Lutero, pregação e pregadores pequena antologia de "falas de mesa"

Reflexões em torno de Lutero

01/09/1981

Lutero, pregação e pregadores — pequena antologia de ¨falas de mesa¨

Nelson Kirst

INTRODUÇÃO

Este estudo devia chamar-se, originalmente, ¨Lutero como pregador¨. Era este o assunto que pretendia desenrolar aqui. A pesquisa do material, porém me conduziu por outros caminhos Logo de início, citações diversas me levaram a vasculhar nas ¨falas de mesa¨. Pensei, então, em alivanhar alguns princípios homiléticos básicos de Lutero, a partir das ¨falas de mesa¨, para depois testá-los, através da avaliação de uma série de predicas suas.

¨Falas de mesa¨ é a designação, imperfeita por certo, que estou utilizando para as famosas ¨Tischreden¨. São ditos de Lutero, anotados por seus discípulos. Em sua maioria, surgiram em conversações mantidas à mesa. Há, contudo, também extratos de outras conversas e excertos de cartas, dedicatórias, esboços de escritos, glosas marginais do Reformador até trechos de escritos seus. A Weimarer Ausgabe reúne as 7.075 ¨falas de mesa¨ existentes, numa série autônoma de seis volumes (1). O lugar vivencial das ¨falas de mesa¨ varia. Comum a praticamente todas elas, porém, é o fato de não se tratar de dissertações teológicas redigidas e rigorosamente elaboradas, mas de manifestações do momento, espontâneas, provocadas pelo comentário ou pela pergunta de algum interlocutor. Tal circunstância lhes empresta um caráter de autenticidade bem particular.

Pois, bem, mergulhei nas tais ¨falas de mesa¨ — e de lá não saí mais. Fui descobrindo um Lutero diferente. Lutero gente. Não o Lutero dos escritos teológicos. Não o Lutero objeto de artigos e livros. Não o Lutero impessoal, envolvido no manto da genialidade.

Mas o Lutero pessoa, o Lutero gente: o batalhador agressivo, firme, irredutível, escarnecedor, implacável, mas também o cura d'almas compreensivo, afável, meigo até, e companheiro solidário, o gozador capaz de rir dos outros e de si próprio, o servo de Deus, entusiasmado com seu ministério e capaz de incutir entusiasmo, o servo de Deus frustrado com seus fracassos e capaz de ajudar seus colegas a vencerem a frustração. Lutero, enfim, que na sua vida religiosa e pastoral, assumia posições claras, mas também assumia sua fragilidade, se entregava, no melhor sentido, ao Deus dará.

À medida que as ¨falas de mesa¨ me apresentavam esse Lutero, fui alterando meus planos. Acabei concluindo que, melhor do que analisar suas prédicas, seria fazer a apresentação do Lutero que passei a conhecer. Apresento-lhes, pois, Lutero gente, a partir daquilo que, em manifestações espontâneas, ele falou sobre o ministério da pregação e os pregadores.

Antes de iniciar, algumas observações:

1. A linguagem das ¨falas de mesa¨ é eminentemente coloquial. Essa circunstância dificulta bastante a tradução, que não consegue reproduzir a vivacidade e paixão da linguagem original. Além disso, pela distância temporal que nos separa de Lutero, a tradução talvez nem sempre acerte em cheio sua intenção original.

2. Não se trata de uma dissertação sistemática de Lutero sobre a pregação. Por isso, ouvidos mais apurados talvez sintam falta de determinados elementos prático-teológicos, que não apareceram nas ¨falas de mesa¨ ou que me passaram desapercebidos.

3. O tempo disponível não me permitiu avaliar as diversas manifestações dentro do seu contexto específico, o que representa, evidentemente, uma sensível lacuna.

4. Procuro não empreender qualquer avaliação, julgamento ou interpretação dos ditos de Lutero, nem mesmo uma eventual aplicação à situação de hoje. É claro que na seleção, tradução e combinação do material transparece minha subjetividade. Espero, porém, ter mantido a objetividade suficiente para não cometer injustiça a Lutero.

Vamos, então, ao assunto.

1. O CONTEÚDO DA PREGAÇÃO

Como tantas outras posições e atitudes de Lutero, também as suas manifestações a respeito da pregação estão marcadas pelo rompimento com a Igreja Católica Romana. Assim, o Reformador se distancia do conteúdo que era dado à pregação, nos tempos em que sua igreja se encontrava ligada ao papado: ¨Naquele tempo, os pregadores se envergonhavam e temiam, sim, chegavam até a considerar descabido, afeminado e uma vergonha mencionar Cristo do púlpito. O nome dos profetas e apóstolos nunca era lembrado, seus escritos nunca eram lidos. Todos pregavam da seguinte 'maneira: Primeiro, apresentavam um tema, uma expressão ou questão levantada por Scotus ou Aristóteles, o mestre pagão. Depois, desdobravam-na. E, em terceiro lugar, entravam em distinctiones e quaestiones. E esses tais pregadores eram os melhores, não se mantinham no Evangelho, também não se ocupavam com um dito sequer das Escrituras, sim, as Sagradas Escrituras se encontravam encobertas eram desconhecidas, estavam enterradas!¨ (3,3024)

Também aqui, Lutero provocou uma reviravolta. Para ele, o conteúdo da pregação só pode ser Cristo: ¨Bem, se pregamos Cristo, irritamos o mundo, a carne e o sangue; se, porém, pregamos o que agrada à carne e ao sangue, irritamos Cristo e desviamos muitos milhares de almas para o abismo do inferno. É melhor irritar o mundo do que aquele 'que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo', como diz Cristo em Mateus 10¨ (1,504)

Se Cristo deve ser o conteúdo da prédica a fonte para a pregação é. antes de mais nada, a Bíblia. Comentava-se, certa vez, que o Dr. Jacob Schenk não costumava pregar a partir de um livro bíblico, ao que Lutero reagiu: Eu prego com base num livro, e isso, ¨não por necessidade, mas para dar um exemplo aos outros. E ninguém precisa envergonhar-se de falar do púlpito, baseando-se num livro, pois também Cristo, o máximo doutor e mestre, não se envergonhou disso e nos deixou o exemplo de pregar a partir de um livro, qual seja, o do profeta Isaías.¨ (4,4052) Fora disso, ¨... quem souber lidar bem com um texto é um bom pastor. ... Pois quem estiver bem fundamentado e exercitado no texto, tornar-se-á um bom e excelente teólogo, ... .¨ (4,4512)

