Isaías 65.17-25

Auxílio Homilético

01/05/2005

Prédica: Isaías 65.17-25
Leituras: Lucas 13.10-17 e Tiago 5.1-6
Autor: Arnoldo Maedche
Data Litúrgica: 6º.Domingo da Páscoa
Data da Pregação: 01/05/2005
Proclamar Libertação - Volume: XXX


1.Introdução

Na tradição litúrgica e nos comentários exegéticos procedentes da Alemanha, esse texto é trabalhado no Domingo da Eternidade, último Domingo do Ano Eclesiástico. Nesse culto costumava-se fazer a leitura de nomes das pessoas falecidas nos últimos 12 meses, honrando com isso a tradição da comunidade local e marcando o final dos grandes temas do calendário eclesiástico. O caráter escatológico do texto, particularmente nos versículos 17 e 25, encaminha a reflexão para além dos tempos de nossa era, jogando com a esperança de um “novo céu e nova terra” (= tudo!), recriados por Javé. Os demais versículos são expectativas de reconstrução do “já agora”, passíveis de concretização na história do povo de Israel, precisamente de Jerusalém.

Também o Dia Internacional do Trabalhador (ou do Trabalho) é cercado de expectativas afirmativas. Governo, congressistas, lideranças sindicalistas, empresários, economistas e mídia fazem análises e previsões, sobretudo quanto ao valor do novo salário mínimo. Por isso é preciso que os pregadores “abram olhos e ouvidos” para o que se diz e o que se ouve no momento brasileiro (Schwantes, no PL III), para enquadrar a mensagem desse dia especial e, é claro, sem esquecer o recado que o texto de Isaías e as leituras bíblicas da Liturgia da Palavra projetam em termos de reflexão.

O tema permanente do desemprego e o jogo de percentagens de aumento no salário mínimo ainda ocuparão lugar destacado nas manifestações públicas em nosso país. A perda do valor aquisitivo, o empobrecimento contínuo dos assalariados, o crescimento das tensões sociais nos grandes centros, a ocupação de terras também com desempregados urbanos e as desigualdades históricas das classes não resolvidas (vide a xingação aos ricos em Tg 5.1-6) estarão na ordem do dia. Nesse mergulho no contexto brasileiro permanece a dúvida entre o que há de real e de imaginário, entre o empírico e o utópico.

Também o nosso texto joga com essas possibilidades entre o mundo de cá e o de lá. Como será o “já agora” e o “ainda não” na agenda dos exilados? Haverá avanços e recuperação na destruída Jerusalém? Marchará o mundo em termos globais em nosso tempo para um fim apocalíptico de esgotamento dos recursos ou poderemos alcançar a longevidade média dos 100 anos anunciados e hoje já previsíveis nos países mais desenvolvidos?

Já vai longe o tempo em que a igreja tinha um mandato público reconhecido, que lhe conferia audiência e poder de influência na vida pública. Nesse tempo de enxugamento e de exílio eclesial, convém ter os pés no chão da realidade e tentar descobrir o que ainda podemos dizer e fazer em prol de mais justiça e esperança de reconstrução nas relações locais e comunitárias.

A realidade operária continua recheada de receios e medos. A chegada de um metalúrgico ao poder central de nosso país pode não alterar o rumo da nossa história. Entre a esperança de uma recuperação da economia e da justiça social para a grande maioria dos empobrecidos intercala-se a ameaça de mais um fracasso de esperanças, que se postergam pelas amarras herdadas não-resolvidas do endividamento crônico do Brasil. A classe trabalhadora, com a iminente reforma da CLT, poderá ter que renunciar a direitos arduamente conquistados no passado para poder manter empregos aguardando tempos melhores. O autor do nosso texto também pretendia construir esperanças e semear certezas para um futuro melhor de sua comunidade de exilados.

Com essas preocupações queremos entrar no texto e tirar dele o sustento para coexistir com a força da fé neste mundo que nos é dado viver. Nem mais, nem menos!

2. Texto

Exegetas do calibre de Claus Westermann e J. Severino Croatto sugerem iniciar a perícope com 16b, o que também faz a versão do Almeida. Na versão Linguagem de Hoje, no v. 25, há um erro de digitação: no “au” leia-se “mau”.

