Marcos 15.1-15(16-20)

Auxílio Homilético

24/03/1991

Prédica: Marcos 15.1-15(16-20)
Autor: Valdemar Witter
Data Litúrgica: Domingo da Paixão (Ramos)
Data da Pregação: 24/03/1991
Proclamar Libertação - Volume: XVI


O texto de Mc 15.1-15(16-20) está indicado para a pregação no Domingo de Ramos. Neste sentido julgo dispensáveis os vv. 16-20, pois eles apenas enfatizam o desfecho dado, não acrescentando algo substancial para a compreensão da perícope. Sugiro o texto na tradução da Bíblia na linguagem de hoje.

1. Introdução

Neste relato encontramos o que, na verdade, não pode ser chamado de processo legal, visto que Marcos não deixa de dizer que todos os testemunhos são falsos. Portanto, esta cerimónia é algo distinto do que parece ser. Na realidade, trata-se da liturgia do sacrifício do sistema de pureza, a qual vai aplicar ao bode expiatório a violência purificadora. Mas a vítima não é escolhida ao acaso (cf. Jo 11.50: É melhor que um único homem morra por todo o povo), ela é o corpo de Jesus, que, como Marcos demonstra, está começando a destruir o templo e tomar o seu lugar. Desta forma, os falsos testemunhos desse falso processo revelam, sem querer, a realidade da situação.

2. O processo civil — Mc 15.1-5

O relatório do processo civil diante de Pilatos é bastante breve, embora constitua uma das tradições mais antigas da história da paixão. Os quatro evangelistas, que divergem em diversos pontos, concordam nas linhas essenciais e são unânimes em apontar os príncipes dos sacerdotes como os principais atores e o messianismo político como a principal acusação contra Jesus.

1. Reúnem-se em conselho: Assim como Mt 27.1, Marcos quase nada diz sobre a reunião matinal do Sinédrio, que, no entanto, é decretada em Lucas 22.66-71. A decisão deste conselho é entregar Jesus a Pilatos. A entrega de Jesus a Pilatos deve-se ou ao fato de o Sinédrio não ter o direito de condenar ninguém à morte ou por enquadrar-se melhor nos objetivos dos membros do Sinédrio, poupando-lhes um gesto odioso diante do povo que era simpatizante de Jesus e, ao mesmo tempo, desmoralizando seus seguidores pelo suplício da cruz, que só o poder romano podia infligir.

Após a queda de Arquelau, a Judéia se converteu em província imperial romana e com isto os judeus estavam privados do direito da espada. Por isso, mesmo que eles condenassem Jesus, eram obrigados a entregá-lo ao procurador romano. Como juiz competente ele teria que novamente provar a culpa do acusado e pronunciar a sentença de acordo com o direito romano. Aí os dirigentes judeus passam a ser acusadores e entregam o Messias ao juiz pagão, que se encontrava em Jerusalém por ocasião da festa da Páscoa, uma vez que sua residência oficial era em Cesaréia.

2. O rei dos judeus? A pergunta, com um tom irónico e depreciativo, mostra que os sinedritas transferiram a declaração de Jesus (14,62) do terreno religioso para o político. Com efeito, rei dos judeus é o equivalente, laicizado e politizado, de Messias. — Sim, sou isso mesmo: a resposta comum aos quatro evangelhos é afirmativa com reserva. Jesus se declara rei, mas em sentido diferente do visado por seu interlocutor.

3. Quem condena Jesus? Mc 15.1-15 apresenta todos aqueles que condenam Jesus; ao mesmo tempo vai apontando, ainda que de maneira generalizada, os motivos desta maneira de agir:

O v. l coloca em cena os chefes religiosos — os sumos sacerdotes, os anciãos, os professores da lei e todo o Conselho. O motivo de sua atitude contra Jesus é a inveja (v. 10). A acusação que é pressuposta resulta da pergunta de Pilatos: És tu o rei dos judeus? Jesus foi, portanto, acusado de arrogar-se o título de rei messiânico, o que significa aos olhos do romano: guerrilheiro e subversivo político (cf. O Evangelho segundo Mc, p. 289). Lucas especifica mais: ele subverte o nosso povo, proíbe pagar o censo a César e se proclama Messias-rei. O sentido do silêncio de Jesus frente à justiça romana parece não ter ficado elucidado para a Igreja primitiva e para o evangelista. Possivelmente se pensou neste contexto no hino do servo de Deus (Is 53.7); mas essa referência bíblica não é explícita. Poderia ainda encerrar um desprezo aos judeus, por apresentarem acusações infundadas e caluniosas, a exemplo dos depoimentos das falsas testemunhas no tribunal judaico. Certo é que o silêncio de Jesus faz parte das características do Filho do homem em Marcos, que, incompreendido e desprezado, caluniado e odiado por pessoas, segue obediente ao Pai e toma sobre si a paixão soturna.