Mas, como se sabe, em relação à Bíblia Lutero tem a liberdade de ser eclético. Perguntado sobre que livros se deveria pregar, preponderantemente, respondeu: ¨O Saltério, o Evangelho de São João e São Paulo, para aqueles que precisam combater os hereges; mas, para o homem comum e os jovens, os outros evangelistas.¨ (1,790) Segue-se, então, na mesma fala, a indicação de alguns salmos, com a seguinte justificativa: ¨Pois estes ensinam que o perdão dos pecados acontece sem a lei e sem qualquer obra, por isso são salmos paulinos.¨ (idem)

O uso do texto bíblico, contudo, não significa uma lei para Lutero. Ele podia dizer, por exemplo: ¨... seguidamente minha própria pessoa ou alguma questão particular especial me dão motivo para uma prédica, dependendo da época. dos acontecimentos e dos ouvintes¨ (1,965). Ao lado da Bíblia, porem, é o Catecismo a principal base para a pregação: ¨Pensando bem, não se pode pregar sobre nada melhor do que sobre o batismo; o sacramento, a fé, o Pai Nosso, os Dez Mandamentos de Deus e os estamentos que Deus instituiu e ordenou,¨ (6,6803)

Em termos de conteúdo da pregação, a veneranda questão ¨Lei e Evangelho¨ merece naturalmente consideração especial. Lutero define-a da seguinte maneira: ¨A prédica da Lei é necessária para os maus, mas seguidamente e de um modo geral eia atinge mais os piedosos, que a tomam a si, mesmo que dela não necessitem, ... . Já a prédica do Evangelho é necessária por causa dos piedosos, mas acaba caindo entre os ímpios; estes são os que mais a tomam a si, mesmo que ela não lhes seja de proveito, pois abusam dela e, por seu meio, se tornam ainda mais seguros.¨ (3,3025) O Evangelho, ¨se bem compreendido, faz pessoas piedosas e devotas¨ (idem). Já a Lei ¨foi dada apenas por causa da transgressão, para que as pessoas sintam necessidade de Cristo, e para que se possa manter, no mundo, ordem exterior e disciplina¨ (ibidem).

Como responsável pelo anúncio da Lei, o pregador é obrigado a repreender, quando necessário. Perguntado se um pastor ou pregador teria poder para repreender as autoridades: Lutero respondeu: ¨Evidentemente! Pois, embora Deus as tenha instituído, ele atribuiu ao pregador o direito de repreender os vícios e o que for injusto. Portanto: também os governantes seculares devem ser repreendidos, quando permitirem a destruição dos bens de seus súditos pobres. e quando deixarem que sejam extorquidos através da usura ou de um governo mau. Ao pregador não cabe, porém. ... ensinar a que preço deve ser vendido o pão ou avaliada a carne. De um modo geral, deve ensinar o papel de cada um no seu estamento. de modo que faça, diligente e fielmente, o que Deus lhe ordenou, não roube, não cometa adultério, não faça trapaças, não engane nem explore os outros.¨ (5,5258) Entre os ouvintes houve quem não gostasse de repreensões por demais diretas e específicas dos pregadores. Consultado a respeito Lutero discordou: ¨Querem que a gente diga: Deus, nosso Senhor, castigará o adultério, mas não fará coisa alguma aos adúlteros: isso é o que querem que a gente diga. Mas Cristo falou no evangelho: ¨Raça de víboras, vocês estão condenados, o diabo há de buscar vocês!' E ele diz: ¨Vocês, fariseus e escribas, vocês são a raça de víboras?¨. (5,5673).

Tanto assim, sobre o conteúdo da pregação. Vejamos, agora, o que o Reformador diz sobre a tarefa da pregação, e o que ela exige do bom pregador.

2. A TAREFA DA PREGAÇÃO, E O QUE ELA EXIGE DO BOM PREGADOR

A tarefa da pregação exige, antes de mais nada, que o pregador anuncie uma doutrina pura e sã: ¨Aqueles servos da palavra que, ainda que não levem uma vida muito perfeita, pregam uma doutrina pura e sã, devem ser honrados, estimados e considerados, embora fosse melhor que ambas as coisas, vida e pregação, andassem juntas. Mas um falso mestre, cuja doutrina seja impura, desvia uma, duas mil e até mais pessoas. Por isso, caros irmãos, oremos em favor de ambos, desse grande ministério e das pessoas que o ocupam... . ... Orem diligentemente, para que Deus comprove e mantenha- o seu poder e a sua força na fraqueza. É altamente necessário que se ore:¨ (5,6398) A tarefa da pregação é condicionada decisivamente pelos dois tipos de pessoas que compõem os seus ouvintes: ¨Pois isso é o que Deus quer e ordena: que aos orgulhosos se pregue o fogo do inferno e aos piedosos o paraíso; que se repreenda os maus e console os piedosos.¨ (1,868) A atuação do pregador diante de tais ouvintes é descrita por Lutero com uma comparação: ¨Uma abelhinha é um animalzinho que faz o mel, que é doce, e mesmo assim tem um ferrão. Assim, um sacerdote tem os mais agradáveis consolos; mas, quando for irritado e enfurecido por razões insignificantes, morde e fere os culpados.¨ (3,3293) E, para ficarmos na mesma linha, vejamos outra comparação zoológica, com que Lutero descreve o trabalho do pregador: ¨O Doutor Martinus olhava o gado andando pelo pasto, e então falou: Aí vão nossos pregadores, os carregadores de leite, carregadores de manteiga, carregadores de queijo, carregadores de lã, que diariamente nos pregam a fé em Deus, levando-nos a confiar que ele, como nosso Pai, cuida de nós e nos alimenta.¨ (4,4000)

