Isaías 7.10-14 (15-17)

Auxílio homilético

24/12/1995

Prédica: Isaías 7.10-14 (15-17)
Leituras: Romanos 1.1-7 e Mateus 1.18-25
Autor: Júlio P. Tavares Zabatiero
Data Litúrgica: 4º Domingo de Adventol
Data da Pregação: 24/12/1995
Proclamar Libertação - Volume: XXI
Tema: Advento

1. Introdução

Pregar no 4º Domingo de Advento, em especial quando ele coincide exatamente com o dia do Natal, não é tarefa fácil. Sempre vem à nossa mente o pensamento: Que vou dizer desta vez? Afinal de contas, a história do nascimento de Jesus já é tão conhecida, e a comemoração do Natal nas igrejas já é tão tradicional...

Com este auxílio homilético não pretendo simplificar essa tarefa, ainda mais porque o texto indicado para a pregação, Is 7.10-14, já oferece dificuldades bastantes ao seu intérprete. Para começar, a maioria dos comentaristas não aceita esta delimitação da perícope. A questão mais debatida, porém, é o sentido do sinal divino no v. 14. Há desde leituras tipológicas mais forçadas do texto até tentativas de reconstrução histórico-crítica do sentido desse sinal no contexto do séc. 8 a. C. Não pretendo, também, discutir as questões exegéticas e hermenêuticas vinculadas a esta perícope. Você poderá encontrar excelentes discussões nos comentários exegéticos e nos artigos científicos relevantes.

Que pretendo fazer, então, com este texto? Pretendo fazer uma re-leitura do mesmo, a partir do nosso contexto brasileiro de final de milênio e também a partir do ambiente litúrgico da pregação — tomo por assentado que usamos o texto para anunciar o evangelho de Jesus Cristo, ou seja, lemos o texto de Isaías à luz de Mt 1.18-25. Mãos à obra, pois!

2. Celebrar o Natal, no Brasil, às Sombras da Nova Era — de um Novo Milênio

O povo brasileiro, em geral, experimenta uma situação psicocultural ambígua. Por um lado, vive as pessimistas expectativas da chegada do fim do milênio. As previsões sombrias para a humanidade em geral e para o nosso país em particular se multiplicam. Não são poucos os profetas do apocalipse — seja esse fim do mundo resultado do desequilíbrio ecológico, seja resultado da incapacidade humana de resolver os problemas da pobreza, fome, moradia, etc. Alguns autores mais sofisticados falam do fim da história como o fim das utopias, como a afirmação da validade plena e duradoura do sistema capitalista — agora em sua versão neoliberal. Para tais pessoas, não há por que buscar novas formas de organização e convivência social, porque o melhor que o homem (sic!) pode produzir já está presente em nosso mundo.

Por outro lado, em nossa terra vivemos a expectativa de uma virada, já que agora estamos na era do real. Daqui para a frente, realmente, o Brasil vai ser diferente! A economia está se estabilizando, temos um governo forte e inteligen¬te, caminhamos rumo ao pentacampeonato mundial de futebol... Fazendo o contraponto aos profetas do apocalipse, há muita gente que procura inculcar na mente do povo um grande otimismo, afirmando a salvação de nossa terra Brasilis.

Em nossas comunidades, se reúnem para a celebração da fé cristã pessoas de diferentes condições sociais, econômicas e educacionais. Entre nossos paroquianos e paroquianas encontramos exemplos das posições mais pessimistas, das mais otimistas e todo o amplo espectro de posições intermediárias. É o chamado pluralismo da época moderna — ou seria melhor dizer: pós-moderna? Para essas pessoas, e para nós pastores e pastoras, que significa o sinal de Deus neste contexto em que vivemos?

3. Deus Está Presente!

O sinal de Deus para nós, hoje, é a presença de Jesus Cristo — Emanuel, o Deus-conosco. Este é o sentido fundamental das celebrações natalinas: comemorar a presença de Deus em nosso mundo. E é sobre esse tema que gostaria de refletir com vocês agora.

3.1. Deus Está Presente de Forma Inusitada

A Igreja cristã interpretou a profecia de Is 7 como se referindo, de fato, a uma virgem, que concebera não de homem, mas do Espírito Santo (Mt 1.18ss.). Deixando de lado as questões da historicidade, ou não, da narrativa mateana, devemos destacar o caráter inusitado da promessa do Emanuel. Mesmo Maria e José tiveram problemas em aceitar a palavra divina, diante da impossibilidade física de uma virgem conceber sem auxílio do homem. Ressalta, no episódio, o aspecto transcendental da presença divina. Não é uma presença visível conforme os critérios do olhar humano. Se pensarmos nos tempos de Isaías, como acreditar que uma criança salvará a nação do império invasor? Se pensarmos no tempo de Maria, como acreditar na maternidade em parceria com Deus? Não soaria a palavra de Deus a Maria como bruto paganismo? Como uma mulher judia poderia crer em tal palavra?

Sim! Deus está presente entre nós. Talvez não o consigamos perceber, mas está presente. Precisamos treinar nossos olhos para enxergá-lo. Precisamos buscá-lo com os olhos da fé, e iremos encontrá-lo no estábulo, fora do aconchego do lar c da sociedade. Nossos olhos se acostumaram a procurar a presença de Deus entre os presentes e os saborosos pratos da ceia natalina. Mas Emanuel não está aí. Está com os que nada têm e de tudo precisam. Como diz a canção: Entre nós está e não o conhecemos, entre nós está, e nós o desprezamos! Nesta nova era do real, precisamos buscar Deus onde ele de fato está presente, e não em nossas ilusões e fantasias. Deus está presente entre nós, sim, mas de forma inusitada.

