Lucas 9. 57-62

Auxílio Homilético

10/03/1985

Prédica: Lucas 9. 57-62
Autor: Paulo Daenecke
Data Litúrgica: Domingo Oculi
Data da Pregação: 10/03/1985
Proclamar Libertação - Volume X


I — Contexto

A perícope em análise faz parte do bloco maior (Lc 9.51-19. 28) que enfoca Jesus a caminho de Jerusalém. AT encontramos as logia de Jesus. Lucas acentua sua compreensão cristológica mostrando um Jesus itinerante presente no evangelho todo, mas mais enfático neste relato da caminhada (cf. 9.52; 9.58; 10.5-11; 19.5-10).

Lucas é estratégico ao colocar este texto justamente aí, pois, ele tem em mente o anúncio do Reino de Deus; sua preocupação é pela clareza e consciência da missão.

O texto anterior narra a história em que os samaritanos não recebem Jesus (cf. w. 51-56). Já o texto seguinte ao qual estudamos (cf. Lc 10.1-12) conta a história do envio dos setenta.

Nossa perícope encontra paralelo em Mt 8.18-22, que não traz a parte final correspondente aos w. 61 s desta perícope. As duas narrações mostram, no entanto, uma verdadeira prova aos que querem seguir Jesus.

Só no v. 59, em Lucas, há um chamado por parte de Jesus; já a parte final do v. 60 tu, porém, vai e prega o reino de Deus, é uma expressão lucânica (cf. 8.1; 9.2; 16.16; At. 20.25). Lc 9.57 refere apenas que alguém lhe disse..., enquanto que em Mt 8.19, especifica como sendo um escriba, acrescentando ainda mestre: Mestre, seguir-te-ei para onde quer que fores. Ambos os textos, Lc 9.57-62 par. Mt 8.18-22, encontram uma referência vétero-testamentária: a vocação de Eliseu e seu chamamento por Elias (1 Rs 19.19-20).

II — Análise dos versículos

Vv. 57-58: os discípulos e Jesus estão a caminho (do sofrimento) em Jerusalém, quando alguém se dispõe a seguir Jesus. Lucas não identifica quem é este alguém e assim não restringe a impulsionaIidade ao seguimento. Aqui não é relevante saber quem é este alguém.

mas sim que este ou esta se dispõe resolutamente a seguir Jesus. Porém, esta disposição é brusca e desafiadoramente cortada por Jesus: As raposas têm seus covis... mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça. A advertência de Jesus é clara; segui-lo é compromisso no caminho da cruz. Jesus adverte pela decisão apressada (impensada?). A decisão por segui-lo não pode ser fruto de uma emoção momentânea sublime ou aérea; é preciso estar com os pés no chão, na realidade; saber das implicações e consequências desta caminhada: Jesus não é compreendido por sua família (Mc 3.21, 31-35); não tem morada fixa nem bens e depende da generosidade de amigos (as) (Lc 8.3); é caluniado e perseguido (Mc 3.6; 11ss; Lc 13.31s); não oferece segurança, nem formação como os rabis aos seus alunos. É o primeiro desafio!

Vv. 59-60: Aqui Jesus desafia um outro a segui-lo; no entanto, o que é chamado pede para primeiro ir enterrar o pai, lei inviolável, porém, Jesus parece não tomar conhecimento dela. Ele é seco, cortante em sua reação: Deixa aos mortos... Tu, porém, vai e prega o reino de Deus. Sua resposta é um protesto claro à lei que escraviza, que massacra. O convite de Jesus é incondicional (comparado ao chamado dos profetas, 1 Rs 19.1-9-20, Jesus é bem mais rígido, radical). O discípulo é chamado para anunciar o Reino de Deus; esta é sua tarefa e nisto não há tempo a perder. O Reino de Deus precisa ser anunciado já; não se pode esperar; pois, quanto mais se espera, pior se torna concretizá-lo. Portanto, o convite exige radicalidade perante a ideologia dominante; é ruptura drástica com o velho esquema para se colocar a caminho do novo, do anúncio do Reino de Deus.

