Lucas 14.25-33

Auxílio Homilético

24/09/1995

Prédica: Lucas 14.25-33
Leituras: Provérbios 9.7-13 e Filemon 9b-17 (18-21)
Autor: Valdemar Lückemeyer
Data Litúrgica: 16º. Domingo após Pentecostes
Data da Pregação:24/09/1995
Proclamar Libertação – Volume: XX

 

1. O contexto

A perícope faz parte da viagem de Jesus a Jerusalém: Lc 9.51-19.27. Neste bloco o evangelista Lucas não só quer mostrar que Deus mesmo está por detrás do caminho do sofrimento, da paixão e da morte de Jesus, mas também que os discípulos têm nas palavras e na ação de Jesus a ordem e o exemplo concretos de sua atuação como seus seguidores e mensageiros.

O caminho do discipulado é o caminho que Jesus seguiu sendo obediente a Deus e enfrentando, se necessário, o martírio. Os discípulos são preparados para levar adiante a tarefa iniciada pelo próprio Senhor.

No contexto menor fica claro o trabalho redacional do evangelista: grandes multidões estão seguindo a Jesus, muitos estão se empolgando com este que cura, perdoa e aceita a todos. O discipulado, porém, deve ser algo refletido e tem consequências profundas. Por isso Lucas coloca logo após a parábola da grande ceia (14.15-24) a nossa perícope em estudo: um alerta para o fato de que o discipulado deve ser um passo consciente e que exige muito. Por um lado, os discípulos são encarregados pelo seu Senhor de levar o convite da grande ceia, do banquete escatológico, para todos: Vinde, porque tudo está preparado (v. 17) e ainda há lugar (v. 22). Mas as grandes multidões devem ser alertadas! Quem aceita o convite deve fazê-lo sóbrio, calculando implicações e consequências. O convite exige uma resposta: não é possível protelar! E, ao mesmo tempo, não é possível simplificar ou minimizar!

2. O texto

V. 25: Introdução. Vv. 26s.: Dois ditos.

Vv. 28-32: Duas parábolas (matéria exclusiva de Lc), que correspondem aos dois ditos.

V. 33: A exigência drástica, retomando os vv. 26s.

A parábola do sal (vv. 34s.), embora não pertença mais à perícope do domingo, ressalta que a utilidade dos discípulos está intrinsecamente ligada à sua capacidade de dizer não às posses e aos familiares, entes queridos, quando estes são empecilho.

Os dois ditos de Jesus (vv. 26s.) têm paralelos em Mt 10.37s. (para o dito no v. 26) e Mt 10.38 e Mt 16.24 e ainda Mc 8.34 (para o dito no v. 27). Estudos minuciosos mostraram que os dois evangelistas, Mateus e Lucas, fizeram uso da mesma fonte, a saber, a fonte Q, só que permanece a pergunta, se Mateus amenizou ou se Lucas procurou dar ênfase radical ao cumprimento do discipulado. Mateus fala em amar mais ou dar preferência, ao passo que Lucas usa o verbo misein, que significa odiar ou também colocar em segundo plano. Não é possível amenizar. A dificuldade da exigência é grande. Por outro lado, Lucas certamente não quer desrecomendar o cumprimento do quarto mandamento! Só que todos os laços, inclusive os familiares, não podem prejudicar o verdadeiro discipulado, que, entre outras, também deve contar com a cruz, isto é, com o martírio, com a morte na cruz.

As duas parábolas (vv. 28-30 e vv. 31-32) iniciam com perguntas retóricas, que só podem obter uma única resposta.

Quem reflete, quem avalia e pondera, quem sabe o que quer e o que vai fazer, nunca será um aventureiro irresponsável. Ninguém que planeja iniciará a construção de uma torre (fortaleza) sem ter condições para concluí-la. Assim também todo rei prudente e sóbrio primeiramente calculará a sua força de ataque e resistência e, então, enfrentará o adversário!

Jesus espera uma auto-análise de todo discípulo a fim de que possa dar a resposta adequada aos desafios do discipulado.

Poderíamos parafrasear da seguinte forma: vocês me perguntam, diz Jesus, por que faço exigências tão duras. Bem, eu não estou agindo de modo diferente de vocês. Vocês também refletem longa e seriamente, antes de tomar uma decisão séria. Meu cálculo é assim: se a causa de Deus é para chegar ao seu alvo, então são necessárias pessoas decididas para tal, pessoas que saibam que discipulado é tudo menos um passa-tempo. (J. Kwaschik/J. Langer, Neue Calwer Predigthilfen, p. 77.)

O v. 33 reafirma o que foi dito anteriormente (vv. 26s.) e destaca o peso da exigência. Alguns exegetas se perguntam, se esta exigência radical de não ter compromissos ou amarras, inclusive com propriedade, não tem suas raízes na tradição escatológica da seita de Qumran. Ali se afirmava que o discípulo, diante do fim dos tempos, deve estar livre de tudo, abdicando de família e de posses.

3. Meditação

A grande pergunta central que a perícope de Lc 14.25-33 responde é quais as premissas e quais as condições que os futuros discípulos de Jesus devem preencher. Jesus chama para o discipulado (Lc 5.27; 9.59; 18.22 e outras). Na perícope em estudo, no entanto, ele desestimula e esfria o ânimo dos que querem segui-lo de forma irrefletida. Grandes multidões o seguem. Por que não se alegrar quando grandes multidões vêm para a igreja, lotam os templos? Sem dúvida. Jesus queria que todos o seguissem. Já foi mencionado que a parábola da grande ceia, que antecede diretamente a nossa perícope, destaca justamente o convite para todos e sublinha a insistência do convite. Ò convite para que todos venham participar do grande banquete permanece válido. Só que uma multidão que se empolga com ele e lhe canta hosana, mas não muda de valores e de vida, não c o que Jesus quer.

