João 5.1-9

Auxílio Homilético

05/05/2013

Prédica: João 5.1-9
Leituras: Salmo 67 e Apocalipse 21.10,22-22.5
Autor: Everton Ricardo Bootz
Data Litúrgica: 6º Domingo após Páscoa
Data da Pregação: 05/05/2013
Proclamar Libertação - Volume: XXXVII


1. Introdução

O Salmo 67 é um salmo curto de bênção (v. 1 e 6s) e, ao mesmo tempo, um salmo com traços apocalípticos, porque amarra as nações (v. 3 e 5) diante do Deus gracioso, que julga e guia com equidade todos os povos (v. 4) que o temem (v. 7). Ressalto o aspecto da revelação no v. 2, pois o rosto resplandecente sobre todos os povos desvela duas coisas: o caminho a seguir (guia – v. 4) e a salvação. A luz de sua face revela o caminho para a salvação.

Apocalipse, como mormente sabido, vem do grego e significa re-velação, ou seja, desvelar, tirar o véu. Ao tirar o véu que recobre os acontecimentos, o Apocalipse clareia o caminho para a salvação: a nova cidade de Jerusalém (Ap. 21.10). Os temas de Apocalipse 21.22-22.5 são os mesmos do Salmo 67: através da luz de Deus e de Jesus Cristo os povos saberão como caminhar, e não haverá escuridão em parte alguma. Outra correlação entre os dois textos é o fruto (Sl 67.6; Ap 22.2): Jesus é a Árvore da Vida, que dá fruto mensal (dúzia) e folhas que curam.

João 5.1-9 trata exatamente disto: o Jesus que cura! A cura física de um paralítico a partir de um desvelo da tradição religiosa, que mantinha a pessoa presa (paralítica) a um método de cura. Assim, nesse texto, confluem os outros dois: Jesus Cristo mostra o caminho àquele que não pode andar; na época de Jesus, cura era sinônimo de salvação. Cura mediante uma re-velação ideológica, que faz a pessoa sair (caminho) da escuridão à luz do dia da cidade de Jerusalém.

2. Exegese

V. 1 – Jesus dirige-se a Jerusalém para participar de uma festa. Essa não é definida, mas a exegese tende pela Festa dos Tabernáculos, o que coloca o texto no início do mês de outubro. Muita coisa tem ocorrido desde o surgimento do movimento de Jesus; por isso a designação “passadas estas coisas”. A exegese entende por “estas coisas” os vários acontecimentos que fomentaram o crescimento do movimento de Jesus. Daí o desejo de Jesus de subir a Jerusalém com o objetivo de tornar mais visível sua proposta evangélica. O verbo “subir” provém da geografia: Jerusalém está localizada sobre um dos morros mais altos, e de qualquer lado que alguém viesse teria que “subir” até a cidade.

V. 2 – Jesus vem do norte, da Galileia; portanto sua entrada é feita pelo portão norte da cidade, onde a arqueologia tem descoberto um pavilhão segundo a descrição do evangelista, confirmando a existência de uma piscina nesse local. O fato de João expressar o nome da piscina é um indicativo da importância que queria dar a esse evento. Betesda (termo aramaico) significa “casa da misericórdia”, situada num espaço de cinco pavilhões, numeral que alguns apontam como paralelismo usado intencionalmente por João para designar os cinco livros do Pentateuco, ineficazes para a salvação; a proposta de João, ao escrever o evangelho, é apontar Jesus como a nova forma de salvação em detrimento da tradição judaica.

V. 3 e 4 – Nesse local, há uma multidão de enfermos: cegos e coxos. O termo paralítico não é encontrado nos manuscritos mais antigos, assim como todo o versículo 4. A exegese tem esclarecido que este versículo foi acrescentado a posteriori em função da declaração do paralítico no versículo 7, onde é mencionada a existência da tradição das águas que se movem. João, ao descrever esse evento, pressupôs o conhecimento do leitor dessa tradição das águas, sem ver necessidade de explicitá-la. Contudo, com o passar do tempo, depois da destruição do templo e da cidade de Jerusalém em 70 d.C., essa tradição local se perdeu. O acréscimo foi necessário também porque o texto desse evangelho percorreu a diáspora, onde tampouco era conhecida tal tradição, própria da cidade de Jerusalém. O adendo, dessa feita, veio como forma de dar maior esclarecimento sobre o versículo 7.

