João 20.19-31

Auxilio Homilético

10/04/1994

Prédica: João 20.19-31
Leituras: Atos 3.13-15,17-26 e 1 João 5.1-6
Autor: Friedrich Erich Dobberahn
Data Litúrgica: 2º Domingo da Páscoa
Data da Pregação: 10/04/1994
Proclamar Libertação - Volume: XIX


COLOCAR O CORPO NA DENÚNCIA E PRATICAR A RESSURREIÇÃO

1. Exegese

1.1. O faquir da Índia e a teologia de João

Tomé, um dos doze discípulos de Jesus, que não participou do primeiro encontro com o Ressurreto (20.19ss.), não acredita na ressurreição de seu mestre; ele exige uma prova material: Se eu não vir nas Suas mãos o sinal dos cravos, e ali não puser o meu dedo, e não puser a minha mão no Seu lado, de modo algum acreditarei (v. 25).

E. Schweizer conta a história de um faquir da índia. Seu coração, num ano indefinido da década de sessenta, fora traspassado com um punhal sob o controle da Faculdade de Medicina de Gotinga, Alemanha. O faquir não morreu. E. Schweizer pergunta: Nós devemos reconhecê-lo, já por isso, como o Messias (p. 411)? Eis a preocupação teológica de João.

Em João há, à primeira vista, uma certa tensão entre o crer e o ver, entre a fé e a visão (cf. A. T. de Azevedo, pp. 91s.). Jo 1.14 diz ainda: Vimos a Sua glória. Nosso texto de prédica diz: Bem-aventurados os que não viram, e creram (20.29). Esta tensão se explica pelo fato de que, na geração de Jesus, ainda era o ver que, de certo modo, fundamentava a fé, enquanto que as gerações posteriores, que não viram mais, necessitavam alicerçar sua fé no testemunho daqueles que ainda tinham visto e apalpado com as próprias mãos (l Jo l.lss.). Significa: em todo o caso, de maneira direta e indireta, a fé tem seu fundamento na revelação histórica de Deus em Jesus Cristo. A fé tem base cognitiva, cravada na materialidade. João contraria aqui convicções gnósticas, a mística desencarnada de sua época.

Contudo, João enfatiza também que o ver, por si só, não é suficiente. Para as gerações posteriores, que sucedem as testemunhas oculares, vale que receberão o Espírito Santo que lhes possibilita a fé verdadeira (cf. 15.26s.; 16.12ss.). Quanto à fé das testemunhas oculares, João argumenta que, já na época de Jesus, era preciso que algo mais do que a crua dependência de milagres materiais viesse unir-se ao ver (cf. 4.48). João é categórico: uma fé que não passa de dedução de fatos materiais não é uma fé de verdade (cf.2.23ss.). Era necessário, já na primeira geração, um alo de fé que pressupõe um conhecimento superior da vida de Jesus (cf. 6.29,44,65; II.40). Sob este ponto de vista, a situação das gerações posteriores é a mesma que a daqueles que ainda viram Jesus com seus próprios olhos. Portanto, o problema de Tomé, que se atrasa (20.24), não é apenas o das gerações posteriores. Trata-se de um problema geral: apesar da encarnação histórica de Deus em Jesus Cristo, a fé, segundo João, era, é e sempre será um ato de auto-entrega incondicional à Palavra, à verdade revelada (cf. 10.27) ou a Jesus como o revelador da mesma (cf. 10.14).

1.2. As feridas do Ressurreto e a teologia de Tomé

No entanto, levado por sua teologia certíssima do Não me toque! (20.17), João faz de Tomé uma caricatura. Como mostra o exemplo de Judas, este não é, aliás, o único caso (cf. D. Nunes, pp. 249ss.; F.. E. Dobberahn, p. 2). João afirma que, Tomé teria exigido uma prova quase que científica do milagre da ressurreição para satisfazer sua mente crítica. Só falta dizer que pretendia convocar os professores de Medicina da Universidade de Jerusalém para um espetáculo na sala de anatomia!

Todavia, nem sempre a história é assim como nos foi contada. Atrás das versões oficiais e verdades óbvias há outra história. Por isto, está na hora de ouvir o próprio Tomé, a preocupação teológica, a opção e a proposta dele mesmo.

