João 9.1-7

Auxílio Homilético

16/07/1989

Prédica: João 9.1-7
Autor: Erno Feiden
Data Litúrgica: 8º. Domingo após Trindade
Data da Pregação: 16/07/1989
Proclamar Libertação - Volume: XIV


I - Considerações gerais

E problemático pregar sobre João 9.1-7, sem considerar todo o capítulo 9, pois o mesmo forma uma unidade (Roth, p. 297). O milagre da cura do cego não pode ser separado do restante do capítulo, onde se mostra o conflito entre fariseus e a comunidade joanina, que estava se organizando. É importante situar os ouvintes no contexto, com palavras próprias. Para entender e atualizar João 9.1-7, faz-se necessário conhecer o conflito com os fariseus, que representam o mundo, e o diálogo de Jesus com o ex-cego (vv. 33-41), onde Jesus se revela como o enviado de Deus para o juízo do mundo, para que os que não vêem vejam, e os que vêem se tornem cegos (v. 39).

II — Análise do texto

V. 1: Jesus encontrou o cego, certamente na saída do templo, na entrada, na porta, pedindo esmolas (8.59), pois pessoas com defeito físico não podiam entrar no templo. Através da cura deste cego, todo o conflito entre a lei e a misericórdia de Deus fica claro. Isto podemos perceber na discussão que se segue ao milagre. O cego é expulso da sinagoga por reconhecer que Jesus é o enviado de Deus (vv. 33 e 34).

V. 2: Esta pergunta parece absurda. No entanto, na época em que foi feita não era, pois a concepção judaica declarava cada doença como consequência do pecado, do castigo de Deus (5.14). Por isto, os doentes ou as pessoas com defeitos físicos eram marginalizadas.

V. 3: Jesus responde esta pergunta de maneira diferente do esperado: Nem ele pecou, nem seus pais. . ., mostrando que a cegueira não é consequência do pecado. Se a doença fosse castigo de Deus,os crentes não iriam sofrer, e os descrentes seriam castigados duramente. O que se percebe, muitas vezes, é o contrário. Jesus dá um enfoque positivo no que se refere ao cego, transformando a doença em instrumento de manifestação das obras de Deus. Contraria, assim, a concepção dos fariseus de que a doença é castigo de Deus.

V. 4: Agora é tempo de luz, é tempo oportuno. A contraposição luz — trevas é linguagem simbólica que quer dizer que, com Jesus, o Reino de Deus iniciou. Jesus revela a situação do mundo: pecado, corrupção, mal (trevas), e se torna a luz do mundo. Jesus manifesta toda a oposição do mundo a Deus (luz-trevas).

V. 5: Aqui Jesus se auto-revela como o Enviado de Deus. Jesus é a luz do mundo. Luz é símbolo utilizado para expressar o conteúdo da revelação que liberta da mentira radical e escravizadora. Existem dois tipos de cegos e duas formas de enxergar (vv. 39,41).

V. 6: A saliva é um sinal concreto de cura, usado especialmente para a cegueira (Mc 7.33 e Mc 8.23). A cura só acontece após o lavar no tanque de Siloé. Fazer o lodo com saliva e terra era um sinal de desobediência da lei do sábado. Esta cura se realiza num sábado, conforme o v. 14, por isto foi uma grave transgressão da lei.

V. 7: Outro sinal concreto. O tanque de Siloé, para o evangelista João, indica que Jesus é o enviado de Deus. Assim, segundo Bultmann, a explicação do significado do nome do tanque de Siloé leva o caráter simbólico da passagem à alegoria: 'Assim como o cego recupera a visão através da água de Siloé, assim a fé recebe de Jesus, o enviado, a luz da revelação (Malschitzky, p. 250).

Ill — Reflexão a caminho da prédica

O que está em jogo em nosso texto é o conflito entre fariseus, que representam a tradição dos judeus, e a comunidade joanina. João. luta contra a hipocrisia dos fariseus, pois desta cresce o fermento do autoritarismo, a coisificação das pessoas e das estruturas. Os fariseus, baseados nas leis e sua obediência cega, destroem a vida do povo, a vida fraterna e solidária de irmãos e negam a prática do Espírito da verdade, submetendo as pessoas e o povo à escravidão mais profunda do pai da mentira (8.44 e 9.29). Os fariseus, de um lado, reafirmam o caráter absoluto da lei mosaica, e os cristãos, por outro, reafirmam a fé em Jesus de Nazaré, superior a Moisés e Abraão (v. 28). Os fariseus sentiram necessidade de se impor como líderes absolutos, pois o templo está destruído e o povo judeu está na diáspora; por isso os fariseus usam as sinagogas como instrumento de defesa para preservar a identidade do povo judeu. Tornaram-se rígidos para com aqueles que não concordavam com as leis ou que as questionavam, expulsando-os da sinagoga (v. 34) e entregando-os à repressão romana.

Os fariseus representam o mundo, por rejeitarem a luz, que é Jesus Cristo. Assim, a vinda de Jesus é o julgamento do mundo (9.39). A lei era usada para incutir o medo; por isto, havia judeus que não confessavam a fé em Jesus (9.21). Por outro lado, o cego se recusa a seguir o caminho fácil e confessa Jesus como o enviado de Deus (9.30-33), mesmo que isto lhe tenha custado a expulsão da sinagoga (9.39). Este cego está representando a história da comunidade joanina, que é perseguida por confessar a sua fé em Jesus de Nazaré.

