Lucas 10.38-42

02/08/1998

Prédica: Lucas 10.38-42
Leituras: Gênesis 18.1-10a(10b-14) e Colossenses 1.21-28
Autor: Ricardo W. Rieth
Data Litúrgica: 9º Domingo após Pentecostes
Data da Pregação: 02/08/1998
Proclamar Libertação - Volume: XXIII
Tema:

1. Introdução

O relato sobre a visita de Jesus à casa de Marta e Maria já foi abordado por duas vezes em Proclamar Libertação. Carlos Arthur Dreher (VI, p. 124-132) traz uma análise cuidadosa do texto acompanhada de detalhada proposta homilética. Louraini Christmann (Vil, p. 170-177) procura compreender o texto no quadro do que o Evangelho de Lucas traz a respeito das mulheres e sua relação com Jesus.

De minha parte, procuro trazer uma rápida apresentação do texto/contexto da perícope. Como meditação, incluo trechos de prédicas a respeito do texto proferidas em três diferentes épocas da história da Igreja. Creio ser válido examinar como comunidades cristãs em diferentes épocas meditaram a respeito do ocorrido naquela casa com Marta, Maria e Jesus. Por fim, sugiro uma estrutura de prédica que permita uma avaliação crítica da experiência específica de cada comunidade quanto à forma de relacionar sua ação prática com seu ouvir a Palavra de Jesus.

2. Texto/Contexto

O texto fala, assim como os w. 25-37, da firme exigência de Deus. Desta vez, porém, não se refere ao amor a Deus e à pessoa próxima, mas ao ouvir a Palavra de Jesus. Para o evangelista não há contradição nisso. O amor é apresentado como exigência de Deus - não como mandamento de Jesus. Para o/a discípulo/a, portanto, nada mais importante do que ouvir a Jesus, uma vez que por meio de sua Palavra se conhece o mandamento de Deus. Para Lucas, o amor à pessoa próxima também é possível no caso de não-discípulos/as (cf. vv. 25 e 36s.). A única coisa necessária para discípulos/as, contudo, é o ouvir a Palavra de Jesus e não o limitar-se às preocupações da vida cotidiana (v. 8.14; 21.34; cf. 12.22-31). Quem busca o reino de Deus recebe todo o necessário (v. 12.31).

Na história da Igreja, esse texto foi utilizado para estabelecer a distinção entre as dimensões ativa e contemplativa no campo da espiritualidade.

V v. 38-39: Jesus está viajando com seus discípulos e entra numa aldeia (cf. 9.56). A mulher que o acolhe em sua casa se chama Marta. Ela está no primeiro plano da narrativa, embora sua irmã Maria seja apresentada como exemplo. Maria se senta aos pés do Senhor e ouve atentamente sua Palavra. Esses são os limites do que acontece. Em seguida, fica claro como Jesus deve ser recebido (cf. 19.6), ou melhor, como sua Palavra deve ser acolhida (8.13).

V. 40: À diferença de sua irmã, Marta está completamente ocupada com muito serviço. Ao servir, se inclui no grupo das discípulas de Jesus (cf. 8.1-3). Ela crê estar agindo corretamente e censura sua irmã por não servir. Também censura a Jesus por manter a irmã afastada do serviço. O próprio Jesus deve ordenar que Maria a ajude. Indiretamente já é dito aqui que Jesus, que de modo algum corresponde ao pedido de Marta, não veio para ser servido (Mc 10.45; cf. também Lc 12.37; 22.27).

Vv. 41-42: Jesus, novamente chamado de Senhor, responde. O duplo chamado do nome de Marta equivale ao estilo do Evangelho de Lucas. O que se diz a seguir tem sua essência na contraposição entre muitas coisas e uma única coisa. Marta se preocupa e esforça com muitas coisas, ao invés de se dedicar à única coisa necessária. O v. 42b diz o que é essa única coisa necessária. Maria escolheu a parte boa. Ela se decidiu por ouvir exclusivamente a Palavra do Senhor. Com isso se quer precisar mais o dito nos vv. 25-37. Ali Jesus dissera como o mandamento do amor, cuja proeminência é indiscutível, deveria ser interpretado e concretizado. Aqui o Senhor Jesus diz a Palavra decisiva, apresentada como última instância e autoridade. O serviço de Marta não é condenado, de forma alguma! Contudo, fica claro que uma diaconia que passa ao largo da Palavra de Jesus e não a ouve não permanece, enquanto que o ouvir a Palavra de Jesus é o bem que fica e não pode ser tirado (cf. 8.18; 12.19-21.33).

