João 15.9-17

Auxílio Homilético

10/05/2015

Prédica: João 15.9-17
Leituras: Salmo 98 e 1 João 2.1-6
Autora: Marcia Blasi
Data Litúrgica: 6º domingo da Páscoa (Dia das Mães)
Data da Pregação: 10/05/2015
Proclamar Libertação - Volume: XXXIX

1. Introdução

O texto previsto para pregação no domingo de hoje é bastante conhecido. Está inserido no discurso de despedida de Jesus e já foi trabalhado em algumas edições do PL: 8, 19, 25 e 33. Cada contribuição traz aspectos exegéticos e teológicos importantes. Compartilho aqui minha contribuição.

O tema que perpassa o texto é o amor: o amor de Deus e de Jesus Cristo pelos seres humanos. O novo mandamento apresentado em João 13.34-35 é aqui enfatizado e reforçado.

A tarefa que nos cabe neste final de semana é conectar o texto previsto à celebração do Dia das Mães. Há quem diga que essa é uma comemoração consumista. Há pessoas que gostariam de eliminar a comemoração desse dia nos cultos. Há também pessoas que preparam cultos em que a maternidade é romantizada, e há pessoas que preparam cultos em que a maternidade é apresentada como a coisa mais difícil do mundo. Proponho aqui que haja um saudável equilíbrio. Deixar de mencionar a data nos cultos do final de semana seria entregar toda a festa ao consumismo. Celebrar em demasia o dia pode causar dor em algumas mulheres que não puderam ser mães ou que optaram em não o ser. Então celebremos esse dia com carinho, cuidado, permanecendo no amor de Cristo.

2. Exegese

A perícope encontra-se dentro do “discurso de despedida” de Jesus (Jo 13-17). Segundo Gottfried Brakemeier, “de um modo geral, as comunidades joaninas sofrem sob a sua condição de minoria hostilizada” (p.12). Nesse contexto, a insistência em permanecer no amor de Jesus, insistir na vida comunitária amando as outras pessoas, faz muito sentido. O amor de que fala o texto não é um mero sentimento, mas é um comprometimento com o bem-estar da outra pessoa. O auge desse amor seria dar a vida pela amiga ou pelo amigo.

Segundo Brian P. Stoffregen, a palavra agapao/agape é encontrada nove vezes no texto. Em todo o “discurso de despedida”, capítulos 13-17, o verbo aparece 24 vezes, e o substantivo, seis vezes.

O verbo no texto refere-se:

1. Ao amor de Deus por Jesus (v. 9, veja também 17, 23, 24, 26)

2. Ao amor de Jesus pelas pessoas que o seguem (v. 9, 12 e 13.34)

3. Ao amor entre os discípulos e as discípulas (v. 12, 17 e 13.34-35).

O substantivo refere-se:

* ao amor de Jesus (v. 9, 10)

* ao amor de Deus (v. 10)

* ao amor humano que dá sua vida pelas pessoas que ama (v. 13).

Intimamente ligado ao amor (agapao/agape) está o termo amigo/amizade – phileo/philos (v. 13, 14, 15). Gail R. O’Day airma que João 15.12-15 é a passagem central para uma teologia da amizade em João. Segundo ele: “Essas duas dimensões de amizade no mundo antigo – o presente de doar sua vida por um amigo ou amiga e o uso de linguagem franca e aberta entre pessoas amigas – informavam a maneira com que o Evangelho de João e seus leitores e leitoras entendiam a linguagem sobre amizade”.

Não há nenhuma referência no texto quanto a amar a Deus ou a Jesus. A ênfase do texto está no amor de Deus pelos seres humanos e no amor entre esses. Podemos destacar aqui o v. 16: “Não foram vocês que me escolheram, mas fui eu que escolhi vocês”. A comunidade de Jesus não precisa fazer nada, nem pode, para conquistar o amor de Jesus. Já existe uma amizade entre essas pessoas e Jesus; ele as conhece. O pedido de Jesus é que permaneçam no seu amor e que amem uns aos outros e umas às outras. Isso sim é tarefa e possibilidade dos seres humanos.

