João 15.26-27; 16.4b-11

Auxílio Homilético

04/06/1995

Prédica: João 15.26-27; 16.4b-11
Leituras: Gênesis 11.1-9 e Atos 2.1-21
Autor: G.E. Edmundo Grübber
Data Litúrgica: Domingo de Pentecostes
Data da Pregação: 04/06/1995
Proclamar Libertação - Volume: XX
Tema: Pentecostes


1. Introdução

A perícope de Jo 15.26-27; 16.4b-11, prevista para a pregação no Domingo de Pentecostes, fala, em sua primeira parte, da ação do Espírito Santo nos e através dos discípulos (15.26-27). E, em sua segunda parte, como Jesus procura, diante da perplexidade, diante da tristeza que tomou conta dos discípulos (v. 6) por causa de sua iminente volta ao Pai (v. 5), animá-los e encorajá-los.

A temática abordada é semelhante àquela que encontramos no cap. 14. Jesus explica aos discípulos a razão de sua partida, de sua volta para o Pai e lhes abre uma perspectiva nova de sua presença.

Conforme alguns comentaristas, Jo 14.4ss. seria uma inclusão posterior, elaborada, quem sabe, por um discípulo de João que procurou reinterpretar as palavras de Jesus de Jo 14, como consolo e estímulo para a comunidade pós-Páscoa.

Estranho e não encontrei resposta para a pergunta por que motivo os vv. 1-4a do cap. 16 foram excluídos da proposta do texto. Será que é porque ficaria muito extenso? Tenho a impressão de que os referidos vv. explicariam ou até justificariam a tristeza, a aflição ou até o medo que tomou conta dos discípulos, a ponto de não conseguirem reagir. Os referidos vv., ao meu ver, se encaixam perfeitamente no todo do texto.

2. O texto

15.26: Jesus, antevendo a sua morte, ressurreição e ascensão, está se despedindo de seus discípulos e anuncia-lhes a vinda do Paracleto. Almeida o traduz como sendo o Consolador. Certamente o faz porque traduziu lype por tristeza. Colocando-nos, no entanto, na situação dos discípulos, haveremos de reconhecer que eles sentiam muito mais do que tristeza e por isso necessitavam de muito mais do que consolo apenas. Concordo, portanto, com Nelson Kirst, que sugere em vez de tristeza aflição e em lugar de Consolador, Ajudador (PL IV, p. 66s.). Poder-se-ia traduzir o Paracleto também por Auxiliador ou Assistente.

Esse Ajudador, Auxiliador ou Assistente é o Espírito da Verdade (15.26), o Espírito Santo (14.26), que ensinará aos discípulos todas as cousas e os lembrará de tudo que Jesus lhes disse (14.26). Esse Ajudador, esse Assistente ou Assessor virá da parte de Deus, o Pai (15.26), a pedido, por solicitação de Jesus (14.16). Por isso pode-se afirmar que o Ajudador vem, simultaneamente, da parte do Pai e do Filho, e dará testemunho de Jesus Cristo.

V. 27: Ao lado do testemunho do Ajudador está o dos discípulos. Na verdade, não são testemunhos distintos, diferentes, mas, se os dois são citados lado a lado (cf. também At 5.32 e 15.28), então isso quer evidenciar, por um lado, que a ação do Espírito Santo não é uma ação a-histórica, uma ação mágica, mas carece da mobilização dos discípulos. Por outro lado, evidencia que o testemunho dos discípulos não acontece por iniciativa e força deles, mas por força do Espírito Santo, que os motivará e capacitará para tanto. A afirmação de Jesus de que os discípulos também testemunharão, porque estais comigo desde o princípio, dá a entender que, mesmo Jesus se ausentando, a ligação, a comunhão com ele permanecerá através da ação do Espírito Santo. Ele é, por assim dizer, o sucessor de Jesus Cristo, ou, como diz João, outro Consolador (14.16).

16.4b: Este v. faz a ponte entre o assunto anterior e o que se segue. Justifica por que Jesus só agora fala daquilo que aguarda os discípulos no futuro.

V. 5: Jesus comunica a sua iminente volta para junto daquele que o enviou. Na verdade, considerando Jo 14.3,19,28 e Mc 8.31ss. e paralelos, os discípulos deveriam estar preparados para receber esta notícia. Estão, porém, tão abalados que sequer conseguem perguntar: Para onde vais?

y 6: Descreve a razão de sua tristeza, de sua aflição. Irão perder a companhia, o convívio e o apoio de Jesus. A partida de Jesus para eles representa mais do que a perda de um amigo, de um conselheiro, de um irmão na morte. Representa, isto sim, o desabamento de toda uma esperança que haviam colocado nele. Por causa dele haviam abandonado tudo: suas profissões, suas famílias. Apostaram no seu reinado. Tudo isso acabaria agora?! O simples pensamento os faz emudecer, porque já se sentem abandonados e sozinhos no mundo.

y. 7: Neste v. Jesus procura mostrar aos discípulos que a sua partida não representa o fim, mas sim um novo começo da ação de Deus com eles e através deles no mundo. É preciso que ele volte para junto de seu Pai, pois sem a sua ida o Espírito Santo, o Espírito da Verdade não virá até eles. Voltando, porém, para junto do Pai, ele enviará o seu Sucessor, o Espírito Santo, que lhes dará todo o apoio, toda a assistência de que necessitarão. O Espírito Santo lhes será ' 'outro Consolador (Auxiliador, Assistente — 14.6).

