João 18.33-37

Auxilio Homilético

20/11/1994

Prédica: João 18.33-37
Leituras: : Daniel 7.(1-12) 13-14 (15-28) e Apocalipse 1.4b-8
Autor: Carlos Musskopf
Data Litúrgica: Último Domingo do Ano Eclesiástico
Data da Pregação: 20/11/1994
Proclamar Libertação - Volume: XIX


1. Introdução

Estamos diante do Último Domingo do Ano Eclesiástico, também já chamado de Domingo da Eternidade e, atualmente, Cristo Rei.

O tema central do culto é o reinado de Cristo sobre a humanidade. Reinado eterno, proposto e inaugurado por Jesus mesmo, e permanente através dos séculos e dos tempos, apesar de não ter se consumado plenamente até agora, nem no sentido imanente tampouco no transcendente.

As duas outras leituras bíblicas indicam que a noção de um reino comandado por Deus já estava presente em Israel antes de Jesus e permaneceu presente. Se na terra, em sinais, ou como resultado de uma- intervenção radical de Deus, é uma questão aberta e polémica. Importante é resgatar que essas duas dimensões do reino estão presentes na Bíblia. Seria, portanto, uma redução do sentido bíblico excluir uma das alternativas. Mesmo porque elas não precisam ser excludentes, se vistas dialeticamente.

Não existe uma noção acabada do que seria o Reino escatológico nem de quem participaria dele, nem das condições para ter parte nele, nem mesmo de como se instalaria. No entanto, Jesus deixa claro que conhece as variantes, embora não se identifique completamente com nenhuma delas. O futuro e o presente que está acontecendo com Ele se fundem; o tempo (que distancia ou aproxima) não conta mais, deixa de existir, e não é mais empecilho para o reinado. Por isso, ainda que completamente transcendente, o Reino é completamente imanente. As pessoas e as estruturas estão definitivamente redimidas: incluídas no plano de salvação divino. Nas pessoas e nas estruturas foi incluído um sentido salvífico: podem contribuir para o bem e a justiça. Tanto que nada mais nem ninguém mais é sagrado ou profano por si ou em si, mas de acordo como estão ordenadas e relacionadas com Deus.

Parece que o grande vilão da história da paixão de Jesus Cristo, Pôncio Pilatos, percebeu isso. O diálogo que trava com Jesus o comprova.

2. Texto

O texto indicado abrange os w. 33 a 37 do cap. 18 do Evangelho de João. Penso que seria útil acrescentar a primeira frase do v. 38, a pergunta de Pilatos: Que é a verdade?, que permanece dentro da temática levantada por Jesus na perícope, a saber, o reino da verdade.

V. 33: Sabemos que Pilatos não era tolerante com os judeus. Mesmo assim, dialoga com o povo e depois inicia o diálogo com o acusado: Jesus. A pergunta que faz é cínica e nada inteligente.

V. 34: Jesus não entra no jogo de Pilatos e o coloca contra a parede; pergunta como ele se posiciona frente a Jesus; o que tem a dizer dele.

V. 35: Pilatos entende, mas se esquiva. Começa a levar a sério o diálogo. Agora quer saber o que Jesus diz de si mesmo.

V. 36: Colocadas as coisas no lugar, Jesus fala da acusação que sofre. Seu reinado não é desse kosmos — pois não se define por forças e valores conhecidos. Não deixa de ser reinado nesse mundo, só não é desse mundo. Importante é o uso da palavra kosmos. W. C. Taylor diz, entre outras coisas: o universo, o mundo (a soma das coisas criadas). Isto é, as formas atuais, sempre atuais, de organizar a convivência humana.

V. 37: Pilatos volta a pensar que é esperto. Parece que se surpreende com sua própria conclusão. Jesus coloca um espelho diante dele. Sua conclusão rebota nas palavras de Jesus. Enquanto que Pilatos tenta refazer-se, Jesus fala do critério de existência de seu reinado: a verdade.

V. 38: Essa expressão que Pilatos deixou escapar e que foi registrada por João é esclarecedora. Antes de voltar ao povo, que clama por mentiras, Pilatos pergunta pelo que realmente interessa. Na sua confusão, o gérmen da resposta.

3. Conteúdo

A teologia comprometida com as estruturas do mundo (kosmos) presente entende o Reino como totalmente futuro, escatológico. Com isso compactua com o espiritismo, à medida que não dá importância definitiva e determinante a essa vida, ao momento histórico que se vive. O Reino não é a mesma coisa que a realização da parusia. O Reino é tudo aquilo que salienta os valores vividos e pregados por Jesus Cristo, em oposição aos valores dominantes.

