Marcos 1.32-39

Auxílio Homilético

25/10/1981

Prédica: Marcos 1.32-39
Autor: Edmundo Grübber
Data Litúrgica: 19º. Domingo após Trindade
Data da Pregação: 25/10/1981
Proclamar Libertação - Volume VI


I - Observações exegéticas

Marcos é o mais antigo dos evangelhos contidos no Novo Testamento. Mesmo assim é de se supor que os fatos relatados no texto supra, como também outros, já tenham sido transmitidos antes oralmente. Mateus e Lucas utilizam-se da versão de Marcos para comporem os seus escritos, colocando, no entanto, diferentes acentos, omitindo ou acrescentando aspectos que lhes pareciam importantes.

A perícope acima relata dois acontecimentos distintos, porém, relacionados entre si:

Vv.32-34: relatam os acontecimentos diante da porta da casa de Pedro. Fatos estes relacionados com a atividade de Jesus durante o dia na sinagoga (cf. l.21ss) e o acontecimento na casa de Pedro (cf.l.29ss).

Vv.35-39: os assuntos destes versículos — a retirada de Jesus a um lugar ermo para orar, o diálogo entre Jesus e Pedro e a sua atuação em toda a Galiléia - estão novamente relacionados com os fatos relatados nos vv. 32-34.

A aglomeração que houve diante da residência de Pedro (v.33) facilmente é explicável, considerando-se o ocorrido durante o dia na sinagoga e posteriormente na casa de Pedro (cf. vv.21ss e 29ss). Jesus prega com autoridade, deixando todos maravilhados (v.22), e liberta um homem de um espírito imundo ou mau (v.26). Não admira que diante disso a fama de Jesus correu célere (v.28).

Que esta aglomeração somente ocorreu à noite, tem os seus motivos. Marcos refere-se a estes, quando fixa, ao contrário de Mateus, uma dupla indicação de tempo: À tarde, ao cair do sol (Almeida) ou À tarde, depois do pôr do sol (Bíblia na Linguagem de Hoje). Com outras palavras: a aglomeração de pessoas apenas ocorreu ao anoitecer ou à noite, porque era sábado (v.21) e as leis em relação ao sábado, o dia de descanso, impediam qualquer movimentação neste sentido (cf. Ex 20.8ss, ex 23.12).

O povo, respeitando as proibições, se conteve até à noite. Mas aí não havia mais impedimentos. Não havia quem o segurasse. Os doentes e endemoninhados são levados àquele homem sobre o qual tantos comentários corriam pela cidade. E este homem não os decepciona, pois, curou muitos doentes... e também expeliu muitos demônios (v.34).

Neste contexto um fato chama a nossa atenção: Nos vv. 32-33, Mc fala que trouxeram a Jesus todos os enfermos e endemoninhados e que toda a cidade estava reunida à porta, enquanto que o v.34 menciona que Jesus teria curado muitos. A diferença entre todos e muitos nos induz a supor que todos os enfermos foram levados a Jesus, mas nem todos foram curados, levando-nos a especulações sobre os eventuais motivos, tais como: nem todos tinham fé; eram muitos e nem todos chegaram até Jesus; etc. Wilhelm Andersen, no entanto, compartilha, com razão, a opinião de Zahn de que aqui o autor relata despreocupadamente, sem a intenção de fornecer dados estatís-ticos exatos. A afirmação de que Jesus curara muitos não representa uma diminuição em relação ao todos. Ambos devem ser entendidos como sinónimos, isto é: muitos = todos.

Assim também Mt e Lc o entenderam e interpretaram (cf. Mt 8.16 e Lc 4.40). Eu diria que aqui se trata de uma força de expressão a exemplo de todo mundo, tão comum entre nós. Neste sentido deve ser entendida também a observação de Pedro: Todos te buscam (v.37).

Comparando a nossa perícope com os textos paralelos em Mt 8.16-17 e Lc 4. 4041, constatamos que Mc diferencia entre doentes e possessos. Referindo-se à cura diz, de um modo geral, que os doentes foram curados, enquanto que os possessos passavam por outro processo. Os demónios eram expelidos. De que maneira Jesus procedia para expelir, para libertar as pessoas dos espíritos maus, nos é relatado no v.23ss.

