Lucas 2.1-20

Auxílio Homilético

25/12/2008

Prédica: Lucas 2.1-20
Leituras: Isaías 52.7-10 e Hebreus 1.1-12
Autor: Odair Braun
Data Litúrgica: Natal de Nosso Senhor
Data da Pregação: 25 de dezembro de 2008
Proclamar Libertação - Volume: XXXIII

1. Introdução

As passagens indicadas para as leituras e o texto de pregação deste Natal são um chamado para despertarmos e sairmos da letargia, abraçando a graça de Deus. Somente da graça de Deus advêm força e poder para a plena e total transformação. São, portanto, textos que nos convidam para algo novo, pleno e repleto, pois convidam para a salvação. Esse é o desejo maior que tais passagens querem despertar em nós.

2. Exegese

Lucas 2.1-20 é uma das passagens mais conhecidas e populares da Sa- grada Escritura. Observa-se que, a partir de um decreto do imperador, toda a população é posta em movimento, visando efetuar o recenseamento. Por sua vez, o recenseamento tinha como objetivo facilitar e aumentar a cobrança de impostos por parte do Império Romano, que, por sua vez, era um governo centralizador e poderoso. Nesse contexto, o nascimento de Jesus numa estrebaria, no território do império, é um contraponto na história. Aquela criança provém da periferia da sociedade. Vem para inverter valores. Vem para juntar e unir.
Por outro lado, a criança recém-nascida é encontrada, inicialmente, por pastores de cabras e ovelhas. Esses, por sua vez, não eram pessoas de destaque. Ao contrário, às vezes eram pessoas tidas como de pouca confiança, até mesmo perigosas. E, como sinal desse contraponto da história, são eles que chegam àquela estrebaria, levando presentes. Também são eles que saem daquele lugar cantando louvores a Deus. Portanto, em meio ao estábulo e à pobreza, o menino apresenta-se ao mundo. Ali, na periferia, Deus se encarna neste mundo, tendo como testemunhas pessoas desprezadas, que após o encontro retornam à sua rotina, dando glória a Deus. Isso é significativo. Essa é a boa-nova, ou seja, diante daquela manjedoura e em meio ao estábulo se fundem céu e terra e Deus revela como ele age na história.

Em traços gerais, Lucas 2.1-20 apresenta três aspectos importantes:

a) v. 1-7: destacam o lugar em que nasce Jesus, ou seja, a periferia;
b) v. 8-14: pessoas desprezadas são as primeiras a ouvir a boa-nova, o que é motivo de alegria e transformação;
c) v. 15-20: a boa-nova traz consequências. Os pastores tornam-se anunciadores da boa-nova e saem louvando a Deus.

Em relação aos textos de leitura, observa-se que Hebreus destaca a necessidade de falar e anunciar Deus. A passagem de Isaías 52.7-10 é um texto do exílio babilônico e tem como pano de fundo a cidade de Jerusalém, destruída e em ruínas. Contudo, apresenta-se a expectativa de retorno iminente. Nesse contexto destacam-se três cenas centrais:

a) o mensageiro anuncia o reinado de Deus;
b) os atalaias que observam a chegada do mensageiro são apresentados;
c) destaca-se o olhar para as ruínas de Jerusalém.

A boa-nova revelada nas passagens é que Deus reina, e essa novidade deve ser observada e transmitida, visando a transformação. São, portanto, textos que convidam e chamam para a caminhada missionária, visam propagar e difundir a boa-nova.

3. Meditação

Mais uma vez é Natal. Época alegre, de planos e alegria. Tempo especial e de esperança. No Natal, festejamos o encontro de dois mundos, o encontro de pessoas, que de outra forma jamais teriam se encontrado. O Natal é uma força que mexe e remexe com cada um de nós. É uma força que transforma. Deus veio ao nosso encontro. Deus nos escolheu. Ele chega a este mundo por um caminho simples e humilde. Chega pelo caminho menos esperado. Ele nasce como uma criança dependente e frágil. Nasce em meio a dores de parto. É enrolado em panos. Deitado na manjedoura, em meio aos olhares dos animais. Não havia lugar para ele, somente a estrebaria.