Se excluirmos os versículos 17 e 25 com seu carácter de intervenção divina, vamos verificar um quadro de expectativas humanas comuns às festividades do Dia Internacional do Trabalhador, quais sejam: um futuro alegre e feliz, com reconstrução das condições de vida urbana e rural saudáveis, diminuição da mortalidade infantil, longevidade acima do normal para todos, casas para todos, festas regadas a vinho produzido pelas próprias mãos e um Deus atencioso e presente, que atende com rapidez em todos os momentos da vida.

Já nos versículos 17 e 25 encaminham-se transformações que ultrapassam as expectativas humanas: surgirá uma nova configuração planetária e a vida animal se transformará da rivalidade para a convivência pacífica. O verbo bará de Gn 1.1 é utilizado no v. 17, indicando ato exclusivo e absoluto de Deus. Esse patamar não comporta obras humanas.

Deixando de lado a problemática de que se trataria em Isaías de três livros com autores diferentes, a mensagem central do livro encontra-se nas passagens 12.1, 40.1 e 66.13: consolar o povo que se encontra no exílio, anunciando o fim do castigo e oferecendo um retorno digno e glorioso. As experiências de sofrimento dos últimos anos da nação Israel serão anuladas pelo esquecimento de Deus e pela falta de lembrança do povo. A cortina da reconciliação será aberta. O cenário mudará.

No entanto, no lado de cá das coisas e em nosso mundo, “no suor do teu rosto” (Gn 3.19) continua valendo. Há muito o que fazer para chegar à “vida abundante” de Jo 10.10 (vide Lc 13.10-17 e a cessação do sofrimento da mulher acima da Lei do Sábado). Enquanto em algumas nações se anunciam longevidades (como das árvores, v. 22) para a vida humana, noutras persistem as tragédias da mortalidade infantil, da fome e da Aids.

Se considerarmos os v. 17 e 25 como acréscimos redacionais possíveis, então o autor de Isaías trabalhava com uma expectativa histórica no horizonte da atuação humana. A cristandade, porém, encontra no NT uma ampliação de expectativa, ultrapassando seu mundo e sonhando muito além da longevidade dos 100 anos com a “vida eterna” (Jo 3.16). Entramos então no campo da fé (fides) com certezas (fiducia) que caracterizam também nossa concepção luterana. É coisa para Deus mesmo!

Será que a arrumação da casa Brasil pela situação herdada dos 300 anos de colonialismo, de monarquia dos Bragança e de uma era republicana marcada primeiro pelo positivismo da Ordem e Progresso e pelo capitalismo predatório tem esse poder sinistro que jamais será superado? Estamos à mercê dos poderosos investidores internos e externos, que jamais esquecerão os erros das gerações passadas?

3. Tradução de Croatto

v. 16b: Quando tenham sido esquecidas as adversidades primeiras e tenham sido ocultadas de meus olhos,
v. 17: Pois eis aqui que crio novos céus e nova terra e não se lembrarão das primeiras coisas, nem subirão ao coração,
v. 18: mas antes exultai e alegrai-vos para sempre pelo que estou criando, pois eis que recrio Jerusalém com “alegria” e seu povo como “gozo”,
v. 19: pois me alegrarei em Jerusalém e exultarei em meu povo, e não mais se ouvirá nela voz de pranto nem voz de clamor.
v. 20: Não haverá mais, (que seja levada) dali, nenhuma criança de dias, ou velho que não complete seus dias, porque o jovem morrerá aos cem anos, e aquele que não chegar aos cem anos será (como) maldito.
v. 21: Edificarão casas e residirão, plantarão vinhas e comerão de seus frutos;
v. 22: Não edificarão para que outro resida, nem plantarão para que outro coma, porque como os dias da árvore serão os dias de meu povo, e meus eleitos gastarão o produto de suas mãos.
v. 23: Não se cansarão em vão, nem darão à luz para o espanto, porque eles serão descendência bendita de Javé, assim como seus rebentos com eles.
v. 24: Sucederá que, antes que chamem, eu responderei; ainda estarão falando e eu já os ouvirei.
v. 25: Lobo e cordeiro pastarão como um só, e o leão, como a vaca, comerá palha (quanto à serpente, seu pão será o pó): não causarão dano nem destruição em toda a minha “montanha santa”, diz Javé.

