João 3.14-21

Auxílio Homilético

26/03/2006


Prédica: João 3.14-21
Leituras: Números 21.4-9 e Efésios 2.4-10
Autora: Anete Roese
Data Litúrgica: 4º. Domingo da Quaresma
Data da Pregação: 26/03/2006
Proclamar Libertação - Volume: XXXI

1. Texto: Jo 3.14-21

14. Assim como Moisés levantou a serpente no deserto, é preciso que o Filho do Homem seja levantado,

15. a fim de que toda pessoa que nele crê tenha a vida eterna.

16. Deus, com efeito, amou tanto o mundo que deu o seu Filho, o seu único, para que todo ser que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.

17. Pois Deus enviou o seu Filho ao mundo não para julgar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele.

18. Quem crê nele não é julgado; quem não crê já está julgado, porque não creu no nome do Filho único de Deus.

19. E o julgamento é este: a luz veio ao mundo, e as pessoas preferiram a escuridão à luz, porque fazem o que é mau.

20. Com efeito, toda pessoa que faz o mal odeia a luz, com receio de que as suas obras sejam desmascaradas.

21. Aquela pessoa que age segundo a verdade vem à luz, a fim de que a luz mostre que obedecem a Deus naquilo que fazem.
                                                                (Tradução Ecumênica da Bíblia / TEB e Linguagem de Hoje e alteração livre da linguagem masculina)

2. Comentários sobre os aspectos mais complexos do texto

O texto de João 3 é parte da conversa de Jesus com Nicodemos. Mas não se trata somente de uma conversa. É interessante observar a imagem que o texto revela desde o início do terceiro capítulo. Nicodemos, um intérprete da escritura, um sábio fariseu, foi, de noite!, visitar Jesus. Jesus e Nicodemos iniciam então uma longa conversa, que se transforma em um profundo ensinamento de Jesus. Jesus vai contando, mostrando, alertando, chamando a atenção, ensinando. Nesse processo, recorre a imagens conhecidas da Torá, mas vai reinterpretando essa conhecida palavra de Deus. E de forma simples vai mostrando a Nicodemos a novidade, a boa-nova.

É possível imaginar uma bela cena para essa conversa. Uma visita. Um pouco estranha, por sinal. Talvez Jesus nem a estivesse esperando. Nicodemos chega na casa, no lugar onde Jesus está e, certamente, é convidado a entrar, a sentar. Talvez antes da conversa principal, conversam sobre outras pequenas coisas. Então Nicodemos começa a entrar no assunto que o trouxe até ali. E começa devagar, tomando cuidado, afirmando algo positivo acerca de Jesus: “Nós sabemos que o Senhor é um mestre enviado por Deus...” (3.2). Em seguida, Jesus responde. Depois, Nicodemos pergunta e Jesus responde longamente. Posso imaginar essa conversa entre os dois sentados ali frente à frente, conversando respeitosamente. E chega o momento em que Jesus entra na parte do diálogo que nos interessa de forma especial aqui – os vv. 14-21.

O texto de Números, previsto para a leitura, conta o episódio em que Moisés levanta a serpente no deserto. A serpente, enrolada numa vara, era símbolo de um deus da cura na Antiguidade. A pessoa que olhasse para ela ficava curada. Há uma assimilação de algum elemento de culto pagão. Mas por ordem de Deus, num momento de desespero do povo, a serpente de Moisés torna-se elemento de cura do povo que estava sendo atacado pelas serpentes do deserto.
Agora, a partir da encarnação de Deus, da vinda de Deus, não é mais a serpente o símbolo de cura, mas o próprio Filho de Deus é sinal para a cura eterna. O próprio diálogo entre Jesus e Nicodemos é sinal de cura, sinal de novas relações, sinal de reconhecimento da nova verdade, uma verdade diferente, não mais baseada na lei, mas na fé. Trata-se de uma nova vida, uma nova forma de ser e de se relacionar. É uma transformação em todas as dimensões da vida: mental, corporal, social etc. (Jo 3.5). A exaltação agora não será de uma serpente, mas será de Jesus, que será levantado na cruz. É a partir do acontecimento da cruz que se dará o julgamento de todo ser humano, e é esse o lugar de encontro de toda pessoa com Jesus. O julgamento, segundo o Evangelho de João, acontece para essas pessoas que, mesmo diante da cruz, não percebem o acontecimento da cruz e não compreendem essa revelação. Mudou o lugar do juízo final, que antes, para o judaísmo, “acontecia” no final da história. Agora o juízo acontece na história – e quem não crê já está julgado.

