João 1.1-18

Auxílio Homilético

04/01/1998

Prédica: João 1.1-18
Leituras: Isaías 61.10-62.13 e Efésios 1.3-6,15-18
Autor: Margarete E. Engelbrecht
Data Litúrgica: 2º Domingo após Natal
Data da Pregação: 04/01/1998
Proclamar Libertação - Volume: XXIII
Tema:

1. Espiando de longe...

Os textos indicados para este domingo têm em comum a glória e o louvor a Deus que se encarnou, se tornou próximo. Assim, não há como resistir às imagens que vão se formando a partir do próprio texto: pensa-se na gratidão demonstrada sem palavras por uma criança quando recebe algo de sua preferência ou quando avança limites, modificando o que está a seu redor, ou ainda quando quer, mais e mais, o que lhe dá prazer.

Outra lembrança, sem muita alegria, é a de um filho de ministro que ficou impune à lei por ser filho de ministro. Ou um filho de delegado que agride outras pessoas e mostra sua carteira de identidade para que todos saibam ser ele o filho do delegado. Ao seguirmos a linha de pensamento desses dois fatos, percebemos nossa humildade peca¬minosa ao não extrapolarmos os limites impostos à vontade de Deus quando somos chamados filhos e filhas.

2. E o cotidiano?

Em tempos de redes mundiais de comunicação, as comunidades cristãs vivem experiências diversas: ora são confrontadas com notícias mundiais que assustam e intimidam num universo totalmente diferente, ora são desconvidadas a participar de sua própria história, já que em informações vitais sobre economia, saúde, política usa-se linguagem quase inacessível à grande maioria das pessoas.

Os temores na vida das comunidades têm sido vividos muito mais a partir de conflitos distantes e fabricados na emoção do que a partir da realidade de vida negada diretamente a cada novo dia. Parece ser vital o refúgio em realidades alheias, ilusórias, já que o principal é ter saúde. Se essa prioridade não for alcançada, há de se conviver com problemas, uma vez que cada um precisa carregar a sua cruz.

Neste tempo pós-Natal e pós-Ano Novo vamos renovando esperanças. Nada mais estranho, já que tudo parece convidar a um tempo refreado, no qual mesmo quem não goza férias se vê envolvido pelo calor e pelas férias de outras pessoas. O espírito de Natal, tão difundido pela mídia como sendo espiritual, parece dar lugar a um cotidiano humano sem maiores expectativas, sem maiores desejos, sem a vontade de querer mais, já que o ano parece iniciar de fato só em março, inclusive nas atividades da igreja.

A chegada do novo ano não traz necessariamente inovações em nossa prática eclesiástica. Nosso vocabulário fala em novo, mas essa novidade parece ser só em nível de esperança e expectativa: não chega a ser uma confissão, tampouco vivência.

3. E o cotidiano do texto?

A comunidade de João teceu confissão. A vivência da novidade questionou relações, refletindo a transformação através de Jesus Cristo, partilhando a ação de Deus, partilhando a vida. A comunidade reuniu experiências sonhadas, cantadas, vividas.

Tal partilha estabelecia conflitos. O texto do Evangelho indicado para este Segundo Domingo após o Natal - João 1.1-18 - contempla discussões com o mundo grego, com o judaísmo e com discípulos de João Batista. O assim conhecido prólogo de João mistura trechos poéticos e hínicos, trechos em prosa e acréscimos.

Temos a possibilidade de aproveitar a exegese dos vv. 1-5 e 9-14 fazendo a leitura do texto elaborado pelo pastor Dr. Brakemeier em PL XIX, p. 35-41.

Em relação aos vv. 6-8 e 15, podemos perceber a apresentação de João Batista como a grande testemunha de Jesus Cristo. Os vv. 16-18 retomam a ação da Palavra, a transformação advinda com o Cristo.

O que podemos enxergar claramente é a forma como o texto vai sendo construído, tecido, já que os assuntos que surgem vão se ligando a temas anteriores, evidenciando poesia, dando-nos a possibilidade de investir em vários temas, dada a densidade com a qual são construídos.

Optamos por seguir as correspondências propostas por Annie Jaubert, p. 27, as quais compartilhamos:

A. Vv. 1-5: O verbo junto de Deus, criador, vida, luz.

B. Vv. 6-8: Aparecimento de João Batista.

C. Vv. 9-11: O Logos presente no mundo não foi reconhecido.

D. Vv. 12-13: Mas àqueles que o acolheram, ele deu o poder de se tornarem filhos de Deus.

C' V. 14: O Logos, Filho único, maravilha os seus por sua presença.

B' V. 15: Desaparecimento de João Batista.

A' Vv. 16-18: O Filho no seio do Pai comunicou as riquezas de Deus.

O texto traz a certeza:Jesus é a expressão de Deus. Não é um meio provisório de expressão. É revelação visível, específica e única de Deus. O texto traz a certeza de que Jesus se fez gente acessível e diferente - e por isso confessado! O texto não deixa de ser um resumo de todo o Evangelho de João, já que depois virão os relatos, as afirmações, as reações... à ação de Deus, à presença de Deus.

A novidade dessa ação de Deus empurra... Há transformação nos relacionamentos A liberdade é construída na identidade de filhas e filhos de Deus, em conjunto, e não mais até que encontre a liberdade do outro.

O centro do texto pode apontar para a forma pela qual o poder é exercido, consequência da ação de Deus relatada nos versículos anteriores e posteriores, transformando para e revelando a vida verdadeira.

A palavra que encarnou derrubou a centralidade da comunicação de Deus por meio do templo e da lei. Revelou vida já experimentada pelo Êxodo: Deus arma a lenda entre as pessoas. Ele não é experimentado de forma estática ou no incentivo à exploração, como quer a teologia do templo. Ela revelou um jeito de ser gente, jeito diferente... jeito que se identifica com a glória da cruz: solidariedade e luta diária contra o que promove a morte.