4. Comentários

Esse poema escatológico, diz Croatto, é constituído por fragmentos que anunciam uma nova era da ação de Javé. O que era sofrimento e tristeza vira alegria e gozo. De “meus servos” surge na virada o “meu povo”. “Neste mundo novo prometido não importa a transformação dos astros ou do planeta Terra, mas as transformações das condições humanas que geram o pranto, o clamor, as angústias e a dor...” (Croatto, p. 343).

O ponto de partida do “imaginário” (continuando com Croatto, p. 347) do texto é a “realidade vivida”, com as mazelas de sofrimento, inimizade e ódio da presente era. Mas “isso não basta”! A esperança consiste precisamente em que é possível um mundo diferente. Mas como este é um “ainda não”, é preciso imaginá-lo. Por ser uma utopia, quando chegar deixará de ser o imaginado. Por isso é preciso pensá-lo continuamente.

A ação extraordinária de Javé inclui a harmonia da natureza, já mencionada em Is 11.6-9. Apenas as serpentes permanecem no seu isolamento. A montanha santa não se refere ao templo, mas à terra montanhosa de Judá, onde ocorrerá a nova ordem criada por Javé.

5. Elementos para o culto e a pregação

Imagino que o culto no Dia Internacional do Trabalhador poderia até ter uma configuração como os cultos da Colheita (de Ação de Graças). O fruto do trabalho, seja urbano ou rural, poderia estar presente no altar e ser destinado para uma instituição social de necessitados.

O livro de Isaías é apaixonante, pois contempla uma experiência riquíssima de no mínimo 200 anos de história do povo de Israel (Meister, p. 479). O texto reproduz a experiência do exílio e do seu retorno, paz e guerra, destruição e reconstrução. Nesse contexto de dificuldades, o profeta oferece a mensagem do consolo, visão de esperanças, e pede pela paciência histórica. A tradição judaico-cristã caracteriza-se pela teologia da história, que nos distingue de outras grandes religiões. A vida pode ser abundante e já neste mundo pode-se usufruí-la com satisfação. Neste sentido, o texto fornece plasticidades interessantes: viver tanto como as árvores, morar em casas construídas para si, colher frutos da terra para sua própria alimentação, crianças que sobreviverão aos primeiros dias e assistir a própria natureza transformar-se em harmonia.

Isto remete a pregação a pensar nas esperanças do Dia do Trabalhador: os sonhos de um emprego estável, um salário compatível com as necessidades, uma vida “do bem” conduzida por uma sociedade democrática, aberta e feliz.

Mas isto não é tudo! O “ainda não” reserva-nos um encontro com Cristo diante do nosso Criador. Sobre isso a fé alimenta a certeza de que preencherá o “já agora” com uma nova qualidade de vida. Está nas mãos de Javé, mas também começa com nossas mãos.

Ao povo da fé cabe viver e agir na manutenção da vida, na construção de esperanças por um mundo melhor, na busca da paz entre os povos. Isto exige participação, engajamento e atitudes corajosas na concretização do que a fé já anuncia e imagina. A esperança concretiza-se quando nós começamos a dar o primeiro passo. Como Isaías, cabe aos pregadores um papel de levantar o moral do povo e desafiar seus ouvintes para assumirem responsabilidades de um tempo que se completará com a ação de Javé.

Bibliografia

CROATTO, J. Severino. Isaías vol. III, A Utopia da Nova Criação, Vozes, 2002.
MEISTER, Ralf. Göttinger Predigt-Meditationen in: Pastoral-Theologie, de agosto de 2000.
VOIGT, Gottfried. Die himmlische Berufung, Berlim, 1987.


Autor(a): Arnoldo Maedche
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Páscoa
Perfil do Domingo: 6º Domingo da Páscoa
Testamento: Antigo / Livro: Isaías / Capitulo: 65 / Versículo Inicial: 17 / Versículo Final: 25
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2004 / Volume: 30
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 23575
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