João 16.33b - Coragem em meio as tribulações

Prédica

13/05/1945

CORAGEM EM MEIO AS TRIBULAÇÕES
João 16.33b
Dia das Mães, Porto Alegre1


A palavra que hoje ouvimos é uma das palavras de despedida de Jesus aos seus discípulos. Quer afirmar-lhes que ele ficará com eles, a sua comunidade aqui na terra, que o seu amor os guardará e sustentará — também ali, onde eles nada mais verão que os possa sustentar, onde se verão ameaçados de todos os lados, de ódio e inimizade por fora e da tentação por dentro, de desespero e medo. Em tudo isso estarão guardados em seu amor, serão mantidos por sua comunhão. Deixemo-lo hoje dizer-nos também a nós: Toda a vida de Jesus nos anuncia: Tende ânimo e coragem! Não temais! E a paixão e a morte de Jesus mais alto ainda nos dizem: Não temais! Não há mais motivo para teres medo! Podes e deves estar consolado. 

Mas, por que então não o somos? Por que se repetem sempre os momentos em nossa vida, em que sentimos temor? E, o que em tais momentos surge do nosso íntimo, mostra apenas o que latente sempre existe em nós. Uma criancinha pequena, deitada no seu berço ou nos braços de sua mãe, circundada por todos cuidados maternos, que em tudo pensaram que é necessário e bom, essa criancinha não precisa ter medo. Mas, pode acontecer que é dominada pela febre, que nos sonhos de sua fantasia passa por acontecimentos horríveis, não sabendo mais que está nos braços de sua mãe. Então ela tem medo, apesar de não ter motivo. O mesmo acontece conosco: não sabemos, ou esquecemos, onde estamos quando temos medo e nos sentimos desconsolados. Em tudo por que passamos, seja de alegria ou de pesar, sentimos algo que nos quer tirar a nossa segurança. Vemos fatos que não podemos compreender, que nos causam aflição, que nos mostram os nossos limites. Acontece o contrário do que esperávamos com toda a certeza. E, num certo dia, reconhecemos a nossa situação de ser humano entre outros seres humanos, trazendo consigo o destino da morte. E desde então faz-se ouvir aquele outro som em nossos corações, acompanhando, sempre mais forte, tudo o que fazemos: que virá um dia em que todos nós seremos completamente esquecidos, como se nunca houvesse existido o que agora de alegria e pesar nos preenche — e isso não seria capaz de tirar-nos toda a coragem? Aprendemos um dia que também aquilo que preenche e perfaz o sentido de nossa vida, passa e morre como nós mesmos. E neste dia desejávamos fechar os olhos e despedir-nos de toda atividade. A vida continua, mas sem alegria, sem brilho, sem esperança. O que somos nós, nossa pequena vida, do berço ao sepulcro, no decorrer dos milênios? 

Mas, nesta nossa vida humana, com os seus limites, com as suas incertezas, está também Cristo. Também ele passa por aflição, conhece o temor e a escuridão dos nossos caminhos. Não estamos sós. Ele está conosco. Não há aflição, não há desespero, no qual Cristo não estivesse também. Ele está conosco também na morte, mas vitorioso sobre a morte. Ele participa conosco de tudo que é humano, mas uma certeza nunca o abandona: a certeza de que o nosso tempo está envolvido pela eternidade de Deus; a certeza de que o nosso futuro, escondido para nós, é conhecido por Deus, do qual ele vem. Envolvido pela incompreensível escuridão de seu sofrimento ele sabe onde está, nas mãos de Deus, às quais ele mesmo se entregou. São as mãos de Deus que o levaram para as profundezas, e elas o sustentam, nelas está guardado.

Viver com Deus neste mundo, enfrentar com Deus todos os problemas e todas as dificuldades, passar com Deus também pela escuridão, estar com Deus no sofrimento e na aflição — e estamos consolados. Então ser-nos-á possível não temer mesmo onde tivéssemos motivo para temor. Porque então conosco é como com a criança que abre os olhos e vê que está nos braços da mãe, e agora sabe que os seus sonhos eram sonhos, mas o amor materno é a realidade que a envolve desde o princípio e permanece. Torna-se aqui visível o forte, o poderoso motivo, por que não precisamos temer: porque somos mantidos pelo amor de Deus. Não que a nossa vida, as experiências pelas quais passamos, nos dissessem isso. Da nossa vida não podemos deduzir que somos mantidos por um amor infinito e eterno. Antes o contrário. Mas, mesmo se for contra tudo que experimentamos, Deus é amor, porque Cristo nô-lo diz. Ele é o amor de Deus, eterno, infinito, que envolve céu e terra. Ele é o sentido, a finalidade de toda vida humana, de todo o mundo. E ele está conosco, e por isso nós estamos em caminho para a casa do Pai. Sabemos que estamos no mundo e por isso passamos por tribulações. Mas sabemos também que estamos com ele e ele conosco, e por isso tenhamos coragem em meio das tribulações. Por que não deveríamos poder dar passos firmes também pela escuridão, se ele, o primeiro e o último e o vivo, está conosco também na escuridão? No mundo passareis por tribulações. Mas tende bom ânimo: eu venci o mundo. Por isso não precisamos ser desconsolados.