Mas a tarefa do pregador é dificílima porque exige serviço e é retribuída com a ingratidão e o desprezo dos ouvintes. Por isso, seu exercício só é possível, se realizado por amor a Deus. ¨Ser um bom pastor e pregador é uma grande coisa; e se o próprio Deus, nosso Senhor, não fosse a força propulsora desse ministério, ele não daria em nada. Deve ser uma grande pessoa, quem se dispuser a servir os outros em corpo e alma, bens e honra, e ainda assim sofrer o maior perigo e ingratidão por causa disso. Foi por isso que Cristo falou a Pedro ... como se quisesse dizer: Se quiseres ser um bom pastor e cura d'almas, é preciso que tenhas amor por mim, que me ames, do contrário, será impossível. Pois quem é que está disposto e em condições de sofrer ingratidão, de permitir a destruição de sua saúde e seus bens, e de acabar se expondo ao maior perigo? Por isso, Jesus diz: É muito necessário que tu me ames.¨ (6,6799)

Vejamos, agora, mais especificamente, o que essa tarefa da pregação exige da pessoa que a exerce. Para tanto, ouçamos quatro comentários de Lutero, cada qual enfocando um certo aspecto da questão: ¨Um bom pregador deve ter as seguintes qualidades e virtudes. Primeiro, deve saber ensinar direito e corretamente. Segundo, deve ter boa cabeça. Terceiro, deve ser bem articulado. Quarto, deve ter boa voz. Quinto, boa memória. Sexto, deve saber parar. Sétimo, deve estar certo do que fala e ser aplicado. Oitavo, deve investir na sua tarefa o corpo e a vida, os bens e a honra. Nono, deve saber aturar o desprezo de todos.¨ (6,6793) — ¨Um pregador, sim, até mesmo todo cristão, deve estar seguro do seu ensinamento, não se basear em ilusões ou lidar com presunções humanas, mas estar certo daquilo que fala . Pois em questões divinas não se deve manejar com o inseguro, mas com o seguro.¨ (6,6735) — ¨Não há nada mais vergonhoso num pregador do que ficar escondido atrás da moita, sem dizer abertamente o que pretende e qual a sua opinião, especialmente quando está no cumprimento do seu ministério. A ambos, príncipes e teólogos, Deus faz de bobos, pois atribui-lhes uma tarefa que é impossível; uma tarefa que ninguém aceitaria, se soubesse, de início, o que implicaria; uma tarefa que ninguém pode abandonar de boa consciência, depois de tê-la recebido e aceito.¨ (6.6951) —

¨Um pastor fiel e piedoso deve reunir dentro de si o alimentar e 'o combater. Se não souber combater, o lobo comerá as ovelhas, e o fará com tanto mais prazer, uma vez que estarão bem alimentadas e gordas. ... O pregador tem que ser um guerreiro e um pastor. Alimentar é ensinar, e esta é a parte mais difícil; depois, é preciso que tenha dentes na boca para poder defender e lutar.¨ (1,648)

É assim que Lutero vê, em suas ¨falas de mesa¨, a tarefa da pregação e o que ela exige do bom pregador. Por saber da enorme dificuldade da incumbência, Lutero tem grande compreensão pelas fraquezas do pregador. Mas não admite, sob hipótese alguma, a pregação de falsa doutrina, como se vê nesta sua exclamação: ¨Falsos pregadores são piores que violentadores de virgens.¨ (3,3378a)

O Reformador também estava perfeitamente ciente de que a grande maioria dos leigos não compartilhava a sua visão da tarefa da pregação e suas exigências. Por isso, certa vez, com boa dose de ironia, formulou a seguinte receita: ¨O pregador, como o mundo agora o quer, deve ter as seis seguintes características: 1. ser erudito; 2. ter boa pronúncia; 3. ser eloquente; 4. ter boa aparência, para ser amado pelas mocinhas e senhoritas; 5. não aceitar, mas ainda por cima distribuir dinheiro; 6. falar aquilo que o pessoal quer ouvir.¨ (5,5388)

Examinemos, agora o que o Reformador tem a comentar sobre os ouvintes da pregação,

3. OS OUVINTES DA PREGAÇÃO

Nas partes anteriores, já ouvimos algumas considerações a respeito dos ouvintes da pregação. Também o próximo capítulo, que trata de ¨como pregar¨, forçosamente há de se ocupar com eles. Aqui, pois, vamos restringir-nos apenas a determinados aspectos dessa temática.

Lutero não cansa de acentuar que a perspectiva do ouvinte é um dos fatores determinantes da prédica. Esta precisa orientar-se pelos ouvintes: ¨O pregador é como o marceneiro; seu instrumento é a palavra de Deus. Entre os ouvintes da pregação há pessoas diferentes e de diversos tipos. Por isso, o pregador não deve cantar sempre o mesmo canto e ensinar sempre da mesma maneira. Dependendo dos ouvintes, deve ele, conforme as circunstâncias ameaçar, atemorizar, repreender, advertir, consolar, reconciliar.¨ (1,234) Como princípio básico vale o seguinte: ¨Deve-se ensinar e pregar aquilo que é conveniente e próprio, de acordo com o tempo, o lugar e as pessoas,¨ (2,1322) E. quando tal princípio não é observado, a prédica pode terminar num desastre: ¨Não, como fez certa vez um pastor, ao pregar que as mulheres não deveriam entregar seus filhos ao cuidado de babás, porque isso seria injusto e contra Deus. O tal pastor investiu toda a prédica nessa questão. sem se dar conta de que na sua paróquia só havia tecelãs pobres, para as quais essa admoestação não dizia absolutamente nada. Algo semelhante aconteceu com um pregador que. num asilo, diante de mulheres idosas, ficou faiando muito do matrimônio, exaltando suas vantagens e recomendando-o às suas ouvintes.¨ (idem)

Contudo, mais do que um ponto de referência, de um modo geral, os ouvintes constituíram um sério problema para Lutero: ¨Não há nada mais danoso do que alguém presumir que crê e conhece bem o Evangelho. É assim que fazem os espíritos satisfeitos e nojentos que, depois de ouvir ou ler um ou duas predicas, pensam que comeram o Espírito Santo com perlas e tudo, pensam que compreendem tudo. Assim, inventam e imaginam uma fé própria, ..., vivendo, pois, em grande segurança e pensando que estão salvos, graças à sua obra e aos seus feitos. Já outros pensam que precisarão de tal conhecimento apenas na hora da morte.¨ (6,6731)

