Lucas 18.1-8

Auxílio Homilético

20/10/2013

Prédica: Lucas 18.1-8
Leituras:  Gênesis 32.22-31e 2 Timóteo 3.14-4.5
Autora: Vera Maria Immich
Data Litúrgica: 22º Domingo após Pentecostes
Data da Pregação: 20/10/2013
Proclamar Libertação - Volume: XXXVII

1. Introdução

Os três textos propostos versam sobre um tema comum: fidelidade e perseverança. Em Gênesis, é Jacó quem nos ensina que podemos ser transformados pelo amor de Deus se permanecermos fiéis e enfrentarmos as dificuldades e o desconhecido com perseverança. Jacó luta toda a noite com um homem incomum; ao amanhecer, esse homem quer ir embora, mas Jacó lhe pede a bênção, que lhe é concedida junto com a mudança de nome, que sugere transformação pessoal, de caráter e de conduta. Lembremo-nos de que esse Jacó que agora luta por uma bênção é aquele que enganou seu irmão e roubou uma bênção. Agora, ele a merece, e Deus o recompensa. Chamar-se-á Israel, que quer dizer: Deus luta.

Em 2 Timóteo, também encontramos palavras que recomendam a perseverança e a fidelidade na reta doutrina. O autor da carta afirma que eles devem pregar “quer seja oportuno quer não”, ou seja, aproveitar todas as oportunidades. Ele alude à Escritura como palavra útil e sempre disponível, que deve ser pregada e seguida, pois ela testemunha a salvação pela fé em Jesus Cristo. No v. 16, lemos que “toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a educação na justiça”. Perseverar é pregar sempre e seguir sempre fielmente a doutrina, mesmo que o mundo ofereça outras oportunidades, mais atrativas e mais convincentes. Isso não importa. Segue adiante com perseverança e sobriedade, suportando as aflições.

Enfim, o texto de nossa pregação mostra-nos uma mulher perseverantemente chata e inoportuna. Desagradável com pessoas (o juiz), com tantas coisas maiores e mais importantes para julgar. Com possibilidades reais ínfimas, ela se agarra à força que a põe em movimento e impede-a de desistir. Ela prossegue em sua caminhada.

2. Exegese

A grande questão oculta do texto é sobre o final dos tempos, a vinda do reino de Deus. E Jesus inicia já no versículo 1 dizendo que deveremos ser perseverantes e orar sem cessar. Nós cristãos devemos seguir o exemplo da viúva e confiar. Aguardar sem ansiedade e sem a tentação de marcar datas e horários, sem se atrever a ver as desgraças de nosso tempo como sinais do fim. Viver na história e aprender dela sem olhar com saudosismo irreal para o passado e com ranço manipulador para o futuro. Ser fiel e perseverante até a morte, sem se deixar desviar do foco da oração. Mas como não esmorecer ante os juízes de nosso tempo?

Este texto, ao contrário do todo das Sagradas Escrituras, não aponta para a vida comunitária, mas é ali precisamente que esperamos sem esmorecer. Exatamente no contexto comunitário em que a vida humana se concretiza nas contradições e imperfeições, nas dificuldades comunitárias e na necessidade de olhar para o outro, para além de mim.

O desenrolar deste texto dá-se do menor para o maior, ou seja, do insignificante para o significativo, da desconsideração para a persistência. Um juiz, passível de suborno, é convencido pela persistência impertinente, porque ele sabe que é sua função julgar todos os casos que são trazidos, os casos de toda a população e não somente daqueles que podem recompensá-lo indevida e duplamente. Ele o sabe e, enfim, resolve julgá-lo para não se aborrecer mais tarde. Se até um juiz que não se importa deixa-se convencer, imagine um Deus que ama. O Deus descrito em Lucas é o Deus que ouve a oração e que atende os seus quando esses pedem sem parar, porque é um Deus que nos busca em sua palavra de perdão.

A parábola é contada pelo próprio Jesus, que coloca na pessoa de uma mulher pobre e desesperada um exemplo a ser seguido. Jesus admoesta seus seguidores a orar sempre e não esmorecer nunca. No contraponto está um juiz considerado por Jesus como alguém não temente a Deus nem a ninguém. Logo ele, que deveria zelar pelo cumprimento da lei para todos os cidadãos, demonstra ser insensível e indiferente ao clamor da mulher. Simplesmente a ignora e não a atende por algum tempo, diz o texto.

3. Meditação

Quantas vezes também o cidadão brasileiro e a cidadã brasileira veem seus anseios engavetados em alguma sala escura, veem seus direitos sendo negados e inviabilizados devido ao péssimo atendimento dos serviços públicos, tanto na saúde como na educação, nas longas filas de vários meses para realizar uma perícia médica. Nesse contexto, muitas vezes, as pessoas são tomadas pelo desânimo, pela desmotivação e são vencidas pela demora, pela espera e pelo desrespeito geral. Conheci uma pessoa com obesidade mórbida que reclamava da espera de mais de um ano para realizar uma cirurgia bariátrica e que três anos mais tarde faleceu de um problema renal acentuado pelo excesso de peso, sem nunca haver se inscrito para a referida cirurgia. Essa pessoa não conseguiu cansar o “juiz iníquo” de nosso tempo. Ela desistiu de perseverar e não conseguiu se alimentar na oração constante que renova, alimenta e fortalece na adversidade. Não por acaso, Jesus usa como exemplo uma pessoa que não tem com quem contar e tem um caminho a seguir: ser ouvida pelo juiz. Ela não tem com quem contar. Ela é uma viúva desamparada e desprotegida, porque ninguém a defende como deveria ser.

