Lucas 9.28-36

Auxílio Homilético

26/02/1995

Prédica: Lucas 9.28-36
Leituras: Deuteronômio 34.1-12 e 2 Coríntios 4.3-6
Autor: Antônio Carlos Ribeiro
Data Litúrgica: Último Domingo após Epifania
Data da Pregação: 26/02/1995
Proclamar Libertação - Volume: XX

 

1. Introdução

Neste domingo finda, no calendário litúrgico, um tempo durante o qual nos dedicamos a olhar e descobrir a presença de Deus em Cristo. Para perceber essa aparição, dispomo-nos a procurar, às vezes com insistência. Essa determinação é necessária. Não porque nos fatos relatados na Bíblia e mesmo na história humana Deus tivesse deixado de mostrar-se, mas porque no mais das vezes fomos incapazes de olhar.

Percepção não é algo automático. Nem todos os que olham conseguem ver. Ela supõe uma etapa instrumental — bom funcionamento dos olhos — e uma intelectual — capacidade de decodifícação da imagem. Há os que vão bem na primeira etapa e empacam na segunda e vice-versa.

No texto de Deuteronômio, Moisés é levado ao cume do Pisga para ver a terra prometida. A utopia pregada ao longo dos anos se tornou imagem, que apenas se pôde ver. Já na Segunda Carta aos Coríntios descobrimos, de acordo com Paulo, uma cegueira que impede que a luz resplandeça. E o efeito dessa luz é fazer-nos ver a glória de Deus na face de Cristo.

O evangelho de Lucas, usado para a pregação, nos ensina a assumir a partida de Jesus, a desistir da mudança mágica e a resistir à tentação de perenizar o momento, tentações que sofremos ainda hoje.

2. Considerações exegéticas

A discussão em torno dos textos do Evangelho de Lucas parece ter chegado a resultados aceitos por grande parte da pesquisa. Na redação desse que é o maior dos sinóticos, o autor recorreu a três fontes: a matéria de Marcos, a tradição Q, embora alterando as formulações, e o material próprio, de cerca de 541 versícu¬los, que insere em três interpolações no conjunto do texto. O texto desta perícope faz parte do material retirado de Marcos e trabalhado em sua própria redação.

O texto de Lucas deve ler sido redigido após o ano 70, mas surgiu numa região do cristianismo helenístico por volta do ano 90. Possivelmente sua pesquisa meticulosa seja responsável por ter sido o último dos sinóticos a ser escrito e por fazê-lo mais próximo do pensamento helenístico do que do apocalipsismo do povo judeu.

Dois detalhes a respeito do autor chamam a atenção e dividem os exegetas O primeiro é sobre a influência que ele recebeu de Paulo. A. Läpple o vê particularmente próximo de Paulo por também não pertencer ao grupo dos doze. Chega a dizer que ele não era apóstolo, mas discípulo dos apóstolos (...), pertencendo já à segunda geração cristã. Läpple cita Josef Schmid para dizer que Lucas é o único não-judeu entre os autores neotestamentários” (Bíblia; interpretação atualizada e catequese, São Paulo, Paulinas, 1978, v. 4, p. 137-145). Já E. Lohse insiste que no que se refere ao evangelho de Lucas, nada aponta para vestígios de pensamentos paulinos (Introdução ao Novo Testamento, 4. ed., São Leopoldo, Sinodal, 1985, p. 162).

O segundo detalhe é quanto à sua profissão. Apesar de ser geralmente aceito pelos autores da Igreja Antiga (Fragmento de Muratori, Eusébio de Cesaréia e Prólogo antimarcionita) que Lucas era um médico, Lohse garante que não é possível demonstrar que o autor da obra dupla de Lucas foi um médico (op. cit., p. 162).

3. Análise do texto

A descrição da chamada transfiguração é emblemática e sugere uma maneira de experimentar a comunhão com Jesus e seu projeto naquele contexto histórico.

O primeiro fato a destacar é que essa experiência se dá num ambiente de recato e de silêncio — o alto do monte —, para onde foram levados para orar. Outro fato que sugere indagação são as presenças de Pedro, Tiago e João apenas. E os outros? Alguma explicação convincente para essa situação? A terceira indagação é sobre o momento em que aconteceu: ' 'enquanto orava'' (v. 29). Por último, é preciso observar que Pedro e seus companheiros estavam premidos de sono (v. 32).

Assumidas as circunstâncias, que Lucas não reluta em revelar, é preciso deter-se nos conteúdos, nas atitudes e nas falas dos que viveram esse momento. Destacamos:

1) Só Lucas fala de partida (v. 31). Ele é o único dos evangelistas a usar a palavra exodus. Evita atribuir-lhe um significado existencial contextualizado (morte), ao mesmo tempo em que coloca um assunto pertinente na boca dos que apareceram e conversaram com Jesus. Com essa redação Lucas escapa do ideário religioso judeu e olha a morte de Jesus como uma partida — com seu significado para quem vai e para quem fica. Ao que parece, o autor respeita o relato de suas fontes, mas mantém certa lucidez.