Nos últimos 4 mil anos, parece que os seres humanos não mudaram muito. Continua a haver pessoas vaidosas e humildes; ambiciosas e conformadas; inescrupulosas e com escrúpulos; egoístas e solidárias... Tudo isso é muito normal, muito humano. Mas as regras que organizam e regem a convivência foram elaboradas para beneficiar as pessoas mais astutas, eficientes, inescrupulosas. Essa é a realidade do mundo, essa ambiguidade tão humana e tão perversa. Jesus Cristo rompe com essa lógica interna e externa da criação. Faz o novo irromper no velho, que, mesmo assim, não desaparece. Continua firme e cada vez mais forte.

Logo após a morte de Jesus Cristo, a comunidade primitiva organizou-se e viveu da forma como tinha entendido a proposta do Mestre. O Reino do qual Jesus é Rei organiza-se na comunidade que vive nesse mundo, mas não é desse mundo. O luto de a comunidade ter se enganado quanto ao quando do juízo final não invalida o falo de que estava certa na troca radical de valores que protagonizou. Com o passar do tempo, a Igreja que se organizou a partir da comunidade primitiva esquece-se dela, desviando-se por diversas desculpas para voltar a este mundo e ter poder neste mundo. Hoje, nós que somos Igreja também vivemos a ambiguidade de ser e não ser do mundo. Somos do mundo à medida que nos acomodamos aos valores do mundo, que pregam a competência, a concorrência, a eficiência como valores absolutos, inquestionáveis, paradigmáticos. Não é verdade que esses valores irão proporcionar uma qualidade de vida melhor para a humanidade. O planeta Terra não aguenta um ritmo de produção e consumo como o adotado no assim chamado Primeiro Mundo. A afirmação de Jesus e a pergunta de Pilatos têm uma atualidade impressionante: o Reino expressa-se onde se expressa a verdade. Mas o que é a verdade? A verdade acontece onde as pessoas e as circunstâncias são colocadas diante de Deus e são tornadas provisórias. Deus é o centro e a fonte da verdade que questiona e transforma a realidade. Transforma à medida que perdoa, consola, ilumina, redime. Citando Pannenberg: A noção de Reino de Deus futuro e presente torna provisórias todas as formas e conceitos humanos. Não menos válidos e importantes, pois frutos da busca humana por tornar o mundo melhor, mas sempre abertos para serem questionados e transformados.

4. Prédica

A pregação pode ressaltar a busca da verdade num mundo (kosmos) organi¬zado para as mentiras. A busca ainda não é a realização plena da verdade, nem é parte da verdade, nem só sinal dela. À medida que se confronta com Deus, é elemento de transformação da realidade presente, a qual a noção de Reino tornou provisória.

Apontar claramente para os instrumentos da mentira, cristalizados na ideologia dominante, também é tarefa da prédica a partir desse texto.

Por fim, ela pode apontar para as transformações já efetivadas no mundo a partir da fé e da coragem de pessoas cristãs em nosso meio.

5. Orações

1. Confissão de pecados: Reconhecer que compartilhamos a mentira; que nos tornamos surdos para a pregação da verdade e da vida.

2. Coleta: Deus de amor e justiça, tua palavra confunde os poderosos e exalta os humildes. Não nos deixes ficar orgulhosos de nossa humildade, para que sempre ouçamos o evangelho da verdade.

3. Assuntos para intercessão: Orar para que haja equilíbrio entre os diferentes; firmeza da Igreja na sua tarefa evangelizadora; coerência dos fiéis entre a proposta de Deus em Jesus e a vida diária.

6. Bibliografia

GOPPELT, Leonhard. Teologia do NT. Vol. I, Sinodal/Vozes, 1983.
BRAKEMEIER,Gottfried. Reino de Deus e Esperança Apocalíptica. Ed.Sinodal,1984.
PANNENBERG, Wolfhart. Teologia y Reino de Dios. Ed. Sígueme, Salamanca, 1974.
BARCLAY, William. El Nuevo Testamento — Juan II. vol. 6. Ed. La Aurora, Buenos Aires, 1974.
TAYLOR, W. C. Dicionário do NT Grego. Juerp, RJ, 1980.


Autor(a): Carlos Musskopf
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Último Domingo do Ano Eclesiástico - Cristo Rei

Testamento: Novo / Livro: João / Capitulo: 18 / Versículo Inicial: 33 / Versículo Final: 37
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1993 / Volume: 19
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 16172
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