Marcos 10.35-45 - O primeiro será servidor

Prédica

23/01/1979

O PRIMEIRO SERÁ SERVIDOR
Marcos 10.35-45 (Leitura: Salmo 115) 

É uma coisa tão natural, tão humana o que aqueles dois discípulos pedem a Jesus. Querem sentar à sua direita e à sua esquerda em seu reino, querem ter parte de sua glória, querem ser «um pouco mais salvos» do que os outros participantes do reino de Deus. De onde é que lhes veio este desejo? Será que foi apenas a mãe, que fez nascer em seus corações aquela ambição? A mãe certamente teve o seu papel na formulação do desejo dos dois. Dizem que as mães se realizam na vida de seus filhos, e ela certamente os quis ver grandes e honrados. Mas não foi a mãe que criou o desejo no coração de Tiago e João. O desejo de sobrepor-se aos outros seres humanos existe no coração de nós todos. O orgulho e a ambição são parte integrante da natureza do velho homem. — «Dá-se o lugar à tua direita»: Isto é — já que não posso ser o primeiro, permite-me ao menos que seja o segundo! Assim é que nós somos! 

Ó orgulhoso coração humano! Ó coração cheio de sonhos de glórias e de grandeza! Por que queres ser grande? Por que queres ter um lugar de destaque frente aos outros? Por que não queres viver ao lado dos outros, igual, irmão com irmão? É por que precisa haver líderes? É pelo bem comum, então? Para que os outros se possam beneficiar de tuas qualidades? Não te enganes! Liderar, na comunidade de Cristo é bem outra coisa! Teus sonhos de glória e de grandeza brotam de teu egoísmo, que é a tua maior enfermidade. Este egoísmo te faz esquecer os irmãos, já que ocupa todo o espaço com pensamentos que giram em redor de ti mesmo. Fecha as portas ao amor, ao perdão, ao interesse pelo outro, e passa a transformar o coração num lugar solitário, onde só reina o EU, aquele pobre «eu» inquietado por mil desejos, mordiscado por mil apetites e ambições. Eu sou, eu quero, eu preciso, eu sei, eu fiz, eu posso. O «eu» é que nem uma cadeia que mantém a pessoa presa. O principal milagre que Jesus efetua conosco é que abre a porta daquela prisão e nos livra do pior tirano que existe: Ele nos livra de nós mesmos. 

Mas será permitido considerarmos aquele desejo de Tiago e João como sendo ambicioso e egoísta? Não quiseram eles um lugar ao lado de Jesus? Não terá sido até um desejo louvável? Ou será a ambição religiosa a mais perigosa das ambições, muito mais perigosa do que a ambição pelas glórias pouco duradouras deste mundo? 

«Eu quero ter um lugar especial no céu»: Este desejo contra-. ria frontalmente o evangelho de Jesus. Sabemos que, segundo o evangelho, o lugar que compete ao discípulo de Cristo no reino de seu Senhor é o lugar de pecador perdoado, que foi salvo unicamente pela graça de Deus. Em que mais poderíamos basear nosso «direito» a um lugar no reino de Deus? Em nossas obras? — Tem piedade de nós, Senhor! Se não for pela graça, ficaremos do lado de fora mesmo. E para entendermos o que é graça, precisamos ficar bem pequenos, precisamos ficar vazios de nós mesmos, precisamos aprender a negar-nos a nós mesmos. Assim Jesus diz: «Quem quiser seguir-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me». E foi justamente esta importante lição que os dois irmãos precisavam aprender. Precisavam aprender o significado daquela palavra de João Batista, o qual tinha dito: Ele precisa crescer — eu preciso diminuir. 

Entendemos, assim, porque Jesus não aceitou o pedido dos filhos de Zebedeu e que também não os apaziguou com promessas vagas. Ele os fez cair de seus sonhos ambiciosos, empregando uma verdadeira terapia de choque: «Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu bebo e ser batizados com o batismo com que eu sou batizado?» — Em verdade, isso é uma ducha fria. Os dois discípulos tinham sonhado com a glória celeste e Jesus os lembra da cruz, que em breve será erguida em Gólgota — e onde o lugar à sua direita e à sua esquerda não serão disputados por ninguém: Serão ocupados por dois ladrões, que farão companhia ao Rei do povo de Deus. «Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu bebo e ser batizados com o batismo com que eu sou batizado?» — O cálice isto é o sofrimento. O batismo — é o batismo de sangue, a morte na cruz. É como se Tiago e João tivessem caído de um mundo de sonhos maravilhosos para a realidade dura desta terra. Mas ainda não se dão por achados, Respondem, sem pensar muito, como se o que Jesus tinha dito fosse a coisa mais fácil do mundo. Respondem: «Podemos». Que certeza de fé poderemos ser tentados a pensar! Jesus conhece melhor o coração humano. Conhece melhor a coração de seus discípulos do que eles próprios o conhecem. Ele sabe que eles não podem o que afirmam poder. Sofrer por Jesus e com Jesus não pode ser fruto da autoconfiança. Eles vão beber o cálice de Jesus, vão ser batizados com o batismo com o qual ele será batizado. Mas não será uma simples estação em sua trajetória para cima, para o céu, rumo à glória. Será na dura aprendizagem do sofrimento e da obediência, na aprendizagem da aceitação da vontade do Pai, que preparou o caminho e o alvo de seus filhos segundo seus próprios critérios, não segundo as ideias ambiciosas do coração humano.
«Ouvindo isto, indignavam-se os dez contra Tiago e João». É coisa da natureza do velho homem. Logo que alguém quer ser mais do que os outros, nasce a discórdia. A ambição de um desperta a indignação no coração do outro. Indignação frequentemente baseada na mesma ambição que existe bem por dentro daquele que se indigna. 

