João 6.51-58

Auxilio Homilético

21/08/1994

Prédica: João 6.51-58
Leituras: Provérbios 9.1-6,10 e Efésios 5.15-20
Autor: Osmar Luiz Witt
Data Litúrgica: 13º. Domingo após Pentecostes
Data da Pregação: 21/08/1994
Proclamar Libertação - Volume: XIX

 

1. Introdução

A Santa Ceia é o coração dessa perícope do quarto Evangelho. João reflete sobre a encarnação do Filho de Deus, trazida à memória da comunidade cristã pela Eucaristia. Sendo assim, João 6.51-58 presta-se à realização de um culto eucarístico, no qual a comunidade pode ser convidada a meditar sobre o sacramento e dele participar.

2. Jesus — o pão da vida

O tema principal do capítulo 6 do Evangelho de João é o pão. Inicia com o sinal da multiplicação dos pães, realizado por Jesus, segue com a menção do pão que os israelitas comeram no deserto e conclui com Jesus dando-se a conhecer como o verdadeiro pão que desceu do céu.

Por certo essa sequência não é casual. Antes serve a uma compreensão teológica do que seja o pão: Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus (Dt 8.3). Jesus repreende a multidão que o segue apenas porque comeu do pão e se fartou (6.26s.) e pede que creiam nele como enviado do Pai (6.29). É nessa qualidade que ele pode saciar a fome e dar vida ao mundo. Isso é bem mais do que o benefício que Israel provou quando recebeu o maná no deserto. O pão do céu (= maná) foi ajuda para o povo faminto no deserto naquele momento. O pão vivo que desceu do céu (= Jesus) é ajuda eficaz para sempre; não perde valor e importância com o passar do tempo.

3. A perícope 6.51-58: apêndice redacional?

Vários intérpretes consideram essa perícope como sendo um apêndice redacional, i.e., uma inclusão posterior que introduz uma interpretação sacramental para a multiplicação dos pães e, sobretudo, para o discurso de Jesus sobre o pão da vida. De fato, a perícope representa uma ruptura do referido discurso, que é retomado no versículo 58. Contudo, não introduz um elemento desconhecido ao quarto Evangelho. Embora nele não haja menção das palavras da instituição da Eucaristia, a prática da Santa Ceia não é algo estranho para o evangelista. Dificilmente terá havido uma comunidade que não batizava e não se reunia para a Ceia do Senhor. Da mesma forma, uma interpretação sacramental corresponde ao nosso próprio modo de experimentar Jesus como o verdadeiro pão da vida.

4. O conteúdo da perícope

V. 51: Este versículo é a ponte entre o discurso sobre o pão da vida e a interpretação sacramental do mesmo. Nele Jesus faz uma afirmação categórica sobre si mesmo, revelando-se como o pão vivo que desceu do céu e fazendo alusão à sua morte em favor da vida do mundo. Como o grão do trigo precisa morrer para que dele possa surgir o pão que sustenta a vida, assim também Jesus traz vida ao mundo por meio da doação de sua carne.

V. 52: Os interlocutores não compreendem sua absurda afirmação. Como é possível que alguém dê de comer sua própria carne? O que parece uma questão de incompreensão é, porém, consequência de incredulidade: não crêem que Jesus é o enviado do Pai (cf. tb. 7.32ss.; 8.21ss.). Conhecem seu pai e sua mãe (6.42). Por isso, a afirmação lhes soa pretensiosa, à beira da blasfêmia. Jesus, porém, dá ouvidos à sua indagação e formula uma resposta que realça aspectos da celebração eucarística relevantes para a nossa prática sacramental.

Vv. 53-55: A carne e o sangue de Jesus, verdadeiro alimento e autêntica bebida, comunicam aos comungantes a vida eterna. A formulação é taxativa e faz do recebimento da Eucaristia condição indispensável para possuir a vida que vem de Deus. Dessa forma fica clara a qualidade diferenciada do manjar eucarístico. De outra parte, à participação na Ceia do Senhor está vinculada a promessa da ressurreição, fazendo irromper no presente uma antecipação da escatologia.

Vv. 56-57: A carne e o sangue de Jesus operam uma permanente comunhão pessoal do crente com ele, que é o portador e o mediador da vida divina. A comunhão que se cria entre Jesus e os que comungam de sua carne e seu sangue é sumamente distintiva. Estabelece-se uma relação de reciprocidade, onde as partes ficam como que enxertadas uma na outra. Essa verdadeira comunhão compromete de tal forma com Jesus, que aquele que recebe sua carne e seu sangue passa a viver por meio dele.

V. 58: Esse versículo retoma o discurso sobre o pão que desceu do céu (51a). Mas, posto na sequência dessa interpretação sacramental, serve-lhe de conclusão, pois, retomando o tema do pão que os israelitas comeram no deserto e comparando-o ao pão que é a carne de Jesus, atesta que o verdadeiro pão que desceu do céu confere uma vida indestrutível ao crente.

Resumindo, a compreensão eucarística dessa perícope é a aplicação da cristologia (Jesus, o pão do céu) ao acontecimento cúltico-sacramental eucarístico.