Há, entre os comentaristas, concordância de que Jo 20 é parte de uma fonte literária de diversos relatos sobre os encontros do Ressurreto com seus discípulos (cf. R. Bultmann, p. 534). É muito provável que João a redigiu de acordo com sua teologia do Não me toque! (20.17), uma teologia que, com esta radicalidade, não se encontra na tradição sinótica (cf. Mt 28.9s.; Lc 24.39-41, etc.). Ela é alheia também à história de Tomé.

É digno de nota que a história de Tomé representa um apêndice, um suplemento a 20.19-21. Em 20.19, a ausência de Tomé não está pressuposta (cf. R.Bultmann, ibidem). Significa: João agrega ao contexto anterior uma tradição sobre Tomé, em que o mesmo coloca sua mão nas feridas do Ressurreto. Há de se prever que João modificará o escopo desta tradição.

Tal tipo de história, em que alguém entra em contato físico com um morto redivivo, não é sem precedentes. Parece que, na época da Primeira Comunidade, há muitas histórias sobre aparecimentos de ressuscitados. Como prova de serem realmente vivos, estes ressuscitados mandam até pegar a mão deles (cf. Philostr. Apoll. Tyan. VIII, 12; cf. R. Reitzenstein, p. 48; L. Bieler, I, p. 49). João e a sua comunidade, certamente, conhecem tais histórias. O motivo do contato físico em 20.26ss. dá razão suficiente a João para incorporar a história de Tomé no contexto maior de sua teologia da negação da prova. Significa: os vv. 24-25, que tematizam esta questão, estabelecem a necessária ligação redacional com o contexto maior (cap. 20), com o contexto menor (vv. 19-24) e com a própria história de Tomé (vv.26-28). Também o v. 29, em que Jesus repreende Tomé por sua falta de fé, deve ser considerado interpolação de João (cf. R. Bultmann, p. 538).

Assim sendo, levanta-se a pergunta: Em que medida o motivo da prova, originalmente, fazia parte da história de Tomé? Sem os vv. 24-25 e 29, a contradição estranha entre a crítica de Jesus e Sua aprovação do desejo de Tomé (v. 27) desapa¬rece: Jesus dirige-se exclusivamente a Tomé, e é Ele que lhe manda tocar em Suas feridas. Trata-se de uma demonstração por parte do Ressurreto: Ele não se manifesta senão com as feridas de Sua paixão. Com isto, o peso do texto não está na prova, mas sim na demonstração das feridas do Ressurreto. Até se pode dizer que toda esta história de Tomé gira em torno das feridas de Jesus.

As exegeses de 20.28 são controvertidas. Não há unanimidade na questão, se Tomé realmente põe a sua mão nas feridas do Ressurreto. O próprio texto não está inteiramente claro. R. Bultmann não descarta a possibilidade de que, também na redação joanina ainda, o Você acreditou porque viu? (v. 29) pressupõe a prova (p. 538, n. 6), enquanto que S. Schulz a nega categoricamente (p. 246). Parece, contudo, que o uso do verbo ver é tão amplo que implica um contato físico de Tomé com as feridas de Jesus. A construção do v. 27, bem como a do v. 25, apresenta um paralelismo sinonímico / idêntico, coordenando o verbo ver com tocar. É, portanto, mais provável que Tomé, quando dá o seu testemunho (v. 28), já tenha colocado a sua mão nas feridas de Jesus. E isto tanto na redação original quanto na redação joanina.

Mas, qual seria, agora, o sentido desta antiga narrativa, em que Jesus, o Ressurreto, aparece diante de Tomé, mandando-o colocar sua mão em Suas feridas? Aí não é sem interesse que os atos apócrifos de Tomé, uma tradição siríaca do século III, ainda descrevem Tomé como irmão-gêmeo de Jesus, não apenas bem parecido com Ele em sua aparência (cf. foi. 3b) e em detalhes de sua biografia (cf., p. ex., fol. 11a = Mc 11.1ss.), mas semelhante também nas feridas mortais do martírio: Tomé morre exatamente deste tipo de feridas em que tocou (cf. foi. 48b-49a; W. Wright, I, pp. 328ss.; cf. II, pp. 294ss.).

