João 1.43-51

Auxílio Homilético

06/01/2016

 

Prédica: João 1.43-51
Leituras: Isaías 49.1-7 e 2 Coríntios 4.3-6
Autoria: Humberto Maiztegui Gonçalves
Data Litúrgica: Epifania de Nosso Senhor
Data da Pregação: 06/01/2016
Proclamar Libertação - Volume: XL

 


Venham e vejam: conhecer em comunhão

 

 

 

1. Como é possível conhecer Jesus Cristo?

Epifania significa “manifestação”. A palavra deriva do grego (epi/por cima e fanein/aparecer) e refere-se particularmente ao que está relatado no evangelho segundo a comunidade de Mateus (2.1-12), onde alguns “magos” (isto é, estudiosos dos mistérios da vida e do universo) chegaram a Jerusalém anunciando ter visto uma estrela que indicava “o recém-nascido Rei dos judeus” (Mt 2.2). Essa tradição na igreja cristã ocidental é comemorada separadamente do Natal (25 de dezembro) no dia 06 de janeiro. Neste auxílio homilético, a proposta é vincular essa lembrança da manifestação luminosa e universal da realeza de Cristo ao conhecimento. O verbo ginoskō, em grego, que pode ser traduzido por aprender, conhecer, perceber, entender e até sentir, será o instrumento para esse vínculo exegético hermenêutico. As duas leituras do Novo ou Segundo Testamento (2Co 4.6 e o texto de pregação, Jo 1.48) contêm esse verbo. No “Iluminismo” ou “Século das Luzes” (entre os séculos 17 e 18), a luz já foi relacionada ao conhecimento, algo que, aliás muito antes, também Platão tinha feito na famosa “alegoria da caverna”. Mas não pretendemos ressuscitar nem um nem outro; apenas vamos refletir como “conhecimento” e “epifania” podem ser relacionados.

2. O conhecer pela fé: João 1.43-51

Em primeiro lugar, temos que situar o texto de pregação dentro do contexto do evangelho segundo a comunidade de João, também chamado de “Quarto Evangelho” ou, como afirmou Raymond Brown, o Evangelho da “Comunidade do Discípulo Amado”. Esse apanhado de tradições sobre Jesus é tardio, próximo ao ano 100 d. C., e tinha a intenção de aproximar visões e “conhecimentos” diferentes sobre a pessoa de Cristo, isto é, diferentes cristologias, como afirma o mesmo autor. Por isso não se atém à sequência apresentada nos outros três evangelhos, mas inclui longos discursos e passagens compridas, em que Jesus diz seguidamente “Eu sou...” (4.26; 6.41,48; 8.58; 9.5; 10.9,11,14; 11.25; 13.13; 15.1), isto é, apresenta-se ou, na perspectiva que propomos, dá-se a conhecer. O verbo ginoskō aparece, segundo Bauer, “mui frequentemente (...) umas 80 vezes (...) ‘conhecer’ significa uma íntima comunhão entre Cristo e os seus, a qual na união só pode ser comparada com a unidade existente entre Pai e Filho” (BAUER, p. 208-209). Assim, conhecimento, dentro dessa perspectiva, dá-se através da comunhão. É um saber que emerge da relação íntima que se estabelece entre quem “recebe” e quem é “recebido” (cf. Jo 1.10-11,26).

O texto de João 1.43-51 é muitas vezes apresentado dentro de uma perícope maior, que inicia no v. 35. Mesmo assim, pode ser considerado uma unidade autônoma, especialmente pela expressão “no outro dia” (v. 43). Sendo assim, gostaria de abordar, primeiramente, a passagem dentro desse contexto maior. O texto, se visto a partir do v. 35, parte de João Batista, que anunciando o “Cordeiro de Deus” provoca seus discípulos a encontrar Jesus e perguntar: “onde moras?” (v. 38), ao que ele responde “Venham e vejam” (v. 39), isto é, a mesma provocação que Filipe faz a Nicodemos em 1.46b. Em ambos os casos, a consequência do “ir e ver” é uma profunda comunhão e uma descoberta (conhecimento) declarada em forma de confissão de fé. André diz a seu irmão Simão: “Achamos o Messias” (v. 41a), e Natanael declara: “Rabi, tu és o Filho de Deus, és o rei de Israel”. Podemos dizer assim que houve, em ambos os casos, uma Epifania!

