Lucas 15.11-32 - Olhando para dentro do coração de Deus

Prédica

25/01/1979

OLHANDO PARA DENTRO DO CORAÇÃO DE DEUS
Lucas 15.11-32 (Leitura: Salmo 32)

«A parábola do filho pródigo» (isto é, «gastador»), diz a Bíblia brasileira. «A parábola do filho perdido», a Bíblia alemã. Tem havido quem propusesse chamar esta história de «parábola dos dois filhos perdidos», porque em realidade também o mais velho dos dois irmãos era um filho perdido, já que se afastara do pai, mesmo ficando em casa, bem comportado e submisso. Talvez o título melhor que possamos encontrar seja «parábola do pai compassivo». Por que é o amor compassivo do pai que transforma esta história em evangelho. Sem este amor, ela não passaria de mais outra história de um jovem transviado, uma história triste, de corações fracos e duros, de sonhos desfeitos e de esperanças destruídas. 

Sem dúvida, não será essa a primeira vez que você escuta a parábola do filho pródigo. Ela é uma das passagens mais conhecidas da Bíblia. É, por assim dizer, um resumo de toda a Bíblia, é o evangelho integral abreviado -- o evangelho concentrado numa única página. Porque o evangelho é a história do Deus compassivo com o homem pecador --- é a história da salvação do homem revoltado pelo amor de Deus em Cristo. Mas a Bíblia é um livro fora do comum. A gente acha que conhece uma passagem, que quase sabe de cor um capítulo, e de repente descobre que conhece e sabe só pela metade. É por isso que o evangelho é sempre novidade para nós. Se a Bíblia fosse um livro humano, ela acabaria sendo parecida a um limão espremido, no qual já não existe nem uma gota de suco. Mas por ser um livro divino — embora escrito em letras humanas -- o conteúdo não se acaba. É por isso que pessoas sedentas sempre voltaram para a Escritura Sagrada, quando notaram que todas as outras fontes se tinham secado. Assim nós também queremos fazer, hoje, pedindo a Deus que nos abra os olhos e os corações para que possamos entender esta parábola de Jesus, como sendo boa nova para nós. 

Observamos alguns pontos que se destacam. Em primeiro lugar é a atitude estranha do pai. Quando o filho mais novo lhe diz: «Dá-me a parte dos bens que me toca», ele não responde: «Nada feito, filho. Eu conheço tua leviandade, Nada feito, por enquanto!» Ele fez o que nenhum pai comum faria: Dá ao filho o que pede. Dá-lhe a parte da herança que lhe toca. Não impede que o rapaz queime sua propriedade e venda suas posses para ter dinheiro à vista. Não impede que ele vá embora, levando tudo. Não manda ninguém lhe seguir os passos, não manda ninguém pôr-se no caminho dele para fazê-lo tomar juízo. Deixa-o viver como ele quer. Deixa-o cobrir de vexame o nome paterno com sua vida vergonhosa, deixa-o gastar a herança à toa. Deixa que ele chegue ao ponto mais baixo imaginável — que se encoste num homem sem compaixão, entregue aos caprichos dele -- que chegue mesmo a passar fome e a querer alimentar-se da comida dos porcos. 

Por que o pai permite tudo isso? Por que não manda buscar o filho, por que não o obriga a voltar e a viver uma vida decente na casa paterna? Será que ele não se importa com o que o filho faz? Será que lhe é indiferente e que não sofre por causa dele? Embora custemos a aceitá-lo: Precisamos entender o que o pai faz, como sendo expressão do seu amor. O filho já estava perdido antes de pedir a herança. A vida vergonhosa que ia levando depois — ela foi apenas o pus que ia saindo do furúnculo do desamor e da revolta interna. É por isso que deixou o filho partir. O furúnculo precisava amadurecer. O pai não deixou de amar o filho nem por um momento sequer. Enquanto o filho ia levando sua vida é toa, enquanto vivia com meretrizes e com amigos interesseiros, havia uma realidade quem nem sequer era toca:- da pelo que ele ia fazendo: Era a parte da herança que não dá para dividir, porque é indivisível, é íntegra e eterna: Era o amor do pai, constante e inabalável. 

