João 21.1-19

Auxílio Homilético

18/04/2010

Prédica: João 21.1-19
Leituras: Atos 9.1-6 (7-200 e Apocalipse 5.11-14-17
Autor: Acir Raymann
Data Litúrgica: 3º Domingo da Páscoa
Data da Pregação: 18/04/2010
Proclamar Libertação - Volume: XXXIV

1. Introdução

A primeira leitura (At 9.1-20) apresenta o episódio dramático da conversão do apóstolo Paulo no caminho de Jerusalém a Damasco. A voz de Jesus na visão lembra que o Cristo ressuscitado está presente no meio do seu povo, a igreja. A relação entre Cristo e a igreja chama a atenção para a simbiose, identidade e comunhão que existe entre ambos. É a igreja, a igreja cristã, que Paulo persegue e, contudo, é Cristo quem pergunta: “Por que me persegues?” Na segunda leitura (Ap 5.11-14), os anjos cantam em honra a Cristo: “Ao Cordeiro seja o louvor, e a honra, e a glória, e o domínio pelos séculos dos séculos”. O evangelho (Jo 21.1-19) narra mais uma das manifestações de Jesus no período pós-ressurreição. Jesus aparece repentinamente a seus discípulos na praia do mar da Galileia no contexto de uma refeição, que traz consigo associações naturais e diretas com a Eucaristia.


2. Exegese

V. 1 – “Tornou Jesus a manifestar-se” – o verbo já ocorre em outros momentos (cf. 7.4; 13.4; Mc 16.12). “Tornou” (pálin = novamente) mostra que esse momento é posterior às manifestações em Jerusalém. O local é o mar de Tiberíades ou mar da Galileia (cf. 6.1).

V. 2 – Nomeia sete dos discípulos: Simão Pedro, Tomé, Natanael – aqui mencionado como de Caná da Galileia para mostrar que mesmo não sendo do grupo de pescadores, juntava-se aos demais. Além desses, João, na sua forma reservada de falar, mostra-se como um dos presentes na expressão “os filhos de Zebedeu”. Eles estavam “juntos”, mas sem saber exatamente o que fazer.

V. 3 – Simão não suporta ver outros barcos entrarem no mar e decide: “Vou pescar”. É um alívio para os demais, que se ajuntam à iniciativa. Assim que embarcam, apegando-se com afinco ao que estão habituados a fazer, imaginamos em que precária situação se acha o futuro do cristianismo. Os discípulos só pensam numa coisa, ou seja, em como sobreviver. Mas profissionais que são, frustram-se naquilo que talvez melhor sabem fazer. A pescaria é um fracasso. Com o clarear da madrugada, a frustração aumenta porque ela se espalha entre os demais pescadores. É constrangedor ficar “sapateiro” na pescaria. O v. 4 irrompe para quebrar a rotina e a frustração. De repente, Jesus “estava” na praia. O verbo estée já aparece antes, indicando um aparecer repentino (20.19, 26). No v. 5, o termo de saudação de Jesus paidía não deveria ser traduzido como “filhos” (ARA). Aristófanes emprega o termo ao se dirigir a homens no trabalho. Talvez a melhor opção seja a da NTLH com o termo “moços” (observe que os discípulos não haviam reconhecido que aquele homem era Jesus). A pergunta de Jesus “Tendes alguma coisa de comer” (ARA) não condiz com o original. Échete é termo semitécnico no contexto e significa: “Moços, pegaram alguma coisa?” (Cf. NTLH: “Moços, vocês pescaram alguma coisa?”. A resposta foi seca: “Não!”– sem ser acrescida de “Senhor” ou “Mestre”.

V. 6 – “Lançai... lançaram”. Os discípulos imaginaram que aquele homem na praia havia talvez visto um cardume de peixes. Como não havia mais esperança, seguiram a sua orientação – e o milagre acontece. No v. 7, João é o que possui o mais profundo insight; Pedro é o que possui o maior ardor. Longo debate surge ao se tentar explicar por que Pedro se veste antes de se lançar ao mar. Da mesma forma, a interpretação dos 153 peixes no v. 11. Em caracteres hebraicos, Simão Jonas é equivalente a 118+35, ou seja, 153. Alguns pais da igreja entenderam que 100 significava os gentios, 50 os judeus e 3 a Trindade. Jerônimo cita a autoridade de naturalistas gregos para provar que havia 153 espécies de peixes, o que indicava a universalidade do evangelho. Quando estão reunidos ao redor do fogo, “veio Jesus, tomou o pão, e lhes deu, e, de igual modo, o peixe”. São palavras que conectam a pessoa de Jesus e à sua obra com a celebração da Eucaristia.