Vv. 8-11: Estes vv. descrevem a função do Auxiliador. Ele irá revelar o pecado, a justiça e o juízo. Tornará público o que o mundo procura esconder e abafar, a saber: o pecado, que é a não-aceitação de Jesus Cristo; a justiça daquele que morreu pela humanidade; o juízo, porque o poder deste mundo não venceu Jesus Cristo, fazendo com que aconteçam arrependimento e mudança no comportamento e na vida das pessoas.

3. Meditando sobre o texto...

Pensando na pregação sobre este texto, eu parto e descrevo a situação de aflição, medo e tristeza que tomou conta dos discípulos ao ouvirem — agora conscientemente — da parte de Jesus que ele voltaria para junto daquele que o havia enviado. Digo conscientemente, pois considerando Jo 14.3; Mc 8.31 e paralelos e outros textos mais, os discípulos deveriam estar, até certo ponto, preparados para este momento, pois Jesus por várias vezes anunciara esse desen¬rolar da história.

Por que será que só agora ficaram assim assustados? Quem sabe tenham imaginado esse acontecimento ainda distante, ou até não o tenham levado tão a sério. Só o Mas agora (v. 6) de Jesus os faz acordar e tomar consciência do que isso significava. A partida de Jesus para eles significava não apenas separa¬ção pela morte, mas a ruína de todos os planos que tinham para o futuro; significava a frustração de todas as suas expectativas. Eles aguardavam e acredi-tavam — como muitos do povo de Israel — que Jesus restauraria o reino de Israel (At 1.6). Também eles tinham as suas ambições, como nos mostra o pedido dos irmãos Tiago e João (Mc 10.37). E, para alcançar esses seus objeti-vos, abandonaram tudo: suas profissões, suas famílias e seguiram Jesus, mesmo que isso muitas vezes representasse perigo de vida também para eles.

Enquanto Jesus estava com eles, nada temiam. Jesus, porém, anunciando que voltaria para junto daquele que o enviou, a situação mudava totalmente. Este fato teria como consequência que novamente ficariam sozinhos, abandonados, sem líder, sem Ajudador neste mundo tão violento, injusto, corrupto e mau. Sabiam muito bem que, Jesus os abandonando, nada de bom podiam esperar na qualidade de discípulos dele (16.2). O simples pensamento nessa realidade os fez emudecer.

Jesus, vendo toda esta aflição dos discípulos, conhecendo o que se passava em suas mentes, lhes assegurou que não os abandonaria, mas estaria com eles sempre e em todas as situações, através de outro Ajudador, seu Sucessor, o Espírito Santo, ao qual enviaria assim que estivesse com seu Pai. Este lhes daria toda a assistência, todo o auxílio necessário para que continuassem a obra iniciada por Jesus e manifestaria abertamente o pecado do mundo. O Espírito Santo os capacitaria para a missão e lhes daria a coragem suficiente para cumpri-la.

Certamente essa informação ainda não trouxe de volta a confiança e a alegria para os discípulos. Ao menos nada é dito neste sentido em nosso texto. Sabemos, no entanto, através de At 2 — uma das leituras previstas para o dia de Pentecostes — que a situação mudou completamente ao concretizar-se aquilo que Jesus anunciou em nosso texto. Os discípulos, antes aflitos, medrosos e indecisos, a partir de Pentecostes perderam o medo e anunciaram e falaram com convicção e entusiasmo dos grandes feitos de Deus através de Jesus Cristo. Testemunharam com tanta empolgação, com tanto entusiasmo que naquele mesmo dia quase três mil pessoas creram em seu testemunho, e foram balizadas. Graças ao trabalho deles, o evangelho veio até nós. Graças à ação do Espírito Santo através dos discípulos existe a Igreja, existem nossas comunidades, somos cristãos.

Até aqui tudo bem! Mas, e agora, como fica a atualização deste texto para dentro de nossa realidade? Qual a sua aplicação prática para mim, como pregador, e para os ouvintes que estarão na igreja?

Pensando nisso, também sinto aflição, solidão, abandono e dificuldades. Pois, se olho para a comunidade à qual pertenço e para as que me cercam, constato que elas não se assemelham nem um pouco ao grupo dos discípulos, aos quais as palavras de nosso texto foram dirigidas originalmente, nem às primeiras comunidades.