Você entende esta coisa maravilhosa? Uma criatura de Deus se perde, joga tudo fora, despreza o que o Criador lhe deu, chega ao ponto de desesperar — e no outro lado permanece inabalável o amor de Deus, amor que espera, que vigia dia e noite, amor que não muda nunca! É essa nossa esperança. Não há outra, Se a nossa salvação dependesse de nossos bons propósitos, poderíamos desistir já. Você — que o saiba: Deus não é o espelho de nossas atitudes nem de nossos bons propósitos, nem de nosso desespero. Ele não é um Deus-eco. É um Deus que continua amando o pecador, embora este cubra o seu nome de vergonha. Isto é evangelho —. é boa nova para você e para mim. 

Vejamos um segundo ponto. Quando o filho pródigo, o filho perdido, se acha na fase mais profunda de sua perdição, ele não diz: «Eu errei, eu preciso mudar de vida, eu vou consertar o que fiz de errado». Ao entrar em si mesmo, ao enfrentar esta criatura suja e estragada que ele veio a ser, ele vê diante de si a casa do pai: «Quantos jornaleiros na casa de meu pai têm pão em abundância, e eu, aqui, morro de fome. Eu me porei a caminho e direi: Meu pai, eu pequei contra o céu e contra ti, já não sou digno de ser chamado teu filho. Trata-me como um de teus criados.» Nós vemos que o filho ainda não compreendeu verdadeiramente o amor de seu pai. Acha que só o vai aceitar como criado. Mas a lembrança da casa paterna, o pão que há lá, a esperança de poder falar com o pai: é o que lhe dá coragem de voltar. 

Você é um cristão convertido? Deixou uma vida errada e voltou para Deus? Bem-aventurado você, se for assim. Mas não pense que foi você, que se converteu. Se a sua conversão foi autêntica, então foi a lembrança do amor de Deus que o fez mudar de rumo. Foi a janela iluminada da casa do pai que lhe deu coragem de voltar. A honra e o merecimento não são do maltrapilho faminto que viveu na imundície. A honra é de Deus.

E um terceiro ponto. Mais uma vez precisamos falar do pai, nesta história do filho pródigo. Quando o rapaz volta para casa, maltrapilho, um vagabundo coberto de farrapos, o pai o vê de longe (observe — o pai foi o primeiro a ver o filho!) e corre ao seu encontro. Nenhuma acusação. Nada de reprimendas morais. O seu coração paterno se move de compaixão. Ele atira os braços em redor do pescoço do filho e o beija. Nada diz -- e diz tudo. Não deixa nenhuma dúvida no coração do filho. É neste momento que o filho compreende o que é o amor do pai. Antes não tinha sabido. 

Um quarto ponto. O pai tinha abraçado o filho, o tinha aceito, antes que este lhe pedisse perdão. Agora o rapaz bem poderia ter pensado: Eu vou calar a boca. Por que me humilhar, se o pai me aceitou assim mesmo? Mas ele não faz assim. Ele fala. Confessa tudo, como tinha planejado. Só que o pai não o deixa falar até o fim. Antes que o filho possa dizer que quer ser tratado como criado qualquer, o pai já manda um criado trazer um vestido novo, um anel para o dedo e sandálias para os pés. O que terá sido que deu ao filho a coragem e a vontade de se confessar? O que lhe permitiu expor sua miséria em público? Mais uma vez precisamos dizê-lo: Foi o amor do pai — nada mais. Saiba você: Se não há nada no mundo, capaz de lhe arrancar a confissão de seus erros e de sua vida falhada: O amor de Deus o consegue. Só o amor de Deus. 

Um quinto ponto. Você pergunta: Será que o pai não exagerou com aquela recepção? Comida, roupa e sapatos — vá lá! Mas um anel no dedo, e o churrasco — e o cúmulo de tudo: a banda de música e as danças! Será que não precisava mostrar nem um pouquinho que a coisa tinha sido séria mesmo? Será que não teria sido melhor, pôr o filho à prova por algum tempo, deixá-lo morar meio escondido no sótão da casa.. .? 

