João 15.9-17

28/05/2000

Prédica: João 15.9-17
Leituras: Atos 11.19-30 e 1 João 4.1-11
Autor: Antônio Roberto Monteiro de Oliveira
Data Litúrgica: 6° Domingo da Páscoa
Data da Pregação: 28/05/2000
Proclamar Libertação - Volume: XXV
Tema: Páscoa


1. Situação no calendário litúrgico

O texto é indicado para a pregação no 6° Domingo após a Páscoa, que coincide com o Domingo Rogate, no qual o tema central é a oração, presente no v. 16c. Embora o tema central do texto não seja esse, mas sim a dinâmica do amor de Cristo no seio da comunidade perseguida, ele enriquece em muito a perspectiva do tema da oração. Isso no sentido de que a razão pela qual Deus ouve a oração dos discípulos é seu grande amor em Cristo e no sentido de que os frutos de nosso trabalho e missão dependem da oração.

Já as leituras indicadas enfocam o tema dos frutos do amor em um mundo hostil. Em At 11.9-30 vemos a comunidade dos primeiros cristãos praticando o amor recíproco em meio à perseguição. Em l Jo 4.1-11, novamente o tema do amor recíproco em um contexto de controvérsia com falsos profetas, representantes de um mundo hostil, que busca uma espiritualidade desencarnada da realidade.

2. Contexto

O texto insere-se na segunda sequência de palavras de despedida de Jesus. A primeira está em 13.31-14.31. No contexto anterior, Jo 15.1-8, o relacionamento entre Jesus e seus discípulos é ilustrado com a figura da videira. Eles são o novo Israel, a nova videira. Os vv. 9-17 desdobram o que significa permanecer em Cristo para uma comunidade perseguida e hostilizada. E no contexto posterior, a partir de 15.18 até 16.33, tematiza-se a autenticidade do discipulado em um mundo hostil. A dinâmica do amor se dá em meio a um mundo hostil, onde os discípulos são odiados e perseguidos. O pano de fundo do discurso sobre o amor recíproco é a convivência dos cristãos com a comunidade judaica depois da expulsão da sinagoga, determinada a partir do concílio de Jâmnia (Friedrich, p. 143).

3. O texto

O tema do amor é o fio condutor que dá unidade ao texto e o perpassa desde o v. 9 até o v. 17. O ponto de partida não é o mandamento do amor, mas sim a dádiva do amor de Deus revelado em Jesus. O amor de Deus em Cristo c o centro da teologia de João. Ao falar do amor de Deus, João não o Ia/ dogmaticamente, com afirmações ontológicas sobre a essência de Deus, mas sim pragmaticamente, mostrando como a comunidade recebe, vive e participa do amor de Deus que acontece no mundo. Nesse acontecimento do amor é que os discípulos devem permanecer (Freyd, p. 207).

Permanecer no amor tem a ver com a situação histórica da comunidade. Muitos discípulos haviam desertado, abandonado a comunidade, para fugir da marginalização imposta pela sinagoga. Permanecer no amor significa preservar a ligação com Jesus Cristo concretizada pela permanência na comunidade, que é o corpo de Cristo. Não há como cultivar a ligação com Cristo sem a comunhão com a comunidade, no contexto histórico em que ela vive.

Aparentemente, e só aparentemente, o permanecer no amor é interpretado como guardar os mandamentos. O se no início do v. 10 não é uma cláusula condicional, no sentido de que guardar os mandamentos seja condição para permanecer no amor de Cristo. O amor de Deus é incondicional. Antes, por cultivar uma ligação viva com o Senhor é que os discípulos são capacitados para obedecer os mandamentos e fazer deles a orientação dominante de suas vidas. O próprio Jesus é exemplo dessa realidade. Ele permanece no amor de Deus e vive de acordo com seus mandamentos. Ele participa na realidade do amor de Deus, o Pai, e quer que seus discípulos também participem nessa realidade do amor. Permanecer no amor do Pai é a única maneira pela qual eles poderão participar da alegria de Cristo. Alegria é uma realidade bem maior do que simples momentos de euforia. Alegria (charis) é um dom do Espírito Santo, pelo qual os discípulos podem viver da vida de Jesus e, por meio de seu nome, obter do Pai tudo o que pedirem (14.16-20), e assim, mesmo depois que Jesus partir para o Pai, sua tristeza é convertida em alegria (Ridouart & Lacan, p. 24). Jesus quer que essa participação em sua alegria seja completa.

