Lucas 24.1-11 (12)

Auxílio Homilético

16/04/1995

Prédica: Lucas 24.1-11 (12)
Leituras: Êxodo 15.1-11 e I Coríntios 15.1-11
Autor: Carlos Musskopf
Data Litúrgica: Domingo da Páscoa
Data da Pregação: 16/04/1995
Proclamar Libertação - Volume: XX


1. Introdução

Trata-se de um texto muito rico em sinais e ideias que pode evocar. Com certeza se poderiam elaborar um auxílio homilético e uma boa prédica a partir de cada um dos 12 versículos. Perguntas como a dos varões: Por que buscais entre os mortos ao que vive? (v. 5) mereceriam atenção especial dentro de um contexto onde o espiritismo tem tanto espaço na mídia.

Mas, como o texto está previsto para o Domingo da Páscoa, o assunto central é a ressurreição. Esta também foi a opção do Dr. Gottfried Brakemeier em seu auxílio para o mesmo texto publicado em PL II, p. 201ss., cuja leitura é pressuposta no presente artigo.

O tema da ressurreição é muito complexo, talvez o mais difícil de todos os temas da teologia cristã. Por um lado, por causa das fortes divergências entre os relatos bíblicos da ressurreição. Por outro, porque a tradição e a história lho deram uma importância que os primeiros cristãos talvez nem tenham dado. Por fim, porque o povo de Deus hoje tem inúmeras e diferentes interpretações, convicções e formas de viver o mistério pascal.

2. Reflexões

1. Não há testemunhas da ressurreição. Não há ideias formadas sobre o que teria acontecido com o corpo de Jesus. Especulou-se desde o início que o seu corpo teria sido roubado. Outra possibilidade é que, por causa da pressa e da vontade de ver o Mestre livre da morte, tanto as mulheres quanto Pedro não tenham visto o corpo no túmulo. A psicologia explica isso com facilidade. A crença de que na ressurreição se trata de uma nova criação deixa a questão do corpo da primeira (velha) criação totalmente em aberto.

Só temos relatos das aparições, que pressupõem a ressurreição, mas também sobre essas aparições não existe a menor unanimidade.

Parece que os discípulos não deram muito crédito às palavras de Jesus nas quais ele prenunciava sua volta no terceiro dia:

a) As mulheres só se lembraram dessas palavras (v. 8) depois que um dos varões as advertiu;

b) o v. 11 não poderia falar dessa realidade de forma mais explícita. Algo não-esperado aconteceu. Para os discípulos, o fato de acreditarem em Jesus e sua mensagem não estava ligado à sua ressurreição; não dependia de esta mensagem ser ratificada ou potencializada pela ressurreição prometida. Nem mesmo pela já ocorrida. As aparições alteram os ânimos dos discípulos, mas não mudam fundamentalmente suas atitudes. Estas só vão se transformar mesmo após a vinda do Espírito Santo;

c) Pedro (v. 12) fica maravilhado (surpreso?!) com o acontecido. Sai para contar aos outros discípulos, mas ainda não se torna um pregador destemido.

2. Toda a teologia cristã, portanto, está montada sobre um fato que para os discípulos foi de relevância secundária e sobre o qual não se pode dizer uma palavra definitiva. Este fato só tem valor subjetivo, uma vez que objetivamente não se pode afirmar nada.

Isso nos permite especular que a história da Igreja cristã também teria acontecido se não houvesse o relato das aparições e a consequente fé na ressurreição. A ação do Espírito Santo em Pentecostes desinstalou os discípulos e iniciou um movimento que não encontra limites nem barreiras de tempo ou lugar.

Mesmo tendo que admitir que a ressurreição alterou a fé dos discípulos, não podemos dizer que sem ela eles não tinham nem teriam fé.

A fé depende de três fatores:

1. Da vida (atos e ditos) terra na de Jesus Cristo;
2. Da ressurreição (respectivamente dos relatos de aparição);
3. Do Espírito Santo concedido e permanente na história.

3. O tema da ressurreição é sempre usado em prédicas de enterro para trazer conforto e ânimo aos enlutados. Neste contexto se pressupõe uma ressurreição após a morte. Imediatamente depois de morrer ou depois do juízo final? São perguntas às quais o povo dá resposta à sua maneira, independentemente do que o/a pastor/a pense e pregue. O Manual de Ofícios ainda em uso na IECLB sugere: ' 'Terra à terra, cinza à cinza e pó ao pó — na segura e certa esperança da ressurreição para a vida eterna (...) (p. 41).

Mas também o Batismo e a celebração da Santa Ceia se baseiam em concepções de ressurreição. Nestes casos se referem a algo que acontece conosco em nossa vida presente. No Batismo se fala em sermos batizados na morte e na ressurreição de Jesus e também que a criança foi aceita no número dos/as filhos/as de Deus e se tornou herdeira de seu Reino. Na Santa Ceia, com a confissão dos pecados participamos da morte de Jesus e na absolvição somos resgatados por sua ressurreição.

O Credo Apostólico se limita a afirmar a ressurreição do corpo sem esclarecer se (em a teologia de Paulo (corpo material versus corpo espiritual) em mente como pano de fundo. Também o Credo Niceno não é muito mais específico ou esclarecedor: E esperamos a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir.

3. Prédica

Leonardo Boff afirma que as divergências nos relatos aconteceram porque a ressurreição estava fora de suas possibilidades de representação (p. 94).

Na prédica podemos ressaltar o valor positivo de hoje ainda ser assim:

* lembrar que a ressurreição é nova criação e nada tem a ver com reencarnação
* como nova ação criadora de Deus:

* supera conceitos e preconceitos;

* não se limita ao tempo medido;

* possibilita uberdade para criar;

* faz sair da depressão;

* a vida ressuscitada e a vida biológica/espiritual andam juntas (vivemos ambas em contradição e cooperação/adição).

A Páscoa pode e deve ser momento/oportunidade para sair da casca, para libertar o impulso criativo que está latente e cativo dentro de cada pessoa.

4. Orações

Confissão de pecados: Encolhemo-nos em nossas verdades e mentiras; não ousamos inovar, re-criar; conformamo-nos em ser menos quando temos mais para dar.

Intercessão: Por quem luta contra a apatia individual e coletiva (citar exemplos locais e gerais).

5. Bibliografia

BOFF, Leonardo. Jesus Cristo Libertador. 10. ed. Petrópolis, Vozes, 1985.
BRAKEMEIER, Gottfried. Meditação sobre Lc 24.1-12. In: VAN KAICK, coord. Proclamar Libertação. São Leopoldo, Sinodal, 1983. v. MI, p. 201-206.
THIELICKE, Helmut. Informações sobre a Fé. 2. ed. São Leopoldo, Sinodal, 1977.


Autor(a): Carlos Musskopf
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Páscoa

Testamento: Novo / Livro: Lucas / Capitulo: 24 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 11
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1994 / Volume: 20
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 13321
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