Percebe-se aqui uma certa amargura do Reformador, que transparece de mono ainda mais forte no comentário seguinte: ¨Se me fosse possível começar, hoje, a pregar o Evangelho, eu o faria de modo bem diferente. Deixaria toda essa grande e rude massa de gente debaixo do regime do papa. Eles não se emendam mesmo, pelo Evangelho, mas só abusam de sua liberdade. Em vez disso, pregaria o Evangelho e o consolo especialmente para as consciências temerosas, humilhadas, desesperadas e simples. Por isso, o pregador deve conhecer o mundo muito bem e reconhecer que ele é desesperadamente mau, propriedade do diabo, na melhor das hipóteses. Eu é que fui estupidamente ingênuo, não sabendo, quando comecei, como eram as coisas, pensando que o mundo seria muito piedoso e, tão logo ouvisse o Evangelho, viria correndo para aceitá-lo com alegria. Mas agora descubro, com grande dor, que fui vergonhosamente enganador' (2,1682)

É também com amargura que Lutero faz outra constatação dolorosa entre seus ouvintes: o povo não tem a mínima disposição para ouvir aquilo que para ele, Lutero, é o ponto central do Evangelho, ou seja, a justificação pela fé. Lutero comentava, certa vez, a pregação do Dr. Nicolaus: ¨Ele jogava com muitas alegorias e interpretações espirituais, e é disso que o povo e a massa gosta. Se é assim, eu também posso ser mestre. Mas, quando se prega sobre o artigo da justificação — de que se é justificado e salvo por Deus apenas pela fé em Cristo — o homem comum acha que a gente não é eloquente, e não gosta de ficar ouvindo. E um sinal seguro do que eu digo é o seguinte: quando se prega sobre o artigo da justificação, o povo fica dormindo e tossindo; mas quando se começa a contar histórias e exemplos, esticam as duas orelhas, ficam quietinhos e ouvem com toda atenção. Acho que muitos pregadores entre nós me botam no chinelo.¨ (2,2408b)

4. COMO PREGAR

No entender de Lutero, o pregador tem sobre si uma tarefa que é, na verdade impossível. Por isso, a oração tem lugar essencial, no preparo da prédica: ¨Quando quiserem pregar, falem com Deus e digam: Senhor, meu Deus, quero pregar para a tua glória, quero falar de ti, louvar-te, exaltar o teu nome, embora não saiba fazê-lo tão bem quanto gostaria!¨ (2,1590)

Quanto ao preparo e à apresentação da prédica, temos, de Lutero, um grande número de observações e comentários. Vejamos alguns deles: Disse Conradus Cordatus a Lutero: ¨Reverendissime Domine pater,( Reverendíssimo senhor padre.) ensinai-me uma maneira breve de pregar. — Respondit Lutherus brevibus: (Respondeu Lutero brevemente.) Primeiro, aprenda a subir no púlpito: segundo, saiba agüentar algum tempo lá em cima; terceiro, aprenda, também, a. descer outra vez. ... Cordatus ficou furioso, mas por fim acabou concordando com Lutem. Et qui servat hunc ordinem, bonus erit praedicator:( E o que guarda esta ordem será um pregador.) Primeiro, que aprenda a subir, id est, ut habeat instam et divinam vocationem.( Isto é, que tenha uma vocação justa e divina.) Segundo, que aprenda a agüentar algum tempo ia em cima, id est, ut haheat puxam et sinceram doctrinam.( Isto é, que tenha uma doutrina pura e sincera.) Terceiro, que aprenda também a descer outra vez, id est, ut non ultra horam praedicet,( Isto é, que não pregue além da hora.) .¨ (4,5171)

Antes de se preocupar com qualquer aspecto formal, é importante que o pregador saiba exatamente o que quer dizer, que conheça o assunto de que quer falar: ¨Aquele que compreendeu bem um assunto e o assimilou corretamente, não terá dificuldade em abordá-lo. Só depois de conhecermos bem determinado assunto é que devemos preocupar-nos com a arte de escrever e falar sobre ele.¨ (2,1312)

Dois elementos da maior relevância para a pregação são a dialética e a retórica: ¨O pregador deve ser um dialético e um retórico, isto é, deve saber ensinar e admoestar.¨ (2,2216) — ¨A dialética ensina: a retórica move e comove. Esta pertence à vontade; aquela. à razão. ... O principal fruto e proveito da dialética é definir e descrever o que uma coisa é, de modo arredondado, breve e próprio.¨ (2,2199) — ¨... eu permaneço sempre naquilo que é o assunto central, de acordo com a dialética. Contudo, segundo a retórica, pode-se variar as predicas e lições — se é que se consegue fazê-lo!¨ (4,4097)

Um dos pontos que Lutero mais acentua é a necessidade de o pregador ater-se ao assunto principal, sem divagações desnecessárias. ¨Doctor Martinus: Brevitatem et perspicuitatem (Doutor Martinus: brevidade e perspicuidade) são coisas que não consigo conjugar tão bem sicut Philippus et Amsdorffius. (Como Filipe e Amsdorff) Nas minhas prédicas, procuro tomar uma afirmação, permanecer nela e explicá-la bem, de modo que os ouvintes possam dizer: a prédica disse isso.¨ (3,3173b)

A partir dessa posição, é compreensível que Lutero não suportasse pregadores que fizessem muito palavreado vazio: ¨O Doutor M.L. disse: Há muitos pregadores que são eloquentes, mas que não dizem nada, só palavras; sabem fazer muito palavrório, mas não ensinam nada direito.¨ (3,3637) — ¨... acontece com frequência que muitos sabichões obscurecem um assunto intencionalmente, com palavras estranhas, curiosas e pouco usuais, inventam novas maneiras de falar, que são tão dúbias, ambíguas e sofisticadas, a ponto de se poder interpreta-las à vontade, de acordo com a ocasião e as circunstâncias, assim como fazem os hereges.¨ (2,2199) — ¨Quando Moerlin, Medler e o Magister Jacob pregam, é como tirar o tampão de uma pipa cheia: jorra prá fora tudo o que tem dentro.¨ (5,5199)