3. Meditação

Jesus não fala com os seus de cima para baixo. Jesus fala-lhes em amizade. Lembra as coisas importantes numa amizade: a disposição de oferecer-se por outra pessoa e a franqueza.

Chama atenção a radicalidade do texto: “ninguém tem mais amor pelos seus amigos do que aquele que dá a sua vida por ele” (v. 13). Pouca gente hoje realmente precisa fazer essa escolha. Jesus a experimentou. Jesus preferiu perder a sua vida do que negar a Deus e seus amigos e amigas. Jesus fez isso de uma vez por todas. Fez também por nós.

Muitas mães entendem (e assim aprenderam na sociedade patriarcal) que ser mãe é entregar a sua vida pelos filhos e pelas filhas. Aprenderam que, ao se tornarem mães, deixam de ser mulheres. É preciso tomar muito cuidado para não relacionar facilmente o amor e a amizade da qual Jesus está falando com as mães. É bem verdade que a maternidade exige sacrifícios.

Quem escolheu ser mãe e preparou-se para tal assume a responsabilidade de colocar as necessidades de seu bebê acima das suas. Quando isso não acontece, há problemas e consequências sérias. Mas isso não precisa ser visto como “dar a vida”. Não precisa ser exaltado como a coisa mais difícil do mundo. Sim, é difícil, é cansativo, enche o saco, mas não é isso que é a maternidade.

Ser mãe, para quem escolheu ser mãe, para quem estava preparada para ser mãe, é algo maravilhoso, uma bênção que não pode ser medida. Ser mãe é algo que muda a vida de cada mulher e de cada homem, porque sempre que há uma mãe, também há um pai.

Precisamos também lembrar que nem todas as mulheres nasceram para ser mães, nem todas querem ser mães, nem todas conseguem ser mães e nem todas precisam ser mães. Podemos auxiliar para que esse dia seja de celebração da vida ou podemos causar que esse dia seja uma verdadeira tortura para todas aquelas mulheres que por uma ou outra razão não são mães.
Escolher as palavras sabiamente nesse dia é muito importante. É preciso sabedoria para lembrar com carinho do dom de dar à luz e da importância do amor e cuidado de uma pessoa para com essa tarefa. Mas também é preciso manter um saudável equilíbrio com a ideia de que ser mãe não é profissão e que a maternidade há muito tempo deixou de ser o único sonho para muitas mulheres. É preciso sabedoria para não romantizar a maternidade e muito menos infligir um sentimento de culpa maior ainda sobre as mães no caso das coisas não darem certo com as crianças. Mães já se sentem culpadas na maioria do tempo. Não precisam que ninguém reforce isso, muito menos em nome de Deus.
Podemos resgatar aqui as palavras do v. 16: “Não foram vocês que me es- colheram, mas fui eu que escolhi vocês”. Na maternidade, também não é possível escolher que “tipo” de filho ou filha vamos ter ou como vão ser quando cresce- rem. Não são os filhos e filhas que escolhem mães e pais, mas são mulheres e homens que escolhem, na melhor das hipóteses, ser mães e pais.
Não dá para fugir das mães nesse dia. Há uma expectativa no ar. Mães também não vêm perfeitas e nem são perfeitas. Mães erram. Mães cansam. Mães precisam de tempo sozinhas. Mães têm sonhos que não incluem as crianças e, apesar de tudo isso, são mães que amam seus filhos e filhas. Usando as palavras do texto, permanecer no amor não é ficar grudada o tempo todo, o tempo todo somente dedicada aos filhos e às filhas. Permanecer no amor é voar seus próprios sonhos e deixar filhos e filhas também fazerem isso. Não me refiro aqui ao abandono que muitas crianças sofrem, nem permitir que jovens tomem decisões que ainda não estão preparados para tomar. O Dia das Mães não pode ser um dia para glorificar as mulheres nem para supervalorizar o sacrifício que fazem pelos filhos e filhas.
Assim como no texto, Jesus pressupõe que já haja uma amizade entre ele e sua comunidade. Jesus pede que amem uns aos outros e umas às outras. Na família também é assim. Já há um amor entre as pessoas, elas precisam somente ser relembradas desse amor. E não aquele amor só de um dia, de dar presente caro e depois esquecer o resto do ano. Amar é permanecer no amor. É amar mesmo quando a outra pessoa ainda não sabe o que é isso. Amar é também se valorizar. Por ser mãe, não é preciso sofrer tudo calada, aguentar violência. Ser mãe e pai é encarar uma aventura.