Os membros das comunidades acima referidas não estão aflitos por causa do evangelho. Não correm perigo de vida ou de perseguição por pertencerem a uma comunidade dita cristã. Não sofrem reveses quando afirmam serem cristãos. Ao contrário, faz parte do bom tom estar inscrito ou, melhor ainda, estar em dia com os seus compromissos financeiros para com a sua comunidade. Pois nunca se sabe! De repente necessitamos de seus préstimos. É praxe apelar para a Igreja, a comunidade em certos momentos da vida!

É verdade, há aflição, há medo, há tristeza, há preocupações também hoje entre os membros das comunidades. Estas, porém, nada têm a ver com o evangelho. São preocupações pela sobrevivência, com o futuro, como evoluir sócio-economicamente. De modo geral poder-se-ia dizer que os cristãos de hoje, ao menos estes que conheço, não têm a sensação de estarem sozinhos e abandonados por Deus, por Jesus Cristo. Em todo caso não dão esta impressão. Sinto na maioria dos membros uma grande indiferença para com a palavra de Deus e sua Igreja.

É claro, não dá para generalizar. Há também um bom número que está bastante ligado. Frequenta regularmente os cultos e demais programas da comunidade. Mesmo assim, não encontro aquele entusiasmo, aquela alegria, aquela empolgação e disposição, até para sofrer por causa do evangelho, como havia entre os discípulos após Pentecostes e os primeiros cristãos. Quais seriam os motivos?

Estaria nos faltando aquele som, como de um vento impetuoso...? Estaria nos faltando o sopro do Espírito Santo e por isso nós, como pregadores, não somos capazes o suficiente para vender o nosso peixe? Estaria nos faltando aquele Ajudador, aquele Assistente anunciado e enviado por Jesus aos seus discípulos de então? Falta-nos aquele Assistente para tornar-nos criativos, comunicativos o suficiente para despertar os demais para a Palavra e sua impor tância na vida? Ou estamos todos já tão secularizados que consideramos Deus, sua Palavra, superados, contos de fadas?

Quais seriam os motivos por que as comunidades e seus programas não atraem, não empolgam? Por que dão a impressão de tristeza em vez de alegria? Por que há tão pouco amor, solidariedade e comunhão entre os membros?

Refletir com muita humildade com a comunidade sobre essas questões e buscar, com paciência e muito amor, respostas e, quem sabe, soluções, pedindo e confiando na ação do Espírito Santo é, ao meu ver, o sopro do Espírito da Verdade nesta hora.

4. Subsídios litúrgicos

Confissão de pecados: Senhor, nosso Deus e nosso Pai por Jesus Cristo. Estamos na tua presença como comunidade, mas também cada um por si só. Tu nos conheces. Diante de ti nada precisamos nem podemos esconder. Tu sabes quão fraca é a nossa fé e conseqüentemente a nossa ação no dia-a-dia de acordo com a tua vontade. Perdoa-nos as nossas faltas. Concede-nos o teu Santo Espírito para que ele nos ensine todas as coisas e nos faça lembrar de tudo o que teu Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, ensinou e viveu. Ouve-nos, quando agora pedimos: Tem piedade de nós, Senhor.

Oração de coleta: Senhor, envia o teu Santo Espírito. Permite que aconteça Pentecostes entre nós. Inflama a todos nós para a ação em amor em favor da justiça e da paz no mundo em que vivemos. Acorda-nos do sono, da indiferença. Desperta-nos para a tua Palavra. Amém.

Oração final: Esta, dependendo de cada comunidade local, poderá arrolar os motivos levantados durante a pregação sobre o porquê da falta de alegria e empolgação em nossas comunidades, culminando com o pedido pelo dom do Espírito Santo para que essa situação seja alterada.


5. Bibliografia

BACH, Hartmut. In: Homiletische Monatshefte, Göttingen, Ehrenfried Klotz, 48(1), abr. 1973.
FRICK, Robert. Das Johannesevangelium in Bibelstunden. Göttingen, Vandenhoeck & Ruprecht, 1957.
KIRST, Nelson. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo, Sinodal. v. IV.
ROLOFF, Jürgen. In: Neue Calwer Predigthilfen; 3. Jahrgang; Band B. Stuttgart, Calwer.
SCHULZE, Gottfried. In: Homiletische Monatshefte, Göttingen, Ehrenfried Klotz, 56(7) abr. 1981.
VOIGT, Gottfried. Die geliebte Welt. Göttingen, Vandenhoeck & Ruprecht, 1979.


Autor(a): G. E. Edmundo Grübber
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes

Testamento: Novo / Livro: João / Capitulo: 15 / Versículo Inicial: 26 / Versículo Final: 27
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1994 / Volume: 20
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 14517
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