Uma outra indagação ainda nos impõe o v.34. Qual teria sido o motivo que levou Jesus a não permitir que os demônios falassem? Também em outras passagens esta proibição cai em vista, atingindo não apenas os possessos, mas também outras pessoas, inclusive os discípulos (cf.Mc 1.44; 7.36; 8.30). De acordo com a tese de vários renomados exegetas, a razão da proibição prende-se ao fato de que a hora da revelação total do Messias ainda não chegara. Toda e qualquer manifestação pública a esta hora seria parcial, incompleta e até distorcida, eis que Sexta-Feira Santa, cruz, Páscoa, ressurreição ainda não haviam acontecido. Somente após a Páscoa, a ressurreição, é possível ter-se uma visão completa da missão e obra de Jesus. Só a partir da cruz e no discipulado é possível obter-se compreensão total da missão de Jesus.

Os vv.35-39 corroboram tal tese, isto é, provam que a missão de Jesus ainda não fora entendida, nem mesmo por seus discípulos. O fato de Jesus re¬tirar-se, não aproveitando a onda de entusiasmo que se apoderou do povo para fazer o seu cartaz e o dos discípulos, suscita decepção em Pedro e nos que o acompanhavam.

A exemplo do v.32, também o v.35 é introduzido com uma indicação precisa sobre o horário dos acontecimentos que se seguem.

Certamente, após um dia de muita atividade estafante que, como tudo indica, se estendeu noite a dentro (cf. v.32ss), Jesus sentiu a necessidade de ficar só, para avaliar em oração e meditação os acontecimentos sucedidos. Sabendo, no entanto, que os discípulos e muitos outros o seguiriam, frustrando assim o seu recolhimento, a sua reflexão e oração, levantou-se alta madrugada (Almeida) ou bem cedo, quando ainda estava escuro (Bíblia na Linguagem de Hoje) e retirou-se para um lugar sossegado, enquanto os discípulos ainda dormiam.

Alguns exegetas querem ver neste retirar-se bem cedo . .. para orar o cumprimento de uma tradição entre os fiéis do povo de Deus, cf. Sl 5.3; 88.13 e outros. Mesmo que assim fosse, cremos que Mc não queria, com esta afirmação, provar que Jesus cumpria meramente uma tradição existente; queria, isto sim, relatar os fatos como sucederam. E, mesmo admitindo que Jesus tivesse ido apenas para cumprir uma tradição, constatamos que a sua oração não se limitou a uma simples recitação de palavras decoradas, mas foi uma reflexão e um diálogo profundo com Deus. Ouso assim afirmar, tomando em consideração o v.36.

O v. 36 nos permite concluir que Jesus deve ter passado algum tempo, não apenas alguns minutos, no local em oração e meditação. Mesmo não podendo deduzir quanto tempo ainda os discípulos dormiram sem notar a ausência do Mestre, afirma o v.36 que o procuraram diligentemente, isso é, ativamente por toda a parte. Tudo faz crer que sentiram a ausência de Jesus quando, ao clarear do dia, inúmeras pessoas voltaram a se reunir defronte à casa de Pedro onde Jesus estava hospedado. Foi este o motivo que alegaram quando finalmente o encontraram (cf. v.37).

A afirmação anteriormente feita, de que a verdadeira missão de Jesus ainda não fora entendida, é confirmada pelo v.37. Por através das palavras de Pedro todos te buscam, sentimos a sua crítica, a sua decepção e até acusação. Mas ao mesmo tempo também o seu entusiasmo. Seria tão bom para Jesus, e até para os discípulos, se Jesus aproveitasse a situação de euforia do povo! Quanta honra! Quanta fama conquistariam! — Estes os pensamentos que, assim temos a impressão, acompanhavam a Pedro.