Assim como não gostava de muita conversa vã, Lutero também não simpatizava com gesticulação exagerada, na pregação: ¨Conversava-se sobre maneiras e gestos curiosos, utilizados por certos pregadores; dizia-se que alguns, na Itália, se portavam como doidos e idiotas, correndo prá cá e prá lá, berrando e fazendo gestos curiosos e feios. Então, falou o Doutor Martim Lutero: O mundo quer ser enganado, e para isso se precisa de gesticulação.¨ (4,4619)

Perfeitamente compatível com a ojeriza à loquacidade e gesticulação exageradas é a insistência com que Lutero adverte quanto à extensão das prédicas. E o Reformador sabe muito bem que ele próprio também precisa tomar tal advertência mais a sério: ¨Se eu fosse mais jovem, cortaria e abreviaria muita coisa em minhas apostilas, pois usei palavras demasiadas e excessivas. Ninguém consegue acompanhar nem assimilar falas tão compridas e tanta conversa mole ... .¨ (1,965) Mas, aparentemente, Lutero é bem mais crítico em relação a si próprio do que os outros. É o que se deduz do seguinte comentário de Melanchthon: ¨Os pregadores luteranos aprendem, todos, de Lutero como pregar e repreender. mas o que não conseguem aprender dele é parar ... .¨ (3,3420) Realmente, a situação parece ter sido séria: ¨O Doutor M.L. advertiu os pregadores que não martirizassem e retivessem os ouvintes com predicas longas, pois eles acabam perdendo a vontade de escutar: assim, os pregadores ferem e violentam os ouvintes com predicas longas.¨ (2,2643b)

Um dos elementos mais importantes de uma boa prédica é, segundo Lutero, a simplicidade: assunto este que é abordado nas mais diversas ocasiões e em coloridas variações. Vejamos alguns exemplos:

O pregador deve ser capaz de ensinar as pessoas simples e iletradas de modo singelo, arredondado e correto, pois ensinar é mais importante do que admoestar. Temos que ser amas de leite; temos que ser como a mãe que dá de mamar ao filhinho, balbucia e brinca com ele, dá-lhe o peito para mamar, e não pode dar vinho nem bebida forte, ... . Eu sou inimigo ferrenho daqueles que, nas suas prédicas, se orientam pelos ouvintes importantes e eruditos, e não pelo povo em geral; a este não dão atenção. Lidar com palavras altissonantes e pomposas estraga e destrói mais do que constrói. Dizer muito com poucas palavras, de modo correto e breve, é uma arte e grande virtude; mas dizer nada com muita conversa é idiotice.¨ (3,3579) — ¨Quem está em cima do púlpito, deve tirar os peitos para fora e dar de mamar ao povo em geral, pois a cada dia que passa cresce uma nova igreja; esta precisa ser ensinada, com toda simplicidade, com um ensinamento infantil. Por isso, use-se diligentemente o Catecismo e distribua-se o leite. Os pensamentos altos, sutis e aguçados, porém, e o vinho forte fiquem reservados para os sabichões.¨ (3,3421)

¨Quando subo ao púlpito, vou com a intenção de pregar apenas para os empregados e as criadas. Se fosse pelo Dr. Jonas, por Filipe ou por toda a universidade, eu nem sequer apareceria, pois eles podem ler a mensagem muito bem nas Escrituras. É que, quando se procura pregar aos ouvintes mais eruditos, fazendo jorrar altas sabedorias, o pobre do povo fica lá parado como uma vaca.¨ (6,6798)

¨Ah, não suporto gente que faia diversas línguas de cima do púlpito! Como Zwinglio, que faia grego, hebraico e latim no púlpito de Marburgo . ¨ (4,5006) — ¨Se eu sei grego e hebraico, poupo isso para quando nós, eruditos, estamos juntos: aí, então, complicamos as coisas de tal maneira que até Deus, nosso Senhor, fica admirado!¨ (3,3612).

¨Quem vem à igreja são pobres crianças pequenas, empregadas, mulheres e homens idosos, para os quais a alta doutrina não é de proveito algum, pois eles não a compreendem. E mesmo que digam: ¨puxa, ele falou tanta coisa bonita; que prédica linda!¨, se perguntarmos ¨o que foi que ele disse?¨, responderão ¨não sei!¨ Ao pessoal simples é preciso dizer branco é branco e preto é preto, de modo bem singelo, com palavras simples e claras — e mesmo assim, quase que não entendem. Ah, como nosso Senhor Jesus Cristo se esforçou por falar com simplicidade! Ele usava parábolas sobre videiras, ()velhinhas, árvores, etc., tudo para que o pessoal compreendesse, assimilasse e guardasse.¨ (6,6800)

Lutero tinha muita compreensão para diversas fraquezas de seus colegas pregadores, mas se irritava demais com aqueles que insistiam em complicar suas prédicas: ¨Eu gosto de fazer as coisas com simplicidade. Agora, se o negócio é disputar, que venha aprender comigo quem quiser! Estou disposto a topar a parada, amargar-lhe a vida, responder e complicar as coisas como ele quiser. Ainda tenho que escrever um livro contra esses pregadores sabidos.¨ (4,5047)

5. DIFICULDADES, FRAQUEZAS E TENTAÇÕES — CONSOLO E ADMOESTAÇÃO

Por experiência própria e pela convivência com seus colegas e irmãos, Lutero conhecia muito bem as dificuldades, fraquezas e tentações do ministério da pregação. Falava delas com muita freqüência, procurando sempre enfrentá-las com o consolo ou com a dura admoestação que o Evangelho lhe impunha em cada situação. Para ele, a tentação não tem nada de acidental, mas pertence à própria formação do pregador: ¨Tentationes faciunt praedicatorem bonum.¨( As tentações fazem o bom pregador.) (3,3378a) As tentações e fraquezas podem assumir os mais diversos contornos, mas basicamente se resumem ao binômio desespero e orgulho: ¨É o diabo! Deus não consegue tornar-nos piedosos, seja humilhando ou elevando-nos, seja através de felicidade ou infelicidade, nós sempre acabamos ficando ou desesperados ou orgulhosos.¨ (3,3152) Além das fraquezas pessoais do próprio pregador, há uma multiplicidade de dificuldades externas que pesam sobre ele, a ponto de viver na constante tentação de tornar-se um desertor: ¨Pregar Cristo é um ministério pesado e perigoso. Se outrora eu tivesse sabido disso, nunca teria aceito, mas diria, como Moisés: ¨Envia quem tu quiseres!¨ Se eu tivesse sabido, ninguém haveria de me convencer.¨ (2,2474)

