Lucas 10.38-42

Auxílio homilético

01/03/1981

Prédica: Lucas 10.38-42
Autor: Carlos Arthur Dreher
Data Litúrgica: Domingo Estomihi
Data da Pregação: 01/03/1981
Proclamar Libertação - Volume VI
 

I - Considerações gerais sobre o texto

A partir de 9.51 Lucas nos apresenta Jesus a caminho de Jerusalém. Esse relato da caminhada se estende até 19.27, e acentua uma concepção cristológica do evangelista, que quer mostrar um Jesus itinerante e visitante. Essa figura perpassa todo o evangelho (cf. 1.78s; 5.57-39; 7.16; 7.36ss; 19.44;) e é acentuada no relato da caminhada (cf. 9.52s; 9.58; 10.5-11; 10.16; 10.38ss; 11.37; 14.1; 15.1s; 19.5-10). (Grudmann, p. 198) E é nessa caminhada que vamos encontrar Jesus como hóspede na casa de Marta.

Num contexto menor, Lucas faz a parábola do Bom Samaritano preceder a nossa perícope. Segue-se a ela a versão lucânica do Pai Nosso e os ensinamentos de Jesus sobre a oração. A narrativa sobre Marta e Maria está, pois, colocada entre o amor ao próximo e o amor a Deus, entre ação e palavra.

Lc 10.3842 não apresenta paralelos, devendo tratar-se de matéria exclusiva do evangelista. Entretanto, as duas irmãs nos são apresentadas também no Evangelho de João (11.1ss e 12.1ss). Mas essa referência não nos ajuda muito, pois as tradições se confundem: João situa as duas irmãs no povoado de Betânia, e faz de Maria a mulher que unge Jesus (cf. Jo 12. l ss). A tradição da unção de Jesus em Betânia nos é apresentada por Mateus e Marcos (cf. Mt 26.6-13; Mc 14.3-9), só que isso acontece na casa de Simão, o leproso, e o nome da mulher que unge Jesus é desconhecido. Lucas conhece uma tradição sobre uma pecadora que unge os pés de Jesus na casa de um fariseu chamado Simão (cf. Lc 7.36-50), mas não faz referência ao local onde isso acontece, e também desconhece o nome da mulher. A tradição católica pretende identificar Maria, com base em Jo 11.2; 12. Iss, com a pecadora de Lc 7.36-50 e Maria Madalena de Lc 8.2. A partir dos dados vistos acima, porém, isso parece insustentável.

Assim, Lc 10.38-42 parece ser um apotegma biográfico assimilado por Lucas de sua matéria exclusiva, que nos apresenta Jesus novamente como hóspede, desta vez na casa de duas irmãs, num povoado desconhecido, (cf Grundmann, p. 225)

Quanto à tradição, um problema difícil se apresenta no v. 42. Alguns manuscritos lêem apenas: HENOS DE ESTIN XREIA = porém uma coisa é necessária; outros, por sua vez: OLIGÕN DE ESTIN XREIA = porém, pouco é necessário; ainda outros acompanham o texto de Nestle, lendo: OLIGÕN DE ESTIN XREIA Ë HENOS = pouco é necessário, ou mesmo só uma coisa; e ainda outros omitem totalmente essa parte, lendo apenas: Marta, Marta, tu te preocupas por muitas coisas; Maria escolheu a melhor parte ... .

Terá o texto mais curto sido expandido? Realmente o texto mais longo tem um significado nitidamente construtivo. Mas ainda assim fica a dúvida: Qual será o original? OLIGÕN DE ESTIN XREIA ou HENOS DE ESTIN XREIA? Perguntando assim, estaríamos dizendo que a posposição de ambas seria apenas uma tentativa de complementação. Por isso precisamos perguntar também: não poderá a leitura de ambas as possibilidades ser original e ter sido reduzida a uma interpretação simplista e construtiva? Neste caso, OLIGÕN DE ESTIN XREIA poderia ser uma tentativa de compreensão ascética (cf. Voigt, p. 133): Precisamos apenas de pouco (comida) e tu estás te preocupando com muitas coisas. HENOS DE ESTIN XREIA seria, então, uma tentativa de repudiar os esforços da dona de casa, chamando-lhe a atenção para a única coisa que é espiritualmente importante e necessária.

A ligação de ambas as afirmações por meio de Ë dá ao texto um sentido flutuante: Pouco é necessário - no fundo apenas uma coisa. Isto quer dizer: para Jesus e os seus existem poucas necessidades, mas uma, o ouvir a palavra, é decisiva. Optamos com Grundmann (p. 227) por esta tradução.