Nessa noite, encontram-se pessoas que antes nada tiveram em comum. Pastores encontram-se com Maria, José e a criança recém-nascida. Pastores encontram pessoas estranhas. Deus encontra-se, naquela estrebaria, com o mundo, como nunca antes havia ocorrido. Encontros geram emoção, senti- mentos, alento. Como isso terá acontecido com José, Maria e os pastores? É preciso tentar imaginar essas cenas relatadas nessa passagem. É preciso fazer isso para compreender a paixão de Deus por nós e por este mundo. O Deus- criança, o menino Jesus, traz esperança para o mundo sombrio, violento e sem paz. Deus mostra-nos, através do nascimento de Jesus, que o caminho para a vida plena passa pela estrebaria, pelo presépio, onde o céu e a terra se encontram, onde as estrelas se colocam como guias para os reis magos. Onde a vida é vitoriosa. Onde todos são presenteados.

Provavelmente, dois ou três dias antes desse encontro, se alguém tivesse dito aos pastores que eles iriam despertar de madrugada, deixar tudo para trás e dirigir-se a Belém para procurar uma criança, eles teriam rido e caçoa- do daquele que lhes falasse. Provavelmente teriam dito que isso eles não fariam. Provavelmente teriam dito que iriam, se fosse ao encontro do Rei, em Roma, para visitá-lo. Mas o Espírito Santo de Deus age, muda, transforma, põe em movimento. E, dois dias depois, eles, os pastores, dirigiam-se a Belém para visitar e adorar uma criança numa estrebaria, pois não havia outro lugar para abrigar aquele casal.

No Natal, realiza-se a plenitude dos tempos. A salvação se realiza. Deus vem ao encontro das pessoas. Ele encarna a vida humana. Por isso o Natal é comovente. Não por seus enfeites ou por nossos sentimentos. Não pelas luzes que se acendem ou pelos muitos presentes que são dados e recebidos. O Natal é comovente porque Deus revela seu amor à humanidade de uma maneira muito especial, mas igualmente simples. Ele, Deus, age apaixonadamente em favor da pessoa contra toda a lógica humana. Ele não escolhe o caminho da glória, do poder e da ostentação. Ele escolhe o caminho da humildade e do serviço.

Sem discutir, mas apressados, os pastores partem. Algo os movia. Algo os punha a caminho. Alguma força sobrenatural mexeu com eles. Seria a curiosidade? A saudade para alcançar um mundo novo? Foi Deus e seu Santo Espírito? Eu creio que nem mesmo aqueles pastores sabiam, naquele momento, o que os punha em movimento. Após o encontro com o anjo e a promessa vinda do céu, eles queriam ver o que tinha sucedido. Natal quer fazer-nos olhar sob outra perspectiva. Natal significa que a lógica de Deus para conosco é outra. É a lógica da vida, do estar junto, tal como revelado por Deus lá na estrebaria.

Os pastores não tinham rádio nem TV. Mas queriam, antes de qualquer coisa, ver... e quem sabe então acreditar. Eles põem-se em movimento. Eles põem-se a caminho, não ficam parados dizendo: “Podíamos, deveríamos, quem sabe, não tenho tempo, tenho muito que fazer lá em casa”... Os pasto- res de ovelhas daquele tempo deixam levar-se para o encontro com o outro. E nós hoje, como agimos? Deixamos Deus falar conosco? Deixamos Deus nos impulsionar para agir em favor de nosso semelhante? Deus revela-se ao mundo numa criança frágil e indefesa. Não havia lugar para ela nascer... Sobrou a estrebaria... Deus envolve-nos e aquece através da palha da manjedoura. O Natal fala para dentro de um mundo desumano, com marcas de injustiça, ódio, discriminação, exclusão.

Na lógica de Deus, a justiça e a paz encontram-se e se abraçam na estrebaria no meio dos animais, junto de uma mulher, cansada do parto. Quando vemos essa cena diante de nossos olhos, lembramo-nos de tantos que não assumem a responsabilidade com a maternidade e a paternidade. Temos em nossa cidade e no mundo crianças de rua, jovens adolescentes perdidos em drogas, porque, muitas vezes, em casa não há diálogo e compreensão. A família de Maria, José e Jesus faz-nos olhar também para a nossa família. Qual o testemunho de amor familiar que damos aos filhos, ao mundo?

Os pastores põem-se a caminho. Eles se deixam impulsionar por Deus. Encontram a estrebaria. Entram. Creio que estavam bem apreensivos sobre o que iriam encontrar naquele lugar. O que encontram? Nem anjos. Nem brilho. Nem luz. Eles se deparam com uma mulher e um homem, empenhados em cuidar de uma criança recém-nascida, que se encontra num cocho para alimentar animais, porque outra coisa não havia para abrigar o recém-nascido. Os pastores que se puseram a caminho vêem e se encontram com pessoas nunca antes vistas ou encontradas. Os pastores encontram a mulher, Maria. Encontram José e a criança. Os pastores reconhecem os três só por meio do ouvir falar da parte do anjo.

