Jeremias 31.10-13 (14)

Auxílio Homilético

29/12/1991

Prédica: Jeremias 31.10-13 (14)
Leituras: Hebreus 2.10-18 e Lucas 2.41-52
Autor: Sérgio Sauer
Data Litúrgica: 1º Domingo após Natal
Data da Pregação: 29/12/1991
Proclamar Libertação - Volume: XVII


Que as lágrimas não te impeçam ver o clarear de um novo dia que desponta, o ressuscitar das raças, nova aurora...

1. Introdução

Enquanto estava preparando este texto para servir de auxílio na pregação do 1° Domingo após o Natal de 1991, alguns acontecimentos do cotidiano da vida do povo (grupos de extermínio, ameaça da epidemia da cólera, o autoritarismo do governo, mortes de trabalhadores rurais na luta pela terra, etc.) colocaram dúvidas sobre a ideia de pregar esperança. Neste momento lembrei das palavras de Oswaldo Montenegro, da sua poesia Metade, onde ele começa cantando: Que a força do medo que tenho não impeça de ver o que anseio; que a morte de tudo que acredito não me tape os ouvidos e a boca... Vejo morrer ao meu redor muito daquilo em que acreditávamos, mas a partir dos sonhos de libertação que o povo nutre, ainda arrisco pensar que é possível fazer coro com Drummond:

A rosa do povo despetala-se,
ou ainda conserva o pudor da alva?
É um anúncio, um chamado, uma esperança embora frágil,
pranto infantil no berço?
Talvez apenas um ai de seresta, quem sabe.
Mas há um ouvido mais fino que escuta, um peito de artista
que incha, e uma rosa se abre, um segredo comunica-se,
o poeta anunciou.
O poeta, nas trevas, anunciou.

2. O profeta Jeremias

Jeremias inicia o seu trabalho por volta do ano 627 a.C. No décimo terceiro ano do reinado do rei Josias, como ele mesmo define (Jr 1.2). Alguns exegetas afirmam que esta data deve ser do nascimento do profeta e não do início da sua atuação. Independente da exatidão da data, é importante notar que a sua atuação se dá, pelo menos em parte, durante o reinado de Josias.

Josias sobe ao poder ainda menino em 639 a.C. (2 Rs 22.1) e permanece no reinado de Judá até a sua morte em 609 a.C. na batalha de Megido (2 Rs 23.29). Josias se tornou um rei importante na história de Israel por causa das reformas que promoveu. As assim chamadas reformas josiânicas se deram a partir da descoberta, no templo, do Livro da Lei em torno de 621 (2 Rs 22.3ss.).

As mudanças de Josias foram cultuais com influências no âmbito social (mas parece que não tiveram efeito duradouro). Estas reformas não iniciam apenas com a descoberta do Livro da Lei, pois Josias, aproveitando-se de um provável enfraquecimento do domínio assírio na região, já fazia esforços para unificar algumas províncias antes desta descoberta. Na sua reforma Josias destruiu os altares e sandia rios do norte e matou os sacerdotes dos cultos cananeus e assírios (2 Rs 23.4ss.).

Croatto afirma haver uma íntima relação entre o reinado de Josias e a atuação profética de Jeremias. Ele escreve: Embora o escritor 'deuteronomista' do livro de Reis ignore a Jeremias — talvez por ser ele proveniente do sacerdócio de Anatol (Jr 1.1), excluído das funções no templo (I Rs 2.26) — é inegável a sua influência espiritual no êxito da reforma de Josias (p. 188). Mas é interessante notar que, ape¬sar de Josias ser lembrado como um grande rei de Judá, Jeremias quase não toma conhecimento do seu reinado.

O profeta Jeremias viveu e trabalhou o suficiente para ver os dramáticos acontecimentos que vão desde a dissolução do império assírio, depois da morte de Assur banipal (626 a.C.), até a queda do estado de Judá em 587 a.C., quando o império neo-babilônico (depois de um pequeno intervalo de domínio egípcio sobre a Palesti na e que terminou na derrota de Cerquemis) definitivamente pôs fim à relativa independência política de Jerusalém e deportou os seus líderes (segunda deportação — a primeira foi em 597).

