Jeremias 7.1-11

Auxílio Homilético

07/08/1983

Prédica: Jeremias 7.1-11
Autor: Gerd Uwe Kliewer
Data Litúrgica: 10º. Domingo após Trindade
Data da Pregação: 07/08/1983
Proclamar Libertação - Volume: VIII


I — O texto

Das variantes que o texto original apresenta, merece consideração a do v.3b (e analogamente v.7a), onde a versão de Almeida traduz vos farei habitar neste lugar, seguindo a vocalização do texto massorético. Outras versões, adotando uma vocalização diferente, traduzem habitarei convosco nesse lugar (como faz também Lutero na sua tradução para o alemão). A adoção de uma ou outra alternativa modifica bastante o significado da perícope. Na primeira, a promessa de Javé se refere à conservação do domínio do povo de Judá sobre a terra prometida, diante da ameaça de destruição do reino de Judá pela Babilônia. Na segunda alternativa, a promessa se refere à presença de Deus Javé no templo e no culto, na cidade santa de Jerusalém.

Nas considerações que seguem, baseio-me na segunda alternativa, isto é, traduzo habitarei convosco nesse lugar.

II — O contexto

A reforma religiosa do rei Josias (622 a.C.; ver 2 Rs 22-23) levou à expulsão de cultos estranhos do reino de Judá e à centralização do culto a Deus Javé no templo em Jerusalém. Fortaleceu-se a hierarquia sacerdotal e a integração da corte real com o culto, a união entre Estado e Igreja. O culto a Deus Javé no templo de Jerusalém era a re-ligião oficial. Javé era considerado, pelos governantes e pelo povo da cidade, protetor do reino e garantia de sua estabilidade. Cresceu a convicção de que a cidade de Jerusalém, por ter o templo, a moradia de Deus no seu meio, seria inexpugnável.

No cap. 26 do Livro de Jeremias temos os relatos das circunstâncias externas e da repercussão das palavras proferidas pelo profeta, que compõem a nossa perícope. Encontramo-nos no inicio do reinado de Jeoaquim. O rei Josias fora derrotado e morto em Megido. Seu sucessor, Jeoacás, foi deposto e preso pelo faraó do Egito. Jeoaquim assume, instalado pelo faraó e como vassalo deste. É obrigado a pagar tributo. Os sonhos de um reino de Judá livre e forte, acalentados no reinado de Josias, caíram definitivamente por terra. O reino de Judá está ameaçado de ser amassado entre as grandes potências do Egito e da Babilônia. Seus dias já estão contados.

O povo está consciente dessa situação de insegurança política. Volta-se ao templo, à religião. Parece que aí está o único esteio firme, no qual segurar-se. O culto sagrado, bem organizado e dedicado, deve proporcionar-lhe a segurança que as condições externas negam. Esta atitude do povo expressa-se nas palavras citadas por Jeremias: Templo de Deus, templo de Deus, templo de Deus é este. Com estas palavras o povo reunido em culto afirmava a sua convicção de que Deus, que morava neste templo, nesta cidade de Jerusalém, nunca permitiria que este lugar santo fosse dominado, destruído, e de que, agarrando-se a este templo e ao culto, os eleitos de Deus, eles, estariam salvos, pro¬tegidos contra as intempéries da história. Querem colocar o seu Deus a seu próprio serviço, a serviço da sua segurança, usando das suas forças mágicas, sobrenaturais para a sua proteção. Acham que podem usar Deus e seus poderes transcendentais para o seu proveito, convocá-lo em sua defesa.

Para dentro desse ambiente, o profeta Jeremias lança sua advertência. Ele deixa claro que Deus mantém a sua promessa — viverei convosco nesse lugar —, mas adverte que esta promessa de Deus tem o seu corolário, que é a obediência à sua vontade. Não é Deus que está comprometido com um certo lugar, um certo edifício ou determinadas estruturas, às quais bastaria acorrer e se integrar para conseguir a salvação, mas é o povo de Deus que está comprometido com a vontade de Deus, e só o cumprimento desta vontade torna o templo e o culto válido e legitimo. Jeremias não nega que o templo de Deus seja este de Jerusalém. Mas contesta que Deus esteja preso a este lugar, que ele esteja à disposição para defender os interesses do povo de Jerusalém, da classe sacerdotal e da corte. Quem confia na afirmação O templo de Deus é este, o verdadeiro culto está aqui, confia em palavras falsas, porque a presença de Deus não está condicionada à estrutura perfeita do templo, nem â pureza do rito nas celebrações, mas àquilo que acontece lá fora, na vida social e política: à prática da justiça com o próximo, ao tratamento dado aos marginalizados e deserdados (estrangeiro, órfão e viúva), à fidelidade a Deus. Mas o que acontece na verdade lá fora? Jeremias diz: Furtais e matais, cometeis adultério, queimais incenso a Baal, etc. (vv .9s). O rei explora os seus súditos para ele próprio viver em luxo (Jr 22.13ss). E a mesma gente que comete essas injustiças, depois vem ao templo para adorar a Deus e dizer: Estamos salvos. (v.10) Deus, porém, não se deixa usar como um espanador macio e confortável para tirar as manchas desagradáveis da consciência (se ainda há consciência). Ele não é objeto, do qual se possa dispor conforme o interesse e a necessidade. Ele é um Deus livre, livre para escolher e para abandonar a sua moradia (como ele fez em Silo, v.12). Por isso, quem procura a presença dele só tem um recurso: Emendai os vossos caminhos...(v.3) Jeremias, com suas palavras, abalou a falsa segurança que o templo e o culto ofereciam. Não é de estranhar que os sacerdotes, o clero e o povo devoto caíram por cima dele e o prenderam (Jr 26.8). Principalmente os sacerdotes e os profetas do templo são apresentados como adversários ferrenhos de Jeremias; eles assumem o papel de acusadores no tribunal, que surge logo depois com a interferência dos príncipes de Judá (Jr 26.10ss).

