição: Olha desde o céu e vê! Mas esta experiência da distância é logo complementada pela expectativa da proximidade. Este é o acento das perguntas:

Onde estão o teu zelo e o teu valor?
O frêmito das tuas entranhas
e a tua compaixão para comigo se recolheram?

Aí se reivindica um Deus próximo. A gente quer experimentar, no concreto, seu zelo e sua compaixão. Anseia-se pela vibração de suas entranhas.

Esta também é nossa experiência. Não é mesmo? As injustiças crescem ao invés de diminuir. Parece que o zelo de Deus não se faz perceptível. E em nossa oração e em nossos gritos imploramos pelo frêmito das suas entranhas.

Tu és o nosso pai.

Faz sentido apelar a Javé. Ele merece confiança, porque, no passado, já evidenciou sua fidelidade. É o assunto do v. 16:

Com efeito, tu és o nosso pai.
Ainda que Abraão não nos conhecesse
e Israel não tomasse conhecimento de nós
tu, Javé, és nosso pai,
nosso redentor: tal é o teu nome desde a antiguidade.

A este Deus vale a pena queixar-se. Ele escuta. Tem conhecimento da gente. Está mais identificado com os seus do que os personagens mais Ilustres do povo, quais sejam Abraão e Israel, i. e., Jacó.

O título pai quer expressar aqui a proximidade e solidariedade de Javé. Ele é pai, e mãe também. A fé constitui um âmbito de confiança. Nele podemos apelar. Mas também podemos queixar-nos.

Queixa é o que predomina nos v. 17-19. A lamentação é carregada pela confiança.

Porquê?

Ainda que esteja abarcada pela confiança (v. 16), a queixa não deixa de ser radical. Ou melhor: justamente por conhecer a fidelidade de Javé, o salmista pode queixar-se de modo tão incisivo. É o que está no v. 17:

Por que fazes com que nos desviemos dos teus caminhos?
Por que endureces os nossos corações para que não te temamos?

É uma queixa contra Deus. É uma acusação contra ele. É deveras radical, porque atribui nossos descaminhos e a dureza de nossos corações ao próprio Deus. Esta tinha sido a experiência do exílio. Javé prevenira seu povo através dos profetas. Chamara-o ao arrependimento e à conversão. Mas os reis nem quiseram ouvir. Comportaram-se como o faraó diante de Moisés. Não houve praga que o convencesse a deixar de oprimir os hebreus. O próprio Deus endurecia o coração de faraó. Mas este que é capaz de fechar nossos corações é qual pai e mãe: é capaz de rever suas decisões. Por isso, nosso salmista apela a ele. Pede:

Volta, por amor dos teus servos
e das tribos da tua herança.

Estas certeza de que Deus volta, devido a seu amor, constitui a razão para que o salmista continue a lamentar-se. Passemos, pois, ao v. 18!

Os inimigos pisaram.

O v. 17 fora uma lamentação contra Deus. O v. 18 se queixa da opressão pelos inimigos:

Por pouco tempo o teu povo santo possuiu a sua herança, então os nossos inimigos pisaram o teu santuário.

Volta à memória a catástrofe de 587: a destruição do templo peto exército babilônico. Os donos do mundo de então se arrogaram o direito de pôr em chamas o santuário de seus vencidos. A mesma prepotência experimentam, hoje, os países dependentes.

Convém lembrar que esta lamentação foi dita justamente quando, em meio a grandes euforias, se restaurava o templo. A euforia do reinicio não deveria esquecer-se das causas da ruína!

Somos um povo abandonado.

A queixa do versículo apresenta uma síntese da situação do povo. Fala em nós:

Há muito que somos um povo sobre o qual não exerces o teu domínio, sobre o qual não se invoca o teu nome.

Estar abandonado pelo próprio Deus, esta é a dor das dores. E o povo se queixa de ter caído no esquecimento de Deus. O grito da lamentação busca atrair Deus. Reivindica sua compaixão, o frêmito das suas entranhas.

Portanto, as lamentações dos v. 17-19 se movimentam em três direções: queixam-se a Deus; queixam-se devido aos inimigos; queixam-se de sua própria situação. Tamanha queixa é, contudo, carregada e sustentada pela confiança no Deus que é fiel desde a antiguidade. Por isso, as lamentações desembocam no apelo, na petição. É o que tínhamos no início de nossa perícope (v. 15). É o que se encontrava em meio à própria lamentação (v. 17). E, enfim, na petição culmina nossa unidade: 64.1-4.

Oxalá que fendesses o céu e descesses!

Os v. 1-2 formam uma unidade. Compõem o pedido acrescido de compa¬rações e do objetivo:

Oxalá que fendesses o céu e descesses, diante da tua face os montes se abalariam - como o fogo faz arder os gravetos,
como o fogo ferve a água -
para dares a conhecer o teu nome aos teus adversários; as nações tremeriam perante a tua face ao fazeres prodígios que não esperávamos.

O salmista implora por uma epifania, pelo advento de Javé. A vinda do Senhor será a superação das dores reinantes. Adversários maldosos e nações opressoras estarão superados. Deixará de haver dor e lamento.

