João 9.13-17,34-39

03/03/2002

Prédica: João 9.13-17,34-39
Leituras: Isaías 42.14-21 e Efésios 5.8-14
Autor: Heloisa G. Dalferth
Data Litúrgica: 3º Domingo da Quaresma
Data da Pregação: 03/03/2002
Proclamar Libertação - Volume: XXVII
Tema: Quaresma

1. Introdução

Para uma boa compreensão do texto, é necessário um estudo (ao menos uma boa leitura) de todo o capítulo 9, pois a temática da “cura de um cego de nascença” perpassa este capítulo. Além disso, recapitular alguns aspectos teológicos do evangelista João nos auxilia a compreender o texto dentro de seu contexto na comunidade.

2. O Evangelho de João

O evangelista João tem a intenção de firmar a fé em Jesus nas pessoas de sua comunidade. Que venham a reconhecê-lo como “Filho de Deus” e, ao mesmo tempo, como ser humano. Ele traz a salvação, porque vive em intensa união com Deus. Nesta fé, a comunidade deve se fortalecer.

O objetivo de seu evangelho está resumido em Jo 20.31: “Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo tenhais vida em seu nome”. O centro de sua pregação é o Filho de Deus, cuja ação salvífica está na unidade da ação e da Palavra. Sua plenitude vem da eterna comunhão do Filho com o seu Pai (“Eu e o Pai somos um” – Jo 10.30).

Toda a teologia do evangelista João gira em torno de “Jesus como o revelador de Deus” (cf. Günther Bornkamm, Bíblia Novo Testamento, p. 127).

Já em sua forma de iniciar o seu evangelho, João manifesta a sua intenção de apresentar Jesus como o Deus que sempre existiu “na eternidade, antes de todos os tempos” (cf. Jo 1.1-14: “No princípio era o Verbo, e o Verbo era Deus... E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como o unigênito do Pai”). É a unidade eterna de Jesus com Deus que perpassa o seu evangelho.

3. O capítulo 9

A delimitação do nosso texto é uma tentativa de resumir o capítulo. Mas, como já foi dito acima, ele deve ser levado em conta como um todo. A história relatada neste capítulo não tem paralelo nos sinóticos.

O cerne teológico desta perícope é o fato de que aqui a “cegueira” e o “enxergar” apresentam-se em dois níveis. Em primeiro lugar, um cego passa a ver; e em segundo lugar, esse cego, no momento em que ele passa a enxergar, enxerga aquilo que é o assunto propriamente dito desta perícope: a majestade de Cristo. Na realidade, o mais importante “é o abrir os olhos para a fé” (v. 39). Não se pode dizer que os adversários de Jesus ficam cegos, no sentido literal da palavra, mas não conseguem perceber o mistério que é o centro de nosso texto.

Nós somente compreenderemos esta história corretamente, se reconhecermos o conflito que o evangelista enfrenta com os judeus em seu contexto, pois foram eles que excomungaram os/as cristãos/ãs (Jo 9.22; 12.42; 16.2). São os judeus que, por causa de sua radical fidelidade à lei, tornam-se cegos diante do poder de Jesus.

A estrutura do capítulo 9

a) 9.1-7 – a narrativa da história da cura do cego de nascença;
b) 9.8-12 – o espanto das pessoas achegadas ao ex-cego;
c) 9.13-17 – a interrogativa ao ex-cego pelos fariseus – a questão do sábado;
d) 9.18-23 – a interrogativa dos pais do ex-cego;
e) 9.24-34 – a segunda interrogativa do ex-cego;
f) 9.35-39 – Jesus e o ex-cego;
g) 9.40-41 – Jesus e os judeus.

Comentando a estrutura do capítulo 9

O ponto de partida de Jesus é a cura de um cego de nascença em pleno sábado. Existe uma série de preconceitos em relação aos acontecimentos que se desenrolam na história, como:
– Cegueira desde o nascimento era considerada um castigo por causa de pecados;
– Qualquer ação, além da extrema necessidade, era proibida no sábado;
– Somente “enviados de Deus” podem realizar curas;
– Moisés era um enviado de Deus.

Jesus, em seu agir, simplesmente ignorou todos esses preconceitos em favor da pessoa do cego. Ignorou a lei rígida, que impede a liberdade de ação e a espontaneidade de ação.