Aventura não é escalar montanhas
não é atravessar desertos
não é preciso bravura
aventura não é saltar de avião
não é descer cachoeira
não é preciso tontura
aventura não é comer bicho vivo
não é beber aguardente não é preciso angustura
aventura não é morar em castelo não é correr de ferrari
não é preciso frescura aventura é tudo o que faz
uma pessoa tornar-se capaz de abrir mão da loucura
aventura é ser mãe e pai.

                                                  Martha Medeiros

4. Imagens para a prédica

A imagem da amizade entre Jesus e sua comunidade é algo bastante interessante, também quando acontece esse culto voltado ao Dia das Mães. Uma imagem marcante seria resgatar a necessidade de amizade entre as pessoas, também entre as mães. Não é fácil ser mãe. Há momentos de dúvida e desespero em todas as etapas. Ter a companhia de outras mulheres, mães e não mães, ajuda a manter a sanidade, a perspectiva, a esperança. Ter a companhia de amigas ajuda a não se sentir culpada o tempo todo. Gestos de amizade entre mulheres podem dar um tom diferente para esse dia. Podem dizer que ser mãe é uma escolha que não precisa acabar com outros sonhos e perspectivas de vida.

5. Subsídios litúrgicos

Invocação:

Em nome de Deus, que como bom pai e boa mãe nos atrai com laços de ternura; em nome de Jesus Cristo, que acolheu as pessoas rejeitadas e que também nos acolhe; em nome do Espírito Santo, que nos motiva e anima a ir ao encontro das nossas irmãs e dos nossos irmãos.

Kyrie:

Entre os gritos de socorro e os gemidos de sofrimento em todo o mundo, ouvimos a voz de muitas mães. Sejamos pessoas solidárias e clamemos com elas:

– Pelas mães que veem seus filhos e filhas perderem a vida em guerras, por aquelas que têm filhos e filhas desaparecidos, explorados ou que estão envolvidos no mundo das drogas e do álcool;

– pelas mães que não conseguem sustentar seus filhos e filhas com os seus rendimentos e que muitas vezes ficam sozinhas na tarefa de cuidar das crianças;

– pelas mães que sofrem violência dentro de casa, causada pelo marido ou companheiro e até pelos filhos e filhas.

C: Pelas dores deste mundo, ó Senhor... (Rodolfo Gaede Neto)

Bênção:

A bênção do Deus de Sara, Abraão e Hagar.

Bibliografia

BRAKEMEIER, Gottfried. Observações introdutórias referentes ao Evangelho de João. Proclamar Libertação. São Leopoldo: Editora Sinodal, 1982. v. 8.
O’DAY, Gail R. I have called you friends. Disponível em: <http://www.baylor. edu/content/services/document.php/61118.pdf>. Acesso em 09/07/14.
STOFFREGEN, Brian P. John 15.9-17. Disponível em: <http://www.crossmarks. com/brian/john15x9.htm>. Acesso 05/07/14.


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Autor(a): Marcia Blasi
Âmbito: IECLB
Área: Celebração / Nível: Celebração - Ano Eclesiástico / Subnível: Celebração - Ano Eclesiástico - Ciclo da Páscoa
Natureza do Domingo: Páscoa
Perfil do Domingo: 6º Domingo da Páscoa
Testamento: Novo / Livro: João / Capitulo: 15 / Versículo Inicial: 9 / Versículo Final: 17
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2014 / Volume: 39
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 34554
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