Num ato simbólico de seguimento, portanto, Tomé põe a sua mão nas feridas de Jesus, declarando, deste modo, sua disposição para o martírio. E assim se explica também o v.27: Jesus exorta Tomé ao martírio e acrescenta por isto: Não seja incrédulo, mas tenha fé!

Resumimos: O escopo dos vv.26ss. é o seguinte: a fé no Ressurreto, o testemunho da Páscoa, torna-se vão e fútil, quando nega para si o contato físico com o sofrimento, o qual inclui a possibilidade de martírio. A história de Tomé é categórica: ela se volta contra um tipo de fé no Ressurreto, em que se apaga e nega a necessidade da luta pelo Reino, uma luta histórica que, apesar da vitória sobre a morte, ainda permanece e implica os martírios da denúncia. A verdadeira fé em Jesus Cristo não se furta ao contato físico com o sofrimento, isto é, não afasta do Ressurreto o Crucificado, do crer o sofrimento da luta. Nós não encontraremos o Ressurreto, se não O procuramos entre os crucificados deste mundo.

2. Meditação

Como a teologia de João já foi meditada profundamente (cf. W. Groll, pp.. 301ss.), preferimos debater, a seguir, a teologia de Tomé. A teologia de Tomé é a teologia dos mártires, a teologia daqueles que colocam seu corpo na denúncia (cf. L. Gaede, p. 16) e praticam a ressurreição.

A teologização fundamental na América Latina parte da convicção de que o povo crucificado é a atualização histórica do Servo Sofredor de Javé. O povo crucificado e o Servo Sofredor se remetem e se explicam um ao outro (cf. J. Sobrino, p. 119). Os miseráveis e aterrorizados do nosso mundo são, conforme uma palavra de Dom [Oscar Arnulfo] Romero, a imagem do divino traspassado.

À-luz da nossa exegese de Jo 20.26ss., é possível chegar a uma formulação ainda mais avançada: o povo crucificado é a atualização do Servo Sofredor que, em Cristo, já ressuscitou (cf. Is 53.10b,lla; Mc 16.6,etc.). É o Ressurreto que, nos crucificados do nosso inundo, exibe as marcas de Sua crucificação. E é também Ele, o Ressurreto, que, segundo Jo 20.26ss., nos manda tocar em Suas feridas. A força invencível dos mártires que, contra todas as aparências, traz luz e salvação para dentro do nosso mundo alimenta-se exatamente da vitória de Deus sobre a morte.

Através de duas histórias, exemplares, mas antagónicas, queremos recuperar justamente este critério da identidade do Crucificado com o Ressurreto, pelo qual se caracteriza aquilo que nós chamamos de teologia de Tomé. Nesta identidade do Crucificado com o Ressurreto os crucificados do nosso mundo nos exortam ao martírio.

2.1. A inocência torturada e a cegueira de Padre Paneloux

Citamos alguns trechos do romance do escritor francês Albert Camus (1913-1960),A Peste (1947). O cenário é Oran, uma cidade no Norte da África, num ano indefinido da década de quarenta. A cidade está infestada de ratos contaminados pela peste bubônica, e os habitantes assistem, incrédulos, à disseminação do mal. Eles se recusam a aceitar a verdade, afirmando que o absurdo, o sofrimento era uma doença do passado e completamente erradicada no seu dia-a-dia. Porém, enquanto todos tentam se desvencilhar das evidências, a peste se infiltra e inicia sua inexorável matança.

Nos últimos dias de outubro, no hospital auxiliar, numa antiga sala de aula, o padre da cidade, Paneloux, assiste, encostado à parede, à morte de uma criança inocente, já de antemão vencida pelo veneno da peste.