Ainda na mesma linha de Croatto, alguns exegetas acreditam que o texto de Jr 31.10-14 (assim como todo o contexto desta perícope) foi escrito, ou melhor, dito sob a sombra das reformas josiânicas. Entre esta data (622 a 609 a.C.), ano da morte do piedoso Josias, Jeremias pronuncia os oráculos de salvação dos caps. 30.1-31.22 e 3.6-13, que formam o 'Livro da Consolação' de Jeremias, verdadeira jóia literária. (Croatto, p. 188.)

3. O Livro da Consolação

O contexto literário da perícope de Jr 31.10-14 é composto pelos capítulos 30 e 31, os quais formam o assim chamado Livro de Consolação.

O livro de Jeremias é composto basicamente pelos seus próprios ditos, mas várias partes sofreram influências de Baruque (cf. cap. 36) e até mesmo de zelotes deuteronomistas. O Livro de Consolação é uma compilação independente, mas há um total desacordo sobre sua autoria, data e proveniência.

Homburg escreve: Para um profeta como Jeremias, que normalmente se opõe de maneira severa a todas as anunciações de graça, esta ocorrência de palavras de graça naturalmente é surpreendente. Conseqüentemente se questionou muitas vezes a originalidade destes ditos, mas com argumentos dificilmente convincentes (p. 158).

O Livro da Graça possui uma alta elaboração literária, o que indica uma mistura de oráculos antigos com uma adição substancial de material muito posterior a Jeremias. A poesia do texto possui um vigor característico dos primeiros ditos do profeta, mas é impossível negar uma reelaboração posterior. Também o interesse dominante pelo Reino do Norte pode indicar a procedência do texto. Na sua forma original o livro da consolação dever ser entendido com o pano de fundo fornecido pelo tempo em que Josias submeteu partes do reino do Norte com sua política de expansão.

Naquele tempo reacendeu-se o interesse pelos exilados do reino do Norte (Homburg, p. 158).

A partir desta discussão existe um certo consenso de que seriam ditos originais do profeta as perícopes: 30.5-7, 12-17, 23-24; 31.2-6, 7-9, 15-22, enquanto os demais ditos foram ou retrabalhados ou são provenientes de material posterior. Mas, para Homburg, o importante dito da nova aliança (31.31ss.) remonta a Jeremias, mesmo que a sua atual redação tenha sofrido uma reelaboração.

O conteúdo básico deste Livro da Graça se dirige aos descendentes dos deportados do reino do Norte, consolando-os e anunciando o regresso. O livro inicia com a promessa de restauração do Reino do Norte (30.1ss.) e conclui com o anúncio da reconstrução de Jerusalém (31.38ss.), mas o cerne da esperança de salvação está numa nova relação com Javé em que se realizará a antiga promessa do pacto: 'Eu serei seu Deus e eles serão meu povo' (Homburg, p. 166).

4. O texto

Como vimos acima, existem dúvidas de que este dito seja de autoria do próprio profeta. A partir do estilo redacional, há suspeitas de que poderia ser um dito posterior ou um dito que sofreu uma forte influência literária.

O conteúdo da perícope imediatamente reporta uma situação de dispersão, ou seja, da realidade de deportação de 597 ou 587. Independente se o próprio Jeremias o pronuncia ou tem outra autoria, o anúncio de que Javé irá ajuntar o seu povo (aquele que dispersa o seu povo o reunirá — v. 10) estabelece uma relação entre esta perícope e a anterior (w. 7-9). A realidade de dispersão provoca o anúncio da reunião por parte de Javé (vv. 8a, 9a, 10b, 12a, etc.).

No v. 12 a alegria anunciada não se restringe à volta do cativeiro, mas a uma festa marcada pela fartura dos bens de Javé. O termo hebraico usado para o vinho, acompanhado dos termos trigo e azeite, representa um sumário de produtos agrícolas (2 Rs 18.32; Dt 7.13, 11.14; 18.4, etc.). Portanto, há uma promessa de uma festa de regresso celebrada com fartura de produtos agrícolas e pastoris (bois e ovelhas). Importante observar também que o uso diário do vinho não só estava ligado ao banquete festivo, mas estava ligado também a ofertórios e sacrifícios cultuais. Por outro lado, o trigo era o cereal mais conhecido na época e o azeite tinha diferentes funções: para tempero de alimentos (Dt 28.38ss.; Mq 6.15), uso medicinal, combustível para as lâmpadas, uso em rituais cúlticos e era produto de exportação (l Rs 5.11; Ed 3.7; Ez 27.7; Os 12.2).