O caminho de Deus em Cristo devemos nos imaginá-lo como um grande descer e subir. O ressuscitado disse uma vez a palavra: Eu estava morto — e eis que estou vivo de eternidade a eternidade. (Ap. 1,18) Eu estava morto — essa palavra descreve o descer, a grande condescendência de Deus. As nossas tribulações, em última análise, tem sua origem no fato de que sobre a nossa vida paira a morte. Morte é dissolução. Se considerarmos uma vida humana, percebemos em parte felicidade e alegria, em parte aflições, em parte cuidados e sofrimentos; percebemos uma vontade que quer fazer o bem, e percebemos a força que realiza o mal — e tudo isso somos nós. Falta-nos a última unidade. É a dissolução, a sombra da morte, que já agora está sobre nós. E Cristo está conosco. Ele não está longe, acima de nós, como o forte sobre os fracos — ele vai conosco, penetra inteiramente na vida, sobre a qual está a morte. Ele é o amigo dos pecadores, o irmão dos enfermos, e ele nos acompanha também para a morte. Não há profundeza de aflição e sofrimento, na qual não poderíamos lembrar-nos de que também Cristo se encontrou neste ponto, lutando, sozinho, com Deus. Unicamente se nos iludíssemos sobre o poder da morte, se nos considerássemos seguros, justos, infalíveis, fortes, capazes de enfrentar sozinhos a morte, somente então deveríamos pensar: aqui, onde eu agora estou, Cristo não esteve, e portanto não está comigo. Ele não chamou a si os justos, os seguros e fortes, não convidou os que estavam satisfeitos consigo mesmos, também não os que estavam satisfeitos com a sua própria religiosidade; porque os sãos não necessitam de médico, disse ele (Le. 5,31). Mas convidou e prometeu auxílio aos que estavam aflitos e carregados. Bem-aventurados os que sofrem, os pobres de espírito, os que têm fome e sede de justiça, os perseguidos. Deles é o reino dos céus. (Cf. Mt. 5,3-11) Cristo desceu aos infernos, levou o evangelho ao reino dos mortos! 

E eis que estou vivo de eternidade a eternidade — aqui temos a subida do caminho de Deus. Jesus é aquele que não pecou, tornando-se amigo dos pecadores. Ele está na morte, mas ele leva a vida ao reino dos mortos. Ele, unido com Deus, traz a unidade à nossa vida, une o criador com a criatura. Por isso, com ele, os cegos tornam a ver, os coxos caminham, os mortos ressuscitam. 

Seja qual for a situação em que tu te achares: justamente nela Cristo te procura para levar-te consigo. Nossa vida não precisa mais ser sem Deus e por isso desconsolada. Cristo veio ter conosco. E ele veio, não somente para mostrar-nos toda a nossa desgraça e miséria, mas para mostrar e dar-nos a sua misericórdia divina, infinita e eterna. 

Meus irmãos: hoje é festejado o Dia das Mães, e igualmente hoje é festejado em muitas igrejas o fim da guerra. Nós rogamos a Deus que Ele queira abençoar as mães de nossa comunidade e dar-lhes a certeza que não estão sozinhas com a sua grande tarefa, mas que Deus mesmo, em amor e misericórdia, lhes quer ser a fonte inesgotável de toda a força e todo o poder. 

E rogamos hoje a Deus, que é o Deus de toda misericórdia e de todo o poder, Ele queira ajudar a todas as mães que hoje enlutadas choram os seus filhos. Como comunidade daquele que chamou a si todos os tristes e aflitos, rogamos a Deus que Ele esteja perto do imenso número de aflitos e desesperados em todo o vasto mundo, de todos que passam por intensa escuridão sem esperança alguma, e que deles se compadeça. 

A nós todos Deus fortaleça a fé, para que com ela vivamos. Cristo nos diz: No mundo tereis tribulações; mas tende bom ânimo: eu venci o mundo.

1 A 8 de maio de 1945 terminou a II Guerra Mundial.

13 de Maio de 1945 (Exaudi), Porto Alegre

Veja:

Testemunho Evangélico na América Latina

 Editora Sinodal

 São Leopoldo - RS


 


Autor(a): Ernesto Theophilo Schlieper
Âmbito: IECLB
Testamento: Novo / Livro: João / Capitulo: 16 / Versículo Inicial: 13
Título da publicação: Testemunho Evangélico na América Latina / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1974
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Prédica
ID: 19592
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