Justamente como se lhe mordessem o estômago, a criança dobrava-se de novo com um gemido débil. Ficou assim encolhida durante longos segundos, sacudida por calafrios e tremores convulsivos, como se a sua frágil carcaça se curvasse sob o vento furioso da peste e estalasse aos sopros repetidos da febre. Passada a tempestade, ele se descontraiu um pouco, a febre pareceu retirar-se e abandoná-lo ofegante num patamar úmido e envenenado, em que o repouso já se parecia com a morte. Quando a vaga ardente o atingiu de novo pela terceira vez e o soergueu um pouco, a criança se retorceu, recuou para o fundo do leito no terror da chama que o queimava e agitou loucamente a cabeça, repelindo o cobertor. Grossas lágrimas lhe jorravam das pálpebras inflamadas e corriam pela face lívida, e, no fim da crise, exausto, crispando as pernas ossudas e os braços, cuja carne se fundira em quarenta e oito horas, a criança tomou no leito devastado uma atitude de grotesco crucificado. (p. 149; grifo nosso)

Depois de ter assistido à morte da criança, Paneloux prega na igreja fria e silenciosa de Oran (pp. 153ss.). Um de seus ouvintes de prédica resume a intenção da sua pregação da seguinte maneira:

Quando a inocência tem os olhos vazados, um cristão deve perder a fé ou aceitar que lhe furem os olhos. Paneloux não quer perder a fé; irá até ao fim. Foi isso que quis dizer. (p. 159)

Contaminado pela peste, o padre Paneloux adoenta. Querendo morrer como aquela criança, a cuja morte ele assistiu, Paneloux recusa-se a aceitar qualquer assistência médica. Transferido contra a sua vontade para o hospital, Paneloux ...

... pediu o crucifixo que estava colocado à cabeceira do leito e, quando o recebeu, voltou para ele o olhar. No hospital, Paneloux não descerrou os dentes. Abandonou-se como uma coisa a todos os tratamentos que lhe impuseram, mas não largou o crucifixo. Entretanto, o caso do padre continuava a ser ambíguo. A dúvida persistia no espírito de Rieux [= o médico]. Era a peste e não era. Há algum tempo, ela parecia comprazer-se em confundir os diagnósticos. No caso de Paneloux, porém, o que se seguiu viria demonstrar que esta incerteza não tinha importância. A febre subiu. A tosse tornou se cada vez mais rouca e torturou o doente durante todo o dia. À noite, finalmente, o padre expectorou o algodão que o sufocava. Era vermelho. Em meio ao tumulto da febre, Paneloux conservava o olhar indiferente e quando, no dia seguinte de manhã, o encontraram morto, meio fora do leito, seu olhar não exprimia nada. Na ficha, escreveram: Caso duvidoso. (p. 162; grifo nosso)

De fato, um caso duvidoso! Por um lado, Paneloux não afasta do crer o sofrimento. Ele mantém, sim, um contato físico com o sofrimento. Por outro lado, ele coloca a sua mão somente nas feridas do Crucificado. Ou seja: não largando o crucifixo, ele não enxerga mais o Ressurreto no Crucificado. Diante do Cristo Ressuscitado, sua disposição para o martírio se torna, afinal, um testemunho ambiguo e indiferente. Ele, em seu martírio, perde uma dimensão fundamental do martírio verdadeiro: a identidade do Crucificado com o Ressurreto. Segundo Jo 20.26ss., é unicamente esta identidade que, enfim, leva o mártir a praticar a ressurreição.

Por ter perdido tal dimensão fundamental do martírio, Paneloux afasta do sofrimento pela fé a luta pelo Reino. Seu martírio não vem em benefício da inocência torturada. Não é morte que dá vida. Parece que até Deus mesmo lhe nega a evidência de seu martírio: Paneloux não consegue morrer como aquela criança, crucificada pela peste. Na ficha, escreveram: Caso duvidoso. O martírio de Paneloux é, antes, o martírio de um niilista que, encostado à parede, prefere a morte a lutar. No entanto, nenhum sofrimento pelo Reino tem valor, a não ser que proclame a vitória de Deus sobre a morte. A verdadeira fé em Jesus Cristo não afasta do Crucificado o Ressurreto, do sofrer a esperança da luta.

2.2. O infinito amor e a vitória de São Maximiliano

Contamos, a seguir, a história do sacerdote e mártir Frei Maximiliano (1894-1941), beatificado em 10/10/1982 pelo Papa João Paulo II, ou seja, a história do detento N° 16.670 no bloco Balice no inferno de Auschwitz-Birkenau. Escrevemos o ano de 1941.

