Marcos 4.35-41

Auxílio Homilético

16/06/1991

Prédica: Marcos 4.35-41
Leituras: Jó 38.1-11 e 2 Coríntios 5.14-17
Autor: Paulo A. Daenecke
Data Litúrgica: 5º. Domingo após Pentecostes
Data da Pregação: 16/06/1991
Proclamar Libertação - Volume: XVI

1. Considerações gerais

Entre as várias traduções possíveis e existentes, baseio-me, para esta reflexão, na tradução de Almeida.

O presente texto foi trabalhado até certo ponto com confirmandos, jovens e OASE, trazendo enfoques diversos e que aconteceram em momentos específicos.

Vamos nos ater ao texto que faz parte do conjunto de milagres de Jesus. Faz ponte entre as parábolas e os demais milagres de curas e outros sinais que vão se sucedendo.

2. Descobrindo o texto

Entre os confirmandos do congresso paroquial, final do 2° ano, a respeito do texto, eles destacam a tranquilidade de Jesus e o medo dos discípulos. Para eles o temporal é descrito como a inflação, o sofrimento das pessoas, os problemas familiares. Por outro lado apontaram para a necessidade de ter coragem para enfrentar as dificuldades e sem a presença de Deus isto não é possível.

Os jovens que estudaram o texto procuraram interpretar e entendê-lo na perspectiva de que a crise atual é o grande temporal; a insegurança que o governo provoca em todos os sentidos: arrocho salarial, falta de apoio à agricultura, grande defasagem entre preços; venda de produtos por baixíssimo valor e compra de artigos com preços elevadíssimos. Não adianta ficar parados e esperar. É preciso fazer algo (discípulos vão a Jesus)! O milagre, a mudança é possível. Será que vemos e cremos nestes sinais ainda hoje? Os discípulos, parece, não creram! Ficaram encurvados, admirados.

Na OASE surgiram outras motivações, tais como: no momento do temporal o texto só fala do barco em que Jesus estava com os discípulos: Jesus dorme sem se preocupar; os discípulos ficam apavorados porque não têm fé; os discípulos oram ao pedir ajuda de Jesus;

Hoje o mar é o mundo; o barco a Igreja; o temporal é o Plano do Collor; as ondas são as forças que estão defendendo o plano e fazem perecer a vida das pessoas; é o engano e a ilusão que o governo e os meios de comunicação forçam o povo a aceitar.

Jesus tem poder. É possível vencer as dificuldades, mas é preciso ter fé e fazer alguma coisa. É preciso orar e agir sem esperar; o temporal é agora, deve ser enfrentado e vencido agora.

3. Reflexões que batem à porta

Sinais, milagres são uma constante na vida de Jesus. A sua prática se caracterizava por curas e milagres. Nos sinóticos, bem como no NT todo, estes acontecimentos são caracterizados com três conceitos: teras — sinal divino que admoesta; evento extraordinário que aponta para Deus; semeion — todo acontecimento que aponta para Deus e especialmente para a sua disposição de auxiliar — sinal; dynamis, é o poder de Deus que forma a história.

Portanto, os milagres de Jesus são compreendidos como exteriorizações do poder de Deus, que provoca salvação na história e que conduz rumo à salvação.

Jesus relaciona a sua atividade milagrosa com a fé. Todos os sinais através de milagres e curas acontecem fundamentados na fé ou para despertar a fé: Vendo-lhes a fé, Jesus disse ao paralítico... (Mc 2.5.) Ó mulher, grande é a tua fé... (Mt 15.28.) Filha, a tua fé te salvou. (Mc 5.34.) Então lhes disse: Por que sois assim tímidos? Como é que não tendes fé? (Mc 4.40.)

Por outro lado Jesus diz: Crede no evangelho (Mc 1.15); O que crer e for batizado será salvo (Mc 16.16); e desafia a incredulidade: E admirou-se da incredulidade deles. (Mc 6.6.)

Os milagres de Jesus apontam para a dimensão do reino de Deus. Eles são a possibilidade e abrem uma nova perspectiva de vida e de relacionamento; eles são desafiadores e integrativos, não excludentes; tanto os milagres que se realizam com as pessoas, curas e expulsões de demônios, quanto os que realiza sobre a natureza estão à serviço do anúncio da boa nova do reino de Deus.