«Mas Jesus, chamando-os para junto de si, disse-lhes: Sabeis que os que são considerados governadores dos povos, têm-nos sob o seu domínio, e sobre eles os seus maiorais exercem autoridade. Mas entre vós não é assim; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós, será servo de todos». 

Os poderosos desta terra dominam, apoiados na força, no poder. É uma autoridade bastante duvidosa, Jesus chega a dizer que «são considerados governadores dos povos». É uma autoridade imaginária, passageira. Esta autoridade que domina — nunca poderá ser o modelo da autoridade que é exercida na comunidade de Jesus. Na igreja de Jesus Cristo não reina o espírito da luta pelo poder. O problema do poder, na igreja de Cristo, está resolvido, de uma vez para sempre. Todo o poder e toda a autoridade foram dados a Cristo mesmo. Quem vive em comunhão com Cristo, não poderá, portanto, meter-se em lutas pelo poder, a não ser que se revolte contra a cabeça do corpo, a não ser que deixe de ser um membro ligado ao corpo de Cristo. 

«Entre vós não será assim», É uma receita que permanece válida para nós. Os países, os governos, as autoridades terrenas não são o modelo, nos quais se deverá orientar a comunidade de Jesus. Os de cima mandam, os de baixo obedecem. Os de cima vivem, planejam, organizam em estilo grande — os de baixo simplesmente são rodinhas na engrenagem, são súditos, são pessoas governadas, são objetos. Esta estrutura, esta organização contradiz frontalmente o evangelho de Jesus. Porque o evangelho de Jesus veio trazer a igualdade básica aos filhos de Deus, igualdade de dignidade, igualdade existente entre irmãos que têm o mesmo Pai. 

Mas Jesus não se limita a dizer que entre os seus discípulos «não será assim». Ele diz, de forma positiva, como será a vida e a convivência dos seus seguidores. Será uma estrutura «pelo contrário»: Quem quiser ser grande, deverá servir, quem quiser ser o primeiro, será servidor. Não que Jesus quisesse dizer: Olhem bem para os governos desta terra, e façam bem o contrário do que eles fazem. Ele quer justamente que seus discípulos não se orientem nas estruturas de poder desta terra. Então também uma orientação negativa, que quer ver para saber como não fazer, estará errada. Quando Jesus convida o discípulo a servir, então ele não pensa em serviço de escravo, de subordinado, de forçado. Pensa em serviço filial, feito em liberdade, em gratidão, em amor. E aí outro ponto de referência onde possamos orientar-nos, onde possamos aprender a servir, a não ser o próprio Senhor. Isto é que muitos esquecem, hoje. Eles gritam: Não, assim não! Reclama, protestam, indignam-se. Mas deixam de orientar-se naquele que é o único, capaz de ensinar como é que devemos viver e servir. Também a mudança de ordens e de estruturas na igreja — mudança sempre necessária só terá futuro, se não nos entrincheirarmos em nossa posição, reclamando e protestando, dizendo como não é para ser — mas se olharmos para Cristo e se o deixarmos ser Senhor. Ele, que é a vida, nos ensina a viver. Mais ninguém. 

«Pois o próprio Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos»: Então, com este ponto de orientação, poderemos dizer com clareza: «Entre vós será assim!» O cristão não vive para ser servido — ele vive para servir e dar a sua vida. Dar a vida — não necessariamente no martírio: Não é o martírio da morte que Jesus pede de nós, embora possam voltar os tempos em que o sangue dos mártires tornará a ser «a semente da igreja». Dar a vida — isto é, não viver a vida para si mesmo, e sim, gastá-la a serviço dos irmãos. A vida do cristão neste ponto se assemelha com a vida terrena de Jesus: Ela é que nem uma vela a queimar. A vela está sendo gasta, enquanto queima. Torna-se sempre menor, gasta sua própria substância, Mas enquanto está sendo gasta, enquanto se consome, vai iluminando o ambiente. Se ficasse inteira, intacta, evitando a chama que a consome, poderia prolongar a vida, poderia esquivar-se do extremo sacrifício, Mas não foi ela feita para luzir? E enquanto a vela se vai gastando — não vai sendo proclamado o evangelho de Jesus? Não é o próprio Jesus Cristo que se espelha no serviço humilde de seus discípulos? 

Quem pudesse ser uma vela de Deus nesta vida, nada mais do que uma vela que está sendo consumida. Quem pudesse gastar sua vida, seus talentos, seu tempo .— com simplicidade de coração, sem pensar em si próprio, unicamente para servir ao Senhor! Quem pudesse gastar sua vida, dando testemunho de Jesus, fortalecendo os fracos, consolando os tristes, servindo «pelo amor de Deus». Quem pudesse? Nós podemos! Não como Tiago e João acharam que podiam. Nós podemos no poder daquele que serviu e deu a sua vida por nós. Nós podemos seguir, porque ele nos abriu caminho. 

Oremos: Senhor e Salvador. Perdoa os desejos tolos de nosso coração. Perdoa nossos sonhos de grandeza e de glória. Ensina-nos a servir. Ensina-nos a viver. Faze-nos olhar para que vejamos onde há serviços que esperam por nós. Dá-nos o amor e o ânimo, dá-nos também a humildade de que precisamos para pôr mãos à obra onde tu nos queres ver servindo. Amém.

Veja:

Lindolfo Weingärtner 

Lançarei as redes - Sermonário para o lar cristão

Editora Sinodal

São Leopoldo - RS

 


Autor(a): Lindolfo Weingärtner
Âmbito: IECLB
Testamento: Novo / Livro: Marcos / Capitulo: 10 / Versículo Inicial: 35 / Versículo Final: 45
Título da publicação: Lançarei as redes - Sermonário para o lar cristão / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1979
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Prédica
ID: 19678
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