Lucas 15.1-10

Auxílio homilético

01/07/1979

Prédica: Lucas 15.1-10
Autor: Ricardo Nör
Data Litúrgica: 3º. Domingo após Trindade
Data da Pregação: 01/07/1979
Proclamar Libertação - Volume: IV


PARA DEUS NÃO HÁ CASO PERDIDO!

I — Observações em torno do texto

O par de parábolas vv. 3 a 7 e 8 a 10, juntamente com a do Filho pródigo, compõem o capítulo 15 de Lucas cujo tema é: O perdido. A composição é emoldurada pêlos versículos 1 e 2 que formam a introdução redacional.

A combinação dos termos publicanos e pecadores v. 1 é um dos muitos rótulos usados para designar o grupo generalizado dos pecadores. Quem são eles? São aqueles que têm uma conduta imoral (adúlteros, ladrões), ou que exercem uma profissão indigna (pastores, publicanos) (cf. Jeremias, p. 90). Os publicanos, cobradores de impostos a serviço dos romanos, eram considerados traidores da pátria pelos judeus seguidores estritos da lei. Tinham, por isso, seus direitos civis cassados e não podiam servir como testemunhas em julgamentos (cf. Perrin, p. 116).

Para os fariseus e escribas, a atitude de ódio voltada contra esse grupo, que desde o início esteve inclinado à prática da extorsão e malversação, era agravada ainda mais pelo fato de manterem os publicanos um contato permanente com os gentios. Este relacionamento transformava-os em elementos cerimonialmente imundos. O estado de impureza cultual impedia aos fariseus e escribas de manterem qualquer forma de comunhão com esse tipo de gente.

Considerando este pano de fundo, é possível dimensionar a intensidade do murmúrio dos judeus justos: Este homem se mistura com gente pecadora e come com eles (v. 2).

A situação vivencial é clara e bem definida. De fato, Jesus conviveu com indivíduos marginalizados, tanto religiosa como socialmente. Ele andava em má companhia. E agindo dessa maneira, esse amigo dos publicanos e pecadores provocava um escândalo generalizado. O repúdio contra ele alcançava um ponto crítico quando o seu relacionamento com os pecadores acontecia por ocasião de uma refeição em conjunto - símbolo de comunhão íntima e profunda. Assim, Jesus vai contra a prescrição do SI 1,1: Bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores; isso o tornava igualmente um impuro diante de seus opositores.

A atitude de Jesus, dentro da perspectiva dos justos, era portanto inadmissível. Nisso reside uma das causas principais, senão a principal, para o surgimento de conflitos, inicialmente restritos ao campo das controvérsias, mas que culminariam com a sua crucificação. Jesus, ao explicar para os justos a sua atitude em relação aos pecadores, fala indiretamente através de comparações. O que chama a atenção é a falta de uma terminologia religiosa. Os acontecimentos são tirados do dia a dia da vida dos pastores, de uma simples dona de casa. Ele mostra, através do comportamento de um pastor que não aceita o fato de uma das suas ovelhas ter se perdido, de que maneira age alguém que é movido pelo amor. Pode parecer um absurdo, uma atitude totalmente descabida, deixar 99 ovelhas por causa de uma só. Mas é justamente isso que ele faz. O fato é que uma ovelha do rebanho está perdida. E é preciso encontrá-la.

A segunda parábola (na verdade, trata-se de uma parábola geminada) apresenta o mesmo conteúdo, mudando apenas o quadro, que faz referência ao mundo da mulher. Ambas as parábolas têm o seu ponto central no reencontro do que foi perdido e na alegria que isso provoca. O encontro é motivo de alegria! Esta é tão intensa que aquele que encontrou o que procurava não quer festejar sozinho. Convida os seus amigos e vizinhos para que se alegrem com ele.

Os versículos 7 e 10 (adendos explicativos posteriores) especificam: Aquele que estava perdido e que foi novamente encontrado é o pecador que retorna, que tem a sua comunhão restabelecida com Deus. Através da palavra e ação de Jesus os pecadores são admitidos no reino de Deus –sem exigências nem imposição de condições! Na pessoa de Jesus Cristo o próprio Deus se volta aos homens. Onde Jesus oferece a sua comunhão, aí já acontece o perdão de Deus.