II – Detalhes

A caminho de Jerusalém, Jesus chega a um povoado, cujo nome não é mencionado. Ali ele é recebido como hóspede por uma mulher chamada Marta. Em aramaico esse nome significa senhora (cf. Grundmann, p.226; Voigt, p. 132).

Marta tem uma irmã, Maria. Esta fica aos pés de Jesus e ouve os seus ensinamentos. A posição de ambos indica a relação professor aluno (cf. At 22.3). Segundo o costume judaico, porém, um professor não deve ensinar uma mulher (Schmidt, p. 145; Grundmann, p. 226). Mas Jesus, mais uma vez, se coloca acima da tradição. Aqui alguém quer ouvir a palavra. Jesus abre espaço para isso.

Maria vê no ouvir a sua única tarefa. Marta está agitada, ocupada com muitos serviços. PERISPAOMAI = ser absorvido totalmente por alguma coisa, estar sobrecarregado. DIACONIA = serviço de mesa, serviço de cozinha, e, em geral, da casa toda. (Voigt, p.!32s) Marta está muito ocupada, completamente absorvida pelos diversos serviços que se impõem à dona de casa na hospitalidade a uma figura tão importante. O costume oriental da hospitalidade pressupõe mesa farta e serviço generoso. (Schmidt, p.145; Voigt, p.133) E dentro dessa preocupação de servir bem, de oferecer o melhor possível, ela não consegue entender a atitude passiva da irmã. A seus olhos, Maria é uma irresponsável. Fica a fazer sala, quando há tantas tarefas a cumprir em função do hóspede. Isso faz surgir a tensão entre as irmãs, que vai explodir no v.40b. E quando acontece, a explosão de Marta se dirige também ao próprio Jesus. Então ele não vê que a irmã está sendo irreverente até? Um professor não se digna a ensinar uma mulher. Maria deve saber disso. E será que Jesus vê que Maria está fazendo falta na cozinha? Será que não nota que Marta precisa de ajuda?

Senhor, não te importas de que minha irmã tivesse deixado que eu fique a servir sozinha? Ordena-lhe, pois, que venha ajudar-me. Ela não se dirige a Maria. Dirige-se a Jesus em sua crítica. Marta quer que o Senhor reconheça a sua atitude como correia.Quer que Jesus a valorize em seu trabalho responsável, e despreze a atitude preguiçosa de Maria. Quer que Jesus faça valer sua autoridade, chamando a irmã à responsabilidade.

Senhor, não te importas . . . ? Marta pergunta. Mas não espera resposta. Sua posição é prefixada. Ela tem certeza de que está correta. Maria está errada. E Jesus, como homem justo e íntegro, há de lhe dar razão. Por isso. segura de si, ela diz: ordena-lhe, pois, que venha ajudar-me.

Posições prefixadas tornam surdos os ouvidos. Marta não é mais capaz de ouvir. Ela não está mais aberta para rever posições. E por isso ela não consegue entender uma coisa: Jesus está na casa. E, então, não é mais Marta, a senhora que presta serviço. Jesus, o Senhor, é quem serve (Voigt, p. 132). Maria se deixa servir. Marta, com suas preocupações, está fechada ao serviço de Jesus. (cf. Geense, p.l 12s; Bohne/Gerdes p.95)

Mas Jesus se importa com Marta. Tanto é que ele não desfaz o seu serviço. Sua crítica nSo contem censura. A sua resposta deixa entrever que ele percebeu muito bem o esforço de Marta em ser hospitaleira. Marta! Marta! tu te preocupas e te agitas com muitas coisas. A repetição do nome próprio, que corresponde ao costume palestino (Voigt. p.132; Grundmann, p.227), deixa entender que Jesus reconhece, agradecido, a dedicação de Marta ao servi-lo bem. Ele não despreza o seu zelo pela hospitalidade.

Entretanto, pouco é necessário ... A crítica é suave, cheia de compreensão por Marta. Mas ela precisa entender que existe algo muito mais importante do que costumes preestabelecidos, do que preocupações com o comer e o beber, do que serviço zeloso e esmerado. Sim, é verdade, Marta não está preocupada consigo mesma. O seu serviço se dirige a Jesus. Ela quer mostrar seu amor peio Senhor. E ela nem sequer pode imaginar que haja outra maneira de fazê-lo, a não ser prestando-lhe serviço. Ela quer dar de si, presentear, e por isso se esmera, se desdobra, se agita. Mas nessa sua agitação ela não encontra mais nenhum momento para deixar-se presentear, para receber o serviço que Jesus lhe tem a oferecer: aquela palavra que liberta, que faz rever posições, que corrige, que quer mostrar o sentido último da vida.