4. Cotidiano transformado?

Quando Deus se torna tão próximo é impossível deixar de identificá-lo perto de nós, na vida negada de gente que é nosso próximo, de um mundo que é nosso próximo. Nossas relações são transformadas quando reconhecemos a idolatria inserida nos problemas distantes que não chamam à solidariedade, que não deixam viver a partilha, a confiança na comunhão revelada por Jesus Cristo.

O sofrimento exposto que não busca o direito, o sofrimento sem o vínculo à luta pela vida não deixa de ser opção pelo sofrer, não deixa de ser idolatria. Não é denúncia, não traz transformação, mas traz, sim, acomodação e medo.

O anúncio do Deus que se faz perto, que não se prendeu a estruturas prontas, corruptas e opressoras, precisa ser sempre atualizado na comunhão experimentada nas comunidades, na solidariedade entre os sofridos que esta sociedade faz.

Só com a vivência desse anúncio é que a esperança de salvação, de justiça contida cm Isaías 61.10-62.3, poderá ser de fato cantada para nosso Deus ser mais e mais reconhecido. Só assim podemos participar da alegria pela nossa adoção como filhas e filhos de Deus (Ef 1.3-6,15-18).
Não precisamos ficar só em palavras de esperança e expectativa. Podemos confessar, como as primeiras comunidades cristãs confessaram, a presença de Deus na vida explorada/sofrida -, mas sempre de novo transformada de seu povo.

5. Celebrando o cotidiano

Criança que recebe presente em época de Natal festeja o que pode com o que ganhou. Uma comunidade também pode, depois de tantas prestações de contas de final de ano, celebrar o que quer viver sob a graça de Deus no ano que inicia.

Na oração do Kyrie, que é um clamor coletivo da comunidade pelas dores do mundo, é possível intercalar pedidos por transformação de situações erradas, de pecado no mundo, na sociedade, na Igreja, na vida do dia-a-dia, com a prece: Ouve, Senhor, eu estou clamando, tem piedade de mim e me responde (O Povo Canta: Cancioneiro da Pastoral Popular Luterana, p. 177). É importante deixar que tais pedidos bro¬tem da comunidade, de pessoas presentes no culto, ensaiando a liberdade de expressão que é construída em conjunto, e deixando transparecer que a comunidade não se retira do mundo no momento de celebrar.

É possível recolher sobras dos ensaios, das celebrações de Advento, do Natal e do Ano Novo, às vezes até fotos, e elaborar um mural a ser exposto no momento da celebração. É hora de partilhar nossos presentes, nossa gratidão pelo presente maior.

Em grupos ou comunidades que vivenciam a solidariedade em termos bem práticos, na organização e na partilha de produtos/presentes, dá para celebrar o compromisso sempre maior com a vida, com a justiça, com o amor de Deus. Em grupos ou comunidades que se dedicam a apoiar outros grupos e pessoas em momentos específicos também é hora de celebrar a disposição para a doação, para que o amor de Deus ensine a prioridade da vida.

Mas também é momento para questionamentos. Se dizemos que somos filhos e filhas de Deus, e vivemos na confissão de seu amor e glória, precisamos sempre descobrir tal vida em nosso meio. Jesus se preocupou demais com a saúde das pessoas, com a reintegração de pessoas marginalizadas à sociedade. Estamos nós buscando essa reintegração, a exemplo dos nossos antepassados que investiram em comunidades, hospitais, de acordo com suas concepções? Jesus denunciou sistemas de corrupção e destruição de vida, propondo uma vida diferente. Temos nós, como comunidade, apoiado iniciativas alternativas para que a vida seja respeitada, ou somente temos aplaudido vencedores e gente que deu a volta por cima, sem questionar ou investir na transformação? Como está sendo tecida a nossa confissão de fé, já que respondemos como a comunidade de João: Vimos a sua glória!?

A vivência da confissão no Cristo que iluminou o mundo pode ser passo pequeno, mas, com certeza, transforma e, por isso, precisa ser celebrada. Um cânone interessante para ser usado é: Muita gente humilde, em muitos lugares diferentes, que junto dá muitos passos pequeninos, pode transformar o nosso mundo. (Há outras traduções desse mesmo cânone.)

Também a comunidade poderá ser animada a elaborar a sua confissão, à semelhança do que escreveu Vicente Rosa, em forma de poesia, à semelhança do que escreveu a própria comunidade de João.

6. Bibliografia

- BRAKEMEIER, Gottfried. Meditação sobre João 1.1-5,9-14. In: STRECK, Edson Edílio, KILPP, Nelson (Coords.). Proclamar Libertação. São Leopoldo : Sinodal, 1993. vol. IX, p. 35-41.
- JAUBERT, Annie. Leitura do Evangelho segundo João. São Paulo : Paulinas, 1982. p. 7-37. (Coleção Cadernos Bíblicos).
- ROSA, Vicente. O Evangelho segundo João. A Palavra na Vida, São Leopoldo : CEBI, n° 69/70, p. 7.
- WOLFF, Günter. A encarnação de Jesus. Estudos Bíblicos, São Leopoldo : Sinodal; Petrópolis : Vozes, 1994, v. 41, p. 27-35.

Proclamar Libertação 23
Editora Sinodal e Escola Superior de Teologia


Autor(a): Margarete Engelbrecht
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Natal
Perfil do Domingo: 2º Domingo após Natal
Testamento: Novo / Livro: João / Capitulo: 1 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 18
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1997 / Volume: 23
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 7148
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Salmo 16.2
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