No diálogo entre Jesus e Pedro, nos v. 15-18, muito se tem falado sobre a diferença dos verbos agapáoo e filéoo. No texto bíblico, ambos são empregados como sinônimos para expressar, por exemplo, o amor de Jesus por João (13.23,20.2) e também seu amor por Lázaro (11.3, 5, 36). Tal distinção entre o significado dos dois termos não se sustenta em razão do v.17, quando Pedro entristece por Jesus ter usado três vezes: “tu me amas (filéoo)”, quando, na verdade, Jesus não emprega essa palavra três vezes.

3. Meditação

Esta é a terceira vez que Jesus aparece a seus discípulos depois da sua ressurreição. O objetivo não é outro senão convencer os discípulos do fato de que ele está vivo e fisicamente se revela para fortalecê-los na fé, no discipulado e na perspectiva da nova vida escatológica.

A cena junto ao mar da Galileia, em que Jesus redivivo se manifesta a seus discípulos, é a última registrada nos evangelhos. É, por isso, significativa que ocorra no contexto do mar da Galileia. No Evangelho de João, em apenas uma outra ocasião um evento assim é localizado, a saber, a alimentação dos cinco mil (6.1). Não é sem razão que a geografia seja mencionada. Como Isaías afirma: “Mas para a terra que estava aflita não continuará a obscuridade. Deus, nos primeiros tempos, tornou desprezível a terra de Zebulom e a terra de Naftali; mas, nos últimos, tornará glorioso o caminho do mar, além do Jordão, Galileia dos gentios” (9.1). Ao tempo do profeta Isaías, as tribos de Zebulom e Naftali, que ocupavam a região noroeste do mar da Galileia, estavam sob o domínio da Assíria, suportando duramente as invasões de Tiglate-Pileser III ao redor do ano de 733 a.C (2Rs 15.29). Entretanto, esse “mas” de Isaías antecipa uma outra realidade, a manifestação de outro poder, não das armas, mas o poder e a manifestação salvíficos do Messias.

São sete os discípulos que estão à beira do mar de Tiberíades. Desses, quatro são do grupo dos 12: Pedro, Tomé e os filhos de Zebedeu, entre esses o próprio João. Dos personagens identificados, Natanael merece atenção em vista da referência feita a ele por Jesus em 1.51: “... vereis o céu aberto...”. Talvez seja esse o momento especial para Nataniel. É surpreendente que esses que viram Jesus vivo em Jerusalém (20.10-23) e que foram enviados por Ele e receberam o Espírito Santo com poder para perdoar pecados (20.21-23) estejam agora se preparando para pescar no mar da Galileia. Pescar? Chama mais a atenção Tomé, que tivera um encontro privilegiado com o Jesus ressuscitado na presença dos demais discípulos e que o confessara como Senhor e Deus; já agora parece não demonstrar mais nenhuma evidência daquele momento impactante. Onde estaria a empolgação inicial de saber que o Senhor está vivo e que essa mensagem deveria ser propagada ao mundo? Esse capítulo tem como objetivo, parece, alertar os leitores e nós sobre o fato de que a fé no Jesus ressuscitado por vezes não redunda em ação efetiva e dinâmica como deveria ser. Qual é o problema? O que atrapalha a missão? Os discípulos que vieram a crer no Cristo vivo no capítulo 20 estão agora envolvidos na sua atividade rotineira e cotidiana, sem um sinal de que passaram por um momento marcante de transformação. Não estaria o existencial tomando espaço do essencial?