As tentações e dificuldades abordadas por Lutero em suas ¨falas de mesa¨ podem ser classificadas em algumas categorias. Comecemos pelo medo que aflige o pregador principiante: ¨Quando alguém sobe ao púlpito peia primeira vez, ninguém imagina o medo que ele passa. Principalmente, porque vê tantas cabeças à sua frente!¨ (4,4719) Esse medo muitas vezes faz com que o pregador fique irremediavelmente preso ao manuscrito, sem se comunicar com os ouvintes, como conta Lutero, a respeito de um monge: ¨Ele se preparou e tinha a prédica escrita em oito folhas. Então, declinou-as de cor, palavra por palavra, assim como tinha aprendido e como estava anotada — e ficou pronto em quinze minutos. Ai acabou seu repertório, e ele teve que parar.¨ (4,3910 — Naquele tempo, uma prédica normal durava no mínimo três quartos de hora). Mas Lutero tem recomendações bem concretas para a superação do medo no púlpito: ¨Quando subo ao púlpito, não olho para pessoa alguma; fico pensando que só tenho tocos à minha frente, e dou um jeito de entregar a palavra do meu Deus.¨ (4,4719) — ¨Quando dou uma preleção, faço o sinal da cruz e fico pensando que nem Filipe, nem o Doutor Jonas, nem Pommer, nem qualquer outro sábio está no auditório — e fico pensando que eu sou o sujeito mais inteligente a ocupar uma cátedra. Recomendo que todos façam o mesmo, pois assim o medo passa e a gente consegue pregar ou ler livremente.¨ (3,2954a)

Uma das maiores cargas para o pregador é a indiferença e o desprezo dos ouvintes. Como diz Lutero: ¨Nós, pregadores, temos um ministério difícil. Por um lado, devemos prestar contas da salvação ... das almas dos ouvintes, e, por outro, esperam que nos curvemos aos seus desejos e deixemos que vivam como bem entendem. Se o fizermos, tornamo-nos partícipes de seus pecados; se não o fizermos e os repreendermos, dizem que estamos difamando e caluniando.¨ (5,5673) — ¨Minha pregação é como se eu andasse, aos berros, por uma grande floresta. Em resposta, ouviria apenas o eco e a ressonância. Pois seu vejo e percebo que ninguém quer ter Cristo como Senhor.¨ (2,2320b) — ¨Quanto mais se prega. tanto mais maluco fica o mundo, ... .¨ (2,2088A) A decepção de altero com os ouvintes da pregação transparece de modo especialmente chocante no seguinte relato: ¨No ano de 32 o Dr. Martim passou a pregar em casa, aos seus filhos e empregados, todos os domingos, durante cerca de meio ano; e não pregava na igreja. Certa vez perguntou-lhe o Dr. Jonas porque faria isso, se era, talvez, porque percebia que a massa e o povo em geral desprezavam a palavra de Deus. O Dr. Martim respondeu que fazia isso por causa do ministério no qual estava investido e por causa de sua consciência de pai de família, ao qual compete cumprir tal serviço. 'Porque eu sei e vejo muito bem¨, disse ele, 'que aqui em casa se preza tão pouco a palavra de Deus quanto na igreja'.¨ (2,2726b)

Em decorrência de tal situação, instala-se no' pregador um profundo sentimento de frustração, que o leva a querer desistir de tudo. Lutero conhece muito bem esse sentimento, mas conhece também a força capaz de sustentar o pregador no cumprimento do seu ministério. Em torno dessa questão, temos a narração de um episódio, que merece ser reproduzido na íntegra, embora extrapole os limites restritos do assunto: ¨Certa ocasião, encontrando-se o Dr. Martim debaixo do pé de pera, no seu quintal, perguntou ao M. Anton Lauterbach como estava se dando, como pregador, Lauterbach lamentou-se, então, mencionando suas dificuldades, tentações e fraquezas. ao que o Dr. Martim replicou: Ora, meu caro, comigo aconteceu a mesma coisa. Eu tinha muito medo do púlpito, assim como você, mas mesmo assim tive que continuar. Me obrigaram. Para começar, tive que pregar aos frades, no refeitório. Ah, eu tinha um medo tremendo do púlpito! Mas você em breve será um mestre, será mais entendido do que eu e outros que já têm experiências. Você talvez procure buscar sua própria honra, e, assim será tentado. Mas o importante é que pregue a Deus, nosso Senhor, e não dê atenção para o que o pessoal possa pensar e julgar. Se alguém reclamar, que o faça melhor; quanto a você, preocupe-se apenas em pregar Cristo e o Catecismo. Essa sabedoria há de elevar você acima de qualquer juízo humano, pois trata-se da palavra de Deus, o qual é mais sábio do que os homens. Deus há de lhe dar o que você deve falar; e ele não se importa com o juízo, o louvor e a infâmia das pessoas. Se você pensa que eu vou louvar você, está enganado. Quando eu ouvir uma prédica sua, vou avaliá-la rigorosamente, pois vocês, meus caros, têm que ser colocados nos seus devidos lugares, para que não se tornem ambiciosos e orgulhosos. — De outra feita, Lutero expressou opinião diversa quanto ao , valor pedagógico do louvor. Ao escrever uma recomendação para um jovem pregador que iria apresentar-se à sua nova comunidade. Lutero lhe disse: Eu vou recomendar e louvar você, embora você não seja assim como estou escrevendo. Mas você deve se esforçar por atingir esse alvo, pois agora você está amarrado pelo meu louvor. Foi por isso que Deus disse E, Moisés. quando este chamou Josué para substituí-lo após a sua morte: Coloque meu louvor sobre Josué.' (3,2895) — ¨Mas você deve ter certeza de que é vocacionado para a pregação; Cristo precisa de você, para que você ajude a louvá-lo. Apoie-se firmemente nisso; quem quiser. que aplauda ou xingue, você não tem nada a ver com isso. Para mim, suas desculpas não valem nada. Eu devo ter recitado uns quinze argumentos diante do Dr. Staupitz, aqui debaixo desse pé de pera, quando tentei rejeitar minha vocação. Mas não adiantou nada. Por fim, falei: 'Dr. Staupitz, o Senhor acaba me matando; nesse ministério eu não agüento vivo nem um quarto de ano!'. Ao que ele respondeu. 'Pelo amor de Deus, como queira! Deus, nosso Senhor, tem muito o que fazer lá em cima. e anda precisando de gente inteligente por lá também!' ¨ (3,3143b) Só a título de curiosidade, vale a pena ouvirmos o resto da conversa: ¨Depois disso, o Dr. Martim Lutero passou a contar muita coisa boa sobre o Dr. Staupitz, dizendo principalmente que tinha sido um amigo e incentivador dos estudantes. Quando foi eleito para exercer, durante três anos, o cargo de Superior e Vigário de toda a província, Staupitz procurou fazer tudo de acordo com seu próprio discernimento e sua própria cabeça, mas não dava certo. Depois, foi eleito para novo período de três anos; aí tentou trabalhar segundo o conselho dos antepassados e mais velhos; também não deu certo. No terceiro triênio, entregou tudo nas mãos de Deus; aí é que não deu certo de uma vez. Então, Staupitz falou:,... (que as coisas andem como queiram); ninguém consegue nada, nem eu, nem os antepassados, nem Deus. Está na hora de algum outro assumir o próximo triênio de vicariato!, Aí entrei eu, e comecei diferente.¨ (idem)