O sinal do nascimento do Salvador é uma criança deitada num cocho de animais. Vocês podem imaginar o espanto daqueles humildes pastores. Eles são os primeiros a receber a notícia do nascimento de Jesus. E, então, muitos anjos cantam, anunciando com alegria e júbilo: “Glória a Deus nas maiores alturas e paz na terra entre as pessoas a quem Deus quer bem”. A paz é a mensagem central dos mensageiros de Deus no Natal. A paz entre as pessoas, entre as famílias, entre os povos... A paz se faz! A paz implica construção de pontes de perdão, de reconciliação, de reconstrução da vida. A paz implica pão: saciar a sede de quem tem fome. A paz implica educação. A paz requer a prática dos valores cristãos na construção de uma sociedade solidária e justa.
Na primeira noite de Natal, os anjos cantaram a mensagem da paz para os pastores no campo: “Paz entre as pessoas a quem Deus quer bem”. No Natal, recordamo-nos dessa maravilha, da vinda do próprio Deus a nós, naquela criança despojada, filho de Maria e José, nascido em Belém. Por isso, acima de todos os nossos pedidos e em confiança nas promessas de Deus, damos no Natal e sempre glória a Deus nas maiores alturas.

Pessoas simples, pastores de ovelhas, foram os primeiros a visitar a criança em Belém. O seu coração encheu-se de júbilo. Eles não ficaram com essa alegria somente para si. Foram adiante, foram testemunhar o que havia acontecido. Contaram aos demais o que tinham presenciado. Como nós temos testemunhado a presença de Jesus em nossa vida? Temos falado às outras pessoas sobre as maravilhas e os milagres que Deus tem feito em nossa vida? Além de testemunhar com palavras, como temos dado sabor à vida daquelas pessoas que vivem conosco? Como temos sido solidários com aqueles que ainda vivem nas estrebarias e estão deitados nas manjedouras em nosso mundo?

No Natal, Deus aponta o horizonte a quem está sem rumo. Abrem-se perspectivas para quem está sem perspectiva. Por isso todos podemos olhar para o futuro com esperança, podemos projetar-nos para a frente, em direção ao horizonte onde estão as luzes, a alegria, a paz, o senhorio de Deus. O futuro já ilumina o presente. A festa do nascimento de Jesus contagia toda a Terra. Quem faz a experiência dos pastores de contemplar a glória de Deus não se recolhe a seu canto, mas se enche de vitalidade, de ânimo e sai para testemunhar a mensagem da vida e da salvação.
De pastores de ovelhas a anunciadores da palavra de Deus. Isso parece algo absurdo. Mas, no Natal, isso é possível. Diante do mesmo Jesus, de sua força e luz, tudo se torna viável. Volto a dizer: ali se encontram pessoas e acontecimentos, ocorrem sinais e surgem palavras, como nunca antes visto. Não é nenhuma surpresa que todos, conhecendo o ocorrido, ficaram impressionados. “Todos os que ouviram o que os pastores diziam ficaram admira- dos” (Lc 2.18).

Devem ter falado ao povo o que para eles se transformou em evangelho, em boa-nova. Evangelho é aquilo que deixa uma pessoa alegre, com esperança. Evangelho é aquilo que deixa um sentimento de realização e de dever cumpri- do. Só assim a boca transborda de palavras de alegria e esperança, que são compartilhadas com todos. Deus encontra as pessoas onde é relatado sobre as graças e as maravilhas que ele proporciona em nossa vida. Foi isso que os pastores fizeram. Eles pararam, ouviram, viram e anunciaram. Juntaram a palavra e os sinais, puseram-se em movimento. Somos nós capazes de compartilhar com os outros aquilo que Deus permite em nossa vida? O que ocorre quando nos pomos em movimento, quando deixamos Deus nos impulsionar e mover, tal qual os pastores daqueles campos? Ocorrem transformações. Ocorrem sinais, ações de transformação, que tornam este mundo e nossa sociedade melhores. Ocorrem sinais de que nosso mundo tem salvação.

Somos importantes. De nós depende fazer chegar essa boa-nova a outros. Se espalharmos nossas experiências com Deus e com o evangelho, então verdadeiramente este mundo será transformado. Ele não é um presidente que deseja mandar em tudo e em todos, ameaçando de guerra aqueles que discordam, tal como a gente vê muitas vezes nos noticiários. Jesus Cristo é o Senhor, ele é o poder que no Natal e que nos demais 364 dias do ano deseja transformar a vida. Somente o amor de Deus por este mundo tem a capacidade de manter a unidade, a paz e o amor.

