João 16.23-33

Prédica

João 16.23-33 - ROGATE - DIA DAS MÃES

(Jesus, prestes a ser preso, despede-se dos discípulos com um longo discurso, que finaliza com o trecho a seguir:) E naquele dia, vocês não me perguntarão nada. Em verdade, em verdade digo a vocês: se pedirem algo ao Pai, ele o dará a vocês, por causa do meu nome. Até agora, vocês ainda não pediram nada em meu nome; peçam e receberão, para que a sua alegria seja completa. Tenho lhes falado essas coisas por meio de figuras. Vem, porém, a hora, em que não mais falarei por meio de figuras a vocês, mas lhes falarei claramente a respeito do Pai. Naquele dia, vocês pedirão em meu nome, e não (lhes) digo que eu pedirei ao Pai por vocês. Pois ele mesmo, o Pai, os ama, porque vocês me amaram e creram que eu vim (da parte) do Pai. Eu vim do Pai e entrei no mundo; contudo, (agora) deixo o mundo e vou para o Pai. Disseram os seus discípulos: Olha, agora falas claramente e não empregas nenhuma figura. Agora vemos que sabes tudo e não necessitas de que alguém te pergunte; por isso, cremos que vieste de Deus. Respondeu-lhes Jesus: Agora vocês creem? Olhem: vem a hora - e já e chegada - em que vocês serão dispersos, cada qual ao seu lugar de origem, e me deixarão a sós. No entanto, não estou só, pois o Pai esta comigo. Falei essas coisas a vocês, para que tenham paz em mim. No mundo vocês passam por aflições, mas tenham bom ânimo, eu venci o mundo.

Prezada comunidade! 

Este domingo de hoje é um domingo duplamente festivo e bonito. Nas nossas famílias festeja-se hoje o Dia das Mães e na Igreja, o Domingo Rogate, o domingo em que se medita sobre a oração. São dois temas de que gostamos de ouvir; são dois temas também que precisamos ouvir. Não ha dúvida: o Dia das Mães é uma dessas festas, como Natal e Páscoa, em que o comércio faz a mala. E, não fosse esse aspecto lucrativo, talvez já teria sido esquecido. Mas, mesmo assim, eu acho o Dia das Mães uma ótima instituição. Pois eu acredito que o comércio, ao manter vivo o Dia das Mães pela propaganda, tem, sem o querer, um efeito benéfico: Nesta semana que transcorre antes do segundo domingo de maio, estou certo de que todos na família se lembram da mãe. E se tal não aconteceu durante o ano, naquela semana acontece. Os jornais obrigam. E, durante aquela semana, não há pai que não pense pelo menos uma vez: Mas é mesmo, a patroa anda se matando por aí, cuidando de mim, cuidando da filharada, ela bem merece um agradecimento. E, durante aquela semana, também não há filho ou filha que não pense: É, a me as vezes enche um bocado, já anda meio coroa e no entende mais muita coisa, mas é preciso reconhecer que ela se esforça bastante para eu viver e andar em dia; pensando bem ela é boa praça. Sim, e durante aquela semana talvez haver mães que não pensarão apenas na satisfação que o domingo lhes trará, mas que meditarão um pouco sobre as suas atividades de mãe, que perguntarão a si mesmas se estão realmente cumprindo com a tarefa que lhes cabe frente aos seus. Talvez estou sendo otimista demais; mas se essas coisas passarem pelo menos uma vez pela cabeça dos pais, dos filhos e das mães nesta última semana, se a propaganda do Dia das Mães conseguiu fazer com que os familiares pensem um no outro, sem qualquer egoísmo, o comércio está de parabéns, por isso é mérito seu, embora involuntariamente. 

II

Isso, por enquanto, no que toca o Dia das Mães. O outro assunto de hoje é a oração. E é ótimo que a Igreja nos mande falar sobre a oração neste dia. É ótimo, porque todos nós, provavelmente, andamos precisando muito de pensar, meditar e falar sobre esse assunto. Oração! É algo que hoje anda com cotação muito baixa. Nossa vida de oração em estado precário, precaríssimo - verdadeira calamidade. Vamos procurar passar em revista as diversas maneiras de orar, provavelmente praticadas pelas pessoas que aqui se encontram: 

a) Quanto à frequência: Há pessoas realmente assíduas, que oram pela manhã, à noite, e antes das refeições.Outros oram irregularmente, ás vezes à noite, outras vezes de manhã. Há os que oram no momento de aperto, de desespero; quando se esgotaram todas as possibilidades de ajuda, lançam mão da oração. E há também os que não oram nunca.

b) Também a forma das orações é a mais diversa. Alguns preferem as feitas por outros, tiradas do Hinário ou de poesias. Outros colocam suas orações numa roupagem própria, preferem falar com suas palavras. 