Com isso, Jesus transgrediu o modo de viver “óbvio” dos judeus, que obedeciam a lei cegamente, sem levar em conta qualquer malefício que essa “obediência cega à lei” pudesse causar.

O “drama” desse preconceito perpassa o texto. Sempre de novo os fariseus tocam no assunto de que a lei fora violada no processo de cura daquele cego. Isso é percebido na interrogativa ao próprio ex-cego, a seus pais e, muito mais ainda, no ato de sua expulsão (v. 34).

Por outro lado, da mesma forma como progridem as acusações e o preconceito de que essa cura fora efetivada em descumprimento à lei, progride também o reconhecimento por parte do ex-cego de que Jesus é Deus:
– Quando solicitado, pela primeira vez, para dizer “algo a respeito daquele que lhe abriu os olhos”, respondeu: “Que é profeta” (v. 17).
– Depois, no v. 24, os fariseus dizem que “quem o curou é pecador”. A isso ele reage dizendo nada saber sobre isso; apenas sabe que era cego e que agora vê (v. 25).
– No v. 33, ele confessa a Jesus como sendo “de Deus”, dizendo: “Se este homem não fosse de Deus, nada poderia ter feito”.
– Por fim, depois de expulso pelos fariseus, Jesus o procura e conversa com ele. Também esta conversa evolui. Afirma que crê no Senhor e o adorou (vv. 35-37). É interessante observar que Jesus age (na cura) e depois se retira. Ele não aparece durante a polêmica criada pelos fariseus e nem procura influenciar o ex-cego em sua posição. Somente depois, no momento em que ele novamente é excluído, Jesus o procura.

Somente no final do texto, Jesus fala da real e verdadeira cegueira. Não somente os cegos podem ver, mas também os que vêem podem se tornar cegos.

Cegos são os fariseus, que não conseguem se libertar da lei, das tradições e dos preconceitos.

4. Pistas para a prédica

Sugiro que o texto seja lido conforme a delimitação acima. Em seguida, todo o capítulo 9 deveria ser brevemente parafraseado, para que a comunidade consiga familiarizar-se com o conteúdo.

A intenção de João, contextualizada em seu evangelho, também deveria ser explicada.

A prédica não deveria concentrar-se na questão do milagre da cura, embora seja esta uma questão para a qual a comunidade costuma despertar curiosidade. A história da cura em si deve ser apenas pano de fundo para a prédica.

Neste texto, Jesus convida a enxergar as coisas com os “seus olhos”. É então possível enxergar coisas boas e bonitas, para as quais antes estávamos cegos; ao mesmo tempo, é possível passar a enxergar realidades duras e tristes, para as quais preferíamos não olhar para não ver.

O texto é um convite para nos lembrarmos de experiências ou de situações de cegueira. Tantas vezes nós pensamos estar muito bem informados, mas nos auto-defendemos de uma verdade dura, que machuca... Outras vezes não somos capazes de enxergar a bondade, a confiabilidade de uma pessoa. Além disso, não poucas vezes tentamos não enxergar, para nos auto-iludirmos, quer em questões particulares, estruturais ou ideológicas. Para tanto, também nós temos que nos libertar de leis e preconceitos.

Olhando para dentro de nossas comunidades, constata-se que muitas pessoas precisam libertar-se de leis e preconceitos até para reconhecer a Cristo e para ser capazes de viver uma vida autêntica. A comunidade existe por causa do Evangelho.

5. Um exemplo concreto para a prédica

O pastor Gert Hartmann, em seu auxílio homilético sobre João 9.35-41, sugere fazer, em algum momento da prédica, uma menção sobre a 2ª Guerra Mundial. Os alemães, quase durante todo esse tempo, arrogavam para si a vitória. E as perguntas que ele sugere colocar na prédica são as seguintes:

* Quando será que eles aceitaram o fato de que a guerra estava perdida?
* E quando veio o reconhecimento de que essa guerra sempre foi criminosa, desde o seu início?
* Será que esse reconhecimento já veio antes do fracasso, ou será que, para isso acontecer, foi necessária a catástrofe?
* Será que esse reconhecimento veio repentinamente, como se “caíssem as vendas de seus olhos”? Ou será que ele veio de forma tímida e retraída?