Depende dela e somente dela o julgamento de sua causa. Mas, em contrapartida, como enfrentar alguém de nível superior e que sequer a atende? Desistir ante a negativa seria aceitar a derrota. Ela, então, põe-se em movimento de resistência pacífica e luta ininterrupta. Ela torna-se inoportuna na vida profissional daquele juiz. Então esse resolve, para ver-se livre dela, julgar sua causa para não ser mais incomodado.

Jesus usa essa parábola para falar da justiça de Deus. Se até um juiz iníquo atende uma insignificante viúva para ver-se livre dela, não por convicção ou senso profissional, mas para não ser mais molestado e para não vir a ter problemas no futuro, imagine Deus, que atende os seus por amor e por ser seus escolhidos.

O texto afi rma que seremos ouvidos quando clamarmos dia e noite, embora nos pareça demorado ser atendidos. Na ilustração a seguir, o terceiro rapaz não compreende a resposta a suas orações. E o que ele faz? Continua orando e buscando até compreender a resposta a seu pedido. Portanto orar e nunca esmorecer, principalmente contra as circunstâncias difíceis que a vida muitas vezes impõe e que, somente muito lentamente, compreendemos.

4. Imagens para a prédica

Três rapazes suspiravam por encontrar o Senhor, a fim de fazer-lhe pedidos. Depois de muitas orações, eis que, certa vez, no campo em que trabalhavam, apareceu-lhes o carro do Senhor, guiado pelos anjos. Radiante de luz, o Divino Amigo desceu da carruagem e pôs-se a ouvi-los. Os três ajoelharam-se em lágrimas de júbilo, e o primeiro implorou a Jesus o favor da riqueza. O Mestre, bondoso, determinou que um dos anjos lhe entregasse um enorme tesouro em moedas. O segundo suplicou a beleza perfeita, e o Celeste Benfeitor mandou que um dos servidores lhe desse um milagroso unguento, a fim de que a formosura lhe brilhasse no rosto. O terceiro exclamou com fé: “Senhor, eu não sei escolher... Dá-me o que for justo, segundo a tua vontade”. O Mestre sorriu e recomendou a um de seus anjos que lhe entregasse uma grande bolsa. Em seguida, abençoou-os e partiu. O moço que recebera a bolsa abriu-a, ansioso, mas: oh! desencanto! Ela continha simplesmente uma enorme pedra.Os companheiros riram dele, supondo-o ludibriado, mas o jovem afirmou a sua fé no Senhor, levou consigo a pedra e começou a desbastá-la, procurando, procurando... Depois de algum tempo, chegou ao coração do bloco endurecido e encontrou ali um soberbo diamante. Com ele adquiriu grande fortuna e com a fortuna construiu uma casa onde os doentes pudessem encontrar refúgio e alívio em nome do Senhor. Vivia feliz, cuidando de seu trabalho, quando, um dia, dois enfermos bateram à porta. Não teve dificuldade em reconhecê-los. Eram os dois antigos colegas de oração, que se haviam enganado com o ouro e com a beleza, adquirindo apenas doença e cansaço, miséria e desilusão. Abraçaram-se, chorando de alegria, e, nesse instante, o Divino Mestre apareceu entre eles e falou: “Bem-aventurados todos aqueles que sabem aproveitar as pedras da vida, porque a fé e a perseverança no bem são os dois grandes alicerces do reino de Deus”.

5. Subsídios litúrgicos

Encenação:

Esse texto presta-se para uma encenação que o aproxima das pessoas e envolve um grupo na própria pregação. Senhoras ou jovens poderiam encarnar um juiz acomodado que se deixa convencer. Uma viúva, humilde e perseverante, senhora da situação, demonstra claramente que sabe o que quer.

Oração do dia:

Bondoso Deus! A tua igreja reúne-se pela força de teu Santo Espírito, alimenta-se da tua palavra e do testemunho de vida e fé dos pais e mães da fé que encontramos nas Sagradas Escrituras, mas também daqueles que vivem hoje e sentam ao nosso lado no culto. Permite que aprendamos com a força da perseverança, com o poder da insistência e com a avassaladora capacidade de transformação que o amor carrega em nós. Fortalece-nos para servir em comunidade e para procurar-te com coragem e determinação. Amém!

Poesia: Pode ser usada na acolhida ou para encerrar a pregação.

A cruz nossa de cada dia...
Não precisa ser pedida, não precisa ser buscada.
Ela vem. Ela se instala. Faz sofrer. Faz morrer.
Inadiável. Inexorável.
A cruz nossa de cada dia...
Faz pensar. Buscar sentido.
Expande a consciência,
Convoca a esperança,
Conduz ao crescimento.
Faz viver.
A cruz nossa de cada dia...
Fonte de vida e ressurreição. (Leonardo Boff)

Bibliografia

BOFF, Leonardo. O Senhor é meu Pastor. Consolo divino para o desamparo humano. Rio de Janeiro: Sextante, 2003.
PERIN, Norman. O que Jesus ensinou realmente? São Leopoldo: Editora Sinodal, 1977


Autor(a): Vera Maria Immich
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 22º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: Lucas / Capitulo: 18 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 8
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2012 / Volume: 37
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 25407
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