Lucas 4.21-30

Auxílio homilético

31/01/2010

Prédica: Lucas 4.21-30
Leituras: Jeremias 1.4-10 e 1 Coríntios 13.1-13
Autor: Kurt Rieck
Data Litúrgica: 4º Domingo após Epifania
Data da Pregação: 31/01/2010
Proclamar Libertação - Volume: XXXIV


1. Introdução

O período após Epifania lembra-nos que Deus se manifesta em Jesus Cristo. O Evangelho de Lucas 4.21-30 vem somar ao anúncio dessa verdade. Entre os demais textos de leitura prevista encontramos Jeremias 1.4-10, que descreve a ação divina que chama e capacita o profeta para que anuncie o propósito de Deus para com as pessoas. É Deus agindo e interferindo na história da humanidade. Ao lermos 1 Coríntios 13, encontramos a força do ágape, do amor incondicional expresso em atitudes concretas. Somente essa força será capaz de salvar a humanidade. Deus revela-se em completo amor.

A dimensão do período após Epifania, em que é sublinhado o propósito de Deus em comunicar-se conosco e o bem que deseja à humanidade, pode ser melhor compreendido através de uma metáfora.

Num grande formigueiro, uma pessoa observa formigas buscarem comida em meio a latas de veneno. Como alertar as formigas do risco que estão correndo? Falar alto, fazer barulho, nada disso faria com que as formigas entendessem o que queria dizer. Depois de muito pensar, concluiu que havia apenas uma chance de se fazer entender: tornar-se uma formiga. E assim se deu. Fez-se formiga e, na linguagem delas, mostrou que o caminho em que andavam as levaria à morte. Orientou as formigas a buscar comida em outra trilha. Assim, tornando-se uma formiga, salvou-as da destruição, e as formigas o compreenderam. Deus se fez gente para que os seres humanos entendessem a sua intenção e aceitassem o propósito da sua criação.

2. Exegese

2.1 – Contexto

Jesus está onde viveu a maior parte da sua vida. A sua fama é conhecida em Nazaré. Na sinagoga, a plateia reconhece ser Jesus um profeta.

Detalhes
V. 21 – Jesus, com mais de 30 anos, maduro, adulto, agindo no poder do Espírito Santo (Lc 4.14) e consciente da sua autoridade, vale-se do manuscrito de Isaías, capítulo 61, versículos 1 e 2. Manifesta aos ouvintes que nele acontece o cumprimento da Escritura que acabara de ler, a tarefa para a qual veio a este mundo.

V. 22 – A plateia reconhecia quem ele era, no entanto, reagia com desdém, subestimando-o. Como pode o filho de José, aquele simples carpinteiro, arrogar estar se cumprindo nele aquela profecia anunciada pelo profeta Isaías?

V. 23 – Há no enredo um vazio. Dá para deduzir que os nazarenos instigaram para que Jesus curasse todos os doentes que estivessem ao seu redor. Jesus fala por eles. Ele não iria comercializar ou banalizar as curas. Ele não entra no jogo dos nazarenos. É como se eles dissessem: “Vamos ver se você é bom mesmo!” A provocação não deixa de ser uma tentação. Jesus novamente é posto à prova, a exemplo do que lemos em Lucas 4.12.

V. 24 – Os habitantes de Nazaré não puderam ser abençoados pelas obras do Messias, pois trataram Jesus com desdém. Não o respeitaram. Até para ele serviu o velho ditado: “Santo de casa não faz milagre”. Pelo tratamento que lhe foi dado, fazer o que os nazarenos pediam seria como “jogar pérola aos porcos”. A desconsideração deixa os nazarenos surdos, indiferentes e insensíveis.

V. 25 e 26 – Jesus lhes mostrou que os profetas não faziam suas obras admiráveis para todos e para isso utilizou duas ilustrações. Lembrou o exemplo de Elias, que foi enviado à viúva de Sarepta, conforme registrado no livro de 1 Reis 17.8-24. Havia grande seca. Muitos estavam morrendo de fome. O profeta Elias dirigiu-se a uma pobre viúva, que tinha seu filho doente, um pouco de farinha, azeite e nada mais para a sua última refeição. Foi desafiada a dar aquele pouco. Em fé soube dar o que lhe restava. Por pura graça, recebeu o sustento por muitos dias. Depois faleceu o seu filho e, mesmo indignada, a viúva foi agraciada por Deus. Viu seu filho reviver por intercessão do profeta Elias.