No v. 12 esclarece-se em que consiste o mandamento de Cristo. Diferentemente dos mandamentos da lei dos judeus, o mandamento de Cristo não visa a letra da lei, mas sim seu espírito, ou seja, o amor. Todos os mandamentos se resumem a um só, o mandamento do amor. O amor é o conteúdo concreto do mandamento de Jesus. Mas, diferentemente dos sinóticos (Mt. 5.43; 19.19; Mc 12.31) e de Paulo (Rm 13.9), e mesmo Lv. 19.18, que, em geral, denominam o próximo como objeto do amor, e lambem de 14.21, onde o amor é dirigido a Jesus, aqui no v. 12 o amor é dirigido mais ao próprio círculo dos discípulos (allelous). Não se nega assim o mandamento do amor ao próximo e ao inimigo; enfatiza-se a dimensão do amor recíproco, da comunhão entre os discípulos. É certo que a comunidade tinha que enfrentar nas primeiras perseguições aos cristãos a hostilidade do ambiente e, por isso, ela volta-se mais para si mesma (Freyd, 207) O v. 18 fala da inimizade do mundo, mas não da inimizade contra o mundo. O caminho do amor de Deus, mesmo frente ao mundo hostil, passa pela comunidade.

No v. 13 o amor recíproco é interpretado como sacrifício em favor do amigo. O amor ao amigo tambémé conhecido no helenismo. Aqui, contudo, ele não é tratado como aquela comunhão ideal entre iguais, própria do helenismo, mas sim como sacrifício. Não é nenhum sentimento afetuoso descomprometido, mas um amor pronto ao sacrifício, um ser para o outro (Freyd, p. 208). Nesse sentido, perante os olhos da comunidade entende-se o sacrifício de Cristo na cruz como expressão de amor por seus amigos, o que é explicitamente afirmado no v. 14.

Contudo, não é o cumprimento dos mandamentos que torna os discípulos amigos de Jesus. Antes, por serem amigos de Jesus, fazer o que ele fez e ensinou é decorrência natural. A amizade de Jesus é infinitamente mais comprometedora do que qualquer relação de obrigação, ou, para usar as palavras de Paulo, o amor de Cristo nos constrange. Assim, exclui-se uma relação de dominação, como é o caso entre o senhor e seus escravos. Mas o fato de Jesus ser amigo de seus discípulos não exclui o fato de que ele é o Senhor que os engaja em seu serviço e deles espera frutos. Tanto é assim que no v. 16 Jesus deixa clara sua soberana escolha de seus amigos. Mas, diferentemente de escravos, aos quais o amo não dá explicações do sentido de seu trabalho nem satisfações, os discípulos, na condição de amigos de Jesus, puderam conhecer tudo o que Jesus ouviu do Pai, todo o seu plano de salvação, e nele participar conscientemente.

O propósito de Jesus ao escolher os discípulos como seus amigos é que eles possam ir e dar frutos! Retoma-se, assim, a figura da videira e dos ramos no início do capítulo 15. Jesus é a videira, os discípulos são os ramos. Da videira os ramos recebem a seiva vital, que lhes possibilita produzir frutos. Esses frutos têm a ver com o amor fraterno no grupo dos discípulos, mas também com o amor ao próximo. Só aparentemente o produzir frutos é condição para o atendimento da oração. Para que possam produzir frutos, os discípulos dependem da ligação com a videira, que é Jesus. Por isso, o conteúdo da oração inclui também o produzir frutos que saciem a fome espiritual e material do povo, iniciando pela própria comunidade, onde o amor recebido de Cristo é vivenciado entre os irmãos.

