Lucas 3.15-17,21-22

Auxílio Homilético

07/01/2001

Prédica: Lucas 3.15-17,21-22
Leituras: Isaías 42.1-7 e Atos 10.34-38
Autor: Flávio Schmitt
Data Litúrgica: 1º. Domingo após Epifania
Data da Pregação: 07/01/2001
Proclamar Libertação - Volume: XXVI


1. Considerações gerais

As primeiras palavras de Jesus no Evangelho de Lucas mostram que toda sua prática e missão decorrem da relação de filiação com o Pai. A missão de Jesus provém do próprio mistério de Deus e da realização de sua vontade entre as pessoas. Porém, a realização dessa vontade de Deus acontece na encarnação. Nela Jesus vai aprendendo a viver a vida humana como qualquer outra pessoa.

No capítulo 3, Lucas coloca as autoridades terrestres e religiosas em contraste com a soberania e a autoridade de Jesus. Com isso o evangelista quer testemunhar que o movimento da história não se desenvolve apenas no plano das aparências da história oficial. Jesus é quem realiza o destino no mundo. Ele dá à história seu verdadeiro sentido. O verdadeiro sentido da história passa pela irrupção do Espírito.

A soberania e autoridade de Jesus se manifestam na sua atividade messiânica. Dentro dessa atividade adquire importância a prática do Batismo. No batismo de João e na prática do batismo de Jesus, duas propostas messiânicas são apresentadas pelo evangelista.

2. O texto

A passagem de Lc 3.15-17; 21-22 nos confronta com duas perspectivas messiânicas. De um lado, o batismo de João com água e, do outro, o batismo de Jesus com o Espírito Santo e com fogo. Seria uma redução inaceitável distinguir o messianismo de Jesus recorrendo apenas ao argumento de que o batismo de João é físico/material, enquanto o de Jesus seria espiritual.

a. Nos vv. 15-17, Lucas propõe uma distinção entre a prática de Jesus e de João Batista. O evangelista recorre ao batismo para distinguir o messianismo de ambos. De forma alguma o batismo de João é parcial e incompleto. O messianismo de Jesus não vem complementar nem plenificar a parcialidade da atividade de João. Tanto João como Jesus são escolhidos de Deus. João, quando chama ao arrependimento, também está comprometido com a misericórdia de Deus. Batismo é justamente o sinal da graça e misericórdia de Deus. Porém, a proposta messiânica de Jesus passa pela irrupção do tempo do Espírito. Nisso consiste a novidade! Aí residem seu vigor, sua força, seu poder.

A aparente humildade de João ao dizer não sou digno de desa¬tar as sandálias não quer desmerecer sua prática, mas realçar o messianismo de Jesus. O batismo de Jesus revela o messianismo de Jesus. Na distinção dos batismos ocorre a distinção da prática messiânica.

O simbolismo e as imagens do batismo com o Espírito remetem à purificação. A eira expressa bem o contexto dessa purificação. Também o fogo, como técnica de purificação e refinamento, contempla a missão do Espírito.

b. O batismo de Jesus, vv. 21-22, inaugura o tempo do Espírito. Esse batismo, segundo Lucas, não se dá à margem da vida do povo (v. 21). Ele acontece justamente como um batismo em meio ao batismo de todo o povo. Na solidariedade com o povo, Jesus começa o (empo do batismo do Espírito. Com o batismo de Jesus inicia a formação do povo de Deus, que vai construir a nova história.

Como na primeira parte de nosso texto, também aqui a presença de imagens é bastante forte. Na tentativa de descrever o que acontece com Jesus por ocasião do batismo, o evangelista se vale de imagens e lermos de referência que se consagraram ao longo dos séculos na vida da Igreja, especialmente a figura da pomba. O céu, a pomba e a voz reforçam o sentido messiânico do batismo de Jesus. A pessoa de Jesus supera a separação entre Deus e as pessoas. A voz apresenta o mistério da eleição de Jesus: o Filho amado (v. 22).