Vv. 61-62: Um outro quer seguir Jesus mas coloca a condição de primeiro ir despedir-se dos de casa. Todavia, Jesus nega. A quem se dispõe seguir o caminho do Reino não se podem fazer concessões. A radicalidade de Jesus é extrema: quando se trata do Reino de Deus, o que não é vital deve ser deixado para trás. A figura do arado é clara por si só. O manejo do arado na região do lago de Genesaré era difícil e requeria o máximo de dedicação; da mesma forma deveria proceder quem se propunha a engajar-se no Reino de Deus. Optar pelo Reino exigia uma atitude firme e corajosa. Colocar a maio no arado aponta, pois, para uma ação concreta. Ser discípulo é lutar pelo radicalmente novo proposto por Deus em contraposição ao sistema podre vigente. Nem mesmo a família deve ser empecilho para a sua efetiva realização.

Ill —Meditação

Esta perícope (Lc 9.57-62) trata da profunda questão: discipulado e Reino de Deus. A disposição ao seguimento de Jesus está presente desde o v. 57 até o final do texto; anúncio e exigência fazem em si uma unidade inseparável. O tema central da pregação de Jesus foi o Reino de Deus, ou como o coloca J. Jeremias, a soberania real de Deus.

Fé-Reino-discipulado-missão formam uma unidade, o eixo que caracteriza o agir cristão no mundo. É este eixo que Lucas aponta neste texto. Quem se dispõe ou é chamado ao discipulado de Jesus Cristo precisa despojar-se de tudo aquilo que o amarra, que o segura, que o prende e escraviza. Precisa largar tudo e se dedicar ao anúncio do Reino de Deus, que está próximo; é o que depreendemos de Lucas, pois não há tempo a perder; todo minuto é precioso e precisa ser aproveitado.

Mas, o que é ser discípulo de Jesus? seu seguidor? O que nos prende e nos escraviza? Qual é o sentido do desprendimento? o não ter onde reclinar a cabeça; o não poder ir sepultar o pai; o não poder ir se despedir dos de casa? Como, pois, deixar tudo isto e ser discípulo? Afinal, não se pode ser discípulo com todos estes penduricos?

O texto mostra que é um compromisso de fé e engajamento incondicional e de uma radical liberdade também. Segui-lo é uma questão de opção a partir da fé que brota desta incondicional idade fundamental e radical inerente à coerência do anúncio e vivência do Reino de Deus. Cristo não impõe, apenas adverte com profunda radicalidade, no sentido de que esta opção seja madura e tomada conscientemente; com os riscos, as consequências e as rupturas necessárias bem concretas e reais; e que o discipulado não seja fruto de uma mera conversão emocional e momentânea.

Para compreendermos com mais segurança o desafio ao discipulado a partir deste texto creio ser relevante sintonizar para este fio condutor em Lucas: em todo o evangelho transparece a preocupação de Lucas em mostrar Jesus, o Messias dos pobres; oprimidos e lascados. Esta perspectiva e compreensão de compromisso do agir é enfatizado já desde o início (Lc 4.16ss); em Lucas fica claro também o conflito entre rico e pobre. A missão não é restrita, mas ele a abre universalmente; portanto, não podemos ver a mensagem lucânica desvinculada desta compreensão ampla, geral e irrestrita. O que Lucas coloca como Evangelho neste seu livro se projeta, arquitetiza e acontece em Atos, como continuação do evangelho.

Fundamentado neste fio condutor, o desafio de Jesus fica claro: segui-lo é optar pelo caminho da cruz. É libertar-se das comodidades e mordomias que o poder económico exerce, sendo constante tentação. É deixar de lado o concentracionismo e a acumulação capitalista como fenômeno barrador do ser cristão; é despojar-se das regalias do sistema. Os bens, as seguranças pessoais, os pecúlios e poupanças, os altos e altíssimos salários, a riqueza são um empecilho e entrave muito vigorosos e alienatórios à proposta do seguir a Jesus.

Não se pode servir, nem seguir a dois senhores. É preciso optar: ou seguir o senhor que domina e escraviza, ou seguir o Senhor que liberta! O radicalismo de Jesus é extremo; para ele não existe meio-termo. Ele em seu radicalismo vai ao fundo, â raiz do problema que a tentação do ter opera na pessoa. Quanto mais se está ligado a esta estrutura e se é deixado dominar e determinar por ela, tanto menos liberto e tanto menor é o espaço e a disponibilidade para agir em função do Reino de Deus. Não se prega o Reino de Deus nem a partir, nem através do económico, porém, dele se desprendendo. Surge, pois, ai' o grande conflito para a pessoa, para a comunidade/Igreja, e para a sociedade: não está tudo centralizado e montado em cima e em função do poder econômico? E agora? Jesus quebra com o culto ao deus-dinheiro/capital/bens. O seu desafio é uma afronta à burguesia e, partindo da realidade de dominação e entreguismo é lançado o convite à inversão dos valores, para mostrar que é possível viver com modéstia e simplicidade, sem abusos e esbanjos. A crítica de Jesus é visível: acúmulo de capital x desprendimento.