Assumir o discipulado tem consequências profundas. Alguns abandonavam sua profissão e seus bens (Lc 5.11 e 5.28). E mais: abandonavam sua velha maneira de viver, seus velhos valores, seus velhos senhores. O discipulado consciente parte de uma decisão consciente e clara. Esta decisão traz mudanças. Faz muita diferença se alguém conhece ou não a Deus, se vive ou não a partir do seu perdão e da sua misericórdia, se tem Jesus como o seu Senhor ou se serve a outros senhores, se se sabe responsável diante de Deus ou apenas diante de sua consciência! Jesus quer que todo aquele que se decide por ele, esteja ciente desse passo e de suas implicações. Se os laços familiares significam amarras para a vivência do discipulado, que sejam rompidos!

A família ganha novos contornos: pai, mãe, irmão e irmã são os que fazem a vontade do Pai, de Deus. Se os bens significam dificuldades, se prendem, se dominam, que sejam deixados para trás! Isto é a nova exigência, mesmo que Jesus nunca tenha pregado ou exigido o princípio de não ter bens. O apóstolo Paulo formula isso muito bem quando diz em l Co 7.29s.: tendo, como se não tivéssemos (G. Voigt, p. 303).

Não basta, pois, ser religioso ou ser cristão. Não basta, como dizem os líderes dos movimentos transconfessionais, pertencer a uma Igreja — mas que¬rendo atrair, através desse chamado enganoso, pessoas para seus grupos religiosos. Realmente, não basta pertencer a uma Igreja, como também não basta pertencer a um ou outro movimento. Discipulado sem consciência revela-se na membresia sem compromissos. A emoção e a empolgação momentâneas facil-mente são provocadas pela oferta de uma graça barata, de uma membresia sem compromissos, de um discipulado sem cálculos (vv. 28 e 31).

Ser luterano seria deixar o discipulado de Jesus aos legistas, aos reformadores, aos entusiastas, tudo por amor da graça... Cristianizara-se um povo inteiro, porém às expensas do discipulado, a um preço demasiadamente barato. Triunfara a graça barata... Tornaram-se baratos a mensagem e os sacramentos; batizou-se, confirmou- se, absolveu-se todo um povo sem perguntas nem condições; por humanitarismo, deram-se as coisas santas aos zombadores e incrédulos, dispensaram-se rios sem fim de graça, mas o chamado ao rigoroso discipulado de Cristo ouvia-se com raridade cada vez maior. (Bonhoeffer, p. 17.)

Temos comunidades de tradição. Temos membros/discípulos de tradição. Ser cristão faz parte da ficha sócia] de muitas pessoas religiosas. Para esta situação a perícope de Lucas é de uma atualidade impressionante. Ela destaca claramente que discipulado é comprometimento com Jesus Cristo crucificado e ressurreto. Será preciso tomar a sua própria' cruz. A cruz é imposta a cada crente. O primeiro sofrimento com Cristo, ao qual ninguém escapa, é o chamado que nos chama para fora das ligações com o mundo. E a morte do velho homem no encontro com Jesus Cristo. (Bonhoeffer, p. 44.)

4. Caminhos para a prédica

G. Voigt apresenta uma boa proposta para a estrutura da prédica: quem quer seguir Jesus deve saber o que faz: ele arrisca, primeiro, os seus entes queridos; segundo, os seus bens, e, terceiro, a si mesmo.

Uma outra possibilidade, partindo da realidade do nosso ser Igreja, seria esta:

— Introdução: fazer um levantamento do nosso discipulado, como ele acontece e se desenvolve no dia-a-dia; quais são os compromissos do cristão, ou ele apenas tem direitos (de ser atendido, de ser visitado, de ser acompanhado)?

— Leitura do texto.

— O convite ao discipulado é dirigido a todos (lembrar a parábola da grande ceia). Mas aceitar o convite de Jesus tem profundas consequências: a) para a nossa própria pessoa; b) para o mundo que nos cerca (o engajamento e a cruz são indispensáveis).

— O entusiasmo (e a teologia da glória) não subsiste diante do discipulado consciente e ativo, que se deixa orientar pelo Cristo crucificado e ressurreto. O que nós queremos — e o que Jesus quer!

— Por fim será bom destacar que Jesus não só exige de nós; pelo contrário, ele antes de mais nada oferece, presenteia.

5. Bibliografia

BONHOEFFER, Dietrich. Discipulado. São Leopoldo, Sinodal, 1984.
BORNHÄUSER, Hans et al., eds. Neue Calwer Predigthilfen; 5° ano, volume B. Stuttgart, I9K3.
SCHMIDT, Ervino. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo, Sinodal, 1982. v. VIII, p. 235ss.
VOIGT, Gottfried. Homiletische Auslegung der Predigttexte; série V. Göttingen, 1982.


Autor(a): Valdemar Lückemeyer
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 16º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: Lucas / Capitulo: 14 / Versículo Inicial: 25 / Versículo Final: 33
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1994 / Volume: 20
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 17743
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Cristãos autênticos são os que trazem a vida e o nome de Cristo para dentro da sua vida, pois o sofrimento de Cristo não deve ser tratado com palavras e aparências, mas com a vida e com a verdade.
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