João 14.1-12

Auxílio Homilético

05/05/1996

Prédica: João 14.1-12
Leituras: Atos 17.1-15 e 1 Pedro 2.4-10
Autor: Ari Knebelkamp
Data Litúrgica: 5º. Domingo da Páscoa
Data da Pregação: 05/05/1996
Proclamar Libertação - Volume XXI


1. Considerações Iniciais

As comunidades joaninas viviam como minorias hostilizadas, especialmente na Ásia Menor. Num contexto histórico cheio de conflitos, procuravam mostrar a diferença de qualidade entre a vida sob a lei e a nova vida no Espírito, cheia de solidariedade e de graça (Jo 1.17). Percebiam que a busca da verdade, por Jesus Cristo, é uma realidade dinâmica que acontece nas relações sociais entre pessoas, na vida de um povo, na vivência comunitária e nas estruturas da sociedade.

Internamente não admitiam a adaptação da fé ao jugo de déspotas romanos. Afirmavam a encarnação de Jesus, o único revelador da vontade do Deus Criador, em contraste com a tentativa gnóstica de chegar a Deus. Deus assume no Cristo toda a realidade humana, inclusive o sofrimento. A discussão sobre a origem de Jesus está no centro de todas as controvérsias. O prólogo é uma resposta direta e incisiva às especulações que suprimiam a humanidade de Jesus Cristo.

As comunidades joaninas procuravam romper as barreiras da apropriação do sagrado pelos templos e sinagogas e faziam surgir um evangelho profundamente místico e revolucionário ao mesmo tempo. Neste processo o discípulo amado, João, despontou e mostrou que em Jesus de Nazaré, o Cristo, tudo encontra a plenitude. Jesus é o preexistente, o logos, o servo/messias prometido ao longo dos séculos pelos profetas, a luz, a bondade, o caminho, a verdade e a vida, o pão da vida, a fonte de água viva, o santuário vivo, o céu aberto...

Florescia o conflito com o judaísmo, com a gnose, com a visão grega do mundo, com o próprio Império Romano. Este último desencadeou a perseguição. A repressão foi forte: houve mortes, fugas, redução da mensagem do evangelho para não ter problemas. Neste contexto foi preciso lembrar a radicalidade do evangelho e reafirmar que o Jesus crucificado e ressurreto é Rei. Não César, mas Jesus é o Senhor. E aí há novidade. Surge uma religião comunitária: Jesus Cristo, um só Senhor e Senhor de todos. Logo, todos são irmãos e irmãs. A base desta convivência deve ser o amor. Tal proposta colocava em perigo a organização, a estrutura do Império.

Ao mesmo tempo havia o conflito com a cultura grega. O pensamento e a cultura grega estavam presentes em todos os cantos. A sabedoria grega reafirmava o materialismo, dividia a pessoa em corpo e alma (inteligência/memória). Dava supremacia à alma sobre o corpo, às ideias sobre a prática. Assim os gregos pensavam também a sociedade: os inteligentes, isto é, a nobreza, de um lado, em posição bem superior, e os que viviam ligados às atividades do corpo (trabalha-dores/servos/escravos) do outro lado. Sabemos que tal nunca foi a compreensão do povo hebreu ao longo da história. Aliás, os gregos tendiam a colocar a realidade em substâncias e a relacionar substâncias. Definiam e classificavam. Enxergavam a realidade de forma estática. Movimento era problema para eles, pois é característica de gente explorada.

Neste contexto o Evangelho foi escrito ' 'para crermos que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus e para que, crendo, tenhamos vida em seu nome (Jo 20.31). Uma comunidade missionária é, portanto, aquela que procura unir fé e vida, que são os dois eixos fundamentais do projeto de Jesus. E da fé em Jesus, o Verbo encarnado que é o caminho, a verdade e a vida, que jorra a vida plena, boa, definitiva, aquela que realiza a pessoa humana em todas as sua dimensões. É da fé em Jesus que vem a seiva para manter a árvore da vida em pé. O Evangelho de João é memória coletiva de uma comunidade que, pela fé, lutava pela vida em sua plenitude. É provável que o texto tal qual o conhecemos hoje tenha tido sua primeira forma entre 90 e 95 d.C. e que já tenha estado terminado pelo ano de 100 d.C., no fim do séc. I.