3. Meditação

Aurélio Agostinho (354-430) foi líder da Igreja Antiga na África. Foi bispo em Hippo Regius e provavelmente o teólogo de maior influência sobre as gerações posteriores na Igreja cristã ocidental. Segue-se abaixo um trecho de seu Sermão de n° 104 sobre Lc 10.38-42. Para Agostinho, na Igreja há lugar tanto para gente que se comporta como Marta como para quem age como Maria. Ele vê em Marta uma figura para a vida presente das pessoas cristãs e em Maria uma figura para a vida futura. No culto, porém, quando é pregada a Palavra, há uma antecipação da vida futura exemplificada na ação de Maria.

“[...] Vocês, caríssimos, devem ter descoberto algo nessas duas mulheres ambas amigas do Senhor, ambas amáveis e discípulas suas - algo que não escapa à compreensão de vocês. Quem ainda não caiu cm si deve ouvi-lo e sabê-lo. A saber, como essas duas mulheres são emblemáticas para duas vidas, a presente e a futura, a trabalhada e a repousada, a infeliz e a ditosa, a temporal e a eterna. Assim são as duas vidas. Submetam-se a uma ponderação minuciosa e verão. Ponderem vocês, repito, minuciosamente, as características desta vida, não digo a má, a iníqua, a perversa, a desenfreada, a ímpia, mas a trabalhosa, a cheia de dissabores, a rodeada de temores c agitada por tentações. Vicia inocente, como convinha que fosse a vida de Marta, fíxaminem-na com Iodas as suas forças e mais do que o fazemos aqui. A vida iníqua estava longe daquela casa. Não estava nem com Marta e nem com Maria. E, se alguma vez esteve ali, fugiu com a entrada do Senhor. Estavam ali, naquela casa, duas mulheres, duas vidas, ambas inocentes, ambas louváveis. Uma laboriosa, outra ociosa. Nenhuma pecaminosa, nenhuma indolente. Ambas inocentes, ambas louváveis: uma laboriosa, a outra ociosa. Nenhuma das duas pecaminosa (algo de que deve guardar-se a laboriosa), nenhuma das duas indolente (algo de que deve guardar-se a ociosa).

Naquela casa, portanto, estavam estas duas vidas. Ali também estava a própria Fonte da vida. Em Marta estava a imagem do atual, em Maria a do futuro. Nós estamos agora nos afazeres de Marta, esperando ocupar-nos como Maria. Façamos com solicitude o que temos agora, para obter com plenitude o que teremos no além. Porém, não tem nossa vida algo em comum com a de Maria? Que há de parecido entre ambas? Enquanto estamos aqui no templo, nossa ocupação não se assemelha à dela? Sim, por certo fazemos algo do que ela fazia quando, longe da agitação e esquecendo das preocupações domésticas, nos reunimos aqui, vocês aí em pé para me escutarem. Neste afazer vocês se parecem com Maria. Podem, além disso, copiar Maria mais facilmente do que eu, que estou pregando. Se digo algo de substancioso, então isso é de Cristo. Se alimenta, é porque é de Cristo, Pão de todos, do qual eu vivo e vocês vivem. Agora, pois, vivemos, se vocês se mantêm firmes no Senhor [l Ts 3.8]. Firmes no Senhor, não em nós, porque não é quem planta que é alguma coisa, nem quem rega, mas aquele que dá o crescimento: Deus (l Co 3.7).”

Martinho Lutero (1483-1546) é conhecido como reformador da Igreja e alguém que enfrentou e abalou as grandes estruturas de seu tempo. O que muitas vezes é pouco lembrado é que ele queria, antes de mais nada, ser um fiel pregador da Palavra junto à comunidade que o convocara para tal. Dedicar-se à teologia, para ele, só tem sentido se esse esforço se voltar diretamente à pregação. A prédica, cujo trecho é reproduzido abaixo, é de 15 de agosto de 1522, algumas semanas antes da publicação da primeira edição do Novo Testamento em alemão, por ele traduzido. Falando à comunidade de Wittenberg, Lutero vê no centro da perícope o ouvir a Palavra de Jesus. A censura de Jesus a Marta foi amigável e constituiu uma crítica, não à ação de Marta, mas ao sentimento de preocupação/atribulação - estresse, diríamos hoje - que a impulsionava.