No v. 13 o termo hebraico usado para a dança significa o dançar como uma alegria contraposta ao sofrimento (SI 30.12), ou como um ato alegre de louvor a Deus (SI 149.3, 150.4). Esta dança, realizada de forma graciosa e esteticamente be¬la, era acompanhada de canto e outros instrumentos.

5. Mensagem

Ludwig Feuerbach escreveu sobre a religião: Ela é o solene desvelar dos tesouros ocultos do homem, a revelação dos seus pensamentos íntimos, a confissão pública dos seus segredos de amor.

A perícope de Jr 31.10-14 é uma confissão pública dos segredos de amor do profeta. É o anúncio apaixonado de um novo tempo, onde o autor verbaliza, não só os seus desejos, mas também os sonhos de um povo que sofre o exílio e a privação. Poeta do povo canta seus desejos de libertação. Ao povo que está disperso, àqueles que desfalecem vem o anúncio de que Javé será novamente o pastor que liberta do poderoso opressor e alegra o povo com festas e fartura.
A promessa de uma nova realidade não se esgota no voltar para casa, mas acrescenta-se a isto a possibilidade real de fazer da vida momentos de celebração. Haverá fartura de alimentos e motivos suficientes para transformar o choro em ale¬gria e festa.

6. Possíveis passos de uma pregação da esperança

A mensagem de anúncio de esperança para a comunidade poderia ser feita com três blocos principais:

1. A localização histórica do profeta com o destaque para a realidade sócio-e-conômico-política da época (deportação, exílio, fome, etc.) poderá ajudar aos ouvintes a se identificar com a mensagem do texto.

2. A repetição de algumas palavras de graça do autor bíblico relacionadas às necessidades reais dos ouvintes.

3. Uso de exemplos, história ou poesia para ilustrar a esperança:

— a esperança do lavrador que cuidadosamente prepara a terra e planta as sementes na esperança da boa colheita;

— a esperança do pescador que, contra as probabilidades, diversas vezes joga a rede na esperança de ganhar do mar o fruto de seu trabalho;

— história da deusa Fênix (mitologia), o qual, após morrer queimado em seu próprio ninho, voltava a ressurgir e tornava a construir outro ninho na luta pela vida.

7. Auxílios litúrgicos

1. Texto bíblico de saudação: leitura do SI 126 (125).

2. Poema de saudação: Esperança, de Mário Quintana.
Lá bem no alto do décimo-segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenes
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
— Ó delicioso voo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calcada.
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é o teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarzinho, para que não esqueçam
nunca: — O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...

3. Oração inicial: Senhor Deus, estamos no 1° Domingo após o Natal. Contra todas as evidências ajuda-nos a manter acesa a chama da esperança. Esperança de que é possível construir uma realidade nova, de fartura e justiça para todas as pessoas. Que o nascimento de teu Filho nos fortaleça na esperança da caminhada da libertação. Amém.

4. Oração de intercessão: A comunidade poderia ser incentivada a manifestar motivos de esperança ou situações em que pessoas precisam manter a esperança, mesmo contra as evidências.

8. Bibliografia

BENTZEN, A. Introdução ao Antigo Testamento. Vol. II, ASTE, 1968, pp. 130ss.
CROATTO, J. S. História da Salvação. Ed. Paulinas, 1968, pp. 186ss.
HOMBURG, K. Introdução ao Antigo Testamento. Ed. Sinodal, 1976. pp. 157ss.
Interpreters Dictionary of the Bible, The. An Illustrated Encyclopedia. Vol II, Nashville, Abingdon Press, 1982, pp. 822ss.
Idem. Vol. suplementar, pp. 470ss.


Autor(a): Sérgio Sauer
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Natal
Perfil do Domingo: 1º Domingo após Natal
Testamento: Antigo / Livro: Jeremias / Capitulo: 31 / Versículo Inicial: 10 / Versículo Final: 13
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1991 / Volume: 17
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 17969
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