Os discípulos, profissionais na arte de pescar, que conhecem os lugares adequados para lançar as redes como poucos, não têm sucesso no seu empreendimento. Passam a noite toda sem pescar nada. Quando a madrugada chega, ela é constrangedora. Como explicar que nada pescaram? É nesse momento que Jesus se manifesta. “Moços, pegaram alguma coisa?”, pergunta Jesus. O “não” enfático dos discípulos certamente fá-los lembrar de uma palavra dita por Jesus a eles tempos atrás: “Sem mim nada podeis fazer” (15.5). É interessante notar que nunca nos evangelhos os discípulos pescaram algum peixe sem a ajuda de Jesus. Embora já tivessem visto Jesus por duas vezes e Tomé tocado a mão e o lado de Jesus, nenhum deles o reconheceu. Só se pode reconhecer Jesus quando ele quer ser conhecido. Os que haviam visto Jesus não creram. Aqui o pregador tem um vislumbre evangélico para o povo de Deus hoje. Na ocasião Jesus dissera: “Bem- aventurados os que não viram e creram” (20.29). Nós e muitos outros que virão pela graça de Deus fazem parte desse grupo.

“Eu vos farei pescadores de homens”, diz Jesus no início do seu ministério (Mc 1.16, 20). Aqui no capítulo 21 de João, a assistência de Jesus revela-se fundamental para auxiliar a incapacidade humana de realizar ações as mais prosaicas. Jesus, o Criador e Redentor, fornece as orientações. O milagre acontece e, com ele, a abertura dos olhos. Em João 20, Pedro é o primeiro a crer olhando para a evidência dos lençóis (20.8). Agora ele é o primeiro a reconhecer Jesus pela evidência da pesca (21.7).

A pesca é grande, por demais maravilhosa. Simão Pedro entra no barco e “arrasta a rede para a terra” (v. 11). O verbo “arrastar” (v. 6 e 11) é empregado também em momentos em que homens são “arrastados” para Jesus. Veja-se especialmente 6.44: “Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer, e eu o ressuscitarei no último dia”. Da mesma forma em 12.32: “E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim mesmo”. Fica claro no Evangelho de João que a ressurreição pertence ao processo de Jesus ser elevado ao Pai ao mesmo tempo em que ele, o Cristo vivo, cumpre sua profecia de “arrastar” todos os seres humanos a si mesmo pelo ministério apostólico simbolizado no pescar e arrastar o peixe para a terra. O número 153 talvez não tenha o significado numérico atrela- do ao nome de Pedro nem o sentido como queriam os pais da igreja (cf. parte exegética acima). Talvez Jerônimo tenha razão. Nesse caso, o número venha a indicar a universalidade da missão que os discípulos têm diante de si com a mensagem evangélica da ressurreição. Alguns ainda veem aqui o cumprimento de Ezequiel 47.10, onde pescadores se agrupam ao redor do mar Morto, de En-Gedi a En-Eglaim. Ali lançam suas redes e pescam tantas espécies de peixes no mar enriquecido pelas águas afluentes do templo quanto as espécies que há no mar Mediterrâneo. Assim sendo, o evangelista João estaria mostrando o cumprimento de uma profecia escatológica do Antigo Testamento. O que é certo é que, com o grande número e tamanho dos peixes, o texto mostra como os discípulos podem ter sucesso nesse empreendimento com a ajuda do Cristo que está vivo.

“Vinde, comei”, diz Jesus. Assim como no início do seu ministério, Jesus faz um convite a eles (1.39). Agora, nas suas últimas palavras a seus discípulos no Evangelho de João, ele lhes faz outro convite: “Vinde, comei”. Essa não é a única manifestação de Jesus redivivo a seus discípulos, associada a refeições (cf. Lc 24.30, 42; provavelmente Mc 16.14; At 1.4; 10.41). Em Lucas 24.35, Jesus se dá a conhecer aos dois discípulos no caminho de Emaús no partir do pão. Aqui, como em Atos 2.46, a expressão denota um contexto eucarístico. Em outras palavras, a manifestação do Cristo ressurreto em tais momentos relembra aos leitores que, quando a igreja cristã parte o pão eucarístico, o Senhor vivo está presente no meio dela. Na verdade, aqueles que andavam com Jesus e com ele conversavam não o reconheceram depois da ressurreição, senão após o partir do pão. Também hoje os cristãos têm a bênção de desfrutar da sua presença viva na Santa Ceia como aqueles à beira do mar da Galileia a quem ele se manifestou.

Muito se tem dito nesta perícope a respeito do seu simbolismo e até alego- ria, ou seja, a respeito de pegar peixe, o número de peixes, as vestes de Pedro, o seu nadar até a praia, a rede que não se rompe. É preciso cautela em tais interpretações. É melhor deixar que o texto fale na sua clareza natural, evitando procurar por significados nele escondidos.

