João 20.1-2, 11-18

25/07/1999

Prédica: João 20.1-2, 11-18
Leituras: Eclesiastes 4.1-3 e Atos 13.26-33
Autor: Carlos Luiz Ulrich e Claudete Beise Ulrich
Data Litúrgica: Dia de Maria Madalena
Data da Pregação:
Proclamar Libertação - Volume: XXIV
Tema:

1. Dia de Maria Madalena — qual é a importância deste dia para a comunidade cristã?

Já existem outros auxílios homiléticos que falam em parte deste texto: Proclamar Libertação, vols. VIII (Jo 20.11-18), XIV (Jo 20.11-18) e XVIII (Jo 20.1-9). Estes comentários trazem uma boa clareza exegética. Portanto, não entraremos em grandes detalhes da exegese. O nosso auxílio se deterá mais na mulher, a amiga, a companheira de todas as horas, a primeira testemunha do Cristo ressurreto, a apóstola dos apóstolos: Maria Madalena. Foi uma grata surpresa receber o convite de escrever um auxílio homilético para o Dia de Maria Madalena. De igual forma foi uma surpresa saber que existe um dia dedicado a Maria Madalena.

Esta será uma boa oportunidade para uma pregação inclusiva sobre a participação determinante das mulheres no testemunho da ressurreição, a boa nova do evangelho. Além de enfocar o importante papel da mulher na formação da comunidade, constatamos também a sua ligação com os outros discípulos de Jesus. À medida que a meditação avança no texto, descobrimos uma comunidade onde homens e mulheres desempenham um papel importante e equivalente na liderança da comunidade. No Evangelho de João descobrimos uma comunidade empenhada na complementaridade da liderança dos discípulos e das discípulas.

O que Maria Madalena tem para nos ensinar hoje? Quais são os desafios de sua ação para a nossa vivência em comunidade, para a nossa pregação do evangelho? O que significa ter uma data especial que alude a Maria Madalena?

2. Maria Madalena — presença fiel

No primeiro dia cia semana, Maria Madalena foi ao sepulcro de madrugada, sendo ainda escuro, e viu que a pedra estava revolvida. Então correu e foi ter com Simão Pedro e com o outro discípulo a quem Jesus amava, e disse-lhes: Tiraram do sepulcro o Senhor e não sabemos onde o puseram. (Jo 20.1-2.)

A cena inicia com uma indicação de tempo, que não é uma mera datação formal. É para ressaltar que já passou o sábado. Para entender essa ida de Maria Madalena ao sepulcro, no primeiro dia da semana, é necessário ressaltar que ela estava junto na cena da crucificação. “ E junto à cruz estavam a mãe de Jesus, a irmã dela, e Maria, mulher de Clopas, e Maria Madalena. (Jo 19.25.)

Ela vai até o sepulcro, de madrugada, quando ainda está escuro. A situação do momento, madrugada, escuro mostram, na verdade, como está Maria Madalena. Ela também está tremendamente triste, sem perspectivas, sem esperanças. Parece que tudo acabou no sepulcro. Já é de madrugada, já raiou um novo dia, mas para Maria Madalena ainda é noite escura.

Ela vai entre temor e esperança... Esse gesto é importante... É um gesto de extrema coragem. Ela mostra toda a sua fidelidade. Ela vai, apesar de toda a tristeza e sofrimento. Chegando ao sepulcro, tem uma grande surpresa: a pedra estava revolvida''.

Então ela correu e foi ter com Simão Pedro e o outro discípulo a quem Jesus amava e disse-lhes: Tiraram do sepulcro o Senhor e não sabemos onde o puseram. Maria Madalena usa o verbo no plural: não sabemos. É provável que houvesse mais mulheres com ela naquele momento. O fato de não mencionar os nomes dessas mulheres acentua o papel e a importância de Maria Madalena.

Maria Madalena pensa em roubo. Então os outros dois discípulos também correm... O Evangelho conta que o discípulo amado é o primeiro a chegar ao sepulcro depois de Maria Madalena, sendo o primeiro a crer na ressurreição: e viu e creu (Jo 20.8). O discípulo Pedro é apresentado como aquele que viu o lenço que estivera sobre a cabeça de Jesus e os lençóis (Jo 20.6-7).