Jesus, no entanto, chegara através da meditação e oração a outra conclusão. Conseguira vencer a tentação de entrar na do povo, de seguir o caminho mais fácil, o caminho dos homens, afastando-se em consequência da vontade de Deus. Conseguira, através da oração, ver com clareza a vontade de Deus e o objetivo de sua missão. Por isso responde a Pedro: Vamos a outros lugares ... a fim de que eu pregue também ali, pois para isso é que vim, (v.38) Aqui torna-se evidente que os pensamentos e desejos de Deus não se identifiquem com os de Pedro e daqueles que o acompanhavam, lembrando-nos as palavras de Is 55. 8-9.

O texto não nos transmite uma eventual resposta de Pedro a esta colocação de Jesus. Mas, a partir de Mc 8.32-23 podemos deduzir que Pedro dificilmente entendeu a argumentação do Mestre. O que podemos constatar é que, mesmo não entendendo as palavras de Jesus, o seguiu. Ele arriscou. E esta atitude podemos classificar de fé (Bohne/Gerdes p.69).

Por outro lado, o v.38 é, por assim dizer, a primeira referência de Jesus a seu caminho de sofrimento e morte. Pois, Jesus dá com esta sua decisão, decepcionando conseqüentemente a multidão, o primeiro passo em direção a cruz(traduzido de Bohne/Gerdes p.69-70). Algum tempo depois destes acontecimentos a expressão todos te buscam transformar-se-á em todos gritaram: Crucifica-o!

O v.39 encerra a nossa perícope informando, resumidamente, sobre a atividade de Jesus nas sinagogas de toda a Galiléia.

II - Meditação

1. Sente-se hoje em dia uma grande inquietação e indagação na Igreja. E isto é muito bom! Muitos estão preocupados com o fato de a causa de Jesus Cristo alcançar tão pouca ou quase nenhuma transformação no mundo. Há quase dois mil anos é pregado o evangelho, é proclamada a vinda do reino de Deus, o reino de paz, amor e justiça. Mas tudo parece continuar no mesmo. Em muitos casos até parece que a situação piorou. A ganância, a intriga, a inveja, o ódio, a guerra, a fome, a miséria e a exploração grassam pela humanidade.

Pergunta-se com insistência: Onde estão os discípulos de Jesus? Onde estão os cristãos? Onde estão aqueles a quem Jesus confiou a sua causa? Onde está a Igreja? Fé, piedade e amor são produtos raros. £ onde existem, na maioria dos casos, trata-se de uma fé, de uma piedade e de um amor que se limita ao próprio eu, se limita a satisfazer a si mesmo, não ultrapassando o círculo mais íntimo de amizade. O outro com as suas necessidade é esquecido.

A Igreja de Jesus Cristo, e a ela pertence também a IECLB, perdeu em grande parte a sua credibilidade, pois entendeu como sua missão apenas a assistência às pessoas em suas necessidades espirituais. Entendeu como sua missão o pregar e ensinar. Por isso, limita-se quase que só à proclamação da palavra (culto, batismo, etc.).

De acordo com a nossa perícope, a situação na época de Jesus era diferente. Toda a cidade estava reunida à porta e trouxeram a Jesus os enfermos e endemoninhados. Jesus pregava, curava os enfermos e expelia os demônios. Ele não se limitava a palavras bonitas e inflamadas, mas agia concretamente para transformar mentalidades e situações. Ele se preocupava e se preocupa com a pessoa com em todo, com suas necessidades tanto espirituais, quanto físicas. Onde quer que aparecia, via e se comiserava dos sofredores, ajudando-os.

Daí a pergunta: Onde estão aqueles, aos quais Jesus confiou a sua causa? Onde está a Igreja? Pois, a missão da Igreja não consiste apenas em proclamar o poder libertador de Deus em todos os domínios da vida individual e coletiva, mas também de demonstrá-lo pelos seus atos (Conselho Mundial de Igrejas, p.3). Isto significa que não podemos satisfazer-nos com a assistência espiritual exclusivamente. Temos, como discípulos de Jesus, a missão de lutar também contra as injustiças, o sofrimento, a miséria e a exploração entre as pessoas, libertando-as assim dos demônios que as escravizam.

2. Para descobrirmos quais são os demónios que hoje dominam e escravizam a humanidade, e para traçarmos uma estratégia de ação, creio que o v.35 nos indica o caminho.