O evangelista insiste quatro vezes na afirmação, no título de Jesus: O Filho do Homem, o seu Filho (Filho de Deus), o Filho único de Deus (vv. 13,
14, 16, 17, 18). Dessa forma, João não quer deixar dúvidas sobre o lugar ao qual Jesus pertence, sua ligação com o mundo celestial, o mundo divino, sua origem divina, sua relação divina com Deus. A isso também está relacionada a elevação do Filho de Deus – que deve ser levantado (v. 14). O evangelista cria o título Filho único de Deus para afirmar a filiação única e a relação única de Deus com Jesus. Todos esses títulos cristológicos têm a mesma intenção e querem ressaltar a obra de salvação realizada por Deus por intermédio de Cristo. Por Cristo, em nome de Deus e para o bem de toda a humanidade.

Além disso, o título Filho do Homem, de caráter celestial, vai além da ideia do messias davídico, que está relacionado ao povo de Israel e a esperanças locais e nacionais. Filho do Homem transcende o terreno e o restrito e apresenta-se como universal e permanente.

O texto de Efésios, indicado para leitura, também é um ensinamento teológico. Um ensinamento claro, límpido, cheio de luz. Ensina quem nos salvou, quem nos salva, o que nos salva e como. Aqui também nós somos “levantados” ao céu. Não pelas obras, mas por Deus, pela graça de Deus e pela nossa fé, que também vem de Deus.

3. Atualização

Ao ler e reler esse texto e comentários exegéticos, surgiu uma luz sobre uma possível mensagem. Grifei palavras e termos repetidos, que saltam aos olhos. Vou centrar meus esforços na atualização do texto, numa tentativa de encontrar nele uma chave que nos aproxime mutuamente. Copiei o texto para ter uma versão “final” para mim, à minha frente, e para que você a tenha à sua frente também. Para que tenhamos a mesma versão. Com- pus uma versão que me parece satisfatória. Talvez se faça uma fotocópia do texto, num folhetinho, para cada pessoa do culto, se não houver Bíblias o suficiente na igreja. Assim cada pessoa pode ocupar-se com o texto, pode acompanhar a leitura, pode levá-lo para casa, pode ler e reler. Ou cada pessoa recebe um versículo, tirado de uma caixinha. Depois, na hora da leitura do evangelho, o texto pode ser composto pela leitura de toda a comunidade. Assim todas as pessoas que têm o v. 14 lêem juntas, as que têm o v. 15 lêem juntas, e assim por diante. E, no final, o texto fica completo. Pode então ser lido por alguém mais uma vez. Uma leitura bem feita do texto sagrado já é metade da compreensão, da interpretação, da mensagem.

Devo dizer também que lançarei mão da hermenêutica bibliodramática para a interpretação do texto. O bibliodrama permite que sigamos os movi- mentos do texto, os cheiros, os encontros e desencontros, as relações, os conflitos, os vazios, os personagens etc. O nosso texto assustou-me na primeira leitura. Parece vazio de imagens e repetitivo no conteúdo. Uma linguagem difícil de ser traduzida para os nossos dias. Com auxílio do bibliodrama vou tentar entrar no movimento desse texto. Leio e releio. Olho cenas, paisagens, palavras, sentimentos... E descubro que em nosso texto pulsa algo inesperado. Mas, antes, há que se olhar a que e a quem ele está ligado. Ele fala. Sai da boca de Jesus. E chega aos ouvidos e ao corpo de Nicodemos. Há uma cena de visita, conversa, diálogo – um espaço concreto no qual o texto se compõe. É importante imaginar esse espaço. Para o culto poderíamos até reconstruir essa cena da conversa, da visita, que Nicodemos faz para Jesus. O nosso texto é continuidade dessa visita, que inicia no começo do cap. 3. O contexto menor do nosso texto é a visita. Nicodemos foi, de noite, até onde Jesus estava hospedado. Vamos então acompanhar alguns movimentos do texto.