Além da iminente destruição de Jerusalém, reflete-se, na nossa perícope, o conflito entre a religião institucionalizada e centralizada dos sacerdotes do templo e a fé livre do profeta independente, entre o culto organizado e planejado e a inspiração direta. Jeremias ataca veementemente o sistema religioso, que pretende apoderar-se de Deus e de sua Palavra e aprisioná-los dentro de suas estruturas dogmáticas e hierárquicas, para tornar-se dono da salvação. Tal aprisionamento, tal controle de Deus sempre encontra boa aceitação no povo, principalmente entre os interessados no status quo, pois torna possível a distribuição racional da salvação e da graça, torna-as passíveis de serem canalizadas aos fiéis através de ritos e sacramentos. Mas tal pratica religiosa nada tem a ver com a fé verdadeira em Deus, que leva ao engajamento na vida diária e lá procura a presença de Deus.

III — Elementos para a prédica

Nos tempos atuais, ideologias apocalípticas fazem muito sucesso. O medo de que o fim do mundo possa estar perto está difundido. Ai surgem a religião e a espiritualização como uma saída. Aumenta a devoção religiosa. Igrejas, seitas e comunidades oferecem-se como barco de salvação: Aqui está a verdadeira Igreja, a comunidade escolhida por Deus. Quem está conosco, não perecerá nos flagelos que estão para vir. Quem está conosco será arrebatado em tempo. Ou: Quem segue os nossos ritos, práticas e doutrinas consegue a eterna felicidade. (Seicho-No-lê, Eubiose, Igreja Universal) Surgem os movimentos espirituais que prometem dar ao homem a segurança e a garantia de salvação que o mundo lhe nega.

Nesta situação, a palavra do profeta Jeremias torna-se importante e significativa: os que se  agarram a uma Igreja ou seita, afirmando aqui está a salvação, baseiam-se em palavras falsas. Nada resolve retirar-se para o templo e achar que se está em segurança. A conquista da salvação, a presença de Deus, não se dão no culto do templo, mas na prática da justiça na vida social, no combate à marginalização e à injustiça que reinam na sociedade. A exortação emendai os vossos caminhos não visa a volta à Igreja; visa abrir os olhos para a realidade da vida diária e a mudança nas relações com o próximo. De nada adianta vir à igreja no domingo e participar com espírito e alma, e depois seguir outros deuses no dia-a-dia: a lei do mais forte e mais apto; o capital; o prazer. O culto alienado, a Igreja alienada — o termo alienado parece-me exprimir muito bem o que Jeremias condena — só podem proporcionar uma sensação de salvação e de segurança imaginária, sem fundamento.

As palavras de Jeremias dirigem-se também contra uma Igreja que se sente segura na sua organização e renovação. Que se preocupa com a sua identidade, a sua atualização e eficiência. Sem dúvida são assuntos importantes, mas não são o objetivo da Igreja. A Igreja, para ser o lugar da presença de Deus, deve ser instrumento para a ação de Deus no mundo; não pode estar voltada sobre si. mas deve estar voltada para o mundo.

Em tempos atribulados como os que vivemos, a tentação de a Igreja tornar-se um refúgio do mundo ë muito grande. Jeremias pode ajudar-nos a evitar essa tentação.

V — Subsidios litúrgicos

1. Confissão de pecados: Misericordioso Deus: Após uma semana de trabalho, de preocupações, de correrias e tribulações, estamos reunidos aqui para render culto a ti e encontrar sossego e conforto. Mas lembramo-nos das nossas muitas omissões. Não fizemos ainda aquela visita à viúva necessitada. Não quisemos ouvir a voz dos que sofrem injustiças. Passamos ao largo dos marginalizados, desempregados e pivetes na rua, dizendo: São todos uns vadios. Vimos os migrantes chegando, mas não fizemos nada para recebê-los. Na luta pela sobrevivência no dia-a-dia, aplicamos a lei do mais forte sem pestanejar. E como poderíamos agir diferente, Senhor? Não sabemos como. E esse não saber também é pecado. Só por tua graça podemos achar o caminho. Por isso, tem piedade de nós, Senhor!

2. Oração de coleta: Senhor, nosso Deus: Agradecemos por esta oportunidade de reunir-nos em culto a ti. E pedimos-te, permanece conosco nesta hora, guia os nossos pensamentos, para que possamos entender a mensagem que tu nos queres dar. Tu queres que o culto tenha relação com a vida diária, a nossa e a do nosso próximo. Ajuda-nos a descobrir essa relação e motiva-nos para agirmos segundo a tua vontade. Amém.

3. Assuntos para a oração final: Agradecer pelos esforços empreendidos na nossa Igreja e no Brasil para combater as injustiças e pedir que eles tenham êxito e cresçam. A nossa Igreja, que sempre está em perigo de tornar-se auto-suficiente. A nossa espiritualidade, sempre ameaçada de se tornar um fim em si mesma e de afastar-nos do mundo em que vivemos. Os nossos pastores e dirigentes da Igreja, que facilmente defendem e promovem a Igreja e seus ritos, esquecendo-se que Deus se faz presente no dia-a-dia ao lado dos pobres e marginalizados. Que nos possamos livrar dos falsos deuses deste mundo — capital, prazer, poder, consumismo.


Autor(a): Gerd Uwe Kliewer
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 11º Domingo após Pentecostes
Testamento: Antigo / Livro: Jeremias / Capitulo: 7 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 11
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1982 / Volume: 8
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 18220
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