3.2. Deus Está Presente de Forma Solidária

O sinal de Deus é um sinal de salvação. A presença de Deus, em Cristo, é a expressão mais plena da solidariedade divina com a humanidade pecadora,' 'porque ele salvará o seu povo dos pecados deles (Mt 1.21). A celebração natalina é, portanto, celebração da presença solidária de Deus entre nós. Deus não está presente como aqueles parentes que, em festas ou funerais, aparecem em nossa vida para novamente sumirem sem deixar traços. Deus está realmente presente. Não como um convidado, mas como um companheiro, como amigo dos pecadores.

Solidariedade é um termo relativamente novo, que expressa uma realidade antiga, tão antiga como o próprio ser de Deus. Afinal de contas, não disse o apóstolo que Deus é amor? Não foi Jesus o mestre compassivo, que andou com leprosos, prostitutas e pecadores? Celebrar o natal de Jesus Cristo é assumir a mesma atitude de solidariedade, de amor compassivo expressa pelo Filho de Deus. As vestes natalinas não são as novas roupas que ganhamos ou compramos — estas são apenas uma necessidade humana. As vestes natalinas verdadeiras são os ternos afetos de misericórdia dos quais se revestem as filhas e filhos de Deus animados pelo Espírito Santo.

A celebração natalina é oportunidade para renovarmos os laços comunitários, para aprofundarmos o caráter familiar da Igreja, do povo de Deus. Celebramos a presença do Deus que nos fez irmãos e irmãs de seu único Filho. Esta é a nova realidade que importa para nós. São irrelevantes, diante de Deus e dos irmãos e irmãs, o quanto possuímos, o status de que desfrutamos, o sobrenome que carregamos. Diante de Deus somos todos pecadores e pecadoras salvos pela compaixão divina manifesta na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo. E a comemoração do nascimento do Filho de Deus é também a celebração do aniversário de nosso novo nascimento — na família do Deus solidário com os pecadores e pecadoras.

Por isso devemos nos perguntar: de que forma nossa celebração do Natal poderá expressar a solidariedade de Deus no Brasil de hoje? Podemos nos contentar com as comemorações e festejos tradicionais? Ou está na hora de sermos criativos — ativos na criação de uma nova era de real solidariedade e ternura?


3.3. Deus Está Presente na Forma de Sinal!

Por fim, parece-me oportuno reafirmar o caráter escatológico da presença de Deus. Embora nos esforcemos por entender o sentido do sinal divino, não devemos perder de vista que ele continua sendo um sinal. Continua apontando para uma realidade ainda inexistente, para um mundo ainda por construir. Celebrar o advento de Jesus Cristo é, assim, celebrar a esperança de uma nova criação. Nova criação da qual já fazemos parte, e, por fazermos parte, somos parceiros de Deus em sua realização. Celebrar o Natal é celebrar a missão da Igreja: viver neste mundo em esperança solidária.

Quando olhamos para a realidade em que vivemos, percebemos claramente as marcas da ausência de Deus: fome, pobreza, corrupção, violência, etc. Mas, se olharmos para essa realidade com os olhos da fé, vestidos de terna solidariedade, enxergaremos também o sinal de Deus. E quando nos perguntarmos: Deus, onde estás?, lembraremos das palavras de Emanuel: Porque tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era forasteiro e me hospedastes... (Mt 25.35-40). Na celebração do Advento, aprendemos a encontrar Deus nos locais mais inesperados e nas pessoas menos indicadas. Aprendemos que a razão de ser da Igreja não é a sua própria glória e grandeza, mas a sua pequenez e humildade.

Ao celebrar a presença inusitada e solidária de Deus, aprendemos que ser filho e filha de Deus significa servir ao próximo. Aprendemos que ser Igreja é ser povo de Deus em missão, apaixonados pela obra missionária de sermos parceiros de Deus em sua nova criação. Aprendemos, também, que não podemos ser mais do que nosso Criador — se ele está presente como sinal, também nós, Igreja, somos apenas um sinal da presença de Deus neste mundo!

4. Conclusão

Como conclusão da prédica, podemos convidar a comunidade a refletir sobre que tipo de sinal somos nós no Brasil de hoje. Essa reflexão pode ser feita através de oração e cânticos que falem sobre a missão da Igreja e sobre a esperança cristã. Quem sabe, também poderíamos pedir às crianças (ou mesmo a toda a comunidade) que desenhassem a sua compreensão do tipo de sinal que a Igreja é no mundo. (Obviamente esta atividade com as crianças teria sido desenvolvida de forma apropriada no horário do culto infantil.)

5. Bibliografia

CLEMENTS, Ronald E. Isaiah 1-39. Grand Rapids, Eerdmans, 1980.
CONRAD, Ernest W. Reading Isaiah. Minneapolis, Fortress, 1991.
MÜLLER, Enio R. Isaías 1-12. Belo Horizonte, Missão, 1993.
RIDERBOS, Jon. Isaías — Introdução e Comentário. São Paulo, Vida Nova, 1992.

Editora Sinodal e Escola Superior de Teologia
 


Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Advento
Perfil do Domingo: 4º Domingo de Advento
Testamento: Antigo / Livro: Isaías / Capitulo: 7 / Versículo Inicial: 10 / Versículo Final: 14
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1995 / Volume: 21
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 11403
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