5. Motivação para a prédica

Não estaremos tocando em novidade se mencionarmos a frieza e o ar de tristeza de muitas de nossas celebrações da Santa Ceia. O ato de ação de graças (Ef 5.19s.), quando não esquecido, fica, porém, diminuído em razão de uma compreensão que se restringe a ver a Santa Ceia como ato individual de confissão e remissão dos pecados. É sabido, contudo, que a Santa Ceia é mais: é alegria da reconciliação, é antecipação do Reino pelo qual a comunidade ora, é partilha que estimula e desafia para a prática da justiça, é comunhão com Deus e com os irmãos e irmãs. Mudar uma tradição e uma prática que a sedimentou, porém, tem suas dificuldades e pode provocar objeções. Ainda assim, em fidelidade ao evangelho e confiando na atuação do Espírito Santo, cumpre tentar mudar em conjunto com a comunidade. O texto bíblico proposto para a pregação é auxílio à medida que destaca, em especial, a comunhão com Cristo na Eucaristia. Conforme a perícope, aqueles que dela participam crendo que Jesus é o verdadeiro pão da vida são saciados e tem parte na vida eterna.

O sacramento é Palavra visível; mais ainda, degustável. Essa Palavra, como a que é proclamada do púlpito, nos constrange a uma tomada de posição frente ao seu conteúdo: Cristo. Dessa postura depende a qualidade não da Ceia, mas de nossa participação nela. A participação com fé em Jesus como o pão do céu nos abre as portas da vida eterna. Isso não é pouco numa sociedade onde muitos sofrem por serem rejeitados ao invés de acolhidos, onde muitos estão cansados e sobrecarregados, onde muitos estão sós e abandonados, onde muitos já perderam a esperança de ter uma vida digna. Pois, para todos esses, a Eucaristia permite a experiência de que Cristo não tem somente palavras de consolo, mas que ele se dá a si mesmo como força para a vida. Assim como precisamos de comida e bebida para subsistir, assim também a fé se alimenta das dádivas de Deus: Não só de pão viverá o homem...

É certo que esse alimento que quer ser força para a vida e que é acolhido com fé também deverá produzir mudanças em nossa vida, tal como revela essa pequena ilustração: um descrente presenciou uma celebração da Santa Ceia e, quando viu a devoção e a seriedade dos comungantes, perguntou pelo significado daquele ato sagrado. Como resposta ouviu que o Deus dos cristãos purifica, dessa forma, os crentes de todos os pecados e toma morada ele próprio em seus corações. Quando, dias depois, aquele homem viu os mesmos cristãos novamente brigando uns com os outros, sentindo inveja uns dos outros, envolvendo-se em falcatruas e negociatas e deixando transparecer toda a sua ambição por riqueza e poder, disse com indignação: Vossa religião e vossa devoção são boas, mas vossa hospitalidade é nada, pois vocês somente ofereceram dois dias de hospedagem ao vosso Deus.

6. Subsídios litúrgicos

1. Acolhida: Pode-se usar a leitura do AT: Pv 9.1-6,10.

2. Coleta: Querido Deus! Estamos reunidos para ouvir-Te e para participarmos da Ceia para a qual nos convidas. Nós Te pedimos: dá que o amor que revelaste em Teu Filho, nosso Senhor, nos alcance e sare as nossas feridas. Quebra a nossa resistência e cria verdadeira comunhão, aquela que nos faz participantes da Tua vida. Em nome de Jesus Cristo, que contigo e com o Espírito Santo vive e reina para sempre. Amém.

3. Intercessão: Pelos que estão cansados, sozinhos e sem esperança, para que possam ser alcançados pela comunhão criada na doação de Cristo na Eucaristia, pelos doentes que não puderam vir e aos quais será levado o pão e o vinho apôs o culto comunitário; pela proclamação do evangelho, para que mais pessoas sejam motivadas a viver em comunhão com Deus e seus semelhantes; pela comunidade e por cada um/a, para que a comunhão experimentada no culto se manifeste em cada uma da semana.

4. Pode-se combinar com um grupo de pessoas (presbitério, OASE, Juventude, casais...) que, após o culto, serão visitadas as casas daquelas pessoas de quem se sabe que não puderam vir por algum motivo específico, levando-lhes o pão e o vinho da Santa Ceia, para que se sintam integradas na comunhão do corpo de Cristo e fortalecidas pela doação do Senhor em favor delas.

7. Bibliografia

BRAKEMEIER, G. A Santa Ceia do Novo Testamento e na Prática Atual, in: Estudos Teológicos, 26(3): 247-75, 1986.
SCHNACKENBURG, R. El Evangelio Según San Juan, Tomo II, Barcelona, Herder, 1980.
VOIGT, G., (ed.) Sein Heil und Gnaden, Evangelische Verlagsanstalt Berlin, 1954, pp. 181-6.


Autor(a): Osmar Luiz Witt
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 13º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: João / Capitulo: 6 / Versículo Inicial: 51 / Versículo Final: 58
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1993 / Volume: 19
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 16167
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