Homens e mulheres correm até o sepulcro, encontrando-o vazio. Ambos participam do evento da ressurreição. Um complementa o outro. No entanto, os discípulos voltam outra vez para casa e nada dizem aos outros daquilo que viveram e presenciaram. A partir daí a ênfase da narrativa recai sobre nossa personagem, Maria Madalena.

3. Maria Madalena — semente de resistência

Maria, entretanto, permanecia junto à entrada do túmulo, chorando. Enquanto chorava, abaixou-se e olhou para dentro do túmulo, e viu dois anjos vestidos de branco, sentados onde o corpo de Jesus fora posto, um à cabeceira e outro aos pés. Então eles lhe perguntaram: Mulher, por que choras? Ela lhes respondeu: Porque levaram meu Senhor, e não sei onde o puseram. Tendo dito isto, voltou-se para trás. e viu Jesus em pé, mas não reconheceu que era Jesus. Perguntou-lhe Jesus: Mulher, por que choras? a quem procuras? Ela, supondo ser ele o jardineiro, respondeu: Senhor, se tu o tiraste, dize-me onde o puseste, e eu o levarei. Disse-lhe Jesus: Maria! Ela, voltando-se, lhe disse, em hebraico: Rabôni! que quer dizer. Mestre. Recomendou-lhe Jesus: Não me detenhas; porque ainda não subi para meu Pai. mas vai ter com meus irmãos, e dize-lhes: Subo para meu Pai c vosso Pai, para meu Deus e vosso Deus. Então saiu Maria Madalena anunciando aos discípulos: Vi o Senhor! e contava que de lhe dissera estas cousas. (Jo 20.11-18.)

Após a saída dos dois discípulos, Maria Madalena permanece junto à entrada do sepulcro. Ela chora. Porém não é um choro de lamentação. Ela derrama lágrimas de resistência e de busca. Ela é aquela semente fiel, que sintetiza as buscas da comunidade cristã, ansiosa por vida em abundância (Jo 10.10).

Ela não se conforma. Procura. Isto nos revela a expressão enquanto chorava, abaixou-se e olhou para dentro do túmulo. Os verbos podem também demonstrar toda a humildade de Maria Madalena. É necessário chegar às profundezas da dor para entender a novidade da vida. A cruz não pode ser separada da ressurreição.

Na cena anterior, ela só viu a pedra revolvida, ficando desesperada, e, por isso, saiu correndo para avisar os outros discípulos. Os outros dois discípulos também se abaixam, mas só enxergam os lençóis... e vão embora. O Evangelho até conta que o discípulo amado viu e creu. No entanto, eles não são persistentes o suficiente. Por isso, voltam para casa.

Agora, Maria Madalena também se abaixa.... consegue raciocinar melhor... não adianta sair correndo... é necessário enfrentar a situação. Ela não vê lenço e lençóis dentro do túmulo. Vê algo novo: dois anjos, sentados onde o corpo de Jesus fora posto, um à cabeceira e outro aos pés (Jo 20.12). E são os anjos que lhe dirigem a palavra e perguntam: Mulher, por que choras? A aparição dos anjos quer chamar a atenção para o fato de que a ressurreição foi algo totalmente novo.

Maria Madalena ainda não consegue perceber o que aconteceu. Ela conti¬nua pensando em roubo e responde: Porque levaram meu Senhor, e não sei onde o puseram. Volta à situação inicial (Jo 20.2b).

Ela se volta para trás e vê Jesus em pé, mas ainda não o consegue reconhecer. Ele lhe dirige também a palavra e, como os anjos, pergunta igualmente: Mulher, por que choras? Jesus, no entanto, acrescenta mais uma pergunta: A quem procuras?

Ela como mulher é importante. As suas lágrimas são importantes. Ela como mulher não é inferiorizada. As suas lágrimas são levadas a sério. A sua dor é levada a sério. Mulher, por que choras?

O que faz essa mulher chorar é a ausência de seu Mestre, li não saber como locar a vida para a frente. Maria Madalena representa a comunidade crista numa encruzilhada: e agora, como seguir? As lágrimas mostram a sensibilidade... a humanidade de Maria Madalena e da comunidade que representa. Quem desabafa, quem chora, quem não se esconde atrás de máscaras está disposto a um novo começo. Maria Madalena representa essa busca do novo. Representa aquela presença fiel que não se conforma, aquela semente de resistência.

