Marcos 6.14-29

Auxílio Homilético

15/07/2012

Prédica: Marcos 6.14-29
Leituras: Amós 7.7-15 e Efésios 1.3-14
Autor: Erní Walter Seibert
Data Litúrgica: 7º. Domingo após Pentecostes 
Data da Pregação: 15/07/2012
Proclamar Libertação - Volume: XXXVI

1. Introdução

A história que o texto apresenta é a morte de João Batista. Mas o contexto em que essa história é contada não é o contexto cronológico da morte de João Batista. Não se sabe exatamente quanto tempo antes da narrativa dessa história ocorreu a morte de João Batista. Os discípulos de Jesus haviam saído a pregar. Eles haviam feito muitos sinais e milagres. Todos esses acontecimentos, mais os milagres que Jesus havia feito, chegaram aos ouvidos de Herodes. Então Herodes se lembrou de que ele havia mandado matar João Batista. Herodes liga os acontecimentos da morte de João Batista àquilo que ele agora estava ouvindo de Jesus e seus discípulos. Ele pensa que, talvez, Jesus fosse João Batista ressuscitado. Herodes quer conhecer Jesus. Na verdade, o texto começa a preparar a transição do ministério de Jesus da Galileia para Jerusalém. Ele se encaminha para a fase final de seu ministério, quando ele enfrentaria sofrimento e morte.

Vendo as perícopes deste domingo (Am 7.7-15 e Ef 1.3-14), elas nos lembram, por um lado, as dificuldades pertinentes ao anúncio da mensagem de Deus. Por outro lado, especialmente a epístola mostra-nos como o anúncio dessa mensagem é para louvor da glória de nosso Deus. Foi para que a boa notícia existisse que Jesus morreu e ressuscitou. Anunciar a vontade de Deus e a boa-nova da salvação leva, muitas vezes, a sofrimento e morte.

2. Exegese

O texto propriamente conta-nos como a morte de João Batista causou uma profunda impressão na mente de Herodes. Herodes havia cometido uma grande injustiça, e isso não lhe saía da mente. O texto conta-nos, em detalhes, vários aspectos da vida do rei, da corte e do povo.

Primeiramente, ele nos fala de detalhes da vida familiar do rei. Herodes, que no caso é Herodes Antipas, tetrarca da Galileia, havia casado com a mulher de seu meio-irmão Filipe. Pela lei dos judeus, isso era proibido. Mesmo assim, o rei casou. Por que as pessoas erram, mesmo sabendo que estão cometendo um erro? Por vezes, as pessoas sentem-se acima da lei. Outras vezes, elas são envolvidas por situações da vida das quais não conseguem sair. Governantes que se sentem acima da lei e acham que não a precisam cumprir existem até os nossos dias. O texto não diz por que Herodes casou com a mulher de seu irmão. Mas tanto ele como sua mulher Herodias sabiam que isso estava errado. Mesmo assim, eles se casaram.

Outro aspecto que o texto nos mostra são a vida e a pregação de João Batista. Um aspecto da vida de João Batista que o texto apresenta era seu comportamento. João era reconhecido como homem bom e temente a Deus. O rei, inclusive, gostava de ouvi-lo, mesmo sabendo que João apontava seus erros. A pregação dura da lei não precisa ser feita de maneira que o pecador denunciado se sinta rejeitado ou repelido. É certo que Herodias nutria um ódio mortal por João, mas isso dizia mais da personalidade dela do que da conduta e pregação de João Batista.

O precursor de Jesus também era corajoso. Não teve medo de denunciar o erro do governante, do poderoso. A pregação de João não colocava panos quentes sobre uma situação errada. O erro era denunciado. A ferida tinha de ser limpa, e isso implicava dor. Tratar do pecado não é coisa simples e fácil.