Marta! Marta! Todas essas coisas não são necessárias. Luxo, mesa farta, etiqueta, hospitalidade dentro dos padrões. Não! Tu estás empregando mal as tuas energias. Teu ativismo é vazio e sem sentido. Porque Jesus não precisa deste teu serviço. A minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra. (Jo 4.34) Ele quer te prestar um serviço. Ele quer te ajudar a revisar a tua vida. Ele quer te libertar desta necessidade de realizar algo, que te oprime. Ele quer te dar tempo, tempo para ouvir a sua palavra.

No fundo só uma coisa é necessária.” E esta, a melhor parte, Maria escolheu. Ela se deixou servir. Sentou-se aos pés do Senhor para lhe ouvir os ensinamentos. E, mesmo que ela fosse mulher, mesmo que a tradição permitisse a Jesus ignorá-la, ele a presenteou. Ele a serviu. Ele lhe deu o que tinha a dar, pois ela lhe foi receptiva. Ela teve ouvidos abertos. Entendeu que nada teria a dar, se Jesus não lhe enchesse as mãos vazias. Ela entendeu que decisivamente necessária é a atitude correta diante daquele que ensina a palavra de Deus. Ele veio para servir, e, por isso, quando nos visita, só há uma maneira de relacionar-se com ele: abrir-se e deixar-se presentear.

III — Meditação

Numa primeira leitura o texto deixa uma impressão irritante. Marta, a ativa, é criticada. Maria, a passiva, escolheu a melhor parte, e esta não lhe será tirada. Isso machuca. Afinal, a atividade de Marta é muito mais simpática do que a passividade de Maria. Não é isso que gostaríamos de ter? Uma Igreja ativa, formada de membros ativos, que não se contentem apenas em ouvir a pregação dominical e em receber passivamente os serviços do pastor?

E a irritação não há de ser apenas pastoral. Também os ouvintes, sem dúvidas, vão se sentir mais atraídos pela figura de Marta. Ela trabalha, e o trabalho dignifica, a pessoa humana. Ela produz, e o mundo de hoje pratica¬mente não sabe pensar em outra categoria, que não a de produção. Maria é preguiçosa. Ao menos parece ser esta a sua atitude. Foge do serviço, fazendo sala ao visitante. Mas ela escolheu a melhor parte. Jesus aprova a sua maneira de ser.

Um estudo mais minucioso, porém, vai mostrar que nossos critérios de simpatia não se aplicam ao texto. Pois Marta e Maria não estão sozinhas. Jesus está na casa. E a sua presença determina toda a narrativa. E não se pode mais ver Maria e Marta fora desta perspectiva. Então, Marta não realiza um serviço em função de si mesma. Ela serve Jesus. Maria não está simplesmente descansando. Ela ouve a palavra de Jesus. Ambas assumem uma atitude diversa frente ao hóspede. Assim, a pergunta decisiva é: Qual a maneira correta de relacionar-se com Jesus, quando ele está em casa?

Marta serve o Senhor. Não se pode esquecer que a perícope imediatamente anterior nos apresenta a parábola do Bom Samaritano. O samaritano agiu, prestou serviço. Agir é importante. O evangelho sempre de novo aponta para a ação, para o serviço. Marta age, Marta serve. Só que seu serviço aqui está no lugar errado. Para Jesus, pouco é necessário. Buscai, antes de tudo, o seu reino, e estas coisas vos serão acrescentadas, diz Jesus em Lc 12.31. Comida e bebida não são decisivos. Buscar o reino é decisivo. Comida e bebida, inquietações pela vida (Lc 12.29), desaparecem diante da perspectiva do reino. Com a vinda do reino, todas estas coisas estarão aí. Assim, a ação de Marta está mal dirigida. Ela gasta seus esforços e suas energias de maneira vã e infrutífera. Especialmente nesse momento. Pois Jesus está na casa.