2. O Texto: João 14.1-12

(V. l:) Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também cm mim. (2:) Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito; vou preparar-vos lugar. (3:) E, se eu for e vos preparar lugar, virei outra vez, e vos tomarei para mim mesmo, para que onde eu estiver estejais vós também. (4:) E para onde eu vou vós conheceis o caminho. (5:) Disse-lhe Tomé: Senhor, não sabemos para onde vais; e como podemos saber o caminho? (6:) Respondeu-lhes Jesus: Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim. (7:) Se vós me conhecêsseis a mim, também conheceríeis a meu Pai; e já desde agora o conheceis, e o tendes visto. (8:) Disse-lhe Filipe: Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta. (9:) Respondeu-Ihe Jesus: Há tanto tempo que estou convosco, e ainda não me conheces, Filipe? Quem me viu a mim, viu o Pai; como dizes tu: Mostra-nos o Pai? (10:) Não crês tu que eu estou no Pai, e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo, não as digo por mim mesmo; mas o Pai, que permanece em mim, é quem faz as suas obras. (11:) Crede-me que eu estou no Pai, e que o Pai está cm mim; crede ao menos por causa das mesmas obras. (12:) Em verdade, em verdade vos digo: aquele que cre em mim, esse também fará as obras que eu faço, e as fará maiores do que estas; porque eu vou para o Pai.

Este texto está inserido no bloco dos caps. 13 a 17. Característica são as palavras de despedida. O bloco todo retraia a última ceia de Jesus com os seus discípulos, onde predomina o tema do amor (ágape). João 14.1-12 reflete a situação da Quinta-Feira Santa antes da crucificação de Jesus. Nele, caminho e meta estão entrelaçados.

3. Dialogando com o Texto

Não em tom de exortação, mas com voz de amigo, Jesus diz aos seus discípulos: Não se turbe o vosso coração (Jo 14.1a). São palavras de conforto para os discípulos na hora de sua despedida. Jesus sabe o que se passa nos corações dos discípulos. E coloca isto no contexto de sua promessa, afirmando a sua total unidade com o Pai (v. 1b). E o faz como chamado, como incentivo à fé. Tal chamado, se aceito, coloca numa situação, num caminho que conduz para fora do medo e das incertezas. A obediência ao chamado garante também um lugar na casa do Pai (v. 2). A fé em Deus Pai é, ao mesmo tempo, fé no Filho de Deus; e a fé no Filho de Deus é, ao mesmo tempo, fé em Deus Pai. Por isso Jesus mesmo nos receberá (v. 3). É ele quem vai preparar tudo. Podemos, pois, estar livres desta preocupação. Jesus é o caminho que nos é dado como dádiva (v. 4). Crendo nele, sua verdade e sua vida tornam-se para nós a ponte para a eternidade (v. 6).

A pergunta de Tomé (v. 5) tem o objetivo de encaminhar e preparar o v. 6. 'Tomé era quem emprestava ao grupo apostólico o espírito de crítica, buscando sempre intensamente a verdade. Aquele que foi enaltecido pela cruz transforma nossos caminhos cheios de espinhos em caminhos de luz e liberdade. Decisivo não é sabermos a verdade, mas sermos da verdade. Isto se decide no posiciona¬mento que assumimos agora e hoje para com Aquele que nos revela caminho, verdade e vida. Jesus é o revelador porque nele o Pai está presente (vv. 9-10). Quem conhece Cristo já conhece o Pai. Jesus e o Pai são um. O que Jesus é, é revelação do Pai (v. 10). A ação do Pai realiza-se na palavra de Jesus. Jesus é o caminho, o acesso e a meta ao mesmo tempo. O que são as obras? São ações de Jesus como o revelador da Palavra. Referem-se à existência missionária da comunidade, a qual, sob a direção do Espírito, continuará a obra de Jesus.