Vejamos mais alguns exemplos de como Lutero entende a sustentação que Deus dá ao pregador, no cumprimento do seu ministério: ¨Deus, nosso Senhor, instituiu seu mais alto ministério de modo muito singular: ele o atribuiu aos pregadores, esses pobres pecadores e mendigos, que dizem e ensinam, mas dificilmente vivem de acordo. Assim, a força de Deus anda sempre na fraqueza, e quanto mais fraco ele for em nós, mais ele será forte:¨ (3,3822) Em outra ocasião, disse Lutero ¨que Deus age de modo muito singular, incumbindo-nos, pobres pregadores, do ministério da pregação de sua palavra, e esperando que orientemos os corações, os quais nem sequer vemos. Mas trata-se do ministério de Deus, nosso Senhor, que nos diz. Escute, você pregue: o resultado é comigo; eu conheço o coração das pessoas. Este deve ser o consolo nosso, dos pregadores. Então, deixe que o mundo se ria e zombe do nosso ministério da pregação, e você, ria com eles.¨ (3,3492) É através do Espírito Santo que Deus produz os frutos da pregação: ¨Pois Deus ordenou as coisas de tal forma que ninguém deva nem possa crer, a não ser através do ministério da pregação; é através dele que se ouve a sua palavra, pois este é o instrumento e o canal, através do qual Deus, o Espírito Santo, atinge o coração, despertando e operando verdadeiro arrependimento e pesar para a conversão e a verdadeira fé.¨ (5,5189)

Retornemos às tentações do ministério da pregação. Outra delas, abordada por Lutero, é o perfeccionismo: ¨Não sei por que é que só concordamos em dar uma prédica, depois que nós mesmos estivermos satisfeitos com ela. Se não fôssemos forçados pela vocação, acabaríamos não pregando nunca. Philippus nunquam scripsisset apologiam, nisi fuisset coactus; nunca iria se dar por satisfeito.¨( Filipe jamais teria escrito a apologia (Confissão de Augsburgo), se não houvesse sido coagido. ) (2,2606a) — ¨... Vocês façam a sua parte! Se não conseguirem pregar uma hora, deixem por meia ou por um quarto de hora. E não se orientem sempre pelos outros, querendo imitá-los . ... procurem trazer de modo simples e breve o teor principal da prédica, e depois deixem-na por coma de Deus, nosso Senhor. Busquem, com toda simplicidade, apenas a glória de Deus, não a fama e o aplauso de pessoas, e orem para que Deus lhes dê entendimento e boca, e aos ouvintes um ouvido bem apurado; e deixem Deus agir. Pois, acreditem, a pregação não é obra humana; pois eu, embora seja a esta altura um pregador velho e experiente, fico com medo quando preciso pregar. E vocês certamente ainda hão de fazer essas três experiências: Primeiro, quando tiverem concebido a melhor prédica e compreendido seu conteúdo fundamental, acontecerá que ela se diluirá virando água. Segundo, quando estiverem desanimados diante do seu esboço e do conteúdo, Deus dá graça para que vocês profiram a melhor prédica, que agrade ao povo, embora não agrade a vocês. Terceiro, quando vocês não estiverem satisfeitos com o preparo, acontece que a prédica agradará a vocês e aos ouvintes. Por isso, orem a Deus e entreguem tudo aos seus cuidados.¨ (2,2606b)

Menos frequente é a alusão a outro tipo de perigo: abastança e pobreza excessivas dos pregadores. Lutero falava, certa vez, de pastores avarentos, muito empenhados em ampliar suas posses, dizendo: ¨Onde é que isso vai parar? Quando ficam ricos, tornam-se imprestáveis, abandonam seu serviço e ministério, como aconteceu em Niemeck e Bruck, com aqueles que tinham enriquecido, pastado e engordado. Quando são pobres, não conseguem dar conta do recado. como se vê por toda parte. O certo seria deixar-se-lhes apenas a subsistência, a casca e o recheio. então estariam providos e cuidados.¨ (4,3998)