A comunhão de Jesus com os pecadores, contudo, não ignora os justos, nem exclui a possibilidade de comunhão com eles. Pelo contrário, é precisamente a eles que essas duas parábolas se dirigem. A pergunta inicial Quem de vocês...? inclui os ouvintes diretamente no assunto com o propósito de levá-los a um posicionamento, ao arrependimento. Os fariseus e escribas são convidados a se alegrarem com Jesus. Se eles realmente exercem a justiça de Deus, sentir-se-ão movidos pelo mesmo sentimento. Por sua vez, quem não se alegra com o pecador que se arrepende, este se afasta de Jesus e, conseqüentemente, de Deus. Quem não participa positivamente com o que acontece na ação de Jesus, está se auto-excluindo da salvação divina. O 'erro dos fariseus reside na compreensão de um relacionamento com Deus, baseada numa justiça legalista. Por isso, resistem e não aceitam a graça que Deus oferece ao perdido. Quando Jesus se alegra, eles se irritam — o que mostra como estão distantes do Deus que procura o perdido.

Observação: A afirmação relativa aos justos que não têm necessidade de arrependimento deve ser entendida, a partir do seu contexto, como um exagero retórico (cf. Goppelt, p. 159).

II – Meditação

A história é simples: Uma ovelha se perdeu. - A história é surpreendente: Alguém deixa 99 ovelhas e vai procurar aquela uma que se perdeu!

Aqui se trata de perdidos e de justos. - Quem são os perdidos para mim? - Quem são os justos? - Quais são os critérios que uso para estabelecer a diferenciação? - Qual o meu posicionamento frente a estes dois grupos? - Qual o meu sentimento com relação a cada um deles? - Onde e como se manifesta a segregação em minhas atitudes?

A pergunta que a parábola levanta é: O que será do perdido? - Deixá-lo onde está? - Evitá-lo para que a minha religiosidade não seja afetada? - O que os outros vão dizer se eu mantiver comunhão com ele? - É verdadeiro o ditado que diz: Dize-me com quem andas e eu te direi quem és? - Qual será a reação da comunidade se eu me envolver com gente de conduta imoral, indigna, adúltera? -Como pastor não estou dentro de uma estrutura na qual preciso atender o rebanho para sobreviver? - A minha subsistência (e de minha família) não é garantida pelas 99? - Deixar o rebanho para procurar aquele um perdido? - Ir ao encontro do perdido, há lugar para isso dentro das minhas 99 tarefas e obrigações? - Não é mais prudente e sábio conservar o que ainda existe? - Onde eu coloco as prioridades no meu trabalho pastoral? - Prioridades estão diretamente relacionadas com os meus compromissos: Quais são eles? Com quem os tenho?

Jesus ouve a xingação dos justos: Este homem aí se mistura com gente pecadora e come com eles. Como é que ele reage?

Procura justificar o seu comportamento? Entra em discussão com eles? Nada disso! Simplesmente conta duas histórias, faz algumas comparações: O pastor que procura a ovelha perdida, a mulher que varre a casa até achar a moeda. Os dois encontram o que procuram - e ficam alegres! E os outros são convidados a ficarem alegres também.

Interessante, como Jesus responde. Não é azedo como os fariseus e escribas. Não responde na mesma altura. Isso não resolveria nada. Eles iriam se fechar ainda mais. Indiretamente, e em forma de pergunta, Jesus procura motivá-los a tomarem um posicionamento positivo diante do perdido. 99 ovelhas estão no rebanho. Uma se perdeu. Está em perigo. O que fazer? Não há tempo a perder. Não há tempo para discussões demoradas, levantamento de hipóteses, previsões calculistas. O fato é que uma se perdeu - e precisa ser encontrada. O pastor vai atrás da perdida. Toda a sua preocupação está voltada para esta uma.

O que chama também a atenção é que esta parábola não apresenta nada de religioso. Ela fala de coisas que fazem parte do dia a dia dos pastores de ovelhas ou da vida de uma simples dona de casa. Mas, mesmo que não apresente nada de religioso, ela está cheia de uma coisa: está cheia de amor. Sim, de amor! Tudo o que acontece aí, mostra isso: procurar a ovelha perdida, colocá-la sobre os ombros, alegrar-se, convidar os amigos e vizinhos para participar junto da alegria.