O pastor Gert Hartmann ainda coloca duas experiências pessoais. Ele escreve:

Em abril de 1945, eu era um menino de 10 anos de idade e ainda acreditava firmemente que o “poderoso líder nazista Hitler” poderia, com uma arma mágica, mudar a situação em favor da Alemanha. Mas, ao mesmo tempo, já há dois anos a possibilidade da derrota passava por minha cabeça. Lembro-me de certa manhã, quando estava a caminho da escola, eu sonhava acordado: “Bah! Agora, neste momento, certamente um menino inglês também está a caminho de sua escola. Coitado! Ele tem que admitir: Nós vamos perder!... Mas pode ser que ele também esteja pensando o mesmo que eu: Nós vamos vencer!... Mas como? Se ele e eu pensamos a mesma coisa, então quem sabe ele está com a razão?

Não sei por que, mas hoje, depois de quase sessenta anos, eu me lembro desse meu pensamento daquela época. Deus dispõe de muitas maneiras para trazer a luz da verdade à tona. Voltando no tempo, eu vejo que Deus não me deixou completamente cego diante da realidade daquela época.

Essa “revelação” como “pressentimento” da dura verdade foi suficientemente forte para ficar em minha memória durante toda a minha vida. Naquele tempo, ela não foi suficientemente forte para eliminar a minha cegueira, que não me permitiu admitir uma realidade que, afinal de contas, já estava prestes a acontecer.

6. Subsídios litúrgicos

Confissão de pecados: Senhor e Deus, te agradecemos por este dia quando nos reunimos como comunidade neste culto. Obrigada por cada um, cada uma que aqui está.

Nesta oração, queremos confessar a nossa culpa, queremos reconhecer que somos pessoas com muitas limitações. Pedimos-te perdão. Tem, Senhor, piedade:

C – Tem, Senhor, piedade...

Pedimos-te perdão pelas vezes em que não enxergamos as necessidades das pessoas que nos cercam. Quando fingimos não notá-las... quando sempre procuramos nos convencer a nós mesmos de que nada temos a ver com isso.

Pedimos-te perdão. Tem, Senhor, piedade:

C – Tem, Senhor, piedade...

Pedimos-te perdão por não nos dedicarmos de corpo e alma à nossa comunidade. Por não colocarmos os nossos dons à disposição de tua missão.

Pedimos-te perdão. Tem, Senhor, piedade:

C – Tem, Senhor, piedade...

Pedimos perdão pelos nossos pecados... também daqueles que não nos lembramos agora. Pecamos em palavras, pensamentos, ações e omissões – quando deixamos de fazer o bem.

Pedimos-te perdão. Tem, Senhor, piedade:

C – Tem, Senhor, piedade...

Oração de coleta: Querido Deus! Somos-te gratos porque nos conduzes com a tua Palavra. Por ela somos derrubados e outra vez postos de pé. Neste culto, permite que a tua Palavra encontre acolhida em nossos corações, para que nossas vidas sejam construídas sobre um fundamento firme. Que não optemos pela ilusão e pela cegueira, mas pela visão nítida e clara da verdade. Acolhe, Senhor, nossas orações, nosso canto, concede-nos comunhão e abençoa a pregação. A ti trazemos nossa gratidão e nossa súplica em nome de Cristo. Amém.

Bibliografia:

BORNKAMM, Günther. Bíblia Novo Testamento : introdução aos seus escritos no quadro da história do cristianismo primitivo. São Paulo, 1981.
MARAHRENS-SCHÜRG, Christa, HARTMANN, Gert. Annäherungen an den Predigttext Johannes 9,31-41. In: DOMAY, Erhard (Ed.). Gottesdienst Praxis. Serie A, V. Perikopenreihe, Band 4. Gütersloh, 1995. p. 70-80.
RENGSTORF, Karl Heinrich, BÜCHSEL, Friedrich. Das Evangelium nach Lukas und das Evangelium nach Johannes. Göttingen, 1937. p. 384-389.
VOIGT, Gottfried. Der Rechte Weinstock : Teil II: Homiletische Auslegung der Predigttexte der Reihe III. Berlin, 1969. p. 324-330.


Proclamar Libertação 27
Editora Sinodal e Escola Superior de Teologia


Autor(a): Heloisa G. Dalferth
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Quaresma
Perfil do Domingo: 3º Domingo na Quaresma
Testamento: Novo / Livro: João / Capitulo: 9 / Versículo Inicial: 13 / Versículo Final: 17
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2001 / Volume: 27
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 7132
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