“O Evangelho diferencia entre as coisas que dizem respeito à barriga e as que dizem respeito à alma. Embora Cristo esteja faminto, mesmo assim ele anseia tanto pela bem-aventurança das almas que esquece a refeição e prossegue pregando para Maria. E ele é tão diligente em relação à Palavra que censura Marta por deixar o Evangelho de lado por causa dos afazeres com os quais está ocupada: Marta, Marta, tens muita preocupação e te ocupas com muitas coisas, mas apenas uma é necessária. É como se ele quisesse dizer: Marta, tu tens muitas preocupações. Até agora preguei o Evangelho de que não devemos nos atribular. Trabalhar é preciso, mas não atribular-se. Especialmente quando se trata da Palavra, é preciso deixar de lado os afazeres. Sim, não só os afazeres devem ser deixados de lado, mas também esposa e filhos, pai e mãe, inimigos e amigos, honra e bens. É preciso colocar-se na dependência apenas da Palavra. Vejam vocês: embora Marta fosse uma boa filha e também tivesse boa intenção, ainda assim o Senhor repreende sua opinião e censura sua ação. Disso vocês vêem que podemos pretextar nossa boa opinião tanto quanto quisermos. De qualquer maneira, ela permanece falsa. Marta bem que poderia ter dito: Espera lá! Eu me esforcei tanto, corri, lavei e preparei. Minha opinião não vale nada? Portanto, mesmo que se acentue a opinião o quanto quiser, ela de nada vale diante de Deus. Pois Deus diz em Dt 12. [8]: Não farás o que bem te parece. Vocês vêem que aqui a opinião de Marta é censurada, apesar de ser a melhor opinião. Deus censura bem mais sua preocupação do que seu trabalho. Mas a censura muito amigavelmente e não a despreza. Isso é o melhor de tudo no Evangelho. Com isso ele pinta Deus para nós como um homem amistoso e suave, que age suavemente conosco, mesmo que por vezes caiamos em tentação e não façamos o que é certo. Mesmo assim, ele é bom demais conosco. Esta é a imagem que a Escritura nos mostra do Senhor. [...] Marta sem dúvida pecou ao atribular-se e, além disso, querer impedir a irmã de praticar a verdadeira boa obra. Cristo, entretanto, a censura mui suavemente e não a condena. [...]

Não é possível abarcar a Palavra com as mãos, nem com os pés e nem com o corpo inteiro, mas apenas com o coração e com a fé. Por isso, exteriormente, tudo é censurável e deve ser crucificado, blasfemado e ridicularizado. Somente a fé é irrepreensível. Somente ela e tudo o que nela está aprazem a Deus. De resto, todas as nossas obras são condenáveis e censuráveis. Deus precisa dizê-lo para ti no coração. Exteriormente, porém, são as pessoas que o condenam. A natureza cristã, portanto, não está em uma obra, mas apenas na alma, à qual se prende a Palavra. Porque diante de Deus nada pode subsistir através de obras, mas apenas por meio da fé.”

Gerhard Tersteegen (1697-1769) era leigo e foi talvez a figura mais destacada do pietismo de linha reformada na Alemanha. Teve repercussão como poeta, com obras cheias de sentimento, simplicidade e fomento à reflexão interior. Segue abaixo um trecho da alocução fúnebre proferida por Tersteegen a 21 de junho de 1755, no sepultamento de uma mulher chamada Maria. A partir do nome da falecida, seleciona o texto de Lc 10.42 para exaltar a escolha de Maria pela vida devota a Deus em meio às muitas opções oferecidas pelo mundo.

“Adiante: se queremos ser chamados pela Boca da Verdade de piedosos em vida e bem-aventurados na morte, então Deus e a devoção a ele também devem se tornar o melhor para nós. Precisamos poder escolher a parte boa e considerar o bem que escolhermos como nossa melhor parte, aquela que teríamos escolhido em meio a tudo o mais. Maria escolheu a parte boa. Na verdade, aqui está apenas a parte boa, mas como se compara com o que Marta escolheu, então é chamada propriamente c com vantagem de a parte boa, que de um modo especial c boa e também melhor do que a parte escolhida por Marta. Por si só se entende, então, que é a melhor parte. Maria escolheu a melhor parte. Quando se deve escolher, então se escolhe o melhor e ninguém é tão tolo de não escolher pelo menos o que lhe parece ser o melhor. Por isso também nós precisamos escolher a Deus como o nosso Bem primordial, como nossa melhor parte e amá-lo o tempo todo como o melhor que temos. Algumas pessoas pensam em Deus e se ocupam com Deus, pois se sabe antecipadamente que não se chega a bom termo sem Deus e, quer queira ou não, será preciso comparecer diante da face de Deus. Mas não procuram a Deus como o melhor que têm, como seu Bem excepcional. Sc um ser humano natural pudesse manter o tempo todo e eternamente as coisas deste mundo, dinheiro e bens, honra e fama, e tudo o que de resto mais se prefere na natureza, então não iria escolher a Deus. Possuiria preferencialmente as coisas visíveis em detrimento de Deus. Em verdade, ninguém vai admiti-lo facilmente, mas mesmo assim é a verdade. Quem contudo c retamente piedoso, este considera a Deus como o melhor que tem, mesmo se pudesse igualmente possuir tudo o mais.