V. 5 – O numeral trinta e oito não é indicativo de um uso simbólico. Quer expressar apenas a condição de miséria dessa pessoa, levando-se em conta a situação dos doentes numa cultura que desprezava quem estivesse preso a esse estado de existência, ou seja, tido como impuro pelo próprio Deus. Também não significa que o enfermo permanecesse todos esses anos deitado ali.

V. 6 – A miséria humana e a presença de Jesus se atraem, segundo análise dos textos sinóticos. Onde há miséria humana, ali se encontra Jesus. Essa ideia está presente também no escrito joanino, aqui expresso pela escolha específica de uma pessoa dentre tantas enfermas. A escolha não é aleatória; Jesus o vê. Não apenas isso, mas conhece sua história. A exegese indica um pressuposto joanino de um conhecimento sobrenatural por parte de Jesus. Jesus, ao ver, enxerga a alma da pessoa, reconhecendo suas reais necessidades. Daí a pergunta: “Queres ser curado?” Esse paralítico é diferente daquele em Marcos 2.3-5, onde há amigos que o levam e intercedem pelo enfermo. Aqui a pessoa não vem a Jesus, nem é trazida por amigos. Ela está só e desamparada. É Jesus quem vai a seu encontro.

V. 7 – A exegese não sabe dizer com que frequência as águas eram supostamente agitadas, mas confirma a existência da crença de que a cura se processava uma única vez depois de agitadas as mesmas. A arqueologia tem descoberto a estrutura da piscina situada perto do Portão das Ovelhas: havia degraus que desciam até as águas. Por isso a presença do verbo “descer” neste versículo. O paralítico não está totalmente imóvel, mas sim tolhido em seus movimentos, a ponto de necessitar ajuda para descer os degraus até as águas. A expressão “não tenho ninguém” revela a intenção joanina de enfatizar que a misericórdia de Deus (Betesda) vai primordialmente àqueles que não têm ninguém para ampará-los.

V. 8 – Os verbos “levantar, tomar e andar” estão na forma do imperativo. Jesus interpela novamente, não mais com uma pergunta (v. 6), mas com uma ordem. Este versículo não menciona se o enfermo usou da fé, como nos outros casos de cura.

V. 9 – A fé é pressuposta, pois a cura dá-se instantaneamente. A pessoa pode aceitar a ordem e, por fé, dar o primeiro passo ou negá-la, retirando-se triste como o jovem rico (Lc 18.18-23). Por fim, ao mencionar que a cura ocorreu num sábado, João revela a intenção última dessa história: tratar da crítica de Jesus diante das tradições vazias das autoridades religiosas. O texto que segue essa perícope trata sobre a controvérsia entre Jesus e os fariseus legalistas (v. 10-18).

3. Meditação

João quer transmitir a temática de que Jesus Cristo é o Senhor. Esse é o sentido do evangelho: anúncio de boa-nova de que Jesus é Senhor sobre as enfermidades (v. 5-8) e sobre as leis (v. 9b). Essa temática cai bem neste período do ano eclesiástico, momento no qual Jesus anda entre seus discípulos incrédulos durante quarenta dias, anunciando sua ressurreição, de que é Senhor também sobre a morte. Nesta sexta semana após a Páscoa, podemos anunciar o senhorio de Jesus mediante essa história de cura do paralítico, ressaltando seu poderio sobre doenças e tradições humanas.

1 – Subir/descer: Existe uma oposição de direções que pode ser explorada. Jesus sobe para Jerusalém (v. 1), enquanto o paralítico quer descer os degraus da piscina (v. 7). Esses dois verbos retratam duas direções que podem ser tomadas pelas pessoas. Há aquelas que desejam subir, alcançando novos patamares de vida. Há outras que desejam sucumbir na autopiedade ou mortificar-se em acontecimentos do passado, mesmo já passados 38 anos, ou dar tudo de si, competindo por um lugar ao sol. A paralisia das pernas do enfermo do texto pode ser interpretada como uma paralisia da alma. A pessoa acomoda-se a uma situação, por mais podre e fétida que seja. O pavilhão não seria diferente, com vários doentes, com suas chagas abertas. Isso sem mencionar a água da piscina, infectada pelo constante banho das feridas e chagas dos enfermos desejosos de cura.