Mas a tentação que Lutero mais ataca. e para a qual não demonstra qualquer compreensão e complacência, é o orgulho de pregadores. ¨Malditos todos os pregadores que. nas igrejas, procuram por coisas altas. difíceis e sutis, para apresenta-las ao povo nas suas pregações. buscando assim gloria e fama, e tentando agradar a um ou dois ambiciosos.¨ (3,3573) Na linha dessa investida contra os pregadores orgulhosos, o Reformador desenvolve coloridas comparações: ¨Que uma mocinha queira se mostrar com um vestido novo ou com seus olhos negros, é coisa que se aceita. algum dia aparece alguma febre e tira-lhe a beleza. E que Mornholt e Ranzau, meus dois hóspedes de mesa (Tischgaenger), sejam orgulhosos, também é coisa que se aceita; algum dia aparece alguma peste e põe fim ao seu orgulho. Um nobre, que for orgulhoso, algum dia indo para a guerra, leva uma bala na barriga, e tudo termina. Mas a glória religionis,(glória da religião) esta causa enorme estrago!¨ (5,5390) Toda mordaz ironia de Lutero se descarrega na seguinte comparação, com que contempla os predadores orgulhosos e sabichões: ¨Estava uma mosca sentada em cima de uma carroça de feno. Quando trouxeram a carroça para dentro e a descarregaram, levantou muita poeira, ao que a mosca comentou: Nossa, que diabo, uma mosca levanta um bocado de poeira! ... como a pulga que, ao cair de um camelo, falou: Poxa, você se livrou de um peso e tanto, hein?.¨ (2,2258b)

Referindo-se, certa vez e de modo especial, a pregadores orgulhosos, no início do ministério, Lutero falou: ¨Ah, agora todos querem pregar de acordo com a dialética e a retórica, e fazem tudo tão complicado e confuso que nem o povo nem eles mesmos entendem nada. Um jurista recém n formado é, no primeiro ano, um Justiniano, isto é, pensa que está por cima de todos os doutores, que é muito mais erudito e tem todas as leis na cabeça. No segundo ano, é doutor; no terceiro, licenciado; no quarto, bacharel; no quinto, estudante. ... ninguém tente ser mais sabido do que pode e ir além do que lhe compete.¨ (5,6404) .

Para lidar com tamanha fraqueza de seus servidores, Deus se vale de diversos meios pedagógicos: ¨Seguidamente Deus lhes impõe (aos pregadores orgulhosos, soberbos e sedentos de fama) muitas cruzes e sofrimentos, para ver se consegue torná-los humildes. E, com isso, não lhes acontece injustiça alguma, pois eles querem a glória, comem a gordura da sopa de Deus, nosso Senhor, e só lhe deixam o caldo, sem se dar conta de que só a ele cabe a glória.¨ (3,3672) Outro meio pedagógico é o próprio exemplo de Jesus: Quando Jesus proíbe que se espalhe a notícia dos seus milagres, ¨faz muito bem em proibir, a fim de nos dar um exemplo e um ensinamento, para que não procuremos a nossa honra naquilo que fazemos de bem. mas apenas a de Deus. Por isso. João atesta em todo seu evangelho que Cristo honrou o Pai e não a si: isso ele escreve para nós, pregadores.¨ (1,640) Também as dificuldades do ministério da pregação, já mencionadas acima, fazem parte da pedagogia de Deus: A pregação representa muito esforço e trabalho, o' que nos é ordenado é muito, mas pouca coisa acontece. Não conseguimos nada! Deus, nosso Senhor, faz isso para que só ele permaneça como o sábio e poderoso e conserve a glória.¨ (6,6951) E até a falta de fé dos pregadores tem a mesma função: Pregadores são Uns pobres coitados; mas eles olham para uma outra vida, por isso 'temos que crer naquilo que há de vir! Mas, se nós crêssemos com certeza no tesouro da vida eterna, ficaríamos muito orgulhosos. Por isso, Deus escondeu esse tesouro da sua misericórdia debaixo de uma tampa enorme, que ele colocou por cima: esta tampa se chama fé, e com ela lutamos nossa vida inteira!¨ (3,3431)

EM VEZ DE UMA CONCLUSÃO

Terminemos assim, abruptamente, e sem uma verdadeira conclusão. Está feita a apresentação do Lutero gente que conheci. Certamente não concordamos com todas as suas opiniões e atitudes. Contudo, penso que cada um de nós, pregadores efetivas, eventuais ou em potencial, foi recolhendo do exposto estímulo, consolo, recomendações, advertências. Isto é, deve ter ocorrido tacitamente, por conta de cada um, uma aplicação.

À guisa de conclusão, permitam-me, então, dar continuidade a essa aplicação. Trago, para finalizar, uma confissão de Lutero que muito me chocou por sua franqueza e peio temor de que ela possa ser verdadeira. Dizia Lutero que as pessoas ¨não conseguem considerar o ministério da pregação, como sendo palavra de Deus, nosso Senhor; acham elas que se trata simplesmente de fala do pastor. Por isso, temem (é o que elas dizem), que pretendamos nos tornar papistas, outra vez, ou assumir uma supremacia sobre os leigos. O problema é que também nós mesmos, pastores e pregadores, não consideramos nosso ensinamento como palavra de Deus Pois, quando o pessoal se humilha diante de nós, procuramos logo tiranizá-los. Esta é a desgraça. desde o início do mundo: que os ouvintes temem a tirania dos mestres e os pregadores querem ser deuses sobre os ouvintes.¨ (6,6891) O que Lutero confessa aqui. em nome dos pregadores desde o início do mundo, é estarrecedor. Ele confessa-se, em nome de todos, um opressor teológico-religioso-cultural dos leigos. Opressão esta, que ocorre sempre que os próprios pregadores deixarem de entender sua pregação como palavra de Deus.

Seria isso também verdade para nós, na IECLB? Se for, Lutero poderia aplicar também a nós aquele veredito que proferiu sobre os monges do seu tempo: ¨Os franciscanos são os piolhos de Deus, nosso Senhor, que o diabo lhe colocou no casaco de pele. Os monges predicadores são as pulgas que o diabo botou na camisa de Deus, nosso Senhor.¨ (2,1825) Ouçamos a advertência. Não sejamos piolhos nem pulgas, que amargam a vida de Deus, nosso Senhor!

(1) A abreviação usual das ¨falas de mesa¨, colecionadas na Edição de Weimar é WA TR. Nas citações que apresentaremos no presente estudo, citamos o volume e o número da ¨fala de mesa¨ imediatamente após a citação.

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Âmbito: IECLB
Título da publicação: Reflexões em torno de Lutero / Ano: 1981 / Volume: 1
Natureza do Texto: Artigo
ID: 24617
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Quando Deus não está no barco, não se navega bem.
Martim Lutero
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