A expressão 'a quem procuras?' tem ligação com seguimento, no sentido de que Maria Madalena é uma discípula que procurava Jesus (Wanda Deifelt). No entanto, ela ainda não consegue sair da sua situação inicial e responde: Senhor, se tu o tiraste, dize-me onde o puseste, e eu o levarei. (Jo 20.15.) Supõe que esteja falando com o jardineiro. Ainda não consegue ver o novo, quanto mais o seu Mestre. Ainda só consegue ver a escuridão da madrugada... O sol ainda não raiou.

4. Maria Madalena — desperta! Ela é chamada pelo seu nome!

Mas, de repente, algo muda. Jesus a chama pelo nome: Maria! Quando ela escuta o seu nome é como se seus olhos e o seu coração se abrissem... A partir deste momento se dá o reconhecimento. Na parábola do Bom Pastor (Jo 10.3-5) o quarto evangelista compara os discípulos com ovelhas que conhecem a voz do pastor, quando ele as chama pelo nome (Ana Maria Tepedino). Aqui. Maria Madalena é apresentada como uma verdadeira discípulo. Jesus a chama pelo nome ' 'Maria'' e ela reconhece a voz do seu Mestre querido.

Ela toma consciência do novo e responde, em hebraico: Rabôni!, que quer dizer Mestre. Quando Maria Madalena é chamada pelo seu nome é como se toda a sua história viesse à tona.
Ter um nome é ter uma identidade. É ter uma história. É ter um rosto. É sair do anonimato. Maria Madalena, então, se dá conta do que aconteceu e responde como uma discípula que reconhece o Senhor ressuscitado como seu Mestre.

5. Jesus confia a Maria Madalena uma missão apostólica

Jesus conhece o coração e a tendência humana. Por isso ele recomenda: Não me detenhas; porque ainda não subi para meu Pai, mas vai ter com os meus irmãos, e dize-lhes: Subo para meu Pai e vosso Pai, para meu Deus e vosso Deus.(Jo 20.17.) A tendência de Maria Madalena seria de abraçar e pedir: Jesus, fica aqui conosco.

Mas com o não me detenhas Jesus mostra um novo relacionamento a Maria Madalena. Esse novo relacionamento se dará na vivência comunitária. Não é mais possível tocar e ungir Jesus, mas é possível proclamá-lo. E por isso o Mestre dá uma ordem à sua discípula fiel: Vai ter com meus irmãos e dize-lhes: Subo para meu Pai e vosso Pai, para meu Deus e vosso Deus...

Maria Madalena! Está na hora de transformar as lágrimas em ação. Por isso, Jesus a envia: Vá; ter com meus irmãos, conta-lhes sobre a ressurreição e também sobre a minha ascensão. O Mestre Jesus fala, então, dessa nova relação carinhosa e engajada que continuará presente na vivência da comunidade, que vive a partir do Cristo crucificado e ressurreto. Jesus continuará presente através da presença de meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus... E o mesmo Deus que continuará agindo na vida e na história.

Maria Madalena parte em missão apostólica. Ela anuncia aos discípulos a boa nova: Vi o Senhor. Além de ter sido a primeira testemunha do Cristo ressurreto, reconheceu a voz do seu Mestre, foi enviada por Jesus para dar testemunho da ressurreição. Ela é uma apóstola. É uma apóstola enviada aos discípulos. Portanto, torna-se apóstola dos apóstolos (Wanda Deifelt).

6. A importância de Maria Madalena

Maria Madalena acompanha Jesus desde o início de sua missão (Lc 8.1-3). Lucas 8.2 a apresenta entre as mulheres que foram curadas de espíritos malignos e enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual saíram sete demônios. Madalena porque era da cidade de Mágdala (na parte nordeste do lago da Galiléia, aproximadamente a 7 milhas a sudeste de Cafarnaum) (Ana Maria Tepedino).

