João 15.1-8

21/05/2000

Prédica: João 15.1-8-22
Leituras: Atos 8.26-40 e 1 João 3.18-24
Autor: Selma Nascimento
Data Litúrgica: 5° Domingo da Páscoa
Data da Pregação: 21/05/2000
Proclamar Libertação - Volume: XXV
Tema: Páscoa

 

Introdução

A Comunidade Joanina realiza um grande deslocamento, por diversos fatores, da Palestina a Éfeso. Ela enfrentava problemas de ordem interna e externa: a dominação e perseguição romana, a expulsão da sinagoga, correntes religiosas (gnosticismo e docetismo), que resultaram numa crise, em que a Comunidade corria o risco de desagregação e perda de identidade.

Neste contexto, o escrito de João tem como finalidade: integrar fé e vida, a partir dos sinais concretos realizados por Jesus. Como na maioria dos textos da Escritura, este Evangelho é o resultado de uma coletânea oral e escrita sobre Jesus de Nazaré. Acredita-se que a finalização deste texto tenha ocorrido por volta do final do século l.

Uma das possibilidades de se estudar o texto de João é dividi-lo em duas partes:

A primeira — Livro dos Sinais - 1.19-11.54: Sete sinais são apresentados com o objetivo de que eles devem dar glórias a Deus, contribuir para uma atitude de fé em relação a Jesus, seu enviado que realiza sua vontade. Jesus é a encarnação da Palavra do Pai.

A segunda — Livro da Exaltação — 13.1-20.31: Jesus revela o rosto de Deus. Esta segunda parte se subdivide em três:
a) 13 a 17: discursos e despedidas;
b) 18 e 19: paixão;
c) 20: ressurreição.

O bloco de 11.55 a 12.50 seria uma transição, seu objetivo é anunciar que a hora se aproxima. Os textos de I. l -18 e 21. l -25 teriam sido acrescentados mais tarde.

Texto

V. l. Videira/vinha: símbolo de Israel, povo de Deus. Jesus é a verdadeira videira por vontade do Pai.
V. 2a. Um ramo não produz fruto quando não corresponde à vida que se lhe comunica. O Pai que cuida da sua vinha o corta, pois é ramo bastardo, que não pertence a esta videira.
V. 2b. Assim como o grão de trigo tem que morrer a fim de produzir fruto abundante e a mulher tem que sofrer a fim de nascer a criança, também o ramo deverá ser limpado.
V. 3. A purificação é produzida pela opção pela mensagem de Jesus, que é uma mensagem de amor, o qual separa do mundo injusto e tira, portanto, o pecado.
V. 4. A união com Jesus não é algo automático nem ritual: exige a adesão da pessoa e a iniciativa do discípulo que responde à fidelidade de Jesus. Interromper a relação com Jesus significa cortar-se da fonte da vida e reduzir-se à esterilidade.
Vv. 5 e 6. Jesus repete sua primeira afirmação, agora não em relação com o Pai, mas com os discípulos. Entre ele e eles existe união íntima. A mesma vida que há nele circula nos seus. Quem renuncia a amar, renuncia a viver.
V. 7. Quando na comunidade reina ambiente de união com Jesus e de entrega à sua missão, pode pedir o que quiser; a sintonia com ele criada pelo compromisso em favor do ser humano, estabelece a colaboração ativa de Jesus com os seus.
V. 8. A glória, que é o amor do Pai, manifesta-se na atividade dos discípu¬los que continuam trabalhando em favor do ser humano. Jesus fala no seio da comunidade, que está no meio do mundo, na forma de mensagem profética.

Comentário

Estamos numa sociedade em que os valores cristãos não são valorizados. Como manter-se cristão assim?

O texto adverte que não temos outro referencial senão Jesus — a verdadeira videira. Segui-lo implica buscar de forma concreta a fraternidade, a vida, o amor. Desta maneira conseguiremos manter-nos vivos, pois nossa fonte é Jesus, que demonstrou através de palavras e gestos o Reino do Pai. Isto, porém, não ocorre num processo fácil e automático. Em nosso dia-a-dia, somos levados a fazer concessões, a fazer vista grossa, a ter jogo de cintura em relação a fatos que nos obrigariam a termos uma postura profética, própria da missão do cristão. Os motivos desta atitude são vários: O que tenho com isso? Sozinho nada posso fazer. É coisa de governo. Por que aconteceu logo comigo? Lentamente, vamos perdendo nossa identidade. Como consequência, algumas atitudes tornam-se comuns:

a) Fugimos da dor como se ela não fizesse parte da vida dos seguidores de Jesus, não como masoquismo e sim como purificação;

b) Abrimos mão de nossa missão — somos profetas numa sociedade sem Deus;

c) Descaracterizamos a proposta de Jesus — uma mensagem de amor incompatibilizada com a injustiça.

Jesus neste texto é claro: quem renuncia a amar, renuncia a viver. É na comunidade que readquirimos forças para lutar. Nela, em sintonia com Jesus, vamos descobrindo os caminhos possíveis da realização do Reino entre nós. Não há uma receita, mas é preciso deixar que os fatos nos interpelem quanto à nossa vivência cristã. Acredito que este poeta anônimo de Malawi, África, possa ajudar-nos:

Eu tinha fome,
E vocês fundaram um clube humanitário Para discutir a minha fome. Agradeço-lhes.
Eu estava na prisão,
E vocês foram à Igreja
Rezar pela minha libertação.
Agradeço-lhes. Eu estava nu,
E vocês examinaram seriamente As consequências morais da minha nudez. Agradeço-lhes.
Eu estava doente,
E vocês se ajoelharam
E agradeceram a Deus o dom da saúde.
Agradeço-lhes.
Eu não tinha casa,
E vocês pregaram sobre o amor de Deus.
Vocês pareciam tão piedosos,
Tão perto de Deus!
Mas eu continuo com fome,
Continuo só, nu, doente, prisioneiro,
E tenho frio,
Sem casa.

Bibliografia

MATEOS, Juan, BARRETO, Juan. O Evangelho de São João : análise linguística c comentário exegético. Trad. Alberto Costa. São Paulo : Paulinas, 1989. p. 623-636. FABRIS, Rinaldo, MAGGIONI, Bruno. Os Evangelhos II. Trad. Giovani di Biasio c Johan Konings. São Paulo : Loyola. p. 427-435.
Seguir Jesus: os Evangelhos. São Paulo : Loyola, 1994. p. 207-247. (Tua palavra é vida, 5).

Proclamar Libertação 25
Editora Sinodal e Escola Superior de Teologia


Autor(a): Selma Nascimento
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Páscoa
Perfil do Domingo: 5º Domingo da Páscoa
Testamento: Novo / Livro: João / Capitulo: 15 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 8
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1999 / Volume: 25
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 12815
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