Lucas 1.26-38

Auxílio Homilético

21/12/2008

Prédica: Lucas 1.26-38
Leituras: 2 Samuel 7.1-11, 16 e Romanos 16.25-27
Autor: Rene Zanandrea
Data Litúrgica: 4º. Domingo de Advento
Data da Pregação: 21 de dezembro de 2008
Proclamar Libertação - Volume: XXXIII
Tema: Advento


1. Introdução

Já estamos muito próximos do momento em que brindaremos o nasci- mento de Jesus. Os textos bíblicos escolhidos para esse dia colocam Maria no centro do plano salvífico do Senhor: ela é a escolhida. Era necessário um sim para que se iniciasse a realização plena das promessas do Primeiro Testa- mento (Lc 1.26-38).

A leitura do Primeiro Testamento (2Sm 7.1-11,16) mostra Davi que- rendo construir um templo para Javé. Esse recusa, pois está presente no meio do povo que luta pela vida e liberdade. Ao contrário: é Javé quem vai construir sua casa em meio à humanidade. Disso dá testemunho o apóstolo Paulo nas saudações finais de sua carta, cujo trecho ouvimos na celebração de hoje (Rm 16.25-27). Para Paulo, diante desse mistério que fora revelado, nossa atitude será de louvor e glorificação.

Nesse quarto Domingo de Advento, vemos que Deus cumpre a promessa: ele é fiel e seu amor estende-se a todas as gerações. E Deus faz isso livre e gratuitamente. Da mesma forma Maria o fará. Assim também a humanidade toda é convidada a fazer.

2. Exegese

Em Lucas, temos a narração do anúncio do nascimento de Jesus, feita por um anjo. O anúncio é feito a uma mulher de nome Maria, que morava em Nazaré da Galileia, um lugar sem muita importância. Lucas demonstra constantemente a superioridade de Jesus sobre João no paralelismo entre o anúncio do nascimento de Jesus e o de João. O anúncio do nascimento de João significou a continuidade da história e as esperanças hebraicas, mas podemos dizer que o anúncio do nascimento de Jesus é a novidade radical da ação salvífica de Deus. Jesus não só “será grande perante o Senhor”, assim como João; ele será chamado de “filho do Altíssimo”. O nas- cimento de João acontece por meios naturais, após a cura da esterilidade de Isabel; Jesus nascerá de uma virgem. João estará cheio de Espírito Santo desde o ventre materno, enquanto Jesus é concebido pelo poder do Espírito Santo. João será profeta, e Jesus será o Messias esperado, o Filho de Deus que vem morar no meio de nós. Maria aceita com fé a proposta divina e declara-se serva do Senhor. Ela é modelo do discípulo cristão e mãe da humanidade. A resposta de Maria começa com uma objeção. É bom lembrar que a objeção sempre faz parte dos relatos de vocação do Antigo Testamento. É uma reação natural de alguém chamado, assustado com a perspectiva do compromisso com algo que o ultrapassa; mas é, sobretudo, uma forma de mostrar a grandeza e o poder de Deus, que, apesar da fragilidade e das limitações dos chamados, fazem deles instrumentos de sua salvação no meio dos homens e do mundo.

O episódio narrado em Lucas 1.26-38 pode ser lido também como a realização perfeita e definitiva da promessa feita a Davi em 2 Samuel 7 e em outras profecias messiânicas. Em Lucas, vemos a promessa e a resposta, a mesma estrutura usada em 2 Samuel. Possivelmente, esse texto que lemos na primeira leitura fundou a concepção messiânica elaborada tanto no Primeiro como no Segundo Testamentos. A Maria Deus propõe que aceite ser a mãe de um “filho” especial. Desse filho diz-se, em primeiro lugar, que ele se chamará “Jesus”. O nome significa “Deus salva”. Além disso, esse Filho é apresentado pelo anjo como “Filho do Altíssimo”, que herdará “o trono de seu pai Davi” e cujo reinado “não terá fim”. As palavras do anjo levam-nos a 2 Samuel 7 e à promessa feita por Deus ao rei Davi através das palavras do profeta Natã. Esse filho é descrito nos mesmos termos em que a teologia de Israel descrevia o “messias” libertador. O que é proposto a Maria é, pois, que ela aceite ser a mãe desse messias que Israel esperava, o libertador enviado por Deus a seu povo, para oferecer-lhe a vida e a salvação definitivas.

