João 7.14-18

Auxílio Homilético

02/01/1983

Prédica: João 7.14-18
Autor: Ricardo Nör
Data Litúrgica: 2º. Domingo após Natal
Data da Pregação: 02/01/1983
Proclamar Libertação - Volume: VIII


I — Encontro com a Palavra

O texto foi meditado inicialmente por um grupo de pessoas (adultos e crianças) que participa do Encontro de Famílias, num dos bairros da cidade. Começou-se com a-leitura da pericope, seguindo-se o diálogo, versículo por versículo:

V.14: A primeira colocação foi uma pergunta: Que festa é esta. Para encontrar a resposta, procurou-se nos versículos anteriores urna possível indicação de maiores detalhes. No v. 2 consta o nome da referida festa: Festa dos Tabernáculos. A seguir, buscou-se as passagens indicadas no rodapé (tradução de Almeida):

— Lv 23.34-44: O v.34 refere-se a uma festa de sete dias, o que fez surgir o comentário: É um festão. Maior que Kerb (festa típica alemã, por ocasião de aniversário de igreja, que em algumas localida¬des ainda tem a duração de 2 a 3 dias). Com a leitura de todo o trecho, constatou-se: É a festa da colheita!

— Dt 16.13-17: Aqui, chamou a atenção de um dos participantes a afirmação de que ninguém é para vir de mãos vazias (v. 16). Também, que cada um dará na proporção que recebeu (v. 17), o que foi relacionado com as contribuições financeiras para a comunidade.

Aqueles que estavam usando A Bíblia na Linguagem de Hoje foram informados de que encontrariam, no fim desta tradução, um vocabulário com as palavras e expressões marcadas com estrelinhas (asteriscos), o que foi compartilhado com os demais.

V.15: Observações feitas, na ordem orn quo surgiram:

— 'Deus é quem guiava os pensamentos de Jesus

— 'Nós também iriamos nos admirar, se alguém se levantasse numa festa e fizesse um discurso.

— Deus fala por intermédio de Jesus.

— Eu entendo a admiração deles (dos judeus), como sendo de alegria, de espanto.
Jesus já nasceu milagroso, porque era Filho de Deus.

— Esse era o dom dele. Cada pessoa já nasce com um poder, nó que muitos não fazem uso disso. Jesus aplicou o que tinha.

V. 16: Inicialmente uma das senhoras narrou uma experiência pessoal: Eu também já experimentei isso. Certas vezes eu me pergunto: Como é que eu cheguei a dizer isso? Parece que veio de fora de mim

Após, no diálogo que se seguiu, foram feitas estas colocações:

— Ele era igual a Deus. Verdadeiro Deus.

— Se ele não fosse um enviado que tivesse recebido uma mensagem, ele não teria condições de ensinar.

— Para nós, a vontade de Deus está na Bíblia.

— Temos que estudar a Bíblia para descobrir se Jesus é realmente Filho de Deus. É necessário descobrir por mim mesmo se Jesus è verdadeiro.

— A vontade de Deus são os Dez Mandamentos.

— Naquela época, a lei de Deus era dura. Deus castigava mesmo. Depois de Jesus, tem o perdão.
Antes, era olho por olho, dente por dente. Agora, é para dar o outro lado (do rosto) para bater.

V.17: Aqui não houve uma reflexão mais extensa. Ficaram registradas apenas duas afirmações (não foi usado gravador, só anotações por escrito):

— Nós precisamos estudar a Palavra de Deus, e então crer no Evangelho. Quem quiser fazer a vontade de Deus, precisa se preocupar em estudar a vontade de Deus.

— Uma mãe relacionou, aqui, a fé do seu filho, a partir de uma doença (!?): Depois do meu filho ter experimentado a cura, ele passou u confiar em Deus.

V.18: Da meditação em torno do último versículo, ficou o seguinte:

— Jesus falava de Deus, da glória do Pai.

— A preocupação de Jesus era que os outros pudessem dar glória a Deus.

— Ele não era egoísta. Não queria nada para si. Foi humilde.''

— Se ele não tivesse morrido por nós, ninguém se salvava. Estávamos perdidos.

II — Observações adicionais

O ensino de Jesus provocou resistência, indignação e mesmo hostilidade em seus ouvintes judeus. Os leitores de hoje, por ocasião do estudo bíblico mencionado, reagiram de forma receptiva.

Os judeus não admitiam que alguém sem formação rabínica ensinasse a lei de Deus: Quem é esse marceneiro iletrado de Nazaré para instruir no templo? Para os participantes do grupo, de uma maneira geral não houve dúvida: Jesus falou como Filho de Deus. Deus guiava diretamente seus pensamentos. Mesmo assim, um dos participantes levantou a questão: Temos que estudar a Bíblia para descobrir se Jesus é realmente Filho de Deus. É necessário descobrir por mim mesmo se Jesus é verdadeiro.

Aqui parece que tocamos no ponto central do texto: Quem e Jesus? De quem ele recebe autoridade para ensinar?

Jesus começa afirmando que o seu ensino, na verdade não e dele Todo o conteúdo da doutrina que ele apresenta provem de fora de si. Deus é o seu autor. Como enviado de Deus, cumpre-lhe apenas transmitir a mensagem recebida.

A certificação da legitimidade do seu ensino vai se evidenciar, quando aplicado a vivência concreta: Se alguém quiser fazer a vontade de Deus, conhecerá... (v.17) Ao cumprir-se a vontade de Deus, descobre-se: a palavra e ação de Jesus se revela como Palavra e ação de Deus mesmo! Não há diferença. No ensino que Jesus prega, estabelece-se a identificação de vontade entre ele e Deus.