2) Lucas não usa a palavra transfiguração. Ele está deliberadamente decidido a evitá-la. Apesar de essa palavra aparecer quatro vezes no NT (Mt 17.2, Mc 9.2, Rm 12.2 e 2 Co 3.18), ele não a usa, possivelmente para evitar comparações e mesmo ligações com as ideias pagãs de transformação (W. L. Liefeld, Transfigurar, Transfiguração, Transformar, in: O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo, Vida Nova, 1989, v. 4, p. 656). Ele usa a ideia, evitando empregar o termo, que certamente não seria bem recebido no seu público. Numa palavra: ele reluta em aceitar a transformação mágica.

3) Qual o papel de Moisés e Elias? Esta é outra pergunta que não conse¬guimos deixar de fazer. A primeira figura é um grande legislador, cujo nome está ligado, de modo inseparável, à história do seu povo. E o outro é um profeta, também bastante conhecido e mencionado. Se este relato, retirado de Marcos, tem realmente raízes na tradição oral, então essa terá sido uma maneira de referendar, do ponto de vista da aceitação, o ministério de Jesus.

4. Meditação: a tentação de eternizar

O fato que mais desperta a atenção em todo esse episódio é a palavra de Pedro (v. 33). Essa palavra interessa, não por causa do conteúdo da proposta, até porque a situação é inusitada e sugere que Pedro está tomado pela emoção do momento.

A proposta de Pedro é interessante porque nela transparece uma antiga tentação: a de eternizar o momento. Trata-se de uma tentação própria das pessoas que agem impulsionadas pela emoção. Dessas pessoas que, quando tomadas de emoção, são capazes dos atos mais heróicos, das promessas mais impossíveis, da convicção inabalável de que tudo é simples e vai ser resolvido com aquele gesto.

As pessoas que assim agem normalmente não compreendem o milagre. São incapazes de viver cada momento como um momento raro. Ansiosas, essas pessoas comportam-se como os fotojornalistas diante de um fato histórico: acreditam que podem congelar o momento, fotograficamente. Dão asas à sua necessidade de eternizar aquela emoção, como escreveu a ensaísta norte-americana Susan Sontag.

Como aqueles que têm a tarefa de registrar o que acontece no seu tempo, na tentativa de relatar aos seus contemporâneos e mesmo aos leitores do futuro, essas pessoas tentam desesperadamente impedir a morte do momento. Com todos os riscos. (C. A. Medina, Entrevista, o diálogo possível, São Paulo, Ática, 1986, p. 19).

No nosso dia-a-dia essa tentação é o nosso incontido esforço de traduzir o milagre em estruturas sociais, políticas e económicas que garantam sua perenidade e abrangência — queremos que aconteça sempre e com todo o mundo. E é aqui que a tentação se torna pecado. Quando acontece o milagre, queremos institucionalizá-lo. Chamamos imediatamente a presidente da paróquia, designa mós uma verba e fazemos constá-lo como atividade regular no plano de cultos.

Errado. O milagre não pode ser eternizado, senão deixa de ser milagre. Por isso, por melhor que seja estar aqui, não devemos fazer três tendas.

Vamos fruir o milagre. E continuar crendo. Amém.

5. Subsídios litúrgicos

Confissão dos pecados: Senhor, nós não queremos ver o mundo, as pessoas, as situações por não sabermos o que dizer. Senhor, nós relutamos em ver a nós mesmos, as nossas comunidades, os nossos limites, por não sabermos somar nossas possibilidades. Senhor, nós tememos ver as tarefas a serem desenvolvidas, os espaços a serem conquistados, os alvos a serem alcançados, por não sabermos como reagir ao desafio. Perdão, Senhor.

Prédica: Sugere-se usar um quadro, como recurso visual, com aquele tipo de figura que pode ser percebido de diferentes modos. Os jovens perceberão uma coisa e os velhos, outra. Esse recurso serve para mostrar como a imagem não sofreu transformação, mas apenas é percebida de modos diferentes. E isso acontece sem nenhum tipo de mágica.

6. Bibliografia

CHAMPLIN, R. N. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. São Paulo, Milenium, 1980. v. 2, p. 95-6.
MORRIS, L. O Evangelho de Lucas; introdução e comentário. Trad. Gordon Chown. São Paulo, Vida Nova/Mundo Cristão, 1986.


Autor(a): Antônio Carlos Ribeiro
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Epifania
Perfil do Domingo: Último Domingo após Epifania
Testamento: Novo / Livro: Lucas / Capitulo: 9 / Versículo Inicial: 28 / Versículo Final: 36
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1994 / Volume: 20
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 17740
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