Para João, a verdade é Jesus. Verdade e vida só são alcançáveis para quem vai no caminho. Não é por acaso que a expressão caminho está posta antes de verdade e vida. Para o/a cristão/ã a verdade não é abstrata. Ela é uma pessoa à qual se adere com todo o ser. Ele, Jesus, é verdade porque ele é Deus que se revela nele. Aderir à verdade é, então, entrar no mundo de Deus. Vida é a possibilidade de compreender a própria existência como enraizada em Deus Pai. Jesus e o Pai são um. Jesus é o caminho, a verdade e a vida.

4. Rumo à Prédica

A interpretação (pregação) poderá ser feita levando-se em conta os três textos bíblicos indicados c lidos no culto, priorizando o texto do Evangelho. A interpretação deve orientar-se pelo todo do culto, pois na elaboração e na moldagem do mesmo os textos são fundamentais. Já a partir daí, em diálogo com a época do ano e com o contexto local, eles determinarão o conteúdo do culto. O texto de At 17.1-15 mostra Paulo e Silas em Tessalônica e Beréia anunciando Jesus de Nazaré, o Cristo ressuscitado. O texto de l Pe 2.4-10 coloca em evidência e compromisso o sacerdócio vivo, povo de Deus, e a Jesus Cristo como a pedra principal da construção.

A contextualização dependerá muito da realidade local. É bom lembrar que muitos outros senhores são incorporados à nossa vida. Descaminhos não faltam. Verdade e vida não são definidas a partir de Deus e seu projeto. A interpretação poderia ter o seguinte andamento: 1. Jesus é o logos que revela Deus à humanidade. Ele é caminho e meta. É pela cruz de Jesus (morte e ressurreição) que a verdade de Deus brilha aos olhos do mundo. 2. Já Lutero afirmava que quem não encontrar a Deus em Cristo não o encontrará jamais, procure onde quiser. 3. Para uma humanidade que procura tateando o seu caminho, Jesus é o caminho, a verdade e a vida. 4. A comunidade como povo de propriedade exclusiva de Deus tem a tarefa de proclamar as virtudes daquele que é caminho, verdade e vida e que a chamou das trevas para a sua maravilhosa luz (l Pe 2.9b).

5. Elementos Litúrgicos

Bênção: Deus Criador, que é Pai e Mãe de todos nós, que criou você e todas as coisas visíveis e invisíveis; Deus Filho, que habitou entre nós cheio de graça e de verdade; Deus Espírito Santo, que nos une em comunidade e nos coloca a caminho, abençoe e guarde vocês no testemunho e na vivência de sua paz. Amém.

Envio: Vão agora, sejam humildes, pois o poder se aperfeiçoa na fraqueza. Creiam em Jesus para que a sua verdade e sua vida tornem-se para vocês a ponte para a eternidade. Transformem a sua fé em ações de amor e solidariedade em favor dos que vivem no sofrimento. Sejam firmes na confissão da esperança, pois quem fez a promessa é fiel. Neste sentido vão agora e sirvam ao Senhor!

6. Bibliografia

COMBLIN, José. A Força da Palavra. Petrópolis, Vozes, 1986.
GOPPELT, Leonhard. Teologia do Novo Testamento. São Leopoldo, Sinodal; Petrópolis, Vozes, 19X2.
KÜMMEL, Werner G. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo, Paulinas, 1982.
RUBEAUX, Francisco. Mostra-nos o Pai; uma Leitura do Quarto Evangelho. São Leopoldo, CEBI, 1989. (A Palavra na Vida, 20).
VV. AA. O Livro da Comunidade, João 13-17. Belo Horizonte, CEBI, s. d.


Autor(a): Ari Knebelkamp
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Páscoa
Perfil do Domingo: 5º Domingo da Páscoa
Testamento: Novo / Livro: João / Capitulo: 14 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 12
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1995 / Volume: 21
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 14246
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Muitos bens não nos consolam tanto quanto um coração alegre.
Martim Lutero
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