Outra questão fundamental é a ruptura com a lei, com o sistema que escraviza e mata, e sob o qual a pessoa é massacrada. Ser enviado para pregar o Reino de Deus em vez de ir sepultar o pai evidencia o conflito entre o velho e o novo; entre a velha sociedade e estrutura corrupta, dominadora e a sociedade nova, o Reino de Deus, que tem como proposta a preocupação com o outro; a igualdade, a justiça a dignidade (cf. Lc 4.16ss). Anunciar, pregar o Reino de Deus é se desinstalar, se colocar a caminho da transformação. E esta não pode demorar; ela precisa estar em primeiro lugar. A luta pela mudança, pelo Reino, pela justiça precisa acontecer já, não pode ser adiada, (enquanto preparo estes subsídios uma palavra forte e muito presente na esperança de mudança é: diretas já!). A ruptura com a velha ordem (ou desordem!) do sistema que está podre não pode tardar.

Quem se decide a seguir Jesus, a lutar pelo Reino de Deus, não pode olhar para trás; não pode ficar ligado ao ritmo anterior, mas precisa romper com ele. Também hoje pessoas querem construir uma nova sociedade, buscam o Reino, mas querem permanecer ligadas à velha estrutura. No entanto, esta precisa ser derrubada, aniquilada (cf 1 Co 15.19-28). Que aprendamos na Nicarágua! Jesus em seu tempo foi claro: Deus é o Senhor da história, não o Império Romano. A clareza de Jesus permanece: Deus continua a ser p Senhor da história, não um sistema, no nosso caso capitalista, que se impõe e massacra povos, raças e nações (olhemos para o Terceiro Mundo, a nossa América Latina e nosso próprio país). É aqui que precisamos mostrar a nossa opção e compromisso de fé, de arregaçar as mangas e engajar-nos na construção de uma sociedade nova, igualitária, que é a proposta do Reino de Deus.

Seguir a Jesus, pois, é uma questão de opção livre, mas ao mesmo tempo radical no sentido de romper com as falsas seguranças, acúmulos e mordomias oferecidas pelo sistema que escraviza e mata. Esta opção não pode ser impensada, porém, consciente e corrente com a proposta do Reino, sem vínculo com o velho sistema e a caminho do novo, da transformação já! Isto se mostra com a vida. Ser discípulo de Jesus é anunciar o Reino de Deus, é caminhar sob a von-tade de Deus; é lutar pela nova sociedade justa e igualitária; é estar consciente de que este anúncio do novo torna visível os conflitos; é optar pelo caminho, que provoca escândalo e conduz à cruz da qual nasce o brilho da ressurreição, fundamentado na fé e esperança por nova e verdadeira vida, na qual Deus é o Senhor único.

IV — Sugestão de passos para a prédica

1. Ler o texto e situá-lo em seu contexto. É importante lembrar Lc 4.18-19, fundamento para a missão de Jesus. Jesus está a caminho de Jerusalém; riscos e consequências desta caminhada.

2. A partir destas considerações iniciais definir o discipulado conforme os ditos de Jesus, que apontam com firmeza e discernimento as características do discipulado e as consequências advindas desta opção. Apontar para a radicalidade e incondicionalidade da fé.

3. O discípulo deve romper com o velho sistema e se colocar a caminho do novo; ele é enviado para anunciar, pregar o Evangelho do Reino de Deus, que evidência o conflito, pois nada da velha estrutura pode ser levado junto. A proposta do Reino é a ruptura radical com o sistema dominante; questiona o acúmulo de capital, a concentração dos meios de produção e da renda e aponta para o desprendimento das mordomias e falsas seguranças com as quais o sistema corrompe; mostra que é preciso romper com a ideologia dominante e para esta opção nem a família pode servir de empecilho. O reino de Deus precisa ser anunciado e vivido já!

4. Descobrir e apontar onde e como a comunidade pode agir o pregar o Reino de Deus hoje. Pega! no arado é agir, concretamente. Quem opta pelo Reino de Deus provoca escândalo para aqueles que não gostam de justiça; por isto o discípulo está igualmente a caminho da cruz. Seguir a JC tem a ver com o nascido da manjedoura em Belém, que optou pelos pobres e oprimidos, que morreu na cruz e ressuscitou.