Se nos v. 35 a 42 a busca do conhecimento dá-se através da profunda comunhão (morar junto), nos v. 43 a 51 aparece outro grupo, que Raymond Brown chama de “criptocristãos”. Eram pessoas provenientes do judaísmo, que, mesmo inclinados a acreditar, faziam-no em segredo (cf. Jo 12.42). Esses, como ainda afirma o mesmo autor, não eram vistos como covardes, mas como “exemplos de prudência”, trabalhando dentro das sinagogas para levar os chefes das sinagogas – carregados de preconceitos e ofendidos – a uma tolerância em relação aos cristãos (BROWN, p.74-76). De fato, o enfrentamento do preconceito e até das “fobias” fica evidente na frase: “De Nazaré pode sair alguma coisa boa?” (v. 46a). Nesse caso, Jesus mostra um conhecimento prévio ao receber Natanael, quando afirma: “Eis aqui um verdadeiro israelita, em quem não há maldade” (v.47), ao que, surpreso, Natanael responde: “De onde me conheces?” (v. 48a), em grego, pothen me ginōskeis. Então, o “pré-conceito” expresso na frase inicial de Natanael dá lugar ao conhecimento, esse por iniciativa de Jesus Cristo.

A expressão “embaixo da figueira” (onde Jesus afirma ter conhecido Natanael antes dele o conhecer) não está ali por acaso. É a única vez em que uma árvore ou figueira é mencionada em todo esse evangelho. Em Mateus, aparece pelo menos três vezes (Mt 21.19,20,21 e 24.32), e em Marcos, que é anterior, aparece cinco vezes (Mc 11.13,14,20,21 e 13.28). Portanto essa era uma figura conhecida da igreja cristã, tanto quanto a “videira”, que é comum no Quarto Evangelho. Conforme Ramiro Mincato, “não se refere somente a um episódio concreto da vida de Natanael, mas trata-se do ‘estudo da Lei’, como diz o Rabi Aqiba, pois, no judaísmo, a figueira se havia tornado a árvore do conhecimento da felicidade e da desgraça” (MINCATO, p.11). Sendo assim, no estudo da Lei, era Natanael quem estava sendo conhecido, que se revelou “um verdadeiro israelita, sem maldade”, mas não tinha a capacidade de conhecer a fonte da Lei, o verdadeiro “Rabi”. Para conhecer o “Filho de Deus”, era necessária a intimidade da comunhão, isto é, o encontro pessoal, direto, intransferível, o verdadeiro convívio, o morar junto.

Finalmente, o diálogo se abre, mesmo se dirigindo ainda a Natanael, a fala de Jesus passa para o plural: “vos digo”, “vereis” (v. 50-51). Quem são esses “vos”? É claro, são todos os criptocristãos e as criptocristãs para os quais se abre a esperança de ver claramente, sem segredos. A superação do preconceito e discriminação permite então participar de uma manifestação tal da presença divino-humana na história (“o Filho do ser Humano”) que não haveria mais segredo a ser guardado nem medo a ser justifi cado, nem razão para não ver. Isto é, trata-se de uma epifania universal do conhecimento através da comunhão, para a qual a comunidade joanina puxa a tradição de Jacó em Betel, onde se desfaz, inclusive, a fronteira entre céus e terra (v. 51; cf. Gn 28.12-17).

3. Meditação: A Epifania do conhecimento além de preconceitos, fobias e medos

Vivemos em um mundo de medo, terror e preconceito, somando-se ainda as fobias étnicas, religiosas, sociais, políticas, econômicas e culturais. Nada que antes não existisse! Mas agora tudo isso é manifesto globalmente e se multiplica e se espalha como vírus, especialmente entre setores excluídos da educação e qualidade de vida, violentados e maltratados de nossas sociedades ocidentais e cristãs. Se a Epifania do conhecimento de Deus não é apenas conhecer, mas conviver intimamente com o amor libertador e salvador manifesto em Cristo Jesus – como nos mostra o texto de João 1.(35-42),43-51 – não estará Jesus ainda hoje, como fez ontem, chamando a “ir e ver” na busca da comunhão e da convivência?

Em um mundo virtual, as mentiras parecem reais, enquanto as realidades que só podem ser apreendidas na convivência e comunhão ficam ocultas. Tendemos a nos acomodar embaixo das figueiras eletrônicas, dentro das casas e condomínios, e até dentro dos templos das igrejas, e cada vez parece mais difícil sair da chamada “zona de conforto” e ir ao encontro daquelas pessoas com as quais, em princípio, não iríamos conviver. Parece assim tão difícil sair ao encontro daquelas pessoas que chamamos “diferentes” ou que a sociedade classifica como “diferentes”, mas que em Cristo são iguais.