Se você pensar assim, já encontrou companhia na parábola. Pois foi bem assim que pensou o filho mais velho, que vinha voltando da lavoura e que se queimou por causa da música e das danças. Tão indignado ele estava deste pai estranho e injusto que se negou a entrar na casa, E mais uma vez precisamos indicar para o coração do pai. Pois nesta passagem triste da parábola também há evangelho. Há boa nova para os filhos perdidos que não saíram da casa paterna — mas que mesmo assim nunca chegaram a compreender o amor do pai. Da parte do filho, a nova não é boa. Ele lança no rosto do pai o que ele pensa: «Este teu filho que gastou tua fortuna com prostitutas tu lhe deixaste carnear o novilho gordo! E eu, que te servi, sem nunca contrariar nenhuma ordem tua, a mim, nem um cabrito me tens dado para que me alegrasse com os amigos.» Não — a nova deste filho não é boa. «Este teu filho», ele diz. Não diz: «Este meu irmão.» R como se quisesse dizer: «Qual pai, tal filho.» Ele acusa o pai, enquanto acusa o irmão. Diz aquilo das prostitutas, embora o pai talvez nem o tenha sabido. Bota para fora o seu protesto, dizendo que nem um cabrito o pai lhe tinha dado para que tivesse a sua alegriazinha também. 

Dissemos há pouco que o filho mais velho também era um filho perdido. Aqui ele mesmo o diz. É uma confissão de sua revolta interna que ele vai botando para fora. E agora note bem -- agora vem o evangelho também para o filho mais velho. O pai também ama este seu filho. Ama-o tanto como o outro. Também vai a seu encontro, procurando fazê-lo entrar: «Seu pai saiu e lhe pediu que entrasse.» Veja, o pai pediu! E depois de ouvir o protesto do filho, lhe diz com todo o amor: «Meu filho, tu sempre estás comigo; tudo o que é meu, é teu. Entretanto era preciso que nos regozijássemos, porque este teu irmão estava morto, e reviveu, estava perdido e foi achado.» «Este teu irmão.!» Como é diferente do «este teu filho» de antes! 

Eis uma história que já mudou a direção do caminho de muitas pessoas. Uma história que nos poderá encher de júbilo e de alegria. Ela não necessita de acréscimo. Ela diz tudo. Talvez só façamos uma pergunta final: Onde se encontra Jesus nesta parábola? Se ele é o Salvador dos perdidos -- onde ele se acha, na parábola do filho perdido? Pois veja: Foi Jesus quem contou esta história. A imagem do pai é a imagem de Jesus. «Eu e o Pai somos um», diz Jesus, É ele, é Deus em Cristo, que vai de encontro ao pecador, que não o acusa, mas que o justifica, que tira os trapos dele e que o cobre com o traje festivo de sua justiça divina. É em Cristo que acontece este evento maravilhoso da salvação de uma criatura falida e perdida. E por ser assim, você e eu estamos convidados a entrar no círculo dos que festejam, a cantar com júbilo, por termos um Senhor que não nos rejeita, um Senhor, cujo amor é maior que nosso coração. 

Oremos: Santo e misericordioso Deus. Eu me vejo espelhado tanto no filho mais novo, como também no mais velho. Confesso-te que muitas vezes tenho gasto tua herança à toa — e apesar disto tantas vezes agi como um fariseu e não fui de encontro a meu irmão que estava querendo voltar para a casa paterna. Perdoa-me, Senhor. Tu vieste a meu encontro em Jesus. Convidaste-me a entrar em tua casa, assim como sou. Aceita-me, Senhor. Eu quero aceitar meu irmão também. Amém

Veja:

Lindolfo Weingärtner

Lançarei as redes - Sermonário para o lar cristão

Editora Sinodal

São Leopoldo - RS
 


Autor(a): Lindolfo Weingärtner
Âmbito: IECLB
Testamento: Novo / Livro: Lucas / Capitulo: 15 / Versículo Inicial: 11 / Versículo Final: 32
Título da publicação: Lançarei as redes - Sermonário para o lar cristão / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1979
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Prédica
ID: 19683
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