A história bíblica também nos mostra que a ocasião propícia para a prática do mal facilita a execução de um crime. A ocasião para Herodias executar seus planos de eliminação de João Batista é descrita com riqueza de detalhes. O rei estava de aniversário. Foi celebrado um banquete. No banquete estavam presentes convidados ilustres. O orgulho do rei estava em jogo. Ele estava diante de pessoas poderosas, ante as quais demonstrar poder podia ser algo desejável. A filha de Herodias faz uma dança especial diante do rei e dos convidados. O rei quer mostrar que gostou da dança e que tem poder. Herodias pede a cabeça de João Batista. O rei fica constrangido em não atender o pedido. Deixar de atender o pedido da dançarina podia parecer fraqueza. Como resultado da situação criada, João Batista é executado.

Pois essa história da morte de João Batista é contada no evangelho, quando lembra que os discípulos de Jesus voltaram de uma jornada de pregação que causou grande impressão na opinião pública. Herodes lembra da morte de João Batista. Jesus estava indo para o auge de seu ministério, para o tempo mais difícil que iria enfrentar. A morte de João Batista antecipa o que aconteceria a Jesus. Sofrimento e até a morte acompanham a tarefa da pregação ao longo da história do cristianismo. São muitos os exemplos de pessoas que sofreram perseguição e morte porque denunciaram poderosos e anunciaram o reino de Deus.

O que o texto pode dizer aos cristãos de hoje? Que situações semelhantes o cristão enfrenta hoje em sua tarefa de testemunhar?

3. Meditação

Sem dúvida, o tema para o qual o texto bíblico aponta é a pregação da Palavra. Pregar a Palavra significa anunciar os desígnios de Deus. Significa falar sobre o problema humano, que pode ser designado como transgressão da lei ou pecado, e também significa falar da vida e da obra de Jesus Cristo, aquele que venceu o pecado e oferece nova oportunidade de vida ao ser humano.

O primeiro aspecto disso aparece no versículo 14: “O rei Herodes ouviu falar de tudo isso...” Os versículos anteriores apontam para o que significa “tudo isso”. Jesus ensinava nos povoados (Mc 6.5). Jesus envia seus discípulos. Os discípulos anunciam a mensagem de Deus. Sua mensagem era uma mensagem que convidava ao arrependimento (Mc 6.6-12). Fatos extraordinários acompanham a pregação.

Discípulos de Jesus são até hoje aqueles que o Senhor convida para anunciar sua mensagem. Faz parte da missão de um discípulo de Jesus participar dessa missão. Deus não abandona seus discípulos nessa missão.

O segundo aspecto que o texto deixa claro é que a pregação da Palavra produz efeitos. Herodes ouviu falar desses efeitos. Ele, que conheceu a pregação de João e inclusive ordenou que ele fosse morto, ficou impressionado com a notícia que lhe chegava do anúncio da Palavra e dos efeitos dessa pregação. Sua consciência não o deixava sossegado.

A pregação da Palavra não é algo sem sabor e sem consequências. Ela sempre produz resultados. Ela não volta vazia. E o que dizer, então, de tantas pregações que são feitas e que, aparentemente, não têm efeito? Igrejas, em várias partes do mundo, estão vazias. Em muitos lugares, o cristianismo parece que perdeu o vigor. O que estará acontecendo?

Sem dúvida, é importante considerar o conteúdo da pregação. Não é qualquer pregação que é a pregação da mensagem de Deus. É preciso ser fiel a Deus. A promessa que Deus dá é que sua Palavra não volta vazia. Ser fiel a Deus, à sua Palavra, é essencial. Por outro lado, não devemos ficar com medo das consequências da pregação. Se ela trouxer sofrimento, e até mesmo a morte, seremos coparticipantes dos sofrimentos de Cristo. E isso, em vez de desonra, é honroso para um discípulo de Cristo. Muitas vezes, a pregação da Palavra põe em risco o pregador.

O texto também nos mostra que a pregação da Palavra denuncia pecados. Deus é santo. Sua vontade é santa. Os pecados precisam ser denunciados. Devem ser denunciados com amor, mas devem ser denunciados. Essa pregação da lei de Deus como juízo de Deus é algo que precisa acontecer na pregação. Muitas vezes, a pregação da lei parece apenas a pregação de orientações gerais, sem consequências eternas. Estