João 10.11-18

Auxílio Homilético

07/05/2006


Prédica: João 10.11-18
Leituras: Salmo 23 e 1 João 3.1-2
Autor: Leandro Dentee
Data Litúrgica: 4º.Domingo da Páscoa
Data da Pregação: 07/05/2006
Proclamar Libertação - Volume: XXXI


1. Cuidados iniciais

Pregar sobre textos conhecidos nem sempre é uma tarefa fácil. Já dissemos quase tudo ou já foi base para a pregação tantas vezes, que nos perguntamos: “Será que estou repetindo a mesma prédica?”

O texto previsto para este domingo é um texto muito conhecido. Poucas pessoas não o ouviram ao menos uma vez na vida. A perícope indicada é a de Jesus, o bom pastor. Não raras vezes, encontramos quadros que apresentam esse tema. Assim, já existe na memória das pessoas um preconceito em relação ao texto. Isso torna a pregação mais difícil ou mais fácil?

O texto requer cuidado também no uso da expressão “eu sou o bom pastor”. Essa expressão refere-se ao pastor Jesus Cristo e não a nós, obreiros e obreiras. Temos muitos “bons pastores” e gostamos de ser chamados assim. Na condição de seres pecadores, gostamos de elogios. Assim, em meio a facilidades e desafios, somos colocados novamente perante o texto de Jesus, o bom pastor.

2. Aspectos pertinentes

Antes mesmo de nos determos de forma mais específica na perícope, sugerida como base para a pregação deste quarto domingo após a Páscoa, convém, de forma breve, colocar algumas informações sobre o contexto em que o Evangelho de João foi escrito.

Ao lermos o Evangelho de João, podemos perceber uma distância temporal que existe entre o autor do texto e a atuação de Jesus, bem como o espaço histórico que separa a comunidade primitiva e seus conflitos da comunidade joanina. Não podemos afirmar com certeza se João conheceu um ou mais dos evangelhos sinóticos, mas o que é certo é o fato de que ele é conhecedor de uma fonte traditiva retrabalhada. Essa fonte traditiva é composta por algumas palavras e milagres de Jesus e, principalmente, por uma história da paixão. As palavras de Jesus nesse evangelho estão aglomeradas sob um tema, formando assim os grandes discursos.

Jesus não é apresentado como o rabi que discute sobre leis com as autoridades, nem como profeta que anuncia o início da vinda do reino de Deus. No testemunho joanino, Jesus fala muito mais de sua pessoa. Jesus não questiona o sábado, sobre o que comer ou pureza e impureza, mas fala sobre o seu ir e vir e o que isso trará para o mundo. Também não temos controvérsias sobre a autojustificação, mas sim com os que não acreditam em sua pessoa e no fato de ele ter sido enviado por Deus a este mundo.

Ao tomar como exemplo a discussão sobre o sábado, que está no capítulo 9 de João, percebe-se que, ao contrário dos relatos sinóticos, a questão de ser a lei do sábado proveitosa ou não para o ser humano nem é cogitada. Não está ali o importante do texto, mas no poder de Jesus, que é enfatizado. O discurso usado por Jesus como sendo ele o bom pastor, a videira, o pão da vida, a porta, não encontra correlato nos demais evangelhos.

Na comunidade joanina, o tema da missão aos gentios não é mais importante, mesmo porque a comunidade já saiu da sinagoga (9.22). A distância é tão grande, que a lei do povo judeu é chamada de “lei de vocês” (8.17). Os judeus, na vivência do evangelista, são os representantes do mundo que não aceita Jesus, que não coloca nele a sua fé.1

O cenário onde foi escrito o Evangelho de João é composto por diversos grupos. Podemos citar:

o mundo – Deus ama o mundo, mas esse não o aceita. A comunidade compreende-se como estranha no mundo;

os judeus – expulsaram a comunidade de João da sinagoga;

os adeptos de João Batista – seria necessário para eles que a importância de Jesus crescesse em relação à de João;

os criptocristãos – com medo de serem expulsos da sinagoga, não confessam a sua fé de forma aberta;

os cristãos judeus – escandalizavam-se com a eucaristia e a divindade de Jesus;

os cristãos das igrejas apostólicas – embora já tivessem uma cristologia, havia dificuldades com o conceito de preexistência da comunidade joanina.2

Ao pregarmos sobre um texto joanino é importante ter em mente esse pano de fundo. O contexto, que é um fator decisivo, é bem diferente daquele em que surgiram os sinóticos. João possui outros desafios e outras preocupações.

Na aproximação com o texto, podemos situá-lo no conjunto dos capítulos 7-10, onde a problemática do poder das autoridades é o tema. As autoridades exercem o poder de forma interesseira, deixando o povo viver em um sistema de total opressão. Por causa delas, as autoridades, Jesus está sendo procurado, não por causa das coisas boas que ele faz, mas pelo fato de estar blasfemando contra Deus e se fazendo de Deus (10.33).

O texto específico de Jo 10.11-18 encontrava-se, originalmente, em outro lugar. A crítica literária ajuda-nos a compreendê-lo. O capítulo 9 termina com a cura da cegueira espiritual. Lendo o evangelho, podemos perfeita- mente perceber que não há uma sequência compreensível entre o fim do capítulo 9 e o início do capítulo 10. Assim podemos afirmar que original- mente o fim do capítulo 9 seriam os versos de 10.19-21.

O texto de Jo 10.22 coloca-nos um novo quadro e, a partir desse, podemos entender o discurso de Jo 10.11-18. A situação colocada é que os judeus querem uma explicação pública sobre o fato de Jesus ser o messias ou não. O discurso de Jesus, o bom pastor, encontra seu lugar após Jo 10.22. O mesmo acontece com o texto de Jo 10.1-5.

Bultmann afirma que não existe na perícope de Jo 10.1-18 uma unidade interna. O que acontece é uma união em torno da metáfora do pastor. O exegeta alemão coloca Jo 10.11-13 como o início do discurso de revelação e faz a seguinte sequência do capítulo como sendo a original do capítulo 10 de João:
22-26; 11-13; 1-10; 14-18; 27-39

Proponho que cada um faça a leitura do capítulo 10, assim com Bultmann propõe. Essa leitura, seguindo a sugestão de sequência acima, é um ótimo exercício para compreender o contexto em que se dá o discurso do bom pastor. O exegeta recorre às fontes: 10.11-13; 1-5; 8; 10; 14-15a; 27-30, acreditando que nessas fontes nós podemos encontrar elementos elucidativos do evangelista e sobre ele, bem como dos redatores posteriores. Assim, cita os vv. 13 e 15 como exemplo.3

3. Reflexão

O texto em questão possui inúmeros aspectos que merecem atenção especial. Toda a ênfase na questão relacionada à autoridade por si só já é um tema grandioso. Pode-se enveredar por esse caminho seguindo uma análise histórica da questão da autoridade e como Jesus a tratou. Qual a postura frente à autoridade? O texto deixa-nos pistas. É importante, nessa opção, a explicação sobre a autoridade do templo. A opressão religiosa imposta à
população naquela época é fundamental para entendermos a relação de Jesus com a autoridade.

A figura de Jesus como o bom pastor é conhecida e o texto também. A cada leitura, mesmo de um texto conhecido como é o nosso, algo “novo” chama a nossa atenção. Na leitura realizada, palavras dos vv. 14 e 15 revelaram algo que pode ser muito importante para uma pregação nos dias de hoje. A partir desse aspecto, apresentamos a sugestão para a confecção de uma mensagem.

“Eu sou o bom pastor. Assim como o Pai me conhece, e eu conheço o Pai, assim também conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem. E eu estou pronto para morrer com elas.” (vv. 14-15).

A prédica poderia considerar a relação com o bom pastor como um caminho de duas “vias”, o que nem sempre é lembrado. Uma é a via do bom pastor para com o seu rebanho, e outra é a via das ovelhas para com o seu pastor. Vejamos as duas:

a) Jesus como o bom pastor e a sua relação com as ovelhas. A perícope coloca-nos de forma clara que Jesus não apenas é um pastor, mas um bom pastor. Diferente do empregado, Jesus não foge quando há uma dificuldade; pelo contrário, está até mesmo pronto para dar a vida em prol de seu rebanho. Com certeza, esse discurso já ouvimos em algum momento de nossas vidas e da mesma forma dele nos utilizamos em nosso ministério. Fácil é sua compreensão e algo confortante. É muito bom saber que alguém está conosco, mesmo que estejamos em dificuldades. Podemos permanecer nesse aspecto e refletir o texto de forma poimênica. Esse é o evangelho.

b) A relação das ovelhas para com o seu pastor. As ovelhas conhecem o seu pastor. Em uma realidade rural, isso pode ser demonstrado a partir da prática buscando inúmeros exemplos do dia-a-dia de um agricultor. O rebanho conhece o seu pastor. No centro urbano, não podemos utilizar o exemplo do rebanho, mas o mesmo serve para animais de estimação, como os cães. Eles conhecem o seu pastor. Permanecendo na metáfora do pastor e seu rebanho, o texto diz que Jesus é o pastor e nós somos as ovelhas de seu rebanho. O mesmo acontece com a leitura bíblica do Salmo 23.

A pergunta que agora se coloca é se nós somos capazes, em meio aos sons da terra como nos diz o hino, de reconhecer a voz do nosso pastor. Que ele deu sua vida por nós e cuida de nós é pacífico. E nós? Reconhecemos a sua voz?

O conhecer que João expressa não é um conhecer intelectual. Trata-se de um conhecer muito mais profundo. É um conhecer em que Deus e o ser humano se encontram, e assim homens e mulheres transformam-se segundo a vontade de Deus. Reconhecer a voz do nosso pastor Jesus é “um transformar-se”. Ser do rebanho é reconhecer a voz e transformar-se, pois reconhecendo a voz acontece a identificação e, a partir desse identificar-se, a transformação.

Nesse ponto estão a “dificuldade” e o aspecto do texto que nos tira das pastagens verdejantes. É fácil ser guiado e protegido por Jesus, mas como é difícil reconhecer a sua voz. Seguir outras vozes é uma alternativa. No entanto, reconhecer a voz do bom pastor exige uma postura diferenciada, postura essa que nos identifica como pertencentes a esse rebanho e não a outro.

Somos cristãos sentados de forma ordeira em uma igreja ou ainda de forma respeitosa em um grupo da comunidade. Nesses momentos, reconhecemos e confessamos a voz que nos guia. Quando, porém, do lado de fora do templo, não raras vezes esquecemos o que nos diz a voz do nosso bom pastor.
Enfim, olhando para a nossa realidade, podemos afirmar com total certeza que somos um rebanho que não reconhece a voz do seu pastor. O maior país católico do mundo, maioria absoluta de cristãos, já que até os espíritas assim se denominam, por outro lado é um dos países mais injustos do mundo. A voz do pastor passa longe de nossos ouvidos...

4.Algumas sugestões práticas para a mensagem

4.1 – Mensagem dialogada

– Introdução: texto conhecido

– Leitura do texto

– Imaginar a situação

– O que nos chamou a atenção no texto?

– Momento de partilha das impressões

– Caso tenha chamado a atenção de alguém “e elas conhecem a minha voz”, destacar. Caso esse aspecto não tenha surgido, buscá-lo a partir do texto.

– Perguntar ou dar pistas sobre o que significa ouvir hoje a voz de Jesus?

– Partilha – culminando com uma sugestão prática: uma ação da comunidade como um gesto de “ouvir a voz”.

4.2 – Outra possibilidade seria colocar pessoas conhecidas de tal forma no templo que não fossem vistas pelas demais. Durante o comentário sobre “elas conhecem a minha voz” pedir a essas pessoas para lerem um texto e ver a reação dos demais. Reconhecem a voz? Não ouvimos Cristo hoje de viva voz, somente podemos ouvi-lo a partir de outra pessoa.

Seria possível também alterar frases de Jesus, como, por exemplo, “Eu vim para que algumas pessoas tenham vida em abundância” ou “Bem-aventurados os orgulhosos porque receberão o que Deus tem prometido” e então perguntar se podem ser reconhecidas como palavras de Jesus Cristo.

4.3 – Uma alternativa seria gravar vozes conhecidas nossas do dia-a- dia, como, por exemplo, falas do presidente da República, apresentadores de TV, comentaristas. Como é com a voz de Cristo? Como a reconhecemos? Somente por intermédio do agir da fé!

5. Alguns subsídios litúrgicos

Invocação: Celebramos em nome de Deus, que enche nossos olhos com sua obra criadora, que com sua palavra nos faz reconhecer sua voz e vontade e que com seu sopro de vida nos anima a viver a cada dia. Amém.

Confissão de pecados: Deus de bondade e misericórdia! Chegamos humildemente a tua presença com nossas falhas para te pedir perdão. Per- doa-nos porque pecamos ao fechar nossos ouvidos à tua voz, não querendo ouvir teu chamado e reconhecer tua vontade. Perdoa-nos porque muitas vezes abrimos nossos ouvidos a vozes que se opõem ao evangelho de vida e justiça para todas as pessoas. Carecemos do teu perdão porque agimos de forma egoísta e injusta, buscamos apenas nosso bem-estar e prosperidade, esquecendo de olhar ao redor para tua criação e tuas criaturas. Por tudo isso pedimos: Perdão, Senhor!

Absolvição: Apesar de tantas vezes fecharmos nossos ouvidos à vontade de Deus, Ele, por meio de seu amor, ainda nos tem como filhos e filhas. Em 1 Jo 3.1 lemos: “Vejam como é grande o amor do Pai por nós! O seu amor é tão grande, que somos chamados de filhos de Deus e somos, de fato, seus filhos”.
Esse amor permite-nos confiar que diante de nosso arrependimento sincero Deus nos oferece perdão e vida nova.

Outra possibilidade seria cantarmos este versículo: “Vejam que grande amor nos tem concedido o nosso Pai, de sermos chamados filhos de Deus” (duas vezes).

Oração do dia: Deus Todo-Poderoso, tu que falaste, no decorrer da história, por intermédio de profetas e pessoas simples, nós te pedimos: Der- rama sobre nós teu Santo Espírito, a fim de que possamos ouvir tua palavra e reconhecer nela a tua voz. Dá-nos clareza e ensinamento para seguir tua voz em meio ao mundo onde tantas vozes tentam nos afastar de teus verdadeiros caminhos. Por Jesus Cristo e pelo Espírito Santo que junto a ti vivem e reinam, de eternidade a eternidade. Amém.

Notas:

1 BULTMANN, Rudolf. Theologie des Neuen Testament, 355-366
2 BROWN, Raymond Edward. A comunidade do discípulo amado, p. 176-177
3 SCHOENBORN, Ulrich in: Horen und fragen. P. 192-193

 

Bibliografia

BROWN, Raymond Edward. A comunidade do discípulo amado. São Paulo: Paulinas, 1984. SCHOENBORN, Ulrich. In: FALKENROTH, Arnold e HELD, Heinz Joachim. Hören und fragen. Predigthilfe. Bd. 1 Erste Evangelienreihe. Neukirchen-Vluyn: Neukirchener
Verlag, 1978.
BULTMANN, Rudolf. Theologie des Neuen Testaments. 9. ed. Tübingen: Mohr, 1984.


Autor(a): Leandro Dentee
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Páscoa
Perfil do Domingo: 4º Domingo da Páscoa
Testamento: Novo / Livro: João / Capitulo: 10 / Versículo Inicial: 11 / Versículo Final: 18
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2005 / Volume: 31
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 23636
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