Por outro lado, a linguagem demonstra que há certos simbolismos no texto quando esse é comparado à Escritura como um todo. Desde os primeiros intérpretes, nota-se simbolismo atrás do pegar o peixe: refere-se à missão apostólica de “pescar homens”. Tal simbolismo é óbvio: “Disse Jesus a Simão: Não temas; doravante serás pescador de homens” (Lc 5.10).

Há outro simbolismo atrelado a essa perícope, que é a da Eucaristia. Na verdade, cada refeição providenciada por Jesus nos evangelhos pode ser relacionada à Eucaristia. Isso não significa que essa refeição à beira do mar da Galileia seja em si uma ceia eucarística. Mas ela certamente pode ser uma “memória”, uma alusão à Eucaristia (cf. v. 13), assim como a Santa Ceia em si é uma antecipação do banquete celeste que há de vir (cf. 1Co 11.25 e Lc 22.19).

4. Imagem

Certa ocasião, Miguelangelo voltou-se para seus colegas artistas com esta admoestação: “Por que vocês continuam a encher galerias e galerias com pinturas sem fim sobre um mesmo tema: do Cristo fragilizado, Cristo na cruz, Cristo agonizando e especialmente um Cristo morto pendurado? Por que vocês se concentram nesse episódio que é passado como se essa fosse a cena final, como se a cortina se fechasse sobre esse momento de desastre e derrota? Está certo, mas tal episódio durou apenas algumas horas. Mais importante é que até a infinda eternidade Cristo vive, Cristo reina, governa e triunfa”.

5. Subsídios litúrgicos

Invocação:

Oficiante: Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo.

Congregação: Amém.

Confissão e absolvição:

O.: Irmãos e irmãs: Muitas vezes como os discípulos após a Páscoa sentimo- nos desamparados e órfãos e nos escondemos, fechando-nos em nós mesmos. Mas “vede que grande amor nos tem concedido o Pai, ao ponto de sermos chama- dos filhos de Deus”. Filhos que, por causa da sua natureza congênita, muitas vezes se rebelam contra o Pai. Mas quando Jesus nos ensinou a chamar Deus de “Pai Nosso”, quis nos mostrar que “por estas palavras Deus quer atrair-nos carinhosamente para crermos que Ele é o nosso verdadeiro Pai e nós os seus verdadeiros filhos, para que lhe roguemos sem temor, com toda a confiança, como filhos amados ao seu querido pai”. Nessa confiança podemos chegar diante dele, confessar os nossos pecados e suplicar o seu perdão.

O.: Temos a promessa de Jesus quando, após a sua ressurreição, apareceu a seus discípulos: “soprou sobre eles e lhes disse: Recebei o Espírito Santo. Se de alguns perdoardes os pecados, são-lhes perdoados”. Nessa certeza, como ministro da Palavra, chamado e ordenado, anuncio-vos a graça de Deus, e da parte e por ordem de Jesus Cristo, meu Senhor, vos perdoo todos os vossos pecados, em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.

C.: Amém.

Coleta do dia:

Ó Deus, que através da humilhação de teu Filho levantaste o mundo caído, concede que teu povo fiel, resgatado dos perigos da morte eterna, viva em alegria perpétua; por Jesus Cristo, nosso Senhor, que contigo e o Espírito Santo é Deus e reina sobre nós agora e sempre. Amém.

Ação de graças:

O. e C.: Bendito Deus, nosso Pai Celestial, damos-te graças e louvor porque tu estás conosco e nos garantes isso pelo corpo e sangue de teu Filho Jesus Cristo. Ó Senhor, habita em nossas mentes e molda-nos para que possamos pensar conforme a tua vontade. Ó Salvador, ilumina os nossos olhos para que possamos ver através dos teus. Ó Santo Espírito, toca os nossos lábios e abre o nosso coração para que possamos anunciar e viver o teu amor junto aos que nos cercam. Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Bibliografia

BLANK, Rodolfo. Juan: un Comentario Teológico y Pastoral al Cuarto Evangelio. Saint Louis: Editorial Concordia, 1999.
DODS, Marcus. The Gospel of St. John. In The Expositor’s Greek Testament. London: Hodder and Stoughton, 1917.


 


 


Autor(a): Acir Raymann
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Páscoa
Perfil do Domingo: 3º Domingo da Páscoa
Testamento: Novo / Livro: João / Capitulo: 21 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 19
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2009 / Volume: 34
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 25115
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