A partir do texto em análise pode-se referir, em relação ao mar e as águas, ao AT, em que são considerados como os símbolos dos poderes sinistros do caos e da morte. Jesus repreende severamente o vento e ordena ao mar: Acalma-te! Emudece! (Mc 4.39.) Ele trata o lago e o vento como potências demoníacas; e, com sua ação sobre elas, Jesus demonstra seu poder e arrebata as forças malignas, que querem fazer perecer os ocupantes do barco, Jesus e os discípulos.

A questão do milagre e da fé está hoje sobremaneira sendo negativamente explorada: até mesmo de forma abusiva. Diante disto milagre e fé perdem conteúdo, esvaziam o seu potencial libertador, pois em si só carregam o sentido de transformação, faz parte da sua essência a defesa da vida libertada.
Nós cristãos não podemos entender o milagre senão como intervenção de Deus na vida, na história. Onde parece não haver mais chance alguma de vitória, ele manifesta-se com misericórdia e graça: Deus atua na vida e na história sempre em favor da sua criação, em favor da vida dignificada. Milagre individual, que, no entanto, sempre tem relação ou uma consequência coletiva. Ou mesmo milagre coletivo: o milagre da travessia do Mar Vermelho no processo de libertação do povo de Israel do cativeiro egípcio; a intervenção de Deus na dádiva do maná e das codornizes no deserto; diante do desespero do povo. Deus age.

Por isto, usar abusivamente a fé de um povo é, no mínimo, demonstração de prepotência, de impotência. Onde foi parar a vida do povo em nosso país com o famoso milagre brasileiro dos anos 70? Governantes exploram a psique popular para implantar um regime de podridão económica e social; através de elementos religiosos (milagre e fé) incutiram na nação uma submissão escravocrata! O que restou deste afã ilegítimo, criado e moldado não às necessidades reais de vida digna, mas aos caprichos e interesses dos grupos dominantes? Uma paixão por um Estado falido que não milagrosamente, mas desgraçadamente corrompe ideais e sonhos de uma vida libertada, em uma síndrome aguda de morbidade e desalento diante de imposturas doentias e sangrentas. Este é o milagre dos desumanos criados à imagem de falsários, defensores de uma ideologia, estrutura e prática opressiva e mortivirótica.

Além do uso abusivo e do desrespeito que o Estado emite na questão da fé, há ainda as formas e práticas comerciais que algumas correntes religiosas experimentam, como é o caso de curas e milagres praticados por seitas e igrejas pentecostais, ludibriando a mente e a confiança das pessoas envolvidas. É preciso questionar estas práticas condenáveis e que esvaziam todo o sentido e profundidade dos milagres efetuados por Jesus Cristo, pelos discípulos e apóstolos.

Os milagres bíblicos carregam consigo a dimensão do reino de Deus. Eles são uma demonstração do poder de Deus e que aponta para a possibilidade de transformação.

O texto sobre o qual estamos refletindo (Mc 4.35-41) ajuda a nos darmos conta de que a dubiedade não facilita, antes atrapalha. Jesus Cristo critica os discípulos diante da falta de fé. Ainda assim o milagre acontece. O mar revolto e o vento de tempestade são acalmados. Diante da realidade de morte ou ameaça de destruição podemos perceber um processo de reação contra a situação de mal existente, que pode ser de brusco ou progressivo rompimento.

Vivemos numa realidade caótica de ondas revoltas e ventos agitadíssimos sócio-econômico-político e religioso, que estão a confundir e a deixar apavorado mesmo quem tem esperança e fé. Esta tempestade estraçalha, rebenta — ou tenta fazê-lo — os barcos e naus, vidas de homens e de mulheres, que querem atravessar o lago, hoje.

O objetivo é um só: sair do sufoco, da canseira, da agitação de um lado, para, no outro lado, haver descanso, haver possibilidade de fortalecer e animar o corpo enfraquecido.

É no meio do caminho que se manifesta o vento destruidor que vem da direita. É esta a impressão que se tem ao ler o texto: é o que sentimos concretamente na estrutura social hoje.

Os que estão a caminho de um momento novo na vida precisam enfrentar e descobrir meios para quebrar a ação do vento maldoso que provoca o pânico em quem não está ainda maduro, consciente.