O inesperado acontece, quando no bloco N° 14, na chamada da noite, falta uni preso A reação é violenta. Dez homens são condenados à cela da fome N° 11. Quando um dos dez, Franciszek Gajowniczek, escolhido arbitrariamente, ouve o seu nome, ele começa a chorar, lembrando-se de sua mulher e de seus dois filhos. Frei Maximiliano percebe o desespero do infeliz, e ele se oferece a morrer em seu lugar. É então confinado, junto com os outros nove, a um porão sem ventilação e sem colchão ou coisa que o valha. Todos os presos estão sem palavras. Frei Maximiliano, porém, procura confortá-los. O que nunca antes se tinha ouvido, escuta-se agora: da cela da fome cantos religiosos! Os presos sofrem terrivelmente com a fome e, principalmente, sede. Depois de muitos dias de sofrimento morrem, um após outro. Por último, morre o frei, cujo corpo está reduzido a um esqueleto. Para apressar a sua morte, no dia 14 de agosto de 1941, um soldado entra na cela com uma seringa contendo fenol, e o frei estende o braço para receber a injeção fatal. (cf. I. Wilges, pp. 186s.; grifo nosso)

Eis uma morte que dá vida, um mártir que põe sua mão nas feridas do Ressurreto, não afastando do Crucificado a esperança da vitória! Naquele infeliz que chorava, quando lembrava-se de sua mulher e de suas crianças, o Ressurreto exibia Suas feridas. A história do Frei Maximiliano termina com a morte, com o martírio, sim, mas com uma morte por infinito amor que, lutando num lugar de dor, de angústia, de sofrimento e de tortura, venceu sobre a dúvida e o absurdo, sobre o ódio e a guerra. É uma morte que proclama a vitória de Deus sobre a morte. Algo de inesperado, de eterno acontece, algo que o mundo não conseguirá ignorar, quando os mártires estendem o seu braço e não largam as feridas do Ressurreto.

2.3. Propostas para a prédica e o culto

O texto de prédica e o texto da nossa realidade latino-americana se remetem c se explicam um ao outro. É por isto que nós; segundo a teologia de Tomé, precisamos sentir, de alguma maneira, os sinais da crucificação no corpo de Cristo. Não se pode imaginar um verdadeiro testemunho de fé que se mantenha distante do corpo torturado do Ressuscitado. Quem crê no Ressurreto crê que o Crucificado ressuscitou. A ressurreição não emerge do além, ela emerge da crucificação nos Gólgotas do nosso mundo.

É preciso tocar com as próprias mãos em Suas feridas, para realmente chegar a um testemunho ativo da fé no Ressuscitado. Esta fé, que nos diz que vale a pena lutar, não pode ficar sem prática. Porém, quando não tocamos em Suas feridas, ou seja, não sentimos os sinais de Suas feridas nos corpos torturados de todos os miseráveis do nosso mundo, aí nós não mudamos a nossa vida.

Esta é a dificuldade de muita gente: Nenhum saber religioso tradicional, diz W. Schilling, faz com que a pessoa se ajoelhe com profundo temor a Deus, a não ser que este saber seja acompanhado pela própria experiência do santo (p. 422; cf., aliás, R. Bultmann, p. 149). Apesar de estarmos, às vezes, muito bem informados sobre a miséria pelos meios de comunicação, dificilmente chegamos a mudar o próprio comportamento. Mesmo acreditando no Ressurreto, há pouca compaixão e pouca misericórdia de verdade com Suas feridas, isto é, com Suas feridas nos miseráveis deste mundo. Conforme a teologia de Tomé, o Ressurreto exibe estas feridas e insiste no contato físico com elas, para que nós cheguemos, cada um no seu lugar, à conversão, penitência e engajamento verdadeiros — inclusive até ao martírio, quando se faz necessário. Por isto, mais uma vez: não encontraremos o Ressur¬reto, se não O procuramos entre os crucificados deste mundo.

Uma palavra ainda no que diz respeito à realização do culto. Recomendamos abrir um espaço dentro do culto para alguma participação corporal. O corpo deve crer junto. Um bom início, nestes termos, pode ser a apresentação de danças litúrgicas. Remetemos o leitor ao trabalho de L. Baesler, Para louvar a Deus — Manual de Dança Litúrgica (ver os Subsídios litúrgicos).

Pode ser útil também a apresentação e explicação do Pano de Fome da América Latina, desenhado por Adolfo Pérez Esquivei para o ano de 1992 (estação N° XV).