Mas isso não é tudo. Ao se observar melhor esta parábola, se descobre que ela está falando do próprio Jesus! O que aquele pastor de ovelhas fez é o mesmo que Jesus faz. Jesus quer explicar por que ele aceita pecadores e come com eles.

Os pecadores estão perdidos. O que será deles? Evitar o contato com estas ovelhas pretas? Deixá-las entregues à própria sorte? Quem está perdido precisa ser encontrado. Só mesmo quem tem coração duro vai deixar o perdido na sua miséria.

Agora, o mais importante na parábola é que, com Jesus, Deus mesmo é quem faz a frente para buscar o perdido! Pois onde Jesus oferece a sua comunhão - aí já acontece o perdão de Deus. O perdido é aceito por Deus sem nenhuma exigência, sem condições de qualquer tipo. Com Jesus não existe mais aquela história: Deus te aceita, mas tu precisas fazer isto e aquilo primeiro. Deus te aceita, mas precisas cumprir estas e aquelas obrigações.

Martim Lutero disse certa vez: Deus é um forno ardente cheio de amor. E a vida de Jesus é movida por este amor. Por isso é que ele vai à procura do perdido. Mesmo que para isso tenha que deixar o rebanho para trás. O que importa nesta hora é aquele um que se perdeu.
Uma mãe, ao ser perguntada qual o filho que mais amava, respondeu: Aquele que está doente, até que fique novamente curado; aquele que foi embora, até que volte.

Jesus se volta para aquele que se perdeu Vai até lá onde ele se acha metido. Entra na realidade da sua vida. É alguém que se perdeu e que precisa de uma nova oportunidade! Jesus não colocou limites para tornar isso realidade. Foi até o fim. Foi até a cruz.

A parábola é formulada em forma de pergunta: Quem de vocês... perdendo uma ovelha... não a procura? Quer dizer, Jesus espera por uma resposta. Sem esta resposta a parábola fica incompleta, não chega ao fim.

Qual é a minha resposta?

III — Indicações para a prédica

A segunda parábola (vv. 8 a 10), conforme as observações do texto, tem o mesmo conteúdo. Assim, é aconselhável limitar o desenvolvimento da prédica à primeira por ser mais significativa e compreensível (também por motivos didáticos).

Descrever inicialmente a situação histórica: caracterizar os grupos dos fariseus, escribas e pecadores, suas diferenças e controvérsias. Apresentar aspectos da pessoa de Jesus: O resumo de sua atuação O Filho do homem veio para buscar e salvar o perdido (Lc 19,10), seu relacionamento com os publicanos e pecadores, a reação dos fariseus e escribas frente a isso. Com isso é possível conseguir um efeito de distanciamento que permite um posicionamento mais aberto e objetivo por parte dos ouvintes.

Após esta introdução, os ouvintes têm boas condições de acompanhar a leitura do texto. (Observação: É recomendável adotar a tradução da Bíblia na Linguagem de Hoje, com a seguinte ressalva: em lugar da expressão má fama empregar o termo original pecador).

Após a leitura do texto, recontar a parábola em rápidas palavras, para então passar a refletir o texto em seus diferentes aspectos: caráter não religioso, conteúdo central da mensagem (amor, alegria). Possibilitar aos ouvintes a descoberta de que na parábola está sendo falado de Jesus mesmo! Apontar para as consequências disso.

A parte final visa um posicionamento frente ao texto: resposta à pergunta inicial v. 4.

IV – Bibliografia

- BORNKAMM G. Jesus von Nazareth. 8a ed.. Stuttgart. 1988. (Editado também em língua portuguesa.)
- JEREMIAS. J. Die Gleichnisse Jesu. 3a ed.. Göttingen. 1969. (Editado também em língua portuguesa.)
- GOPPELT. L. Teologia do Novo Testamento. São Leopoldo e Petrópolis. 1976.
- PERR1N, N. O que Ensinou Jesus Realmente? São Leopoldo. 1977.


 


Autor(a): Ricardo Nör
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 4º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: Lucas / Capitulo: 15 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 10
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1979 / Volume: 4
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 14590
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