Jesus retirou-se sozinho para orar. Isto, porque os discípulos ainda não entendiam a sua missão. Caso contrário, certamente haveria de reunir-se com os mesmos e, em conjunto, teriam refletido sobre qual a vontade de Deus, qual o caminho a seguir. Esta suposição sugere — eis que, vivendo após a Páscoa, conhecemos e reconhecemos a profundidade da missão de Jesus — que, como comunidade, em grupos, devemos reunir-nos para orar, dialogar com Deus, analisando a realidade em que vivemos, à luz das Sagradas Escrituras. Dessa forma abrir-se-ão os nossos olhos e ouvidos e veremos com maior clareza os demônios que escravizam a nós e aos outros.

Sugere, outrossim, a suposição acima mencionada, que juntos estudemos e elaboremos a estratégia de ação libertadora. Esta ação libertadora deverá, para ter êxito, estar embasada na vontade de Deus. Esta ação libertadora trará luta, sofrimento e dor como trouxe a Jesus. Haveremos de decepcionar uns e irritar outros, como Jesus decepcionou e irritou, mas não há outra alternativa. Pois, nós que somos chamados a anunciar a vinda do reino de Deus devemos percorrer o mesmo caminho (que Jesus percorreu), dedicando humildemente as nossas vidas ao serviço dos outros, tornando-nos servos dos outros no amor, enfim, levando a nossa cruz. (Conselho Mundial de Igrejas, p. l).

3. Este serviço não pode nem deve limitar-se ao círculo de nossas amizades; não pode, nem deve limitar-se à nossa comunidade ou igreja, mas deve ir além fronteiras.

Jesus não permitiu que as necessidades dos habitantes de Cafarnaum o prendessem. Seguiu adiante, para cidades e aldeias circunvizinhas, a fim de pregar e anunciar também ali o reino de Deus, afirmando .. .pois para isso é que eu vim (v.38).

Hoje é esta a missão do cristão individualmente, como também da Igreja como um todo, pois é para isso que existe a Igreja.

III - Sugestão para a prédica

Seguir o pensamento da meditação é uma possibilidade.

a) Falar sobre as preocupações e indagações que há na Igreja, mostrando a razão das mesmas, a saber: os doentes, endemoninhados, enfim todos os que sofriam tinham em Jesus um esteio, um ajudador. E hoje, onde os sofredores encontram apoio? Na Igreja?

b) Com base no texto, mostrar qual deve ser o nosso procedimento: oração, reflexão e análise da realidade à luz da Bíblia (cf. v.35). Este procedimento nos ajudará a ver a necessidade do outro e a descobrir a estratégia de «cão libertadora.

c) Enfatizar que esta ação libertadora não deve limitar-se a um grupo, mas deve projetar-se além fronteiras de comunidade e igreja (cf. v.38). Como comunidade, como Igreja devemos ter coração e mãos abertas para as pessoas em necessidades.

IV - Bibliografia

- ANDERSEN, W. Meditação sobre Marcos 1.32-39. In: Calwer Predigthilfen. Vol. 7. Stuttgart, 1968.
- BOHNE, G./GERDES, H. Unterrichtswerk zum Neuen Testament. Berlin, 1970.
- CONSELHO MUNDIAL DE IGREJAS. Venha o teu reino. Genebra, 1979 (documento preparatório para a Conferência Mundial da Missão, em maio de 1980, em Melbourne, Austrália).
DEENST, K. Meditação sobre Marcos 1.32-39. In: Homiletische Monatshefte. Ano 44. Caderno 10/11. Göttingen, 1969.
- SCHABERT, A. Das Evangelium drs Markus. München, 1964.
- SCHNIEWIND, J. Das Evangelium nach Markus. In: Das Neue Testament Deutsch. Vol. 1. Göttingen, 1949.
- ZÜHLSDORF, G. Meditação sobre Marcos 1.32-39. In: Homiletische Monatshefte. Ano 38. Caderno 12. Göttingen, 1963.


Autor(a): Edmundo Grübber
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 20º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: Marcos / Capitulo: 1 / Versículo Inicial: 32 / Versículo Final: 39
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1980 / Volume: 6
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 18262
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