Quando uma pessoa está em seu leito de morte, por vezes ela, ao se achar sem Deus, clama: Oh, se eu tivesse a Deus! Só que aí não se escolhe por livre opção, mas o pobre espírito se volta a Deus nesse momento porque tudo o mais precisa ser deixado. Então Deus deve ser o auxiliador na necessidade, quando já não se pode mais ler as outras coisas. Nós, porém, devemos escolher a Deus como o melhor que temos dentre todas as outras coisas que poderiam ser oferecidas a nós. Transitamos por este mundo como se Tosse uma leira, onde de todos os lados nos são oferecidos todos os tipos de mercadorias pelo espírito das trevas, pelo espírito do mundo, da carne e sangue, e cada espírito torna suas mercadorias o mais belas e atraentes que puder, mesmo sendo veneno: Ei você - dizem - , o prazer está aqui.

Ei, você quer vida boa? Então leva isso. Pode levar, etc. Cada um oferece sua mercadoria com muita competência. O preço, porém, é caro: a alma imortal. [...]

Sc queremos ser enaltecidos por Jesus como piedosos nesta vida e bem-aventurados depois dela, então temos que escolher a vida devota a Deus como o melhor que temos. Não devemos ser piedosos apenas por temor de consciência. Todas as pessoas querem se tornar piedosas quando o temor de consciência as atinge, ou quando estão doentes e temem a morte. Sim, a pior de todas as pessoas ainda quer se tornar piedosa numa hora dessas. Só que essa não é a maneira certa. Isso não é algo que necessita ser escolhido. Maria escolheu a melhor parte. Não devemos olhar para a vida devota a Deus como uma vida aborrecida, uma vida infeliz. Devemos olhar para a vida devota a Deus como uma vida tremendamente feliz, boa, como a melhor de todas. Devemos considerar como as mais felizes dentre as pessoas aquelas que têm honrado em seus corações o chamado da graça e se entregam de corpo e alma, e com toda sua pessoa, a Deus e à vida devota a ele. Quando um dia estivermos cm nosso leito de morte, então vamos ver a diferença, quão bem, quão perfeitamente escolhemos o melhor, quando escolhemos a Deus como nossa parte.”

4. Disposição para a prédica

1. Na casa de Marta e Maria.

l. l. O sentido da visita/presença de Jesus.

1.2. As alternativas de reação à visita de Jesus.

1.2.1. A reação de Marta.

1.2.2. A reação de Maria.

1.3. Jesus e as reações de Marta e Maria.

2. Em nossa comunidade.

2.1. A presença de Jesus em nossa comunidade (Palavra e Sacramentos).

2.2. Nossas reações à presença de Jesus.

2.2.1. Reações que relacionam mal Palavra e ação.

2.2.2. Reações que relacionam bem Palavra e ação.

3. Como relacionar melhor Palavra e ação na comunidade (edificação na Palavra, culto/liturgia, missão, testemunho, grupos de interesse, diaconia, ecumenismo, etc.).

5. Bibliografia

AGOSTINHO, Aurélio. Sermo 104, 4. In: OBRAS DE SAN AGUSTIN EN EDICIÓN BILINGUE. Madrid, 1952. t. 10. (Biblioteca de Autores Cristianos).
LUTERO, Martinho. Prédica sobre Lc 10.38-42 em 15/8/1522, in: WA 10 III, 268-273.
SCHNEIDER, Gerhard. Das Evangelium nach Lukas - Kapitel 1-10. Gütersloh, Würzburg, 1977. (Õkumenischer Taschenbuchkommentar zum Neuen Testament, 3/1).
TERSTEEGEN, Gerhard. Leichenrede für Maria N. über Lk 10.42, gehalten am Samstag, dem 21. 6. 1755. In: LÖSCHHORN, Albert; ZELLER, Winfried (Hrsg.). Gerhard Tersteegen -Geistliche Reden. Göttingen, 1979. p. 539-553.

Proclamar Libertação 23
Editora Sinodal e Escola Superior de Teologia


Autor(a): Ricardo W. Rieth
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 9º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: Lucas / Capitulo: 10 / Versículo Inicial: 38 / Versículo Final: 42
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1997 / Volume: 23
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 7108
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1João 1.5
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