Lembremo-nos do início da nossa reflexão: o lago — mundo, sociedade; barco — os que estão a fim de mudar; o mar agitado, o vento temporal — realidade sofrida, o plano Collor, as forças destruidoras da vida.

Os discípulos e Jesus estão enfrentando uma barra pesada, especialmente os discípulos que estão apavorados em meio ao caos. Mas justamente eles, que estavam sempre com Jesus? E nem estavam sozinhos, pois Jesus estava com eles no bar co! Mesmo depois da ação de Jesus eles permanecem como que inertes e em dúvida, se questionando: quem é este que faz parar o vento e o mar agitado? Quem sabe se questionam: será que isto é possível?

Não é esta a nossa situação como Igreja? O texto ajuda a nos confrontarmos com a nossa falta de fé, por um lado; e, por outro lado, com a questão do uso abusivo de fé que se tem. Charlatanices existem! Comercializar a fé é específico e característico de muitas filosofias, seitas e grupos religiosos.

A fé não é nossa! É dom de Deus, é graça concedida. Crer no milagre é confiar que ele é possível acontecer. Não os nossos milagres criados para satisfazer nosso ego, nossa auto-suficiência; mas o milagre como ação de Deus na história, que quer nos fazer instrumentos seus, sempre, para manifestar o seu poder de mudança, de transformação! O grande milagre hoje continua sendo a defesa da integridade e dignidade da vida criada por Deus, em seu todo e que envolve o aspecto econômico-político-religioso-social. Vamos fazer a nossa parte sem medo de ser feliz!

4. Sugestão para a liturgia

Intróito: Ninguém há semelhante a ti, ó Senhor; tu és grande, e grande é o poder de teu nome. (...) O Senhor fez a terra pelo seu poder; estabeleceu o mundo por sua sabedoria, e com sua inteligência estendeu os céus (Jr 10.6,12.)

Confissão dos pecados: Ó Deus, tu que criaste o céu e a terra; desta forma e organizaste o caos existente; deste vida às plantas, aos animais e a todos os seres viventes, nós te pertencemos. Somos parte do teu povo reunido em culto a ti. Expressamos a ti a nossa falta de fé e confiança. Perdoa-nos, Senhor!
Somos um povo aflito que pouco crê em mudanças e por isto nos acomodamos em meio à realidade tensa e nervosa que a estrutura social formada por muitos degraus impõe sobre nós. Perdoa-nos, Jesus!
Os fortes ventos e o mar agitado visíveis na miséria, no corpo enfraquecido, na falta de alimento, na canseira e mal-estar de mulheres e homens acusam a nossa falta de ação, denunciam a nossa falta de compromisso com a proteção e a defesa da integridade da vida criada. Perdoa-nos, Senhor!

Absolvição: Que é a vossa vida? Sois apenas como neblina que aparece por instante e logo se dissipa. Em vez disso, devíeis dizer: Se o Senhor quiser, não só viveremos, como faremos isto ou aquilo. (Tiago 4.14-15.) Ou: Importa que todos nós compareçamos perante o tribunal de Cristo para que cada um receba segundo o bem ou mal que tiver feito por meio do corpo. (2 Co 5.10.)

Oração de coleta: Senhor, sê conosco com teu Espírito Santo. Alimenta-nos na fé em ti com o ouvir e praticar a tua palavra. Anima-nos a coletivamente vencermos os sinais de ameaça e de morte entre nós. Fortalece-nos com a tua presença para não temermos enfrentar e vencer como comunidade cristã as imposições e opressões causadas pelo poderosos contra os judiados e enfraquecidos. Sê nossa luz nas trevas. Amém.

Leituras bíblicas: Jó 38.1-11, 2 Coríntios 5.14-17.

Oração final: Fazer uma recolha de petições entre a comunidade e interceder comunitariamente. Lembrar situações específicas do momento e que carecem da intercessão da comunidade.


Autor(a): Paulo A. Daenecke
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 5º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: Marcos / Capitulo: 4 / Versículo Inicial: 35 / Versículo Final: 41
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1990 / Volume: 16
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 14051
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Muitos bens não nos consolam tanto quanto um coração alegre.
Martim Lutero
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