Mas Marta está segura de si. Ela conhece os costumes da boa hospitalidade. Ela conhece os conceitos de boa educação. Na sua opinião ela está correta. Marta está errada, pois não serve e ainda assume uma atitude irreverente, imprópria para uma mulher, ao deixar-se ensinar por Jesus. Por isso Marta está certa de receber a aprovação de Jesus. E, então, ela pressupõe a resposta de Jesus, e nem sequer o deixa falar. Ela não quer ouvir. Não precisa ouvir, pois já sabe. Suas posições preconcebidas a tornam surda diante de Jesus.

No meio de vós, eu sou como quem serve. (Lc 22.27b) Jesus veio para servir. Sua vida está determinada pelo serviço. Ele está a caminho de Jerusalém para efetuar o serviço último e essencial: sua morte na cruz por nós. Dentro deste relato da caminhada se situa nosso texto. Assim, Jesus entra na casa das duas irmãs como um hóspede fora do comum. Em qualquer outra circunstância, diante de qualquer outro hóspede, Marta talvez estivesse certa. Mas, se Jesus está na casa, a situação se modifica por completo. Ele vem prestar serviço. Ele vem dar a sua vida. Ele vem mostrar o caminho. Ele vem proclamar o Evangelho. Ele vem ensinar a palavra de Deus. Ele é o Senhor que serve. Se Marta é a senhora na casa, então está correto que ela se preocupe em servir bem ao hóspede. Mas, se Jesus é o Senhor, não apenas da casa, mas também sobre a nossa vida, então a única atitude correta diante dele é deixar-se servir.

A partir dessa constatação, a figura de Maria ganha um novo enfoque. A sua atitude não está determinada pela preguiça, irreverência ou passividade. Muito antes ela é receptiva. Essa é a palavra chave. Maria compreende que Jesus veio para servir, e por isso está aberta para o serviço dele. Ela esquece tudo o mais que a rodeia: costumes, conceitos de educação, necessidades básicas, preconceitos. Ela não se deixa levar mais por valores preconcebidos. Ela não se deixa arrastar para correria costumeira. Ela se dá o tempo de ouvir, e consegue uma pausa para refletir, para repensar sua vida e as suas ações, a partir da palavra de Jesus. Essa é a melhor parte, é aquela uma coisa que é necessária.

A história termina por aí. Não sabemos como as irmãs reagiram a esse encontro com Jesus. Mas nossa reflexão não pode parar por aí. Por isso acho necessário que se pergunte pelo que poderia, ou, ao menos, o que deveria ter acontecido depois. O todo do evangelho não permite a conclusão simplista: ouvir é mais importante que agir. Isso seria até heresia. O próprio texto nos faz pensar adiante. O fator determinante para a nossa análise sempre foi a presença de Jesus na casa. Sim, quando ele está em casa, ouvir é mais importante que agir. Mas, e depois?

Creio que a parábola do Semeador, narrada em Lc 8.9-15, nos auxilia a caminhar adiante. Ali também se fala do ouvir corretamente a palavra. E, ao final, fica evidente que o ouvir não pode ser interpretado como um fim em si. Quando a semente cai em terra fértil, ela frutifica a cem por um.

Por isso ouso dizer que Maria se transformou numa Marta, mas uma Marta diferente. O seu agir passou a ser determinado pela palavra que ela ouvira de Jesus. Ela foi terra fértil. Ela aprendeu que o agir consciente é sempre consequência direta da fé que ouve. A ação não pode tomar-se indepen¬dente do ouvir. Foi nisso que Marta errou. E, por certo, também ela passou por uma transformação, ao ver que seu ativismo irrefletido era sem sentido. Mas, para isso, Marta precisou tornar-se uma Maria, e, a partir daí, uma Marta renovada.

Primeiro Maria, depois Marta, essa parece ser a ordem correta. Só se pode ser ativo como Marta, depois de ter ouvido como Maria. Antes que alguém queira servir ao Senhor, precisa deixar-se servir por ele. O resto seria despacho de macumba. Pois, aí, sim — cuidado, Marta! — é importante pôr a mesa para a divindade. O nosso Senhor não veio para ser servido, mas para servir. E o seu serviço aponta para uma ação bem definida, que não se dirige a ele mesmo, mas aos outros que o necessitam.

IV - A caminho da prédica

a) Jesus visita

No cumprimento de sua missão, que culminou no extremo sacrifício na cruz de Gólgota, Jesus procurou as pessoas. Em suas caminhadas entrou em diversas casas. Visitou. Suas visitas sempre tiveram como objetivo transmitir a mensagem do Reino. Onde quer que entrasse, precisava falar.
Esta situação não se alterou nos dias de hoje. Jesus continua a visitar. Apenas de maneira diferente. Ele não bate pessoalmente às portas. Seu convívio com os seres humanos não acontece mais pessoa a pessoa. Mas ele continua a visitar e a falar. E suas visitas assumem diversas formas. Elas se multiplicam através da palavra escrita e falada pelos discípulos que enviou.