Os dois textos em questão revelam a gratuidade da ação de Deus ao escolher Davi e Maria e através deles realizar suas maravilhas. Davi, um simples pastor de rebanhos, é ungido a chefe do povo de Israel. Maria, moradora de uma aldeia sem importância, torna-se a mãe do Filho de Deus, aquele que herdará o trono de Davi e reinará para sempre.

Não é difícil perceber a sintonia que há entre os dois textos em questão. O Deus de Israel cumpre as promessas feitas aos patriarcas, a Davi, a Maria… Esses experimentam a gratuidade da ação divina.

O terceiro texto de hoje é de uma carta de Paulo escrita aos cristãos de Roma. Ele a escreveu, provavelmente, entre os anos 56 e 58 d. C., no final de sua terceira viagem missionária. Os receptores de sua carta eram predominantemente pessoas convertidas do paganismo. E o que lemos nesse trecho – concluindo a carta – é uma doxologia, um hino de louvor a Deus, que tem poder de confirmar os fiéis para que vivam a boa-nova que Paulo anuncia.

3. Meditação

Pelos relatos bíblicos sabemos que Maria é parte integrante do povo que aguarda a vinda do Messias. Ele é desejado, sobretudo pelo povo simples. Essa expectativa está associada à esperança que os profetas plantaram no seio da comunidade dos filhos de Deus. Nos corações há sempre uma esperança pela ação libertadora de Deus.

Muitos profetas encarregaram-se de animar os que estavam caídos, desanimados. Vemos isso ao longo de todo o Primeiro Testamento. No texto de hoje, 2 Samuel no capítulo 7, temos Natã que dialoga com Davi. Davi desejava construir um templo para Javé, já que ele, o rei, morava “num palácio de cedro”. Mas Javé recusa esse desejo. Recusa porque está presente no meio do povo, que luta pela vida e liberdade. Javé construirá para Davi uma casa, ou seja, uma dinastia cujo poder estará sempre nas mãos de seus descendentes. É o profeta que teve que anunciar isso; foi Natã quem precisou dialogar, agindo em nome de Deus.

Vemos, desse modo, profetas – e são muitos – que por seu anúncio- denúncia-testemunho instigam o povo sofrido a não desanimar. Não é difícil compreender que Maria herda essa tradição, e também ela é desejosa da ação salvífica de Deus. Maria crê na ação libertadora de Deus.
É-nos permitido pensar que outros homens e outras mulheres podem ter sido convidados para colaborar nos planos da salvação e recusaram. Maria disse sim. Questionou, isso é verdade! Mas perguntemo-nos: Não é bom compreender aquilo que cremos? A atitude de Maria, ao compreender do que tratava o anúncio do anjo, foi de adesão. Empenhou-se de tal forma, que não necessitou voltar atrás: “Faça-se em mim segundo a tua palavra”.

Em nosso cotidiano, somos rodeados de propostas. Vivemos uma cultura que nos interpela muito. E incessantemente fazemos escolhas. Está difícil, parece, acertar diante de um montante cada vez maior de possibilidades. A cada época, um novo leque de possibilidades se nos abre. Há um tremendo risco de perder de vista o essencial.

Vemos no sim de Maria ao menos duas atitudes de grandeza. As duas são marcadas por sua humildade. A primeira é acreditar (dar crédito). É a atitude de quem tem fé: acredita, mas quer entender. “Como vai acontecer isso?”, perguntou ela. É mais fácil empenhar a vida naquilo que se compreende. É mais fácil acertar na metodologia de nossa ação quando compreendemos aquilo no que estamos investindo e onde pretendemos chegar. A segunda atitude de Maria: uma firme decisão de ligar-se ao plano salvífico de Deus e empenhar-se nele. “Eis a escrava do Senhor.” Com isso Maria não aceita permanecer na mediocridade de seu individualismo. Ela aposta sua existência em prol de uma maioria sofredora, ou seja, na centralidade do reino prometido.

Assim como Isabel concebeu um filho em sua velhice – coisa pouco provável, a menos que pensado na ótica divina –, também a jovem Maria foi compreendendo que vale a pena apostar sua esperança em Deus. Em Jesus se cumprem as promessas de Deus. No filho de Maria realiza-se a Nova Aliança.

Deus age gratuitamente em favor de seu povo. Na gratuidade, também Maria, o apóstolo, o profeta agem em favor de uma causa maior.