c) Mais importante, porém, do que a frequência e a forma, é o conteúdo das nossas orações. E talvez seja esse o ponto da nossa vida em que mais acentuadamente se revela o nosso pecado, o nosso egoísmo: No conteúdo de nossas orações. Muitas vezes, talvez até na maioria das vezes, nossas orações, que deveriam ser um diálogo com Deus, são um monólogo. Mais ou menos assim como as cartinhas que eu escrevia ao Papai Noel, quando criança: Querido Papai Noel, para o Natal eu quero: uma bicicleta, uma bola de couro, uma camisa do Colorado e um par de chuteiras com bico forte prá eu poder me cobrar da canelada que o Paulinho me deu da última vez! Tchau, um grande abraço.... Um monólogo! A oração como porta-voz dos meus apetites, do meu egoísmo. Se oramos assim, prezada comunidade, no estamos de fato falando com Deus, com o nosso Deus de Jesus Cristo. Quando oramos assim, Deus é para nós aquele gênio da lâmpada maravilhosa de Aladim, lembram-se? A gente esfrega a lâmpada, vem o gênio e atende a qualquer desejo. Deus não é assim. E essa nossa oração não é oração. É outra coisa. 

III

Mas vamos ver, então, o que é oração, como se deve orar. Este nosso texto diz bastante sobre isso, e eu vou tirar alguns aspectos, examiná-los com os senhores, para vermos o que esta errado na nossa oração pessoal e o que deve ser corrigido. 

Vocês pedirão em meu nome, 'diz Jesus aos discípulos. Se pedirem algo ao Pai, ele o dará a vocês, por causa do meu nome. Isso é sem duvida o mais importante. Quantas orações, aqui no culto, terminam assim: por Jesus Cristo, ou em nome de Jesus Cristo, teu Filho, nosso Salvador, Amém! E quantos não ouvem essas palavras, não lhes do atenção, achando até mesmo que fazem parte da linguagem meio caduca e cheia de nove horas que se emprega nos cultos. Para esses - e não são talvez a maioria? - em nome de Jesus Cristo não passa de uma fórmula pomposa, vazia de sentido. 

Mas Jesus tinha em mente bem outra coisa ao dizer: Vocês pedirão em meu nome. Orar, pedir em nome de Jesus significa orar, pedir, evocando, referindo-se, apoiando-se, apelando para Jesus Cristo. Significa dizer: Deus-Pai, para pedir isso, eu me fundamento em Deus-Filho. Significa dizer: Eu creio em Jesus Cristo; eu creio que em Jesus Cristo tu deste uma chance à Humanidade, a única chance; eu creio que em Jesus Cristo tu vieste trazer salvação à Humanidade; eu creio que em Jesus Cristo tu demonstraste que queres o bem dos homens, e no o mal! Eu creio que tudo o que fizeres comigo será, em última instância, para o meu bem; eu creio que em Jesus Cristo tu já atendeste de maneira cabal, absoluta e completa tudo aquilo que meus lábios jamais ousariam pedir; sim, eu creio que em Jesus Cristo tu já me deste muito mais do que tudo o que eu jamais seria capaz de pedir. Por isso eu me apresento diante de ti em nome de Jesus Cristo, por isso eu sei que me amas muito mais do que eu espero e mereço, por isso te peço em nome de Jesus Cristo. Isso é o que quer dizer, prezada comunidade, orar em nome de Jesus Cristo, eu gostaria que tivessem sempre tudo isso em mente, quando aqui no culto for pronunciada essa f6rmula, aparentemente vazia de sentido: por Jesus Cristo, Amém. 

IV

Pois bem, e partindo deste em nome de Jesus, que deve ser o fundamento, o ponto de partida e a meta de toda oração nossa, tanto pessoal, em casa, como coletiva, aqui na igreja; partindo daí, podemos tirar importantes conclusões sobre o conteúdo de uma oração cristã legítima. 

Orar em nome de Jesus também quer dizer que quando falamos com Deus em oração, não precisamos vasculhar nossa vida à procura de méritos, para poder então dizer: Olha, Deus, ultimamente eu não tenho andado tão mal assim; eu ajudei na Campanha do Quilo, ainda ontem dei um pedaço de pão a um pobre, preparei uma linda surpresa para a Mãe e não faltei quase a um culto, nos últimos tempos. Bem, agora, então, tu também poderias cooperar e dar uma mãozinha, não é? Amém! Quem ora em nome de Jesus Cristo não precisa disso. Não precisa e não deve. Aliás, já pensaram o que aconteceria, então, se não encontrássemos méritos? Mas nós podemos dizer: Por Jesus Cristo, pelos méritos dele. E por Jesus Cristo qualquer um pode orar, por mais desmerecedor que se sinta. 

