João 10.11-16

Auxílio homilético

29/04/1979

Prédica: João 10.11-16
Autor: Wilhelm Bösemann
Data litúrgica: Domingo Misericordias Domini
Data da Pregação: 29/04/1979
Proclamar Libertação - Volume: IV


l - A pergunta é: Como podemos pregar hoje a partir deste texto? Poderíamos recorrer a inúmeras prédicas publicadas e encontraríamos muitas sugestões, muitos subsídios, muitas ideias. Descobriríamos que muitas prédicas sobre esta parábola do bom pastor se concentram no v.14: Pessoas ameaçadas e em perigo têm um bom pastor que se empenha por elas e para com o qual é possível ter um relacionamento íntimo.

Os textos bíblicos que falam da imagem pastor - rebanho até hoje são os mais conhecidos e preferidos por muitos membros das nossas comunidades. O SI 23, por exemplo, é escolhido sempre de novo por noivos para ser lido no culto de bênção matrimonial. Em muitas casas encontramos quadros que mostram o Bom Pastor, normalmente numa imagem meiga, romântica, não correspondendo de maneira alguma à vida real do pastor de ovelhas, nem ao Jesus testemunhado no Novo Testamento. É significativo que mesmo num mundo em que a imagem do pastor de ovelhas não é vivencial, os quadros do Bom Pastor continuam tendo grande importância. O que se esconde por detrás deste fato?

Por outro lado seria interessante saber o que as pessoas que no culto ouvem este texto pensam e sentem. Pensam no Pastor Jesus ou no senhor pastor de sua comunidade? Ficam revoltadas por serem chamadas rebanho (ovelhas que não têm voz, que seguem cegamente ao seu pastor, dependendo totalmente dele) ou estão vendo diante de si uma humanidade desorientada, mergulhando nos seus conflitos, em busca de alguma coisa ou de alguém que possa dar um rumo, uma orientação? Que impacto causa a leitura de Jo 10.11-16 nos ouvintes?

II - Quando Jesus disse: Eu sou o bom pastor, os seus ouvintes se viram lembrados das promissões do AT. Não pensaram no pastor de ovelhas, pessoa que pertencia às classes sociais mais baixas do povo. Para eles o bom pastor ainda era Deus, como na época dos profetas (Is 40.11; Sl 23; Sl 95.7). O título pastor era dado igualmente aos reis de Israel (Jr 23. 1-4; Ez 34.23; 37.24) e aos reis pagãos, como revela a literatura antiga. As duas linhas se encontram no Messias, anunciado pelos profetas do AT: Deus enviará um novo rei e pastor para a nova época por ele prevista. Eles serão o meu povo, e eu serei o seu Deus. O meu servo Davi reinará sobre eles; todos eles terão um só pastor (Ez 37. 23ss).

Se Jesus agora se apresenta como o bom pastor, ele se revela e se oferece como o procurado e esperado. Aos israelitas e aos povos pagãos ele se apresenta como aquele com quem começou a nova época de Deus.

Podemos imaginar o impacto que Jesus deve ter causado nos seus ouvintes. Este bom pastor se diferenciava substancialmen¬

te da imagem da esperança judaica. O pastor de Jo 10 não é nenhum soberano messiânico...... ele não tem nenhum aspecto real (Bultmann). Não é um grande líder político que se apresenta, mas um homem simples, humilde, sem poder algum.

Jesus, o Senhor crucificado e ressurreto, é o salvador enviado por Deus. Este salvador reúne o seu povo perdido e exposto a toda sorte de perigo. Ele é o bom pastor, o verdadeiro pastor, o pastor como ele deve ser. É o pastor que conhece cada um dos seus, pessoalmente. Eles lhe pertencem, ouvem a sua voz e o seguem. Ele vive em favor dos seus até o ponto de dar sua própria vida em favor deles. Esta prontidão para o sacrifício da própria vida pêlos seus nasce da comunhão de Jesus com Deus, o Pai. Nela está também a raiz do relacionamento íntimo para com o rebanho, com os seus. Nos vv. 14 e 15 aparece quatro vezes a palavra conhecer. Não se trata apenas de um conhecer intelectual, mas de um relacionamento intensivo, pessoal entre pastor e rebanho, determinado pelo amor profundo de Deus para com os homens. Este amor também não termina quando o homem não se mostra digno dele. Deus ama até os seus inimigos, porque também eles são sua criatura e pertencem ao rebanho do bom pastor, enviado por ele.