Nós cristãos somos interpelados pela Sagrada Escritura a não perder de vista o essencial ao fazer nossas escolhas. Um dos perigos que enfrentamos é apegar-nos aos meios e perder de vista os fins. Nossa fé precisa ser forte o suficiente para nos instigar a investir tudo o que estiver ao nosso alcance, a fim de construir o essencial, razão da intervenção divina na história: que todas as criaturas tenham vida e a tenham abundantemente. Foi para a felicidade que Deus nos fez.

Celebrar o nascimento de Jesus é recordar o gesto gratuito de Deus. Fazendo-se um de nós, vindo morar em nosso meio, deixando-se tocar pela humanidade, falando e agindo de modo compreensível à inteligência humana… Ele nos dá o recado do essencial: o amor é que pode transformar as relações. Agir por amor é que faz valer nossa existência.

Em resposta à provocação de como falaria sobre a essência do cristianismo em apenas um minuto, o cardeal Martini respondeu: “A nossa fé pode ser explicada com uma só palavra: amor. Depois é ilustrada, obviamente, mas é certo que a palavra-chave para o cristão é essa, somente essa”.

4. Imagens para a prédica

1 – O pregador pode iniciar cantando essa adaptação de uma música popular bem conhecida: “Abra a porta, abra a janela. Venha ver quem é que vem! É Jesus que vem chegando, Ele é o nosso bem”. A partir disso desenvolver a pregação, levando o ouvinte à (possível) conclusão de que, para Jesus nascer de novo (ou seu nascimento ser novidade), há necessidade de uma atitude nossa (individual e coletiva): abrir o coração. Não precisamos temer: ele é amor; “ele é o nosso bem”.

2 – O pregador pode iniciar contando uma situação de uma criança cuja faixa etária é a “fase dos porquês”. O ideal seria que a criança que questiona, no fato narrado, tivesse, a partir da resposta obtida, uma atitude de adesão ou uma atitude ousada, surpreendente. Em sua prédica, tentará “amarrar” a isso a atitude de Maria em seu diálogo com o anjo. Em sua reflexão, o pregador pode levar o ouvinte a questionar-se quanto a suas atitudes diante de situações desafiadoras do cotidiano: Curiosidade ou apatia? Compromisso ou “sumisso”?

5. Subsídios litúrgicos

Oração do dia:

Faze, Senhor, com que esta celebração nos aproxime sempre mais de tua vontade. Permite que este encontro possa reavivar nosso desejo de te conhecer, seguir e anunciar. E, assim como Maria, possamos acreditar em teu projeto de salvação e empenhar a totalidade de nossa existência por essa causa. Amém!

Oração da luz:

A seguir, sugerimos uma oração da luz feita em mutirão. Cada pessoa pode receber uma vela ao chegar para a celebração (ou apenas algumas pessoas escolhidas). Ao acender a vela que recebeu, a pessoa pode expressar razões de agradecimento pela luz de Cristo (ao estilo de uma litania), a exemplo desta: Bendito sejas, Deus bondoso, pela luz de Cristo, sol de nossas vidas, a quem esperamos com toda a ternura do coração.

Bênção especial para as mulheres grávidas:

(Pode-se estender as mãos sobre as mulheres, e essas colocam suas mãos sobre a barriga): Ó Deus, ternura de paz, nós te contemplamos na gravidez de Maria e na gravidez dessas nossas irmãs. Dá saúde a essas crianças que estão para nascer e tranquilidade às suas mães. Bendito sejas pela alegria da vinda de Jesus Cristo, nosso salvador. Amém!

Música: Louvação para o Advento (adaptação da música Anunciação, de Alceu Valença)

1 – É muito bom, que alegria te louvar, ó Pai querido, mãe de amor e de bondade! Há muito tempo prometeste ao teu povo que tu virias visitar a humanidade
Tu vens, tu vens, Eu já escuto os teus sinais!
2 – O povo antigo te fizeste escutar pelos profetas da primeira aliança. Tuas promessas se cumpriram plenamente em Jesus Cristo, que é nossa esperança.
3 – João Batista apareceu lá no deserto, o teu messias entre nós ele apontou. Quando Maria disse “sim” a teu anúncio, de tua palavra a Virgem logo engravidou.
4 – Bendito sejas, ó Senhor, por esta mesa, pelo alimento que de ti nós recebemos. E em memória de Jesus, teu filho amado, com alegria entre nós partilharemos.
5 – Manda, Senhor, o teu Espírito de amor, que nos reúna em fraterna comunhão. Que haja paz, prosperidade entre os povos. Que lá do céu nos venha a tua salvação!
6 – Hoje teu povo reunido em louvação é um sinal de que teu reino está chegando. Por isso agora, com as palavras de Jesus, teu santo nome confiantes invocamos: Pai nosso…

 

No dia 22 (segunda-feira), lembramos Chico Mendes, defensor do meio ambiente.