V. 27 – Jesus lembrou também do profeta Eliseu, conforme registrado no livro de 2 Reis 5.1-14. Um comandante do exército do rei da Síria, de nome Naamã, herói de guerra, era leproso. Ficou sabendo do dom de cura do profeta e buscou por ajuda e foi curado. Essa experiência fez Naamã reconhecer como sendo único o Deus de Israel.

Tomando por exemplo os dois profetas, o texto sublinha que, em ambos os casos, pessoas estrangeiras foram auxiliadas. Também muitas pessoas sofrem em decorrência de dificuldades, mas apenas uma pessoa, em cada exemplo citado, foi auxiliada. Para essas o ingrediente fé foi decisivo.

V. 28 – Os ouvintes encheram-se de ira. Por motivos religiosos, dentro da sinagoga, surge a ideia de executar a justiça sumariamente, linchando Jesus. A reação é semelhante à da organização de uma “guerra santa” ou à de uma “cruzada medieval”. Outros denominariam esse gesto de “raiva santa”.

V. 29 – Levaram Jesus até o alto de um monte com o propósito de jogá-lo para baixo. Não há rejeição maior do que desejar a morte de alguém. As palavras de Jesus levaram-nos a perder a razão pelos seus atos.

V. 30 – Jesus conseguiu escapar do linchamento. A missão de Jesus estava apenas iniciando. A cruz estava por vir.

3. Meditação

Todo texto tem inúmeros pontos de abordagem. Cada comunidade tem seu momento, e é esse que deve ser percebido.

3.1 – Vemos a força da palavra de Deus que lida, proclamada, desencadeia reações. Somos movidos por palavras que nos influenciam. Como a palavra de Deus age em nós e em nossa comunidade?

3.2 – Santo de casa não faz milagre. Encontramos a rejeição daquele que era conhecido desde criança. Entenderam que Jesus estava se alçando a uma função que jamais lhe caberia. A tendência do ser humano é escutar os outros. As palavras ditas pelos de casa são menosprezadas. Na família, ocorre isso com frequência. Os filhos preferem ouvir alguém outro e não os de casa. Como esse fenômeno se dá em nossas comunidades?

3.3 – O tema cura pode ser desenvolvido. Curas ocorrem. Quem é merecedor de cura? Muitos acreditam que podem exigir de Jesus a cura. Quantas vezes ouvimos: Eu te ordeno, Senhor, faça isso ou faça aquilo. O ser humano é petulante ao querer fazer de Deus a sua marionete. Jesus não deixou que seus conterrâneos o enganassem com falsas promessas. Quantas denominações cristãs se valem da cura como objeto de negócio! Aliás, por sinal, parece ser um negócio muito rentável. Que jamais caiamos nessa tentação! Jesus cura, mas apenas com o propósito de engrandecer o nome de Deus e prover vida digna a seus filhos. Jesus, conforme texto em estudo, não fez da cura uma graça barata.

Elias e Eliseu são exemplos de profetas que agiram em nome de Deus, inclusive alcançando pessoas que não pertenciam ao povo de Israel. A graça de Jesus vai muito além dos nossos limites étnicos e geográficos. Seguidamente, nós luteranos somos identificados como a “igreja dos alemães” ou de “igreja particular”. Bastamo-nos em nós mesmos, tal qual fez o povo de Israel. Sem perder a nossa identidade, precisamos acolher os que buscam e carecem da salvação realizada em Cristo Jesus.

3.4 – A “ira santa” é mais um assunto presente no texto. Como é possível matar em nome de Deus? Guerras santas são episódios do Antigo Testamento. A partir de Jesus, com a abolição da lei de talião, do “olho por olho, dente por dente”, conforme Mateus 5.38-48, inicia-se um novo tempo. Como é possível em nome de Deus articular uma falcatrua? Como uma religião pode desejar a morte do próximo? Como de dentro de um templo sagrado pode se conspirar a morte de alguém? A história humana é pródiga nesses exemplos, começando com Caim e Abel e chegando aos nossos dias. Por motivos pseudossagrados incentiva-se o ódio contra o próximo, promovendo verdadeiras “batalhas espirituais”. Jesus deu um basta a tudo isso.