4. Imagens e caminhos para a mensagem do texto

* Primeiro movimento do texto: o levantar. Assim como Moisés levantou a serpente, Jesus será levantado. Podemos deixar que aqui nos venham à mente as imagens de Jesus sendo levantado na cruz. Bem como a imagem da ascensão de Jesus. Jesus é levantado para a nossa salvação, para a nossa cura. Para sarar o nosso sofrimento, a nossa culpa.

* É preciso deixar ecoar o v. 16; repetir para ver o que ecoa em nós. Em mim ecoa o seguinte: Deus amou... tanto, amou tanto, amou tanto, tanto... Esse eco pode ser feito no culto, essas duas palavras podem ser repetidas pela comunidade ou pelo grupo de jovens, em eco. Assim: lê-se o versículo desde o começo até o final de amou tanto. Então entra um eco dessas duas palavras. Depois que cessa o eco, termina-se a leitura do versículo. Então fica claro, óbvio, por que Deus entregou seu filho. Essa é uma maneira de experimentar o texto, não apenas com a audição, mas também com a imaginação e o sentimento. É bom porque sensibiliza, faz bem para a nossa fé. O versículo termina com um presente. Graça de Deus. Depois do eco, o que recebemos é a clareza do sentido da fé, o sentido do crer: para que não pereçamos, para que não nos afastemos do ensinamento de Deus e para que possamos receber de peito aberto, de mãos estendidas, a vida eterna. É bom ler o texto e ir experimentando, dando ênfase, parando para deixar fazer eco em nós a palavra de Deus.

* Depois vêm os vv. 17 e 18, plenos do sentido do julgamento. Explica- se, fala-se, mostra-se, vê-se: julgar, julgado, julgado, julgamento (4 vezes). É forte, é presente, é enfático. Mas é enfático numa nova maneira de apresentar o julgamento. O julgamento é realizado de forma pedagógica. É completamente diferente de um sentido de condenação, como poderíamos imaginar. É distante do castigo, da obrigação. É tão suave, que dá vontade de mesmo sair correndo... e crer. Crer, crer muito. Muda a imagem de Deus. Muda a relação. Há algo de novo aí. Por meio de Jesus a imagem de Deus muda. Agora Deus é Abba. É Paizinho! Não é mais Javé dos Exércitos. Esse Deus não leva à guerra, nem impõe severos castigos a seus filhos. Não deixa de ser exigente. Mas é Deus que recebe visita e acolhe para uma boa conversa. Então os três versículos explicam didaticamente como é a questão do julgamento de Deus agora, visto de uma nova perspectiva, desde Jesus Cristo, o Filho de Deus. Deus encarnado. Deus presente. Primeiro: Deus enviou seu Filho ao mundo. Segundo: não para julgar o mundo; Terceiro: (mas) para salvar o mundo. Quem crê não será julgado. Quem não crê já está julgado, pois o julgamento acontece já, agora, na história, no cotidiano, não mais apenas no final dos tempos. Depois, nos versículos seguintes, continua a explicação sobre o julgamento.

* O v. 19 começa afirmando como é o julgamento: “o julgamento é este”. Vem uma explicação. Aqui é necessário parar a leitura para pensar e imaginar como será o julgamento. O que vem à nossa mente? O que a comunidade imagina que seja o julgamento. Aqui podemos conferir as nossas heranças teológicas sobre o julgamento. O que povoa o nosso imaginário no que diz respeito ao julgamento? Veja que o texto afirma: o julgamento é este, não será. O verbo está no presente. O que indica que o julgamento já acontece.

* Na segunda parte do v. 19, começa a brilhar uma luz forte. Uma explicação detalhada sobre o julgamento. O nosso texto começa meio trêmulo. Uma visita inesperada. Um fariseu que veio ter com Jesus. O texto termina – a visita termina com luz, muita luz. É uma explicação suave sobre como “será”/é o julgamento. Grandes castigos? Fogo? Dilúvio? Não! Será, é, assim: a luz veio ao mundo. E a pessoa que faz o mal odeia essa luz. É uma bela explicação, que começa como uma imagem de Deus, como luz. Então vem uma série de referências que indicam como são as atitudes e as pessoas que fazem o mal: elas odeiam... elas têm receio... de ver as obras desmascaradas. Por outro lado, a pessoa que age segundo a verdade, essa pessoa vem à luz; então essa luz mostrará que ela é obediente a Deus. Então podemos traçar uma relação direta com o nosso cotidiano atual. Na escuridão estão situadas articulações, atitudes, políticas e relações tortuosas. Não somente essas articulações estão na escuridão, mas também as pessoas que determinam essas ações. Ao contrário, pessoas que agem direito são pessoas que estão na luz, revelam a luz, estão acompanhadas pela luz, a luz está sobre elas. Luz como um estado envolvido pela presença de Deus. Luz como revelação de Deus, revelação da humanidade intimamente ligada com Deus. Atitudes, relações e situações de plena transparência e lucidez no cotidiano são momentos da presença de Deus. Poderíamos dizer que há relações familiares que são de escuridão ou de luz, relações de trabalho, de profissão, de realidade social, política local, nacional e mundial, que estão envolvidas pela luz ou pela penumbra, ou escuridão total.