A grande ênfase de Lucas é justamente a prática que a força do Espírito desencadeia na vida de Jesus. Lucas 4.18ss expressa bem a missão do Espírito: quem está possuído pelo Espírito está comprometido com a dignidade da vida humana.

3. Reflexão sobre o texto

O texto apresenta dois temas quentes para a vida da Igreja cristã neste tempo de mercados, globalização, neoliberalismo, qualidade total, vida virtual, etc... O primeiro diz respeito às esperanças de nossa gente, se é que nossa gente ainda tem esperança. Certamente não podemos falar de expectativas messiânicas, mas algo de esperança sempre resta. Mas o que nossa gente espera de fato? Um colega costumava dizer que a compreensão de Igreja de nossos membros não vai além da sombra da torre do templo. Parafraseando este enunciado, podemos dizer que as esperanças de muita gente hoje já não vão além de sua própria sombra.

A necessidade de garantir a sobrevivência nesse mundo aprisiona as pessoas com o imediato, com as necessidades mais emergentes, com o pão, a casa, o aluguel, enfim, com os meios da vida. Nesse contexto fica difícil, quando não impossível, vislumbrar um horizonte de esperança para além dessas expectativas.

O messianismo de Jesus justamente vem confirmar a legitimidade dessas preocupações. Ao mesmo tempo, coloca-as num outro/novo horizonte de sentido: no horizonte de sentido do Reino de Deus, que irrompe com o batismo do Espírito Santo. Se o batismo de Jesus compromete com a vida, o batismo com o Espírito só pode pressupor tal compromisso.

Outro tema que emerge deste texto é a questão do Batismo. Afinal, existe isso de batismo com água e batismo com Espírito ? Ou devemos nos render a Paulo e reconhecer que há um só batismo (Ef 4.5)? Esta é uma questão que já rendeu muita discussão para a vida da Igreja.

Sem querer esgotar o assunto, transcrevo algumas palavras da carta do Pastor Huberto Kirchheim, datada de 19.08.1997: Quanto a essa questão, a Igreja Luterana sempre confessou que o Espírito Santo é concedido no Batismo, através da imposição das mãos. Não existe, portanto, uma separação entre o Batismo com água e o Batismo do Espírito Santo.

4. Meditação

Quando recorremos a imagens para falar das coisas de Deus, sempre corremos o risco de nos fixar em apenas um aspecto. Isso certamente faz parte de nossas limitações em falar acerca das coisas de Deus. Porém, por mais parciais que sejam nossas analogias e comparações, somente por meio delas podemos descrever e falar do que nos é dado a conhecer somente em parte, do que ainda não existe em sua plenitude.

Proponho como recurso ilustrativo do texto a imagem da lâmpada. Para que serve uma lâmpada ? Ninguém instala uma lâmpada para ficar desligada. Uma lâmpada jamais irá iluminar se não estiver ligada à central energética, de onde parte a força. Há lâmpadas com diferentes funções. Algumas iluminam mais, outras menos. Há lâmpadas específicas para determinados ambientes. Há lâmpadas que iluminam e que ofuscam. A presença do Espírito quer ser uma lâmpada na vida do batizado.

Chamo ainda a atenção para o fato de que não é o batismo em si o mais importante, segundo o testemunho de Lucas, mas a irrupção do Espírito na vida do batizado.

Bibliografia

BÍBLIA SAGRADA. Edição Pastoral. São Paulo : Paulinas, 1990.
JEREMIAS, Joachim. Teologia do Novo Testamento. São Paulo : Paulinas, 1980.
MOSCONI, Luís. Leitura Segundo Lucas. São Leopoldo : CEBI, 1991.
NEUENFELDT, Elaine. Lucas 3.15-17,21-22. In: STRECK, Edson, SCHNEIDER, Nélio (Coords.).Procïamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal, 1994. v. 20, p. 40-43.


 


Autor(a): Flávio Schmitt
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Epifania
Perfil do Domingo: 1º Domingo após Epifania
Testamento: Novo / Livro: Lucas / Capitulo: 3 / Versículo Inicial: 15 / Versículo Final: 22
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2000 / Volume: 26
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 17626
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