V — Subsídios litúrgicos

1. Intróito: Para vós outros olharei, e vos farei fecundos e vos multiplicarei, e confirmarei a minha aliança convosco. Comereis o velho da colheita anterior, e, para dar lugar ao novo, tirareis fora o velho. (Lv 26.9-10).

2. Confissão de pecados: Senhor nosso Deus! A ti reconhecemos nossas falhas e transgressões e clamamos pelo teu perdão: perdoa-nos por não nos preocuparmos com as dificuldades do irmão; perdoa-nos, Senhor, por não vermos e nem nos importarmos com as calamidades e injustiças do nosso tempo. Perdoa-nos porque nos deixamos dominar pelas seguranças e mordomias com as quais o poder do capital nos afasta do teu Reino; perdoa-nos pela falta de coragem que temos de romper com esta estrutura de escravidão sob a qual vivemos; perdoa-nos porque como tua comunidade ainda não optamos pelo teu discipulado, pois ainda estamos presos e oprimidos pela ideologia dominante do sistema; perdoa-nos, Senhor, pela falta de fé e ação para concretizar um mundo justo e fraterno. Olha para nós, ó Deus, e pelo teu perdão anima-nos. Por Jesus Cristo, clamamos: Tem piedade de nós...

3. Absolvição: Sujeitai-vos, portanto, a Deus; mas resisti ao diabo e ele fugirá de vós. Chegai-vos a Deus e ele se chegará a vós outros. Purificai as mãos, pecadores; e vós que sois de ânimo nobre, limpai o coração. (Tg 4.7-8).

4. Oração de coleta: Senhor! Fortalece-nos com a tua palavra e através dela abra nossos olhos para vermos em nossa sociedade a miséria e as podridões provocadas pelo egoísmo e pela ganância. Olha, Senhor, a nossa aflição, ouça o nosso clamor e liberta-nos com poderosa mão da opressão dos estrangeiros. Encoraja-nos com o teu Santo Espírito para sermos sal da terra e luz do mundo. Faze-nos compreender a tua vontade para agirmos em função do teu Reino. Por Jesus Cristo. Amém.

5. Leitura bíblica: Ef 5.1-9.

6. Oração final: Todo-poderoso Deus! Nós te agradecemos por teres enviado teu Filho para mostrar o teu caminho e a tua vontade; isto nos alegra e fortalece neste tempo de Paixão. A tua mensagem é inquietante. Por isso te pedimos: envia-nos como tua comunidade a pregar o teu Reino; anima-nos para sermos instrumentos de ação para lutar pela vida, pela justiça e verdade; dá-nos consciência da missão de sermos discípulos teus a serviço da partilha e desprendimento de tudo o que nos oprime; encoraja-nos para dizermos não às mordomias e falsas vantagens oferecidas pelo sistema dominante; aumenta-nos a fé para resistir às injustiças, contra o acúmulo de bens, riquezas, abusos de poder; adverte-nos sempre de novo a nos colocar em teu caminho e que também a nossa opção o missão como tua Igreja é de lutar ao lado dos oprimidos e marginalizados, por uma nova sociedade orientada pelo teu amor e tua radicalidade; ensina-nos a lutar pelo teu Reino é organizar o teu povo; é lutar por trabalho das estruturas apodrecidas para uma nova realidade. Senhor, mostra-nos que lutar pelo teu Reino é valorizar também o idoso, a criança, o doente, a mulher, o abandonado. Renova-nos e guia-nos diariamente com o teu Santo Espírito. Por Jesus Cristo. Amém.

VI – Bibliografia

- GALILEA, S. Seguir a Cristo. São Paulo, 1979.
- GUTIÉRREZ, G. Teologia da Libertação. Petrópolis, 1976.
- HENGEL, M. Meditação sobre Lc 9.57-62. In: Calwer Predigthilfen. v. 7, Stuttgart, 1968.
- JEREMIAS, J. Teologia do Novo Testamento. S. Paulo, 1977.
- KÜMMEL, W. G. Síntese Teológica do Novo Testamento. São Leopoldo, 1974.


 


Autor(a): Paulo A. Daenecke
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Quaresma
Perfil do Domingo: 3º Domingo na Quaresma
Testamento: Novo / Livro: Lucas / Capitulo: 9 / Versículo Inicial: 57 / Versículo Final: 62
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1984 / Volume: 10
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 14662
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Salmo 144.2
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