João 20.19-25

Auxílio Homilético

30/03/2008

Prédica: João 20.19-25
Leituras: Atos 2.14a,22-32; 1 Pedro 1.3-9
Autor: Heinz Ehlert
Data Litúrgica: 2º Domingo de Páscoa
Data da Pregação: 30/03/2008
Proclamar Libertação - Volume: XXXII


1 Considerações exegéticas
O texto, seja na versão de Almeida, edição revista e atualizada no Brasil, seja na linguagem de hoje, não apresenta maiores problemas no tocante à tradução do original. Para a pregação sugiro incluir os v. 26 a 29 do cap. 20 no trecho, porque completam melhor a história com sua mensagem. Cabe observar que o assunto já foi tratado em volumes anteriores de PL (X, XIX, XXI, XXVII, XXIX e XXXI). Para quem tiver acesso, convém levar em consideração.
Quanto às aparições do ressurreto aos discípulos, o Evangelho de João apresenta dados específicos, no destaque dado à Maria Madalena e Tomé.
V. 19-23 – Faz a ligação com o trecho anterior (v. 11-18), localizando o horário “ao cair da tarde” do mesmo dia. As portas trancadas devem explicar, de um lado, o medo dos judeus (não só das autoridades, mas também do povo hostil) e, de outro, o estado do ressurreto, não mais sujeito às leis do tempo e do espaço. A saudação de paz, além de ser a habitual, reforça a familiaridade entre Jesus e seus discípulos. Aliás, “discípulos” aqui são os dez, sem Judas e Tomé (diferente daqueles que o abandonaram, cf. Jo 6.66-69).
Espontaneamente, Jesus mostra-lhes o sinal dos ferimentos: é idêntico aos do crucificado. Cumpre-se agora a promessa da alegria (ver Jo 16.20s.). Logo a aparição resulta em missão e legitimação (v. 21-22). Nesse momento trata-se da legitimação apostólica dentro da comunidade dos crentes. O que virá em Pentecostes é mais abrangente: é missão ao mundo (Mt 28.18s. e At 1.6-8; 2).
V. 24-29 – O presente trecho sobre Tomé pressupõe o anterior (v. 19-23). Agora se comunica que Tomé não esteve presente na primeira aparição aos discípulos. Ele já é conhecido dos leitores (Jo 11.16;14.5). Tem espírito crítico. Quer saber mais. A dúvida dele agora não se refere ao que os demais tinham visto (poderia ter sido alucinação), mas à afirmação de que Jesus vive. Incredulidade dos discípulos é relatada também nos sinóticos (Lc 24.11, 25, 38, 41; Mc 16.11, 13-14). Importante é como Jesus lida com ela: Vem ao encontro, não condena. Mesmo assim, a exortação de não ser incrédulo! Oferece a ele o que antes já mostrara aos dez, espontaneamente. Não se afirma que Tomé realmente tenha apalpado Jesus, mas “viu”(v. 29).
A exclamação de Tomé é uma confissão de fé. Não só depois de ver acredita na ressurreição, mas crê em Jesus como sendo Deus. Bem de acordo com o prólogo no Evangelho de João (1.1). O final do trecho (v. 29) aponta para o futuro, quando se requer uma fé em Cristo, sem sua presença visível, mas baseada no testemunho dos discípulos.