A convicção religiosa dos judeus era indiferente a Pilatos (um romano), por isso o Sinédrio não podia apresentar diante dele uma acusação por blasfémia contra Deus. Portanto, os sumos sacerdotes que aparecem como os acusadores, para impôr-se com a sua acusação, têm que apresentar Jesus como réu político, transferindo sua pretensão religiosa de dignidade de Messias para a esfera do político. Pelo relato de Marcos constatamos que Pilatos não encontrou em Jesus motivo que o levasse à condenação à morte; no entanto, para não colocar em risco sua posição e privilégios, permite a sentença de morte a quem julgava inocente. Trata-se, pois, de um assassinato jurídico.

3. O julgamento

Pela narração de Marcos é atribuída aos príncipes dos sacerdotes a culpa maior da condenação de Jesus. São eles que instigam o povo a exigir a soltura de Barrabás e a crucificação de Jesus. Porém isto não constitui nenhuma saída honrosa ou desculpa para Pilatos, pois houve a conivência do juiz romano. Pilatos pertence igualmente ao rol dos homens responsáveis pela morte de Jesus.

Alguns elementos importantes neste processo de julgamento encontramos nos seguintes versículos:

V. 7 — motim: Trata-se de um fato bem conhecido dos leitores, tanto c que não há necessidade de dar maiores detalhes sobre o acontecido. V. 13 — tornaram a gritar: A expressão supõe uma primeira resposta, que Marcos deixou de mencionar e é relatada pelo outros evangelistas (Mt 27.21; Lc 23.18; Jo 18.40). V. 15 depois de havê-lo açoitado: A flagelação, reservada aos escravos e por isso não aplicável aos cidadãos romanos (At 22.25), era aplicada pelo litores com o flagelo, um bastão com faixas de couro em cujas extremidades se fixavam bolinhas de chumbo ou pequenas garras metálicas ou também ossinhos. Geralmente servia de preâmbulo para a crucificação. Entregou: a frase técnica para a condenação à morte na cruz era ibis in crucem — serás crucificado. Provavelmente Marcos e os outros evangelistas empregam o verbo entregar para lembrar o texto de Isaías 53.6,l1 referente ao Servo de Javé.

Em Marcos, a ação em favor da anistia pascal parte do povo, o que certamente é mais exato do que a versão de Mt 27.17 e Jo 18.39, onde Pilatos faz a oferta por iniciativa própria.

O juiz romano nada procura na ocasião, senão ver-se livre de Jesus. Mas os sumos sacerdotes instigam a multidão a exigir a soltura de Barrabás. A ulterior pergunta de Pilatos, o que fazer com Jesus, culmina no brado: Crucifica-o. É este o único lugar no evangelho em que o povo se porta com tanta hostilidade contra Jesus; porém no caso se trata de uma massa submissa aos príncipes dos sacerdotes, e não daquela multidão que gostava de escutar Jesus no templo (12.38), e, muito menos, do povo galileu. Barrabás, o subversivo, sai livre; Jesus tem de trilhar o caminho da cruz.

4. Caminhando para a prédica

Mc 15.1-15 apresenta o círculo do poder romano dentro do qual ocorre o jogo da vida e da morte. Marcos põe em cena a organização social: o subasiatismo judeu integrado no imperialismo romano. Jesus, inteiramente silencioso (à exceção do tu o dizes, v. 2), é levado e entregue como uma mercadoria ao funcionário do grande sistema mercantil que explora ao máximo o mundo de então. Na verdade não há um processo verdadeiro, e esse direito do qual os romanos tanto se orgulhavam (cf. At 25.16: os romanos não têm o costume de condenar ninguém sem a presença de seus acusadores e sem o réu ter tido antes a oportunidade de defendei se dos crimes de que é acusado), essa justiça está evidentemente a serviço da classe dominante. Portanto, Pilatos não procura saber se Jesus é culpado de algum delito; ele está interessado é em manter o poder de César na Palestina, quer dizer, em não levantar a multidão contra ele. Seu problema é avaliar o perigo que representam respectivamente Jesus (acusado de pretender passar por rei dos judeus) e Barrabás (dirigente zelote preso durante a insurreição que deve ter acontecido no momento da entrada de Jesus em Jerusalém). É uma relação de forças que então está em jogo: Pilatos parece seguro de que Jesus é menos perigoso que Barrabás; mas os go vernantes judeus acham o contrário. Portanto, caberá à multidão decidir. Diante das circunstâncias criadas, além do fato dela depender economicamente do templo.

dirigido pelo príncipes dos sacerdotes, a multidão tende a acompanhar estes. Jesus está sozinho diante de todas estas forças que têm interesse em fazê-lo desaparecer. Dessa maneira os círculos do poder se fecharam mortalmente.