Trata-se também de “deixar vir à luz” a bondade que há em nós. Ter a sensibilidade de perceber a luz que há nas outras pessoas. Há que tomar cuidado para que os nossos olhos não vejam somente escuridão e que assim se tornem olhos de julgamento, olhos que se arrogam o poder de Deus, onde está a única capacidade de julgar. Faz parte desse julgamento tão pedagógico de Deus trazer à luz o que está na luz e mostrar as pessoas, as relações e as estruturas que não estão na luz, que vivem na escuridão e da escuridão. Nesse sentido, fazem parte do julgamento amoroso de Deus a denúncia e a evidência da escuridão e da luz no mundo.

5. Sugestões para a celebração

Salmo do dia: 27.1, 4, 9-12

Palavras de acolhida:

Tempo de Quaresma.

Tempo de deserto,

Tempo de mudança,

Tempo de conversão.
Invocamos tua resistência,

Tua esperança,
Teu amor sem medida.

Hoje e sempre.

Amém

(Inês de França Bento)

Invocação:

Invocamos-te,

Invocamos-te, Deus da Vida,

Invocamos-te, Deus da Luz,

Invocamos-te, Deus do Tempo.

Conduze-nos à vida em plenitude.

Protege-nos da noite escura da alma.

Dirige-nos para o teu amor.

(Inês de França Bento)

Confissão: Confissão Quaresmal
Senhor, tu és a luz que ilumina nossas trevas!

Conhecendo a tua infinita misericórdia

Pelas nossas falhas e limitações,

Neste tempo de penitência

Nos colocamos em tua presença

Pedindo o teu perdão!

Mostra-nos onde falhamos!

Ajuda-nos a nos reconciliar

Com nossos irmãos e irmãs

E a ser solidários e generosos,

Principalmente com os mais necessitados.

Fortalece-nos para trabalhar na

Construção de um mundo melhor

Onde o respeito, a solidariedade e a bondade

Se façam presentes

No dia-a-dia de todos os povos. E que a tua graça e misericórdia

Nos façam confiar sempre no teu amor! Amém! (Vera Lúcia Chvatal)

Unção com óleo:
O óleo é o símbolo da luz. Neste culto, cabe bem o uso do óleo num momento de unção mútua da comunidade. O óleo representa a luz: iluminação, discernimento. Ungir com óleo uma pessoa significa que esse óleo quer acender a chama da vida. O óleo permite que a chama da vida possa crescer, permite que a Luz do Ser, Luz, Deus, possa brilhar, revelar-se em nós. A unção mútua pode acontecer acompanhada de uma palavra, uma bênção que traga à memória de cada pessoa que seu corpo é templo do Espírito Santo e que foi criado por Deus para se deixar habitar pela Luz.


Bibliografia

BLANCHARD, Yves-Marie. São João. São Paulo: Paulinas, 2004.
LELOUP, Jean-Yves. O Evangelho de João. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2000.
MESTERS, Carlos; LOPES, Mercedes; OROFINO, Francisco. Raio-X da Vida. Círculos Bíbli- cos do Evangelho de João. Série: A Palavra na Vida. n. 147/148, 3. ed. São Leopoldo: Cebi, 2002.


Autor(a): Anete Roese
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Quaresma
Perfil do Domingo: 4º Domingo na Quaresma
Testamento: Novo / Livro: João / Capitulo: 3 / Versículo Inicial: 14 / Versículo Final: 21
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2005 / Volume: 31
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 23628
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