Assim, Jesus me visita, quando paro para refletir sobre sua palavra. Na simples leitura de um texto, ele está aí e fala. Ele me visita no culto, cujo principal objetivo é deixá-lo falar. Ele se infiltra em minha casa através do rádio e da televisão nos poucos programas que o deixam abrir a boca. Ele me encontra na rua, por intermédio de pessoas chamadas por ele e falar. Sim, ele atesta a sua presença através de símbolos mudos que me lembram de que ele quer me falar. Ele não pára num lugar só. Ele caminha, visita e fala.

De que ele me fala? São tantas coisas. Ele me fala de que morreu por mim. Que sua morte quer libertar-me de erros cometidos em relação a mim mesmo, e, principalmente a outras pessoas. Que sua morte quer libertar-me de costumes e tradições que me sufocam, mas contra as quais não me revolto por depender demais da opinião dos outros. Que sua morte quer libertar-me de uma vida corrida, agitada, preocupada com tudo aquilo que a propaganda dos outros diz ser importante para mim - dinheiro e o resto -, mas que não leva a nada. Que sua morte quer libertar-me essencialmente de mim mesmo, de meus desejos, meus anseios, minhas vontades, para que eu possa estar disponível para outras pessoas, e, como ele, esteja disposto a lutar pelos outros contra todo e qualquer tipo de opressão. E cada vez parece que ele me diz: Tu te preocupas com tantas coisas! Entretanto pouco é necessário - no fundo só uma coisa. — São tantas coisas que ele me diz, que não consigo guardá-las todas de uma só vez. Preciso ouvi-lo mais vezes. Preciso ouvi-lo sempre de novo para que ele possa fazer de mim uma pessoa realmente livre.

O sensacional de tudo isso é que nem sequer preciso procurá-lo. Ele está aí. nos mais diversos lugares. Ele me visita das mais diferentes maneiras. Ele caminha, visita e fala. E, se ele está aí, se ele visita, se ele fala e tem tantas coisas a dizer, para mim e, enfim, para todos, só existem.

b) Quatro atitudes possíveis

As atitudes possíveis diante do Jesus que visita e fala estão caracterizadas nas figuras de Maria e Marta. São apenas duas pessoas. E, mesmo assim, vamos encontrar duas possibilidades distintas de relacionar-se com Jesus, em cada uma delas.

1. Não ouvir

Marta tem pontos de vista sólidos. Sua preocupação com a hospitalidade e seu desprezo pela falta de educação de Maria demonstram isso. Por isso ela se dirige a Jesus com uma pergunta meramente retórica. Não espera resposta por estar segura de si e de seus conceitos. Com isso ela se fecha, e não deixa Jesus falar.

As analogias no mundo de hoje são muitas. Não e difícil encontrar pessoas que não querem ouvir. Simplesmente não se deixam questionar. Criaram seu sistema e o defendem com unhas e dentes. E, logicamente, quando a palavra não ratificar os seus pontos de vista, elas fecham seus ouvidos, quando não se revoltam violentamente. O caso Juiz de Fora, envolvendo Dano e o presbitério, pode nos dar muito bem uma ideia dessas Martas que não querem ouvir.

Talvez não se devesse esquecer aqui aqueles que não têm tempo para ouvir, por estarem totalmente absorvidos pelos cuidados do mundo. Parar para pensar é importante.

2. Ouvir mal - como Marta

Ao receber Jesus em sua casa e prestar-lhe com dedicação o serviço da hospitalidade, Marta o aceita, E com isso aceita certamente também a sua pregação anterior. Sua religiosidade expressa-se, então, num serviço esmerado, mas que erra o alvo que Jesus quer propor.

Ao refletir sobre esse serviço dedicado de Marta, vejo diante de mim uma variedade de pessoas, muitos grupos de OASE, diretorias de comunidade, todos preocupados em servir com dedicação a sua Igreja. Mas erram o alvo. Todo o seu empenho se concentra em arrecadar fundos e contribuições para manter estruturas, ou em fazer festas e construir casas, templos e centros sociais. E assim, sinos repicam para a glória de Deus, templos anunciam sua majestade, casas paroquiais, centros sociais e abonos locais e de função atestam a fé dos contribuintes. A preocupação real pelo ser humano, com suas misérias, opressões, dores e sofrimentos, entretanto, ficam esquecidas.