No capítulo 9 são apresentadas duas leis que servem pára marginalizar as pessoas: a doença, como sinal de pecado e castigo de Deus, e a observância cega da lei do sábado. Estas leis deixam claro que o mundo não cede com facilidade à luz. Por isto, quando o ex-cego é julgado, na verdade o próprio Jesus está sendo julgado, porque curou num sábado. Com esta prática, Jesus quebrou a lei que dava sustentação aos fariseus, que a usavam para marginalizar as pessoas.

Na pregação é importante detectar mecanismos que hoje marginalizam milhões de pessoas, fora e dentro da Igreja, usando-se, para isto, leis, tradições e argumentos, através dos quais também hoje os donos da verdade impedem que a situação mude e não aceitam serem questionados em suas posições. Mesmo que hoje não se diga mais que a doença ou o defeito físico seja sinal do castigo de Deus, hoje os pobres, quando ficam doentes, sentem a realidade da marginalização. E, como está a situação dos excepcionais, negros, índios, pequenos colonos, sem-terra, assalariados e pequenos em geral em nossa sociedade?

Hoje, os argumentos usados para escravizar as pessoas são outros, porém os objetivos, no fundo, são os mesmos que aparecem no Evangelho de João, ou seja, deixar a situação como está. Os argumentos, hoje, são mais sutis, mas nem por isso menos desumanos, levando as pessoas à escravidão. Por exemplo, se argumenta hoje que o colono está na situação de total pobreza porque não trabalha mais como antigamente e só fica reclamando: ou, não tem trabalho (emprego) quem é preguiçoso, não progride quem é atrasado e não sabe administrar. Porém, quando os pobres se organizam e lutam por uma vida mais digna, os que detêm o poder reagem com agressividade.

Jesus muda esta situação através de sua prática, curando o cego num sábado, mostrando, assim, que é ele quem é o Senhor do sábado (Mt 12.8) e que a pessoa é mais importante do que a lei. Na sua prática, Jesus se revela como a foz do mundo, diante do qual as trevas devem ceder. Onde, de repente, os pecadores não são mais os cegos de nascença, mas cegos são aqueles que não querem enxergar que Jesus é a luz do mundo, que com sua vinda iniciou o Reino de Deus. Esta é a missão de Jesus neste mundo, onde as trevas não querem ceder. Jesus mesmo define sua missão: O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos. (Lc 4.18.)

O texto nos coloca diante da opção de aceitar ou não a luz que é Jesus; e viver nesta luz é lutar contra todas as formas de escravidão hoje. O desafio do texto reside na pergunta dos fariseus (v. 40): Acaso somos nós também cegos? Não queremos enxergar que Jesus Cristo é a luz do mundo, e que as trevas terão que ceder à luz?

IV — Subsídios litúrgicos

1. Confissão de pecados: Senhor, queremos, com toda confiança e sinceridade, confessar os nossos pecados. Pecamos contra ti, pois sabemos que és a luz do mundo, mas, mesmo assim, deixamos que as trevas continuem presentes, marginalizando e escravizando as pessoas. Temos medo diante dos homens de confessar-te como a luz do mundo e preferimos a honra dos homens e a vida fácil do que testemunhar com clareza que Jesus Cristo é o enviado de Deus. Perdoa nosso medo e fraqueza. Tem piedade de nós, Senhor!

2. Oração de coleta: Senhor, estamos reunidos como tua comunidade que vive da boa nova de Jesus Cristo, que é a luz do mundo. Fala a todos nós através de tua Palavra, abrindo os nossos olhos para podermos enxergar onde, hoje, as trevas não cedem à luz, marginalizando as pessoas! Por Jesus Cristo, teu Filho, nosso Senhor!

3. Assuntos para a oração final: Agradecer pela Palavra de Deus, que abre nossos olhos, mostrando-nos quem são, hoje, os marginalizados: doentes, excepcionais, negros, pobres, mulheres; interceder pelos mesmos; pedir a Deus, que encoraje e acompanhe sua comunidade, para que esta possa testemunhar a luz que é Jesus Cristo e enfrentar as trevas.

V - Bibliografia

- ANDERSON, A. F. O Evangelho da Verdade que Liberta. In: Estudos Bíblicos. Petrópolis, 1987. V. 14.
- BROWN, R. E. A Comunidade do Discípulo Amado. In: Nova Coleção Bíblica. São Paulo, 1984. V. 17.
- COMBLIN, J. Evangelizar. Petrópolis, 1980.
- MALSCHITZKY, H. Meditação sobre Jo 9.1-7. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo, 1982. V. 8.
- ROTH, G. Meditação sobre Jo 9.1-7. In: Deutsches Pfarrerblatt. Neustadt/Weinstrasse, 1983.
- VOIGT, G. Meditação sobre Jo 9.1-7. In: Die bessere Gerechtigkeit. Göttingen, 1981.


Autor(a): Erno Feiden
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 9º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: João / Capitulo: 9 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 7
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1988 / Volume: 14
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 17945
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