2 – O Tanque de Betesda: Na Índia, existem piscinas como o tanque de Betesda. Os indianos banham-se nessas piscinas sagradas ao lado de seus templos hindus, buscando a purificação de suas chagas. As águas são sujas e malcheirosas. Mesmo assim, as pessoas banham suas pernas ou braços em suas águas. Até o rio Ganges, que passa pela cidade mais sagrada dos hindus, Varanasi, sofre com a imundície. Milhões banham-se anualmente em suas águas, despejando nele também as cinzas de seus mortos. Até animais mortos podem ser encontrados boiando em suas águas. Mas a religião hindu afirma que banhar-se ao amanhecer naságuas do rio Ganges é um rito de purificação. A religiosidade judaica defendia o mesmo quanto ao tanque de Betesda. A cura só se processava mediante um rito.

3 – A ideologia que paralisa: Assim rezava a tradição de que somente seria curada por milagre aquela pessoa que por primeiro entrasse no tanque logo após suas águas serem agitadas por um anjo. Não há outro meio, a não ser confiar no sistema. Dessa forma, as autoridades religiosas mantinham seu poder: difundindo a crença religiosa de que a cura só seria processada por intermédio do sistema, da tradição. As pessoas precisam confiar no sistema, fortalecendo-o consequentemente. Os cinco pavilhões eram a maior propaganda, difundindo que somente mediante a tradição e o rito a cura podia ser alcançada.

4 – O evangelho: A boa-nova que João traz é que não precisamos nos manter paralisados segundo a estrutura de um rito e/ou de um pensamento religioso. Jesus faz a pessoa andar por suas próprias pernas. Seu método para libertar a pessoa do sistema é através da pergunta (v. 6): “Queres ser curado?” A pergunta faz a pessoa pensar e repensar de maneira crítica, situação que pode despertá-la de seu torpor ideológico. É a maiêutica socrática. Jesus faz uso dela com os caminhantes de Emaús (Lc 24.17 e 19) e com Maria Madalena no amanhecer do Domingo da Páscoa (Jo 20.13 e 15). A pergunta faz nascer, mesmo que de maneira incipiente, a necessidade de encontrar outra saída para a sua situação sem esperança. O sistema diz: “Não há outra saída”. Jesus insinua: “Será?” A pessoa está tão presa ao sistema do ritual da piscina, que interpreta a pergunta de Jesus primeiramente segundo o contexto da única cura possível, ou seja, mediante as águas agitadas do tanque de Betesda. Por isso cogita que a cura poderia ocorrer se Jesus o ajudasse a descer as escadas por primeiro.

5 – Libertação: Mas Jesus propõe outra forma de cura. Uma que independe de rito ou do sistema vigente no pavilhão. Uma que denuncia esse sistema de competição injusta. Uma forma de cura que se processa mediante a fé, sem o intermédio das autoridades religiosas. A pergunta de Jesus “Queres ser curado?” (v. 6) implicava não apenas cura física, mas cura da dependência ideológica. Por isso Jesus ordena simplesmente que o paralítico abandone suas crenças, levante-se, tome seu leito e ande para fora do pavilhão. Lá fora há festa; no pavilhão, dor e gemido. Lá fora há o calor da luz do sol; lá dentro, só sombras, e o frio da escuridão.

Lá fora há vida; lá dentro, morte e paralisia. Lá fora há ar puro, revigorante; lá dentro, água fétida e contagiosa. Lá fora há liberdade; lá dentro, leis inflexíveis (sábado) e tradição que enrijecem a alma das pessoas. Lá fora há autonomia da graça; lá dentro, dependência exclusiva a um sistema intolerante.

6 – Betesda: Jesus restitui ao lugar (Betesda) seu sentido original, “casa da misericórdia”; a tradição havia tolhido a essência da misericórdia, transformando a casa do Pai em casa da senzala, onde ficavam confinados os sem direito algum, os impuros. Assim como no evento dos vendilhões do templo, Jesus mostra, mediante essa ação de cura, o caminho da salvação (Sl 67). Ele desvela (Ap 21.10, 22-22.5) a hipocrisia da tradição farisaica, mostrando em pleno sábado que Deus atende e cura a despeito das leis humanas, retirando-as da escuridão (dos pavilhões onde nos encontramos) para a luz da cidade de Jerusalém, que vem lá de cima, para onde precisamos subir, alçando novos patamares de vida.