O Evangelho conta que ela fora curada por Jesus. Quando o Evangelho fala em possessão de demônio normalmente se refere a uma doença mental, provavelmente epilepsia. Maria Madalena provavelmente sofria de uma doença mental. O número 7 é um número simbolicamente muito forte. Portanto, os sete demônios expulsos querem significar que Maria Madalena ficou inteiramente curada e se tornou uma pessoa saudável e integrada, que podia participar da sociedade. Jesus a curou trazendo-lhe a vida e salvação. Ela começou a segui-lo com outras mulheres que foram por ele curadas.

Os evangelhos acentuam a participação de Maria Madalena, mostrando assim que ela era uma liderança forte na comunidade. No Evangelho de Marcos ela aparece acompanhada de Maria, mãe de Tiago, e de Salomé. Em Mateus está junto com outra Maria. Em Lucas está junto com outra Maria, além de Joana e outras mulheres. Em João e na conclusão posterior de Marcos Maria Madalena aparece sozinha. Os textos de Jo 20.11-18 e Mc 16.1-8 tratam do seu encontro particular com Jesus. São narrativas que afirmam seu lugar único na história cristã.

Além de se encontrar com Jesus ressuscitado, ela recebe o mandato de ir falar aos seus irmãos da ascensão dele ao Pai. Jesus aparece, pois, enviando Maria Madalena (Jo 20.17) na missão de anunciá-lo como ele havia anunciado o Pai: meu Pai-vosso Pai, meu Deus-vosso Deus.

Segundo Ana M. Tepedino, a palavra enviar, apostello, ocorre como termo técnico para enviar em missão, assim como ocorre em Jo 4.38 e 17.18, quando Jesus envia os apóstolos. Desse modo, ele lhe confia uma missão apostólica. Jesus aparece, portanto, enviando mulheres (Jo 4.38; 20.17) e homens (Jo 17.18) na missão de anunciá-lo, como ele havia anunciado ao Pai.

Maria Madalena, portanto, é apóstola dos apóstolos, e por dois motivos, segundo argumenta Fiorenza, citada por Ana Maria Tepedino (p. 106): l -Porque descobre o túmulo vazio e vai chamar os apóstolos; 2 - porque foi a primeira testemunha da ressurreição e vai anunciar aos irmãos que Jesus está vivo.

Ela é uma discípula fiel. Junto com outras mulheres acompanha Jesus desde a Galiléia, fica junto nas horas de dor na cruz. Ela é a primeira a descobrir o sepulcro vazio. Chama os discípulos. Encontra-se com o ressuscitado. Reconhece a sua voz. Recebe a missão de levar esta mensagem aos irmãos. Cumpre esta tarefa.

Maria Madalena, mulher, endemoninhada, curada por Jesus, é a discípula fiel e apóstola dos apóstolos. Deus mostra, mais uma vez, que é na fraqueza, na resistência, em meio às lágrimas que ele se revela, assim como foi no êxodo. Também lá as mulheres tiveram um papel destacado. A libertação inicia com a história das parteiras e encontra seu auge no cântico de vitória de Miriã.

Maria Madalena, na verdade, nos mostra a valorização da mulher na comunidade primitiva, como também a participação comprometida de homens e mulheres no ministério de Jesus.

7. O Evangelho de João tem um sabor diferente!

Os evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas podem ser situados entre 70 e 80 d.C. O Evangelho de João é bem mais recente. Há estudiosos que até pensam nos primeiros decênios do séc. 2 (entre 100 e 120 d.C.). Quando foi concluído, as comunidades já tinham atrás de si a caminhada de alguns decênios, e mais: de várias gerações.

O Evangelho de João se caracteriza não só pelas colocações de Jesus que começam com Eu sou.... Essa comunidade se caracteriza também pela ênfase no amor. Muitas passagens aludem a este tema. A comunidade joanina é uma comunidade que está empenhada em viver o amor em todas as suas dimensões. Cremos que esta característica mostra uma comunidade empenhada na busca da solidariedade, da complementaridade no discipulado, da valorização tanto do homem como da mulher... numa comunidade empenhada pelo anúncio vibrante e alegre da ressurreição. E é isto que constatamos através da presença marcante de outras mulheres que, ao lado de Maria Madalena, espalham o perfume da esperança e da vida.

8. Presença marcante das mulheres no Evangelho de João

A mulher desde o começo vai se destacando pela sua companhia, pela sua presença, pela sua participação, por sua ousadia, coragem e determinação. O ministério público de Jesus inicia e termina com a presença marcante das mulheres.