Chico Mendes: promotor da paz e do cuidado com a ecologia


Rene Zanandrea

A luta pela preservação da natureza vem crescendo nos últimos tem- pos. A cada dia, mais e mais pessoas se convencem de que a natureza está sofrendo severamente com a ação humana. No Acre, um líder seringueiro ergueu um grito em favor da ecologia. Tentaram calar seu grito, mas ele continua ecoando em favor do equilíbrio natural.

No dia 22 de dezembro de 1988, morreu o líder seringueiro Francisco Alves Mendes Filho (Chico Mendes, como ficou conhecido internacional- mente). Foi assassinado em Xapuri, no Acre, por causa de sua luta pela preservação dos seringais e das florestas no estado. Hoje, vinte anos depois, o trabalho iniciado por Chico resultou em vários avanços nas políticas de preservação ambiental do país.

Chico Mendes é um dos fundadores do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri e do Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS). Foi reconhecido como um dos mais importantes defensores do meio ambiente pela Organização das Nações Unidas, que lhe concedeu o prêmio Global 500 de preservação ambiental em 1987. No mesmo ano, (1) conseguiu que o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) suspendesse o financiamento da construção da rodovia BR-364, planejada para escoar a produção agrícola brasileira para o Pacífico, em função do grande impacto socioambiental do projeto; (2) foi convidado pelo Senado dos Estados Unidos a se pronunciar sobre danos ambientais de várias outras iniciativas financiadas por bancos americanos.
Ficaram mundialmente conhecidas as ações diretas lideradas por Chico, os chamados “empates”: os manifestantes abraçavam as árvores para impedir seu corte. Quinze desses empates impediram ações de desmatamento.

Chico pode ser considerado hoje um dos criadores do pensamento ecológico moderno no Brasil. Conseguiu introduzir no movimento ambientalista o conceito de que a preservação ambiental não é sinônimo de área isolada, destituída de presença humana. Há centenas de anos, os povos da floresta – indígenas e comunidades tradicionais – viveram em harmonia com o meio ambiente. E a ecologia de Chico é exatamente a que prega o desenvolvimento social através de um manejo sustentável dos recursos naturais.

Nesse sentido, desde 1988 o número de reservas extrativistas (Resex) em todo o Brasil aumentou expressivamente. Segundo o Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS), foram criadas mais de 40 dessas reservas – que juntas ocupam cerca de 6 milhões de hectares –, beneficiando mais de 500 mil famílias. Seguramente, os seringueiros que permaneceram nas florestas estão hoje numa situação melhor do que aqueles que migraram para as cidades.

“Nos seringais, apesar da pobreza, não se encontram miseráveis como nos centros urbanos”, afirmam amigos de Chico Mendes.

Chico da Amazônia: Serviço, Justiça, Paz, Ecologia
Mataram o Chico. De sobrenome Mendes.
O Chico filho da Amazônia. O seringueiro. O Chico da humanidade, o ecologista.
O Chico que nos queria seringueiros, continuadamente oferecendo o néctar da consciência.
Quem matou o Chico da Amazônia, da fauna, da flora?
Na mira da espingarda que alvejou o nosso Chico estavam a UDR
e todos aqueles que, historicamente, violentam Chicos e Marias.
O tiro contra o nosso Chico também nos atingiu. Nossa dor ultrapassa o sentimento de solidariedade. Sentimos os corpos igualmente dilacerados.
Comungamos na dor e na defesa da humanidade. Mas sabemos responder a cada violência em favor da vida.
Cada um de nós necessita ser igualmente Chico. Sempre!
(autor desconhecido)


 


Autor(a): Rene Zanandrea
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Advento
Perfil do Domingo: 4º Domingo de Advento
Testamento: Novo / Livro: Lucas / Capitulo: 1 / Versículo Inicial: 26 / Versículo Final: 38
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2008 / Volume: 33
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 18570
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