Linguagem inclusiva

15/10/2013

Linguagem inclusiva

P. Vilmar Abentroth1
 

Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós.” (2 Coríntios 4.7)

Para início de conversa!

Qual a contribuição que a Igreja Cristã pode oferecer, numa perspectiva de inclusão, através da linguagem? Podemos nós, pessoas seguidoras de Jesus, sermos protagonistas em justiça e valorizar as diferentes pessoas, a partir da forma como nos referimos a estes e estas? Como perceber que segregamos através da forma como falamos? Estas são apenas algumas perguntas que podem estar diante de nós e oportunizar relevante reflexão.

A Linguagem, mais do que comunicar ideias, reflete e expressa como compreendemos o mundo. Ela revela conceitos, valores, normas, preconceitos, estigmas e sujeições. Façam o seguinte teste:

a) Digam o que entendem por HOMEM PÚBLICO e MULHER PÚBLICA?
(Ele é aquele que intervém publicamente nos negócios políticos. Já ela recebe um significado pejorativo e preconceituoso)

b) O que é um GOVERNANTE? E uma GOVERNANTA?
(Ele é o que dirige o país. Ela administra a casa que não é sua)

Por que mudar? Sempre foi assim! O principal argumento vem da língua portuguesa: o universal se expressa com o uso dos substantivos masculinos. As mulheres estão incluídas na expressão masculina.

Estudiosos e analistas confirmam que, recentemente, a humanidade passou por muitas e rápidas transformações como em nenhum momento histórico semelhante. Mudanças de conceitos, de paradigmas, de valores, de sonhos e de perspectivas. Acentuadas mudanças envolvem o todo do nosso ser, nossos relacionamentos, nossas atitudes, nossas palavras, nosso discernimento nas escolhas e decisões. Através da linguagem construímos todo um imaginário de mundo e de história com os quais nos identificamos e damos sentido à nossa vida.

Com certeza nós teríamos muita dificuldade hoje se entrássemos numa loja e pedíssemos: um foque (lanterna), um diadema (tiara), uma camisa volta ao mundo, uma brim-coringa (calça jeans), uma conga (tênis). Sim! Soaria ultrapassada, gente de outro tempo! Hoje, falar em shopping, pet shop, MSN, torpedo, brechó, cartão de crédito, soa comum, linguagem assimilada. Mas como é difícil mudar quando se trata de relações de gênero.

Por que linguagem inclusiva?

Por duas razões fundamentais:

1) Pela visibilidade das mulheres que estão assumindo muitos postos e carreiras nunca imagináveis, não por concessão, mas por conquista, mérito, dedicação e manifestação de habilidades antes suprimidas.

2) Para que haja uma simetria (igualdade) nas representações dos sexos presente na nossa fala e em nossa sociedade.

Três exemplos:

1) Fechem os olhos e imaginem esta cena: “Na assembleia da Comunidade, os homens reunidos decidiram por restaurar o prédio da igreja que estava precário”.

Quem decidiu? No seu imaginário, você conseguiu visualizar a presença das mulheres?

2) Num encontro sinodal, com quase mil mulheres, na entrada do salão, uma faixa saúda: “Sejam todos Bem-vindos!” Se estivesse escrito: “Sejam todas Bem-vindas!”, os motoristas, maridos acompanhantes e pastores presentes iriam se sentir saudados? Por que o inverso se pensa possível?

3) Um comunicado muito comum de nossas escolas: “Reunião de pais...” Quem geralmente participa das reuniões da escola? Sabemos nós que, em sua grande maioria, quem participa destas reuniões são as mães e interessante é que, quem envia o bilhete, geralmente são professoras. Certa vez questionei e uma me disse: “Mas o correto é falar no masculino!”

Muitas vezes quando questionamos o uso de formulações que não contemplam a inclusão, o argumento de defesa é: não há necessidade de citar tudo, as mulheres se incluem. De fato, é possível perceber que a linguagem não é apenas uma forma de comunicação, pois ela é uma expressão cultural da sociedade, que deixa transparecer os inúmeros preconceitos e quem nela tem o poder. Esse tipo de comportamento ajuda a perpetuar posições hierárquicas desiguais entre homens e mulheres, pois dá visibilidade ao masculino, ficando as mulheres invisibilizadas e colocadas em situação inferior de representação. Por isso, precisamos perguntar: é o Homem a universalidade da criação de Deus? Ele é o ápice, o “cabeça” onde tudo o mais deve se incluir? Neste contexto, é importante lembrarmos o relato em Gênesis 1.27: criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. A expressão homem e mulher os criou é abrangente, ela amplia e dá significado nominal ao feminino e ao masculino. Outro exemplo de uma narrativa que contempla os diferentes, está em Mateus 14.21: e os que comeram foram cerca de cinco mil homens, além de mulheres e crianças.

Por que temos tanta dificuldade em utilizar palavras e formulações inclusivas?

Se conseguirmos responder a esta pergunta, vamos começar a nos libertar de uma prática discriminatória. Podemos usar expressões como: pessoas, humanidade, ser humano, povo e gente quando queremos nos referir a homens, mulheres, jovens, pessoas idosas e crianças. Como é bonito, como soa bem aos ouvidos quando alguém saúda e acolhe especificando e contemplando o gênero masculino e feminino. É uma questão de respeito à representatividade das pessoas presentes, de complementaridade. Não deixa de ser uma tentativa de buscar relações mais horizontais e harmoniosas entre homens e mulheres.

A linguagem representa a realidade criada pela sociedade. A iniciativa de incluir mulheres nas referências orais e escritas busca gerar uma mudança de mentalidade. As mulheres só estarão realmente incluídas na sociedade quando aprendermos a evidenciá-las também em nossa linguagem! Isto é tão importante que a recomendação nº 42, de 8 de agosto de 2012, do Poder Judiciário brasileiro, resolveu recomendar a todos os tribunais que, na menção aos cargos deste poder, observe-se o gênero de seu ocupante e que, em atos oficiais, documentos de identificação pessoal e públicas seja respeitada a linguagem inclusiva de gênero.

Sabemos que não é fácil utilizar a linguagem inclusiva em nosso dia a dia, mas, também, ninguém nos disse que mudar o mundo seria uma tarefa simples! O importante é estarmos cientes do que as palavras representam na nossa comunicação e na construção de uma realidade social na qual o masculino não seja universal e nem superior a ninguém.

Em 2 Coríntios 5.17, lemos: “E assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura: as cousas antigas já passaram: eis que se fizeram novas.”

1. Vilmar Abentroth: bacharel em Teologia. Pastor. Santa Cruz do Sul/RS.

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Autor(a): Vilmar Abentroth
Âmbito: IECLB
Título da publicação: Estudos sobre Gênero / Ano: 2013
Natureza do Texto: Artigo
ID: 25309
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