Esta epifania será semelhante a outras que ocorreram no decorrer na história do povo. Seria semelhante ao Sinai, junto ao qual terra e montes tremeram. Seria parecido ao que Moisés experimentara junto à sarça ardente. Seria similar ao que Elias presenciara, quando o altar por ele erguido em honra a Javé foi consumido pelo fogo. Sim, a nova epifania terá tais semelhanças. Mas, ela também será nova e diferente, porque os próprios céus hão de se fender para que desça Javé. Quando naqueles tempos bíblicos se dizia que os céus se fendem, então para expressar que se estava diante de uma nova criação, de um novo cosmos. Afinal, ao criar céus e terra, Javé fizera o firmamento para manter a vida. Ao fender este firmamento, Javé nos coloca no limiar da nova criação. Portanto, nossa perícope é deveras adequada para o Advento!

Nunca se ouviu.

A novidade, em favor da qual apelavam os v. 1-2, é celebrada no v. 4. Sua tônica é o louvor:

Desde os tempos antigos nunca se ouviu, nunca se havia sabido, o olho não tinha visto um Deus que agisse em prol dos que esperam nele, exceto a ti.

Este Javé, acessível à minha dor, próximo dos oprimidos, é incomparável. É uma exceção! A ele toda honra e todo louvor! E assim nossa perícope nos convida, em seu final, após nos conduzir às profundezas da dor a nos defrontar com a crueza do abandono por Deus, para louvar e comemorar aquele que age de modo tão diferente. A espera vale a pena. Sim, a espera, envolta pela prática da justiça (como adiciona o v. 5), vale a pena!

IV - Em direção à prédica

No início, já assinalei para a prédica. Penso que a meditação é o que mais corresponde a esta perícope.
Se a gente fosse escolher um tema, correria o risco de optar por um em detrimento de outros. Poder-se-ia enveredar pelo caminho da tematização da petição, ou da lamentação, ou do louvor. Dessa maneira se estaria parcializando o conjunto. Além disso, se perderia um aspecto especialmente rico do salmo: as contínuas alternâncias de enfoque. Estes saltos de um assunto ao outro, esta alternância de enfoques parece-me corresponder muito bem à nossa própria vida de fé. Nela há muito salto. As surpresas tendem a prevalecer por sobre os temas coerentes e lineares.

Proponho, pois, que a prédica tente seguir os passos do salmo. Medita e atualiza, para a situação da comunidade, o salmo do jeito que se nos apresenta. Greto que o próprio salmo, com suas alternâncias, idas e vindas, fornece uma sequência própria e adequada ao sermão.

V - Subsídios litúrgicos

1 - Intróito: Oxalá que fendesses o céu e descesses, para dares a conhecer o teu nome aos teus adversários. As nações tremeriam perante a tua face ao fazeres prodígios que não esperávamos. (Is 64.1-2)

2. Confissão de pecados: Deus, tu que és nosso amigo e nosso severo juiz, colocamo-nos diante de ti e dos irmãos para falarmos de nossos fracassos. Fracassamos no amor a ti somente. Corremos atrás de outros deuses. O dinheiro fez-se nosso dono. O bem-estar tomou-se a base na vida. O comodismo quebrou nossa resistência. Entregamo-nos aos destinos da vida e fraquejamos nas lutas. Sim, Senhor nosso, o pecado transformou-se em nosso objetivo. Deste jeito estamos aqui uns diante dos outros e em conjunto diante de ti. Tem piedade de nós, Senhorl

3. Oração de coleta: Senhor, nosso Deus, te damos graças por podermos esperar. Estes tempos de advento são bons. Trazem à nossa memória que tua vinda transforma tudo. Transforma as dores em alegrias. Muda falta de emprego em fartura na mesa. Faz gente saudável de crianças abandonadas. Pedimos por esta vinda Senhor, esta vinda que tudo muda. Imploramos por tua vinda. Vem, Senhor Jesus! Amém.

4. Leituras bíblicas: Lucas 17.20-30; Romanos 15.4-13.

5. Assuntos para a intercessão: pela vinda do Senhor; por Sua vinda em defesa da vida dos empobrecidos e desempregados; pelo advento para quem está sem lar e sem casa; pelo advento que seja a participação de todas as mulheres e todos os homens nos destinos do país; pelos que estão angustiados e não vêem saída para suas perguntas; petos que experimentam a vida como um túnel sem saída e sem luz; pelos que se negam a ter esperança, para que todos possamos dizer a uma só voz: oxalá que fendesses o céu e descesses.

VI - Bibliografia


- GERSTENBERGER. E. (ed.) Deus no Antigo Testamento. São Leopoldo, 1981.
- KIRST, N. Meditação sobre Isaías 63.15 - 64.8. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo, 1976. v. 1
- VOIGT, G. Meditação sobre Isaías 63.15 - 64.4. In: Die grosse Ernte. Göttingen, 1976.
- WESTERMANN, C. Das Loben Gottes in den Psalmen. 4. ed. Göttingen, 1968.
- WESTERMANN, C. Das Buch Jeseja. In: Das Alte Testament Deutsch. Göttingen, 1966. v. 19.

 

Editora Sinodal e Escola Superior de Teologia


Autor(a): Miltom Schwantes
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Advento
Perfil do Domingo: 2º Domingo de Advento
Testamento: Antigo / Livro: Isaías / Capitulo: 63 / Versículo Inicial: 15
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1987 / Volume: 13
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 11394
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