4. Meditação

O desafio do amor fraterno na comunidade dos discípulos de Jesus causa certo mal-estar. Se pensamos no que existe concretamente de comunhão em nossas comunidades, percebemos que ainda estamos longe do que poderia ser alcançado. Ressalvadas as animadoras exceções de comunhão, muitos têm no culto a única oportunidade de encontro e comunhão. Porém sentam-se nos bancos, dispostos como em um ônibus, entram e saem do templo sem, ao menos, um cumprimento. O relacionamento com Deus é pensado e cultivado em termos individuais e pessoais. Mesmo as orações normalmente são pedidos individuais, de acordo com o interesse e os problemas de cada um. Até na Santa Ceia, que deveria ser a expressão máxima da comunhão, muitas vezes a comunhão está ausente. Veja que a comunhão é a principal razão pela qual nos reunimos em culto na comunidade. Orar a gente pode sozinho, ler a Bíblia também, mas ter comunhão é impossível sozinho.

O desafio do pregador está em mostrar que a oração tem sua dimensão comunitária, e que o amor ao próximo inicia pelo próximo mais próximo que é a família e a comunidade de fé. Ali é que renovamos e vivenciamos a ligação vivificadora com Jesus Cristo e nos fortalecemos para produzir os frutos de amor que Deus espera que produzamos para o próximo.

Se hoje não somos excluídos como os primeiros cristãos o foram da sinagoga e perseguidos depois pelas autoridades do Império Romano, nem por isso o ambiente deixa de ser menos hostil para a comunidade de fé, vista, muitas vezes, com indiferença e desprezo pela sociedade, como suspeita de explorar a boa fé pública. A principal razão é a falta de amor mútuo, interesse pelos problemas uns dos outros, transparência e disposição de perdoar e pedir perdão.

O amor de Cristo nos constrange. Seu sacrifício na cruz em nosso favor nos desafia a superar a falta de amor fraterno e desenvolver o mesmo espírito de sacrifício em favor do outro. Nesse sentido, nos ajuda a ''prova quádrupla'' do que nós pensamos, dizemos ou fazemos, distribuída por um clube de serviço: l. É a verdade? 2. É justo para todos os interessados? 3. Criará boa vontade e melhores amizades? 4. Será benéfico para todos os interessados?

5. A celebração

A celebração poderia oportunizar, na oração final de intercessão, um momento exclusivamente para que cada participante procurasse conversar com outro irmão ou irmã que menos conhece, sobre o que passou na última semana e está por vir na semana seguinte, que deveria ser colocado em oração diante de Deus. Cada dupla pode orar um pelo outro.

Bibliografia

FREYD, Christophe. Joh 15.9-12 (13-17). In: BORNHÄUSER, Hans et al. (Eds.). Neue Calver Predigthilfen: Fünfter Jahrgang, Band B. Stuttgart : Calwer, 1983. p. 206-213.
FRIEDRICH, Nestor. João 15.9-17. In: STRECK, Edson E., KILPP, Nelson (Coords.). Proclamar Libertação. São Leopoldo : Sinodal, 1993. vol. XIX, p. 143-147.
GRÜBBER, Edmundo. João 15.9-17. In: DREHER, Carlos A., KIRST, Nelson (Coords.). Proclamar Libertação; São Leopoldo : Sinodal, 1982. vol. VIII, p. 317-323.
LACAN, M. F, RIDOUART, A. Alegria. In: DUFOUR, Xavier Léon. (Ed.) Vocabulário de Teologia Bíblica. Trad. De Simão Voigt. Petrópolis: Vozes, 1984, p. 21-23.


Proclamar Libertação 25
Editora Sinodal e Escola Superior de Teologia


Autor(a): Antônio Roberto Monteiro de Oliveira
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Páscoa
Perfil do Domingo: 6º Domingo da Páscoa
Testamento: Novo / Livro: João / Capitulo: 15 / Versículo Inicial: 9 / Versículo Final: 17
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1999 / Volume: 25
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 12816
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