2 Meditando o texto
A comunidade que se reúne a portas trancadas retrata, ao mesmo tempo, uma igreja desanimada, sem coragem, mas principalmente preocupada com ela própria. Preocupada com sua segurança e com o futuro incerto num contexto hostil. Não é também o retrato de nossa igreja hoje? Quais são nossas preocupações? O que nos desanima e nos deixa sem coragem? Pode ser falta de crescimento numérico, podem ser brigas internas, pode ser falta de disposição para se engajar, pode ser pouca vontade de contribuir financeiramente ou engajamento para a missão. Mas pode também ser a situação econômica precária de muitos membros ou a crescente insegurança geral numa cidade com aumento da violência.
Sem dúvida, é de suma importância que a comunidade esteja reunida. Reunida para cultivar a comunhão e para apoio mútuo. Foi isso que aconteceu na tarde daquela memorável Páscoa, dia da ressurreição de Jesus. É lá na comunidade que é anunciada a boa-nova de que o crucificado ressurgiu, vive como Filho de Deus. É disso que também o encontro de Tomé fala.
Tomé é o retrato da pessoa crítica, que não se deixa levar por um entusiasmo infundado. Quer saber como as coisas realmente são. Mas quando tem um encontro com o Cristo vivo, confessa: “Senhor meu e Deus meu”. Jesus não condena pessoas como ele. Mostra compreensão. Mesmo assim, chama bem-aventurados os que não viram, mas creram. Essa vai ser, no futuro, a maneira das pessoas, confrontadas com o evangelho, chegar à fé: crer na pregação e no testemunho dos discípulos, de geração em geração, no poder do Espírito Santo. Assim poderá ser testemunhado e experimentado o que a cristandade confessa desde então: “... está à direita de Deus , Pai, todo poderoso ...” e olha por sua comunidade, intercede por ela. É a comunidade não de perfeitos, mas de pecadores justificados. Ainda são acometidos de medo, ainda caem em tentação. Mas ali mesmo na “comunhão dos santos” é anunciado e recebido o perdão dos pecados, mediante palavra e sacramento.
Nisso consiste também a singular alegria da comunidade cristã, prometida pelo próprio Salvador. Essa alegria não termina com a Páscoa. Ela acompanha os cristãos em meio aos problemas cotidianos, ao sofrimento e à insegurança do tempo presente e renova-se pelo louvor ao Senhor vivo. Então não se precisa fazer de conta ou fechar os olhos para os problemas, para a própria miséria e a de outros. Antes, inspirados no exemplo de Cristo, que morreu e ressuscitou, precisa apoiar-se e animar-se mutuamente.
A convicção do Cristo vivo e presente faz abrir “as portas trancadas”.A comunidade, qualquer comunidade, pode olhar para fora de seu gueto, sair dele para a missão que recebeu do Senhor ressurreto. “Ide, fazei, discípulos...” – é a grande oportunidade e o grande desafio da comunidade pascal. Até que ele venha...
Em nossos dias, diante do pluralismo religioso, precisamos despertar para essa tarefa. Evangelizar os batizados da própria igreja, mas simultaneamente abrir os olhos para os de fora. Aproveitar as oportunidades dentro de seu círculo de vida. Não sentir constrangimento em falar de sua fé, de sua participação na igreja. De falar que é luterano. Aqui cabe um papel especial para os chamados leigos. Homens e mulheres de qualquer idade. Fazem parte desse “sacerdócio real”, do “ministério compartilhado”. Pensar, pois, em nosso ambiente familiar, profissional, social e político. Mas cabe também participar das campanhas em âmbito sinodal e da igreja nacional.

3 Passos para uma pregação
Com os elementos contidos nas considerações exegéticas e na parte meditativa, que necessitam sempre do confronto do pregador ou pregadora com seu contexto específico, poderíamos chegar ao seguinte roteiro de uma prédica:
Tema: A Páscoa continua
Partes:
1) A comunidade (reunida) experimenta surpresas com a presença do Senhor ressurreto. É edificada. Experimenta perdão e é animada pela comunhão. Enche-se de alegria e coragem para continuar, apesar da situação em que vive.
2) A comunidade abre os olhos para a missão: as oportunidades e os desafios de testemunho em seu meio.
3) Os membros da comunidade, cada qual com seus dons, buscam equipar-se com os instrumentos do evangelho, mediante instrução e treinamento, oferecidos na “comunhão dos santos”, sob a direção do Espírito Santo.

Bibliografia
BÜCHSEL, Friedrich. Das Evangelium nach Johannes. In: Das Neue Testament Deutsch. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1949.
BÜLCK, Walter. Das Johannes-Evangelium und die Gegenwart. Hamburg: Agentur des Rauhen Hauses, 1947.
SCHNEIDER, Johannes. Das Evangelium nach Johannes. Sonderband in: Theologischer Handkommentar zum Neuen Testament. Berlin: Evangelische Verlagsanstalt, 1978.
VOIGT, Gottfried . Der schmale Weg, Reihe I. In: Homiletische Auslegung der Predigttexte. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1978.
 


Autor(a): Heinz Ehlert
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Páscoa
Perfil do Domingo: 2º Domingo da Páscoa
Testamento: Novo / Livro: João / Capitulo: 20 / Versículo Inicial: 19 / Versículo Final: 25
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2007 / Volume: 32
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 24210
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