Em Jo 2.1-12 Jesus está com sua mãe numa festa de casamento, em Cana. O milagre acontece por insistência de Maria, sua mãe. Assim inicia o ministério público de Jesus.

O cap. 4.1-38,39-42 de João conta-nos sobre o encontro de Jesus com uma samaritana. Jesus conversa com a mulher na beira de um poço, pedindo-lhe o alimento para a vida: água. Inicia, assim, um profundo diálogo entre Jesus e a mulher samaritana. Esse diálogo encontra o seu clímax na revelação de Jesus a ela de que ele é o Messias, chamado Cristo (Jo 4.25-26). A mulher samaritana confessa que Jesus é o Salvador do mundo. Ela é a primeira a receber a revelação messiânica. A partir desta revelação ela sai anunciando. E muitos crêem a partir do seu testemunho.

O cap. 8.1-11 nos conta sobre o encontro de Jesus com uma mulher adúltera. A partir desse encontro Jesus questiona a aplicação da lei de Moisés, defendendo o cumprimento da lei de forma igualitária tanto para homens como para mulheres.

Um dos milagres mais importantes de Jesus foi a ressurreição de Lázaro (Jo 11.1-46). O texto nos conta que, ao saber que Jesus estava vindo, Marta sai correndo ao seu encontro. Ela tem a iniciativa do diálogo. É em meio à dor da perda que Jesus se revela em 11.25: Eu sou a ressurreição e a vida. Marta confessa a sua fé de forma decidida (11.27): Eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus que veio ao mundo. A resposta de Marta diante da revelação de Jesus sintetiza toda a cristologia dos evangelhos.

O mais importante é que a sua confissão de fé é repetida no final do Evangelho em Jo 20.31, quando o evangelista expressa a finalidade para a qual escreveu o Evangelho: Estes foram registrados (os sinais) para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome.

Maria de Betânia mostra a prática da verdadeira discípula. O texto de Jo 12.1-8 nos conta que Maria unge os pés de Jesus com um perfume caríssimo e os enxuga com os seus cabelos. Maria executa uma ação profética que será o símbolo do específico cristão: o serviço, a prática do amor ágape deve ser a atitude de todos os verdadeiros discípulos. A contraposição de Maria de Betânia a Judas Iscariotes (Jo 12.6) desacredita não só a este, mas a todos os que se opõem ao ministério das mulheres.

Junto com Jesus, na hora da sua morte, estavam junto à cruz a mãe de Jesus, a irmã dela, e Maria, mulher de Clopas, Maria Madalena e o discípulo amado (Jo 19.25-27). As mulheres e o discípulo amado são os únicos que permanecem junto com Jesus até o fim.

Portanto, o Evangelho de João não só dá um papel de destaque a Maria Madalena, como também apresenta outras mulheres atuando de forma decisiva. O evangelista João dá destaque ao discipulado e à prática desse discipulado. O amor ágape deve ser a moldura mais importante de qualquer prática e ação.

As mulheres são valorizadas. Elas ocupam o seu lugar. Têm o seu jeito próprio de manifestar o discipulado. Elas têm a mesma importância que os discípulos. O Evangelho de João nos mostra que o círculo dos discípulos não se limita somente aos 12 homens, mas inclui também mulheres. As mulheres estão intimamente ligadas com a esperança, com a alegria, com o perfume que deve se espalhar por todos os lugares... enfim, com a busca da vida em abundância para homens, mulheres, crianças, idosos, portadores de deficiência.

9. Impulsos para a celebração

O texto de Ec 4.1-3 traz o elemento das lágrimas e o texto de At 13.26-33 coloca a questão da fé na ressurreição. Nossas lágrimas ganham um novo sentido quando se trata da ressurreição de Jesus, da promessa da sua presença concreta entre nós. Assim como aconteceu com Maria Madalena. Ela foi persistente, foi fiel até o fim... por isso encontrou-se com o Cristo ressuscitado e foi portadora desse grande anúncio de vida para os discípulos e toda a comunidade. Maria Madalena vê suas lágrimas transformadas em desafio para a vida nova, vida que nasce da fé no Cristo crucificado e ressurreto para toda a comunidade. Suas lágrimas recebem um desafio — viver essa nova relação com a comunidade.