O v. 15 mostra o papel do poder romano na figura de Pilatos. Outra razão desta perseguição é uma política enganadora — Pilatos quer agradar a multidão. Revela-se que as lideranças (também religiosas) têm inveja e percebem que a bondade e a autoridade de Jesus iriam colocá-las em posição inferior na liderança do povo. Os líderes são levados pela vaidade, pelo desejo do poder e pelo culto às suas próprias personalidades. Por isso perdem a objetividade e a procura do bem comum, e enveredam pelo caminho da competição, da inveja, da destruição do outro. Também os governantes fazem tudo simplesmente em busca de uma projeção pessoal, esquecendo-se da objetividade.

Antes da morte Jesus revela-se de maneira especial. Tudo indica enfaticamente que ele é rei (w. 2,9,12,18,26), e este título é mesmo apresentado como motivo da acusação (v. 6). Jesus o aceita (v. 2), dando-lhe um sentido inteiramente novo e realizando-o de modo paradoxal: ele é rei enquanto é o servo silencioso e sofredor (Is 53 e SI 38.12-14). Assim esta narrativa aparece como a revelação do verdadeiro sentido da realização de Jesus: ele reina, não porque se impõe, mas porque dá a vida que vem da obediência e da doação de si aos outros.

5. Sugestões para a prédica

1. Sugiro, no início, contextualizar os acontecimentos do Domingo de Ramos. O povo que está à espera de Jesus está cheio de esperança. Esperança de vida nova; esperança de sociedade nova.

2. O poder romano e os sumos sacerdotes invertem esta situação de esperança e tentam colocar o povo contra Jesus e sua proposta de vida diferente. Aqui creio que não temos maiores dificuldades em atualizar o texto com dados da nossa realidade. Pessoas e grupos tentam sufocar as esperanças que brotam através das mais diferentes formas: os meios de comunicação de massa que tentam desviar as atenções; a pressão direta em cima dos movimentos populares; a conquista ou então a eliminação das lideranças do povo (líderes sindicais, de associações, etc.).

3. No jogo do empurra-empurra sobre o que fazer com Jesus cada um tenta preservar uma boa imagem (Pilatos e sumos sacerdotes). Também aqui não é diferente em nossa realidade. Atitudes irresponsáveis e inconsequentes tentam ser encobertas com uma falsa imagem. (No momento em que estou escrevendo estamos ainda no início do Brasil Novo, onde, de todas as formas, se tenta mostrar uma boa imagem do presidente — andar de bicicleta; fazer rancho no supermercado; botar algum pequeno empresário na cadeia è, como estamos às vésperas da Copa do Mundo, ele tem que ser um bom desportista.) Enquanto isto, estamos no maior arrocho salarial da história; a pequena propriedade se inviabiliza e as grandes oligarquias aplaudem por detrás das câmaras.

4. Devemos apontar para Jesus, o rei, que aceita este título realizando-o de modo paradoxal. Ele é rei enquanto é o servo silencioso e sofredor. Ele reina não porque se impõe a todo custo, mas porque dá a vida que vem da obediência a Deus e da doação de si aos outros.

6. Subsídios litúrgicos

1. Confissão de pecados: Senhor Jesus Cristo, chegamos humildemente diante de ti para pedir perdão de nossos pecados. Perdoa-nos por sermos acomodados mesmo sabendo que a injustiça continua tirando a vida de pessoas que são criação de Deus como nós. Perdoa-nos quando procuramos achar desculpas para não assumir nossa missão. Ajuda-nos para que o teu perdão nos fortaleça na fé e que esta te e coloque nossa vida à disposição de ti e de teu povo. Pelo nossos erros e falhas escuta, Senhor, quando pedimos: tem piedade de nós.

2. Oração de coleta: Estamos hoje no Domingo de Ramos. Lembramos os acontecimentos da entrada de Jesus em Jerusalém. O povo estava cheio de expectativas e esperanças. Esperança por coisa nova, por vida nova e sociedade nova. Pedimos que estejas entre nós com o teu Santo Espírito para que a tua palavra nos fortaleça e anime na concretização desta esperança. Que sejamos sempre instrumentos trans formadores em tuas mãos. Amém.

3. Assuntos para a oração final: Agradecer pelo momento de comunhão e culto; orar por todos os que servem à vida, para que Deus os fortaleça na fé; pedir pá rã que sejamos fortalecidos para a vivência concreta da vontade de Deus, para que as comunidades estejam voltadas para o serviço junto aos mais necessitados; interceder por todos aqueles que têm esperança por uma vida e sociedade melhor para que não desanimem, mas continuem firmes em sua caminhada; pedir por salários justos; por uma política agrícola voltada aos interesses sociais da grande massa de pequenos agricultores e dos sem-terra; pela recompensa digna e justa de todo trabalho honesto; pedimos pelo grupos de estudo nas comunidades; pelas diversas formas de organização das pessoas que buscam os direitos e a justiça.


Autor(a): Valdemar Witter
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Quaresma
Perfil do Domingo: Domingo de Ramos
Testamento: Novo / Livro: Marcos / Capitulo: 15 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 15
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1990 / Volume: 16
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 13285
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1Coríntios 1.30b
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