O centro da fé cristã é a encarnação de Deus na pessoa de Jesus Cristo. Ele veio para cumprir esse chamado.

4. Imagens para a prédica

Muitos leram livros de Agatha Christie ou olharam algum filme baseado em seus romances. Lembro, entre outros, do Passageiro para Frankfurt, Assassinato no Expresso do Oriente e Morte no Nilo. Normalmente são tramas revestidos de morte. O leitor é instigado a descobrir o autor e a causa do crime. Gostaria de convidá-lo para, num primeiro momento, olhar o evangelho previsto para este domingo a partir desse ponto de vista. Proponho um título para essa pregação: A trama da sinagoga.

4.1 – Construa um enredo envolvente, no qual os ouvintes consigam perceber o momento dramático vivido por Jesus. Imagine o que possa ter ocorrido nas entrelinhas do texto. Instigue a curiosidade. Assim, começamos pelo fim, baseando-nos nos versículos 28 e 29, falando do grupo de linchadores que tramaram a morte de Jesus. Qual seria o motivo que os levou a tramar a morte de Jesus?

4.2 – Leitura do texto.

4.3 – Descreva o contexto no qual Jesus se encontrava: na sinagoga Jesus lê palavras do profeta Isaías.

4.4 – Apresente os motivos que desencadearam a tentativa de assassinato de Jesus.

4.5 – Desenvolva algum dos temas abordados na meditação que venha a ser relevante para a sua comunidade.

4.6 – Conclua lembrando o período litúrgico após Epifania, sublinhando a forma como Deus se mostra à humanidade. Tal qual foi em Nazaré, as pessoas continuam não entendendo que Jesus é Deus entre os humanos. Cabe-nos apontar para o centro da fé, que é Cristo Jesus.

5. Subsídios litúrgicos

Hinos:

Quando da leitura de Jeremias: Hinos do Povo de Deus – vol. 2 – n° 323. Após a pregação: Hinos do Povo de Deus – vol. 2 – n° 475.
Após a confissão de fé: Hinos do Povo de Deus – vol. 2 – n° 471.

Confissão de pecados:

Senhor, como é difícil reconhecermos as nossas culpas. Acreditamos que sempre temos a razão.
Senhor, como é fácil julgar os outros e ver neles o quão culpados são. Cristo, obrigado por receberes com uma palavra de perdão aqueles que te
desprezam.
Cristo, também com severidade exorta os satisfeitos em si mesmos e os que reprimem qualquer sentimento de culpa.

Tem piedade, de nós, Senhor. Tem piedade, de nós, Jesus. Tem piedade, de nós, Senhor.

Proclamação da graça de Deus:

Arrepender-se é reconhecer a culpa. Arrependimento é o senso que nos leva a Deus, que, por sua vez, nos revela o seu amor e o seu perdão. Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.

Oração de coleta:

Senhor! Neste domingo buscamos descanso dos livros, das cartas, das atas, dos e-mails, das chaves e do relógio. Descansamos nas tuas mãos nossos medos, nossas preocupações, nossas tristezas e nossos anseios. Descansamos totalmente em silêncio, consolados, em tua proteção e em tua paz. Obrigado pelo domingo que nos ensina a descansar em ti. Amém.

Intercessão:
Senhor, graças te damos pela oportunidade de termos estado aqui, no teu templo, para te louvar e ser alimentado por tua palavra. Imploramos, fortaleça a nossa fé e a fé dos nossos filhos e filhas. Tu vieste ao mundo dos humanos por intermédio de Jesus Cristo. Sabemos que tu apenas queres o nosso bem. Que possamos ouvir os teus ensinamentos e crescer na fé. Isso é o que pedimos em nome de Jesus Cristo. Amém!

Bibliografia

CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento Interpretado, v. 2, Sociedade Religiosa A Voz Bíblica.
BARCLAY, William. El Nuevo Testamento, v. 4. Buenos Aires: Editorial La Au- rora, 1973.


 


Autor(a): Kurt Rieck
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Epifania
Perfil do Domingo: 4º Domingo após Epifania
Testamento: Novo / Livro: Lucas / Capitulo: 4 / Versículo Inicial: 21 / Versículo Final: 30
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2009 / Volume: 34
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 18599
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