Sugiro fazer um levantamento entre os grupos da comunidade sobre a pergunta: o que nos faz chorar, derramar lágrimas? O que nos dá força para ir além, superar as lágrimas? Aqui, certamente, irão aparecer situações familiares, pessoais, comunitárias e sociais.
Usar na saudação o Salmo 126.1.

Na confissão de pecados, fazer um painel com as respostas das pessoas sobre o que nos faz chorar, derramar lágrimas. — Quais são as situações de sofrimento e pecado em nosso mundo? (Envolver pessoas da comunidade, quem sabe o grupo de liturgia...)

No momento da absolvição, formar um buque de flores no altar, colocando ali simbolicamente tudo aquilo que nos dá forças e fé para ir além das lágrimas, superando aquilo que nos deixa tristes.

Leituras bíblicas:

1) Chamar a atenção para a questão das lágrimas em He 4.1-3.
2) Resposta e força para a superação em At 13.26-33. Deus ressuscitou o seu Filho dentre os mortos.

Encenação da mensagem:
1) Iniciar falando sobre a vida de Maria Madalena. Mulher doente que foi curada por Jesus, tornando-se uma discípula fiel.
2) Cena da crucificação — presença marcante das mulheres e de Maria Madalena.
3) Primeira ida ao sepulcro.
4) Segunda ida ao sepulcro.
5) Destaque para a questão do nome: ser chamada, primeiramente, de mulher, depois de Maria. Maria chora... lágrimas de tristeza...
6) Aparição do ressuscitado... reconhecimento, chamado pelo seu nome.
7) Envio aos irmãos e irmãs.
8) Comunidade joanina — comunidade de irmãos e irmãs — destacar a participação de outras mulheres no ministério de Jesus.

Maria Madalena corre ao túmulo; os outros dois discípulos também correm — não há disputa! Há partilha! Há valorização da mulher! Encontramos na comunidade joanina responsabilidade igual tanto de homens como de mulheres. Percebe-se isto a partir dos cargos de liderança exercidos pelas mulheres. Encontramos no Evangelho de João um discipulado de participação mútua.

9) Termina-se a encenação com as seguintes perguntas: quem são as Marias Madalenas hoje? Como está a nossa comunidade? Procuramos nós vivenciar uma comunidade onde o discipulado é igualitário? As mulheres ocupam cargos de decisão na liderança da comunidade? Conseguimos, como comunidade cristã, ver além das nossas lágrimas?

10) Sugiro, para finalizar, dois testemunhos: a) de uma mulher engajada no trabalho da comunidade; b) de um homem engajado no trabalho da comunidade. (Podemos abrir a nossa visão de comunidade, abrangendo com ela a nossa atuação cristã no trabalho, no movimento popular...)

11) Sugestão: antes da oração de intercessão, fazer uma unção. Para a unção, usar óleo de oliva. Cada pessoa vem ao altar e a equipe de liturgia ajuda na unção, dizendo: Cristo vive e age através de ti. Cristo vive e age através de nós. (É importante que antes da unção se peça o nome de cada pessoa. A unção deve ser individual e nominal, lembrando que também Maria Madalena foi chamada por seu nome; somente assim ela reconheceu o Cristo ressuscitado e recebeu a missão de anunciá-lo à comunidade.)

Atenção: Será necessário preparar esta celebração com ires semanas de antecedência, envolvendo grupos e pessoas da comunidade.

Bibliografia

DEIFELT, Wanda. Maria Madalena: a testemunha da ressurreição. Palavra Partilhada : a mulher na Bíblia c sua luta hoje, São Leopoldo : CEBI-Sul, n. l, 1990.
PASTORAL DA MULHER POBRE. Mulher-comunidade : a nova mulher. Petrópolis : Vozes, 1988.
TEPEDINO, Ana M. As discípulas de Jesus. Petrópolis : Vozes, 1990.

Proclamar Libertação 24
Editora Sinodal e Escola Superior de Teologia


Autor(a): Carlos Luiz Ulrich e Claudete Beise Ulrich
Âmbito: IECLB
Testamento: Novo / Livro: João / Capitulo: 20 / Versículo Inicial: 11 / Versículo Final: 18
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1998 / Volume: 24
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 7153
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