A beleza do final deste texto está no resgate da tradição da escada de Jacó em Betel (Gn 28.12-17), para a qual não demos muita atenção na exegese, mas que ganha aqui, na mensagem, uma importância ímpar. Essa visão tão absolutamente mística é colocada nesta passagem do Quarto Evangelho dentro de uma história concreta de preconceito contra os galileus. À pretensa superioridade étnica, religiosa e cultural, que permite afi rmar que “nada de bom poderia sair da Galileia”, é contraposta a visão da unidade mística entre os céus e a terra. Quantos lugares há sobre os quais diríamos: “dali nada de bom pode sair”? Certamente esses lugares têm nome, têm cor, têm sexo, têm expressões culturais e religiosas. Mas, quando superadas essas barreiras, podemos fi nalmente reconhecer a presença de Cristo, podemos finalmente acreditar que a grande barreira entre os céus (as utopias, a perfeita harmonia de tudo com todas e todos) e a terra (este lugar cheio de beleza e vida) pode ser superada. Quando vamos e vemos, quando nos libertamos do falso conhecimento, a epifania da presença divino-humana de Deus em Cristo passa a ser uma esperança concreta para todas as pessoas, em todos os lugares e para toda a criação. Então, como aqueles magos do Oriente, como Natanael, como André e os outros discípulos de João Batista, podemos caminhar, libertados e libertadas, ao encontro verdadeiro, aberto e feliz de comunhão entre nós e com nosso Senhor Jesus Cristo.

4. Imagens para a prédica: Senhor, eu quero te ver em todos os rostos!

Uma boa sugestão é usar a expressão “Venham e vejam” para introduzir imagens que expressem esses lugares, situações, pessoas, onde geralmente achamos que Jesus não pode estar. Podemos, de forma mais interiorizada, abordar também aspectos de nossa própria vida em que Jesus está ausente.

Podemos ainda convidar alguém, uma pessoa inesperada, para dar testemunho de como encontrou Jesus em sua vida de uma forma inusitada ou citar essa experiência como ilustração para a prédica.

Finalmente, podemos também mostrar caminhos pelos quais podemos inteirar-nos mais do que realmente está acontecendo em nossa sociedade, diferentemente do que a grande imprensa e a mídia apresentam. As igrejas têm trabalhos sociais, apoiam e assessoram movimentos de transformação social e política que podem ser listados como forma de ir e ver.

5. Subsídios litúrgicos

Entrada/Acolhida

Ela pode ser feita com pessoas carregando as imagens de lugares e pessoas que serão mencionadas como exemplo de superação de barreiras de medo e de segredo, que podem ser colocadas na frente da mesa eucarística ou em outro lugar bem visível. Uma música adequada para esse momento é: “Que estou fazendo se sou cristão” (HPD 449). Ao cantar esse hino, pode entrar a estrela da Epifania, trazida por crianças ou outras pessoas que representam a busca de Jesus Cristo, com a frase “Venham e vejam!”.

Ofertório/Partilha

Neste momento podem ser juntadas às imagens iniciais cartazes com palavras como: serviço/diaconia, respeito, convivência, valorização, diálogo, amor fraternal/sororal, vida comunitária, mutirão/construção, comunhão, inclusão etc.

Despedida/Bênção/Envio

(Bênção da Inconformidade, pronunciada pelo Celebrante/Oficiante)

Assim como os magos de Oriente não se conformaram, atenderam aos sinais e não foram instrumento de morte dos que dominavam, queremos pedir, Senhor, a tua bênção em nossa caminhada de seguimento e discipulado, dizendo juntas e juntos:

Que Deus – Paterno e Materno – abençoe-nos com a inconformidade, diante de respostas fáceis, meias-verdades e relações superficiais, para que possamos viver sua divina presença na intimidade de cada coração.

Que Deus – Fraternal e Sororal - abençoe-nos com a indignação diante da injustiça, da opressão e abuso das pessoas, para que possamos trabalhar a favor da justiça, igualdade e paz.

Que Deus – Ventania Divina, Ensinador – abençoe-nos com lágrimas junto às pessoas que sofrem, vítimas da dor, rejeição, fome e guerra, para que possamos estender tua mão para consolar e transformar a sua dor em alegria.

E que Deus – na Unidade Eterna da Divina Trindade – abençoe-nos com a insensatez, para pensar que podemos fazer diferença neste mundo, a fim de que façamos algo que outras pessoas dizem não ser possível. Amém.

Bibliografia

BAUER, Johanes B. Dicionário de Teologia Bíblica. Vol. I. São Paulo: Loyola, 1984.

BROWN, Raymond Edward. A comunidade do discípulo amado. São Paulo: Paulinas, 1983.

MINCATO, Ramiro. Confissão de Natanael (Jo 1,43-51) e o modo de revelação no Quarto Evangelho. Revista Eletrônica PUC-RS (Teocomunicação), V. 38, N. 159, p. 5-17. Porto Alegre: PUC, jan/abr. 2008. Disponível em: revistaseletronicas.pucrs.br/fo/ojs/index.php/teo/article/.../4011/3071. Acesso em: 17 mar. 2015. 



 


Autor(a): Humberto Maiztegui Gonçalves
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Epifania

Testamento: Novo / Livro: João / Capitulo: 1 / Versículo Inicial: 43 / Versículo Final: 51
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2015 / Volume: 40
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 35164
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1Reis 8.57
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