4. Imagens para a prédica

7 – História: Para a finalização da mensagem, pode-se contar uma história: “Decidindo como agir”. Um colunista conta uma história em que acompanhava um amigo a uma banca de jornais: “O amigo cumprimentou o jornaleiro amavelmente, mas como retorno recebeu um tratamento rude e grosseiro. Pegando o jornal que foi atirado em sua direção, o amigo do colunista sorriu polidamente e desejou um bom fim de semana ao jornaleiro. Quando os dois amigos desciam pela rua, o colunista perguntou: – Ele sempre trata você com tanta grosseria? –Sim, infelizmente foi sempre assim… – E você é sempre tão polido e amigável com ele? – Sim, procuro ser. – Por que você é tão educado, já que ele é tão grosseiro com você? – Porque não quero que ele decida como devo agir”.

Essa história nos ensina que não precisamos ser determinados por ideias alheias. Quando uma ideia (tradição legalista) se instala dentro de nós, então passa a determinar nossas palavras e ações. Não somos mais nós, mas falamos e agimos como se fôramos alguém outro. Ao sermos autocríticos, podemos discernir pensamentos alheios antes que sejamos paralisados por eles, expurgando-os. Jesus liberta-nos e presenteia-nos com a autonomia da graça pela fé, sem pedir nada em troca. Não há pendências na relação com Deus, apenas misericórdia, uma vez conscientes de nossas paralisias e fraquezas.

5. Subsídios litúrgicos

Os textos auxiliares fornecem versos passíveis de serem usados em diferentes partes da liturgia. Assim, sugiro tais subsídios litúrgicos:

Versículo de abertura:
E me transportou, em espírito, até a uma grande e elevada montanha e me mostrou a santa cidade, Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus (Ap 21.10).

Voto trinitário:
Em nome de Deus, o Pai, criador da luz e da escuridão; em nome de Jesus Cristo, nosso Guia e Salvador; e em nome do Espírito Santo, que nos anima no caminho para a salvação. Amém!

Confissão de pecados:
Senhor, tem misericórdia de nós, pois temos nos deixado determinar por outras pessoas, por ideias alheias ao teu evangelho, que guiam nossa fala e nossas ações, difundindo sofrimento e paralisia às pessoas que Tu nos envias a cada momento. Vem e livra-nos deste mal: da dependência de pensamentos e ações que não vêm de Ti! Amém.

Absolvição:
“Alegrem-se e exultem todos, pois [Deus] julga os povos com equidade e guia na terra as nações! Louvem-te os povos, ó Deus; louvem-te os povos todos. A terra deu o seu fruto, e Deus, o nosso Deus, nos abençoa” (Salmo 67.4ss).

Oração do dia:
Tu, Senhor, prometeste a nova cidade de Jerusalém e sua luz (Ap 21.10-22.5); prometeste a nós o fruto da terra (Sl 67.6), que cura e dá vida. Tu curavas somente pela palavra; e a uma ordem tua, os paralíticos se erguiam em suas próprias pernas. Portanto, fala, Senhor, porque teu servo, tua serva, ouvimos somente a ti (João 5.8).

Bênção:
Seja Deus gracioso para conosco e nos abençoe; que ele faça resplandecer sobre nós o seu rosto, para que se conheça na terra o seu caminho e, em todas as nações, a sua salvação! Amém! (Sl 67.1s)

Bibliografia

BARRET, C. K. The Gospel according to St. John – An introduction with commentary and notes on the Greek text. London: S.P.C.K., 1962.
BOOR, Werner de. Evangelho de João I: comentário esperança. Curitiba: Evangélica Esperança, 2002.
 


Autor(a): Everton Ricardo Bootz
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Páscoa
Perfil do Domingo: 6º Domingo da Páscoa
Testamento: Novo / Livro: João / Capitulo: 5 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 9
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2012 / Volume: 37
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 25432
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Não há pecado maior do que não crermos no perdão dos pecados. Este é o pecado contra o Espírito Santo.
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