Com o reconhecimento desta identificação, que acontece como experiência de fé, surge, como consequência, o discipulado a pessoa de Jesus Isso significa dizer que a obediência a Deus se concretiza no seguir o ensino e as pegadas do seu enviado. Enviado este que não procura a sua glória, mas, sim, a de Deus. Jesus não reivindica nada para si. Nisto se evidencia a autenticidade de sua ação. Ao atribuir a Deus toda a glória (termo chave para o Evangelho de João), ele se coloca no plano do que é verdadeiro e justo.

Por procurar radicalmente a glória de Deus, Jesus não poderia ter outro fim que não fosse a cruz. Pois, as trevas não admitem que a luz de Deus brilhe; a mentira não tolera a verdade; a morte procura destruir a vida. Na crucificação de Jesus acontece a vitória de Deus sobre os poderes antagônicos. E como ressuscitado, Cristo tem a força de anunciar: Quem crê em mim, ainda que morra, viverá. (11.25)

III — Indicações para a prédica

Em primeiro lugar, uma observação: também desta passagem podemos aprender que a Palavra que pregamos não é nossa. Ela e pro¬priedade exclusiva daquele que enviou o seu Filho, e que envia tampem a nós como mensageiros.

Pode-se começar a pregação reportando-se à Festa dos Tabernáculos, assim como fizeram os integrantes do estudo bíblico meneio-nado, descrevendo-a para que a comunidade possa situar-se no contexto dos acontecimentos.

A seguir, uma possibilidade é recontar a perícope em forma narrativa: Vocês querem saber de onde tenho o meu ensino? Pois façam a vontade de Deus e saberão! Deus não é teoria. Ele não se deixa amarrar por aqueles que acham que são os entendidos. O que eu digo não é meu ensino. O que eu digo, vem de Deus. Eu não falo por mim. O que eu faço é passar adiante o que eu recebi. Nada é meu. Tudo é de Deus. Toda a glória é de Deus! — Neste caso, não é necessária a leitura do texto.

Já com uma certa familiarização dos ouvintes ao conteúdo, é possível um aprofundamento, destacando-se aspectos importantes, como: o reconhecimento do ensino de Deus na sua aplicação à vida, as consequências deste reconhecimento para o relacionamento com Jesus no discipulado, a glória de Deus como objetivo do ensino.

Procurei enfatizar, ao longo da prédica, que o conhecimento da veracidade do ensino de Jesus só pode acontecer — quando se faz a vontade de Deus! Fora disso, a doutrina permanece incompreensível e mesmo inacessível. Os judeus questionaram a Jesus quanto à procedência do seu conhecimento e estudo. Jesus os remete para a ação: a controvérsia intelectual sobre a vontade de Deus, sem o consequente compromisso existencial, só serve de meio de desculpa para a passividade e a inércia.

IV — Subsídios litúrgicos

1 Versículo de introito: Assim diz o Senhor: A vida eterna é esta: que conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste. Quan¬do o Espírito da verdade vier, ele os guiará em toda a verdade (Jo 17.3; 16.13a).

2. Confissão de pecado: Senhor Deus. Para nós é difícil compreender que este Jesus, que nasceu no Natal, simples e humilde, seja o teu enviado. Reconhecemos que frequentemente duvidamos que as palavras dele sejam palavras tuas dirigidas a nós. Duvidamos delas, porque na prática não fazemos o que elas dizem. Por isso existe incompreensão, desentendimento, inveja, ódio, em uma palavra: falta de amor. Diante dessa nossa situação, só nos resta mesmo pedir: Tem piedade de nós, Senhor.

3. Absolvição: A Palavra se fez carne e morou entre nós. Vimos a sua glória, cheia de amor e de verdade, e esta glória ele recebeu como Filho único do Pai. (Jo 1.14)

4. Oração de coleta: Deus, nosso Pai. Tu enviaste o teu Filho Jesus Cristo para que soubéssemos qual é o teu ensino. Nós te pedimos: dá-nos o poder do Espírito para aceitarmos, com fé e confiança, a mensagem de libertação que vem de ti. Reúne-nos, tu mesmo, em torno de Jesus, para escutarmos com novos ouvidos a tua Palavra. Com a tua força podemos querer fazer a tua vontade e dela viver como irmãos. Amém.

5. Assuntos para a intercessão: pelos que não conseguem ver em Jesus o enviado de Deus; pelos que se fixam em aspectos exteriores e não no conteúdo da mensagem do Evangelho: pelos que têm dificuldade de ligar a Palavra de Deus à vida; que Deus nos conceda, como comunidade sua, o poder do Espírito para aplicarmos o ensino de Jesus no dia-a-dia deste novo ano que está iniciando: que o cumprimento da vontade de Deus aconteça concretamente entre nós no serviço ao necessitado; que deixemos de lado a promoção própria, que quer impressionar, e procuremos de fato a glória de Deus.

6. Sugestões complementares

— Leitura bíblica: 1 Jo 5.9-13

— Versículo bíblico após leitura bíblica: Jo 18.37b

— Hinos: 249, 166 (Do hinário Hinos do Povo de Deus da IECLB)

V — Bibliografia

- LUTZ, P. Meditação sobre João 7.10-18. Für Arbeit und Besinnung, Würtenberg, 19(3), 1965.
- SCHULZ, S. Das Evangelium nach Johannes. In: Das Neue Testament Deutsch. Vol. 4. 12. ed. Göttingen, 1972.


 


Autor(a): Ricardo Nör
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Natal
Perfil do Domingo: 2º Domingo após Natal
Testamento: Novo / Livro: João / Capitulo: 7 / Versículo Inicial: 14 / Versículo Final: 18
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1982 / Volume: 8
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 18181
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