Assim, Jesus se apresenta, se revela, se oferece aos seus ouvintes, conforme o testemunho do evangelista João. Ele é diferente do salvador que o povo esperava. Mas é aquele de quem o povo precisa. Não é mercenário, empregado que trabalha por soldo ou estipêndio sem outro interesse que não a paga. Mercenários abandonam o rebanho exatamente na hora em que a presença do pastor se torna necessária. Buscam a sua própria salvação e segurança quando deveriam defender as ovelhas, que não têm meios para defender-se contra o ataque do lobo. Por não ser proprietário do rebanho, o mercenário na hora H não se importa com o destino das ovelhas a ele confiadas. Jesus é o bom, o verdadeiro pastor, que não deixará os seus na mão. Isso vale para os homens de sua época, bem como para nós hoje. Num mundo cheio de pessoas solitárias, preocupadas com o dia de amanhã, tantas vezes enganadas pelos falsos pastores espirituais e políticos, pelos mercenários dos nossos tempos, esta mensagem pode ser ouvida novamente. No mundo em que reina a desconfiança entre as pessoas, existe um em quem se pode confiar inteiramente. Num mundo em que as pessoas se tornaram números, sem nome e sem identidade, há um com quem se pode ter um relacionamento íntimo, que conhece a gente e se dá a conhecer. Esta mensagem pode criar novo ânimo para a vida, nova esperança.

III - Ninguém precisa sentir-se excluído. O rebanho do bom pastor é composto de ovelhas de todos os povos, é um rebanho universal. Não há exclusão, nem separação. É um só rebanho e um só pastor. É preciso que eu conduza as ovelhas que não são deste curral, diz Jesus. A sua obra missionária não se limita ao povo de Israel, nem a determinadas religiões. Ela é universal.

A sua obra! É importante vermos isso claramente. A missão é em primeiro lugar obra de Jesus, do bom pastor! Ele já fez tudo que é decisivo para que possa haver um rebanho e um pastor. Isso livra o homem da necessidade de ter que reunir o rebanho com as suas próprias forças, com seu próprio empenho.

Nós não precisamos levar Cristo para os outros. Cristo sempre já está onde nós chegamos. O é preciso que as conduza (v.16) nos diz que este conduzir para o único rebanho excede as possibilidades humanas. Só o próprio bom pastor pode fazê-lo, utilizando-se, porém, do testemunho do homem. Não somos nada mais - e nada menos! - do que a voz dele, em palavra e testemunho vivido. Se lamentamos que há tão pouca vivência de fé nas nossas comunidades, que não somos suficientemente luz no mundo em que vivemos, não seria porque nós mesmos queremos dar conta do recado e não queremos aceitar a condição de ser apenas voz do bom pastor?

A nossa tarefa é dizer que Cristo está ai. Através da voz do missionário - e ser missionário para o discípulo não é opção mas incumbência - os homens ouvem a voz de Cristo. Assim, ficam sabendo que pertencem a ele, porque já foram conquistados na morte e na ressurreição, na entrega da vida do bom pastor em favor do seu rebanho.

Isso não significa que a atitude, o procedimento, a vivência do mensageiro não tivessem importância. Seu sentido reside em acompanhar a palavra. Quem dá testemunho do bom pastor em palavras só pode fazê-lo, dedicando-se com a vida toda àqueles, aos quais leva a palavra. Como o bom pastor não abandona os seus, também o mensageiro de Cristo não pode retirar-se como um mercenário, quando as coisas começam a tornar-se perigosas. Somente assim o testemunho se torna autêntico e convincente.

IV — Bibliografia

- BULTMANN, E. Das Evangelium des Johannes. 17a ed., Göttingen, 1962.
- DOERNE, M. Er kommt auch noch heute. 6- ed.,Göttingen. 1972.
- STRATHMANN, H. Das Evangelium nach Johannes. 10a ed., Göttingen, 1963.
- STRAUSS, G. Meditação sobre João 10,11-16. In: Calwer Predigthilfen. Vol. II. Stuttgart, 1972.
- WITTRAM, H. e HARTMANN, G. Meditação sobre João 10,11-16. In: Predigtstudien. Vol. 1/2. Stuttgart, 1973.


Autor(a): Wilhelm Bösemann
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Páscoa
Perfil do Domingo: 3º Domingo da Páscoa
Testamento: Novo / Livro: João / Capitulo: 10 / Versículo Inicial: 11 / Versículo Final: 16
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1979 / Volume: 4
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 14580
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