[Ver as gravuras anexas.]


3. Subsídios litúrgicos

1. Hino inicial: Hinos do Poro de Deus (= HPD) N° 60, ou Quero cantar ao Senhor 4, p. 20
2. Intróito: SI 100.1-5
3. Confissão de culpa: fazendo uso de Mt 25.42-45
4. Dança litúrgica: HPD 150 = L. Baesler, pp. 39ss.
5. Anúncio da graça: Mc 10.45
6. Oração de coleta: fazendo uso de Rm 8.35-39
7. Leitura bíblica: l Jo 5.1-6
8. Apresentação e breve explicação do Pano de fome
9. Hino antes da prédica: HPD 58, ou Quero cantar ao Senhor 4, p. 81 ou p. 101 (2x)
10. Dança litúrgica: Oração de São Francisco = L. Baesler, pp. 34ss.
11. Hino depois da prédica: Cancioneiro da PPL, pp. 28s.
12. O Pai-Nosso dos Mártires: Quero cantar ao Senhor 4, p. 65 = Cancio¬neiro da PPL, pp. 72s.
13. Oração final: fazendo uso de Jo 12.24 e Mt 25.35-40
14. Hino final: HPD 52, ou Quero cantar ao Senhor 4, p. 81.

4. Bibliografia

AZEVEDO, A. T. de, A Concepção Joanina da Fé, in: Simpósio XI, N° 18 [vol. 3]:86ss., São Paulo, ASTE, 1978
BAESLER, L., Para Louvar a Deus — Manual de Dança Litúrgica, São Leopoldo, Editora Sinodal, 1992
BIELER, L., Theios Aneer — Das Bild des Göttlichen Menschen in Spätantike und Frühchristentum,I-II, Darmstadt, Wissenschaftliche Buchgesellschaft, 1967
BULTMANN, R., Das Evangelium des Johannes, Göttingen, Vandenhoeck & Ruprecht, 1968
CAMUS, A., A Peste, Rio de Janeiro, Editora Record, s. a.
DOBBERAHN, F. E., Porventura sou Eu?'— Releitura da História de Judas, in: Jornal Evangélico CIV, N° 5 (05-25/0471992): 2, São Leopoldo, Editora Sinodal, l992.
GAEDE, L. Pastor também faz greve de fome pelo assentamento de sem-terras, in Jornal Evangélico n° 7/1989. São Leopoldo, 1989.
GROLL, W.,Auxílio homilético sobre Jo 20.(19,23),24-29, in: Proclamar Libertação X, São Leopoldo, Editora Sinodal, 1984, pp. 301ss.
NUNES, D., Judas, Traidor ou traído?, Rio de Janeiro, Editora Record,
REITZENSTEIN, R., Hellenistische Wundererzählungen, Darmstadt, Wissenschaftliche Buchgesellschaft, 1974
SCHILLING, W., Das Phänomen des Heiligen, in: C. COLPE (org.), Die Diskussion um das Heilige [WdF 305], Darmstadt, Wissenschaftliche Buchgesellschaft, 1977, pp. 406ss.
SCHULZ, S., Das Evangelium nach Johannes [NTD 4], Göttingen, Vandenhoeck & Ruprecht, 1983
SCHWEIZER, E., Die Frage nach dem historischen Jesus, in: Evangelische Theologie 24 [8]:403ss., München, Chr. Kaiser, 1964
SOBRINO, J., Os Povos Crucificados, Atual Servo Sofredor de Javé, in: Concilium 232 (A Voz das Vítimas): 117ss., Petrópolis, Vozes, 1990 [6]
WILGES, L, Maximiliano Kolbe.in: Teocomunicação XIII, N° 60: 185ss., Porto Alegre, PUC [RS], 1983 [2]
WRIGHT, W., Apocryphal Acts of the Apostles, I (The Syriac Texts) e II (The English Translations), Amsterdam, Philo Press, 1968.


Autor(a): Friedrich Erich Dobberahn
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Páscoa
Perfil do Domingo: 2º Domingo da Páscoa
Testamento: Novo / Livro: João / Capitulo: 20 / Versículo Inicial: 19 / Versículo Final: 31
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1993 / Volume: 19
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 16173
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