Naquela estrebaria pobre e fedorenta é posto lado a lado tudo aquilo que precisa permanecer junto: Deus e as pessoas. Com a criança que ali nasceu se torna compreensível o que Deus quer com cada criança que nasce, com cada novo dia: uma nova criação, nova força e novo ânimo. Amor para viver. A vida tem nova chance; nada precisa permanecer tal como até agora. Contra toda a fome, miséria e violência, contra toda a falsidade e mentira, contra toda a culpa e morte, podemos crer, confiar e viver. Isso também é Natal. E o modo mais belo de expressar essa alegria é por meio do louvor. Alegria pelo encontro do céu com a terra. Alegria pelo encontro de Deus conosco. Alegria pela nova vida. Alegria pelo Natal que bate à nossa porta.

4. Imagens para a prédica

Conforme observado na meditação, destaca-se o fato de ocorrer o encontro de duas extremidades, de dois opostos, ou seja, Deus e as pessoas, o mundo fragilizado e o canto de “Glória a Deus nas alturas”. Pode-se buscar a encenação de cenas e realidades, visando defrontar a comunidade com esses opostos. Essas encenações podem ser distribuídas no transcurso da pregação.

5. Subsídios litúrgicos

Liturgia de entrada:

Pastor – O que tinha sido anunciado por profetas tornou-se realidade. Um menino nasceu! A palavra tornou-se um ser humano e veio morar no meio de nós, cheio de graça e de verdade. E, a começar pelos pastores de ovelhas lá em Belém, o mundo pôde conhecer esse menino: Jesus. Esse é o motivo por que o mundo festeja o Natal. É o motivo que nos reúne em culto nesta manhã. Estamos reunidos em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Gesto da paz:

Quando adulto, o menino Jesus, nascido em Belém, anunciou: Deixo- vos a minha paz. Minha paz vos dou. E ela é diferente da paz do mundo. A paz de Jesus reata relações rompidas, permite refazer a amizade, ajuda a devolver a convivência na família, a superar o ódio. Porque Jesus nasceu pode haver reconciliação. Com um abraço ou um aperto de mão desejemos essa paz uns aos outros.

Oração do dia:

Deus, que revelaste teu rosto no menino nascido em Belém. Obrigado por mais este Natal. Obrigado por mais uma vez podermos revisar nossa vida e dar a ela um rumo, orientado pela estrela que conduz a teu filho. Obrigado por que vens e estás no meio de nós. Tu és a luz do mundo, e precisamos de ti. Deixa a tua vida clarear a nossa vida e a escuridão que paira sobre nosso mundo.

Oração geral da igreja:

a) Intercedemos por nossos irmãos e irmãs que encontram dificuldades, falta de sentido de vida, que enfrentam a enfermidade, o desemprego e a dependência. Faz com que a mensagem de Natal se transforme em motivo de esperança na recuperação e em fé de que sempre podemos confiar que estamos guardados em tuas mãos.

b) Intercedemos por paz na terra, paz na família, paz entre as gerações, paz na comunidade e na igreja, paz entre os povos para que desse modo o mundo experimente a alegria que transformou a vida triste dos pastores acampados nos arredores de Belém.

c) Intercedemos, nosso Deus, por fé no mistério do Natal e por disposição para atitudes, palavras e pensamentos que estejam sempre orientados pelo que Jesus ensinou e praticou.

d) Deus amado, tu que revelaste a boa notícia aos pastores despreza- dos e perseguidos nos morros de Belém. Oramos pelas pessoas que ainda hoje são desprezadas e perseguidas em nosso país. Que a paz de Jesus motive a nós e aos povos das diversas raças para se acolher fraternalmente. Que a paz de Jesus nos torne livres para ser compassivos, solidários com todas as pessoas que sofrem.

e) Deus amado, que acompanhaste Maria e José, acompanha as nossas famílias. Conduze-nos pelo caminho do diálogo, pelos trilhos do companheirismo, sempre pronto para o perdão e a reconciliação, para que em nosso lar também possamos sentir o doce gosto da paz querida pelo menino Jesus. Por Jesus Cristo. Amém.


Autor(a): Odair Braun
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Natal
Perfil do Domingo: Dia de Natal
Testamento: Novo / Livro: Lucas / Capitulo: 2 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 20
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2008 / Volume: 33
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 18572
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