Não ouso dizer que tudo isso aconteça de má fé. Marta foi sincera na sua preocupação de servir ao Senhor. Jesus reconhece a sua dedicação. Só não é isso o realmente necessário.Existe uma coisa muito mais importante e muito menos trabalhosa que tudo isso: o amor. Mas para descobrir isso, é preciso ouvir atentamente o que Jesus tem a dizer.

3. Ouvir mal - como Maria

Maria escolheu a melhor parte. Ela sentou-se aos pés de Jesus e ouviu os seus ensinamentos. Já falei acima que minha reação inicial ao texto foi de irritação. A atitude aparentemente passiva de Maria poderia dar a entender que a contemplação maravilhosa do Senhor e de sua palavra seria a melhor parte.

Quantos não reagem assim às nossas pregações? Como fala bem esse pastor! Que retórica! Que vocabulário! Assim dá graça de ir ao culto! Tenho gozo e celeste prazer em dizer: a minh'alma está cheia de paz!

Acho que quem fica no gozo não ouviu direito. O evangelho nos fala da cruz! Nos fala dos pequeninos irmãos! O Jesus que fala a Maria está a caminho de Jerusalém, onde vai cumprir o objetivo último de sua missão. Se Maria ficar sentada, depois de ouvi-lo, terá ouvido mal. Pois a palavra não pode voltar vazia.

4. Ouvir corretamente

Maria teve tempo para sentar-se aos pés do Senhor e ouvi-lo. Ela não se deixou absorver pelos cuidados do mundo. Parou para refletir. Jesus estava aí. A oportunidade de ouvi-lo era única. Fala, Senhor! Eu quero ouvir-te atentamente. Eu quero que tu me ensines, me digas o que é importante. Eu não valho nada, sou apenas uma mulher que não é digna de sentar-se aos pés de um mestre. Mas estou pronta a te ouvir, a te obedecer, a te seguir. O Senhor está na casa. Ele deve falar. A sua palavra é a única coisa que importa. Essa palavra pode me transformar. E eu quero ser transformada. Quero ouvir antes de fazer qualquer coisa.

Não posso entender Maria de outra maneira. Disposta a receber o que Jesus lhe tem a dar, para aprender a agir de uma nova forma. E aqui retomo a parábola do Semeador. Se a semente cai em terra fértil, ela frutifica a cem por um.

Assim, concluo que: agir sem ouvir nos pode fazer errar o alvo. Mas ouvir sem agir é desperdiçar a palavra. Ouvir como Maria, para depois ser uma Marta que aplica seus esforços naquilo que importa. — Jesus está aí. Ele quer me ensinar a viver. Antes de agir, preciso ouvir atentamente o que ele me tem a dizer.

Para a prédica recomendo o seguinte esquema:

A) - Ontem

1. Jesus visitou pessoas
2. Marta e Maria
3. Os erros de Marta
4. A melhor parte

B) – Hoje

1. Jesus visita
2. Quatro atitudes possíveis
Sugiro como texto de leitura para o culto a parábola do Semeador

V – Bibliografia

- BOHNE, G./GERDES, H. Maria und Martha. In: Biblischer Unterricht - Religionspaedagogische Beispiele. Caderno IV/V. Berlin, 1966.
- GEENSE, A. Meditação sobre Lucas 10.38-42. In: Göttinger Predigtmeditadionen. Ano 31. Caderno 1. Göttingen, 1976.
- GRUNDMANN, W. Das Evangelium nach Lukas. Theologisches Handkommentar zum Neuen Testament. Vol. 3. 8.ed. Berlin, 1978.
- SCHMIDT, L. Meditação sobre Lucas 10.38-42. In: Homiletische Monatshefte. Ano 52. Caderno 4. Göttingen, 1977.
- VOIGT. G. Meditação sobre Lucas 10.3842. -. Die grosse Ernte. 2.ed. Göttingen, 1976.

Proclamar Libertação 6
Editora Sinodal e Escola Superior de Teologia


Autor(a): Carlos A. Dreher
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Epifania
Perfil do Domingo: Último Domingo após Epifania
Testamento: Novo / Livro: Lucas / Capitulo: 10 / Versículo Inicial: 38 / Versículo Final: 42
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1980 / Volume: 6
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 7122
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A ingratidão é um vento rude que seca os poços da bondade.
Martim Lutero
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