Orar em nome de Jesus também significa que quando falamos com Deus em oração, esta não é o porta-voz do nosso egoísmo. Pois, se oramos em nome de Jesus - se afizermos honestamente - só podemos começar nossa oração com um agradecimento, com um louvor sem limites pelo que Deus fez por nas, em Jesus Cristo. Assim como no Pai Nosso: Pai Nosso, que estas no céu, santificado seja o teu nome, venha o teu Reino, seja feita a tua vontade... Orar em nome de Jesus Cristo significa pensar primeiro em Deus. 

E como podemos orar em nome de Jesus Cristo, sem pensar, antes de nós mesmos, no nosso próximo? Por isso, uma oração honesta em nome de Jesus sempre será também uma intercessão pelo outro, que também é algo do amor de Jesus. É por isso que a intercessão ocupa um lugar destacado no nosso culto, na oração final. 

E então, sim, prezada comunidade; então oraremos também por nos. Depois de termos agradecido e louvado a Deus, depois de termos intercedido pelo nosso semelhante, depois disse chegaremos a Deus com as nossas súplicas, com os nossos pedidos bem pessoais. Deus quer ouvi-los todos. E, nesse ponto, apenas duas observações: Nossa oração não será honesta, se no for acompanhada da ação, de nossa parte. isto é, eu não estarei orando, mas mentindo, se disser: Meu Deus, ajuda os famintos e miseráveis - e ficar de braços cruzados, sem mexer um dedo; ou se disser: Meu Deus, me ajuda a passar nesse exame - e for namorar ou jogar futebol, sem dar uma olhada na matéria. Oração sem ação é mentira. 

A outra observação é esta: Sobre tudo o que orarmos e pedirmos estejam essas palavras do Pai Nosso: Seja feita a tua vontade. Em letras maiúsculas, garrafais. Ele é que sabe, melhor do que nos, o que realmente precisamos. Deus mostrou que só quer sempre o nosso bem. E isso também é válido e é verdade quando ele deixa de atender um pedido concreto nosso. Ele terá suas razões. E, por Jesus Cristo, sabemos que só podem ser boas razões.

V

Para finalizar, voltemos ao Dia das Mães. Existe algum ponto de contato entre o nosso assunto de hoje, a oração, e o Dia das Mães? Sem dúvida, não é mesmo? Se é verdade que a intercessão por outros é um elemento fundamental da oração realizada em nome de Jesus, isso deve valer de modo especial neste dia. Nos, pais e filhos, nós, que somos alvo do amor, do carinho, do cuidado das nossas mães, devemos-lhes a nossa intercessão. Mais importante do que fazer-lhes uma bela surpresa neste dia, um buquê de flores ou um bonito presente, é intercedermos, orarmos por elas, para que Deus lhes dê forças para a sua tarefa que nem sempre é fácil; que Deus lhes dê amor, muito amor, e muita paciência conosco. E, antes de mais nada, cabe-nos agradecer a Deus por nos ter dado nossas mães. 

Mas também as senhoras, as mães, não devem permanecer caladas neste dia, aceitando apenas passivamente as atenções que lhes são endereçadas. Também para as senhoras este dia deveria ser em especial um dia de oração, de intercessão. Intercessão pelos seus, por aqueles que estão aos seus cuidados, por aqueles que precisam do seu amor, que estão sendo moldados por suas mãos. Cabe às senhoras, hoje, o pedido de que Deus lhes dê forças e capacidade para desempenhar corretamente sua importante tarefa. 

Que a oração em nome de Jesus Cristo seja a marca deste bonito dia festivo e de toda a nossa existência. Amém. 

Oremos: Senhor, Pai do nosso Senhor Jesus Cristo e por seu intermédio nosso Pai. Louvado sejas por nos permitires orar. Ensina e ajuda-nos a orar. E dá que acima de todos os nossos pedidos e desejos coloquemos a tua vontade. É o que te pedimos em nome de Jesus Cristo. Amém.

Veja:
Nelson Kirst
Vai e fala! - Prédicas
Editora Sinodal
São Leopoldo - RS
 


Autor(a): Nelson Kirst
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Páscoa
Perfil do Domingo: 6º Domingo da Páscoa
Testamento: Novo / Livro: João / Capitulo: 16 / Versículo Inicial: 23 / Versículo Final: 33
Título da publicação: Vai e fala! - Prédicas / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1978
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Prédica
ID: 20309
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Quando eu sofro, eu não sofro sozinho. Comigo sofrem Cristo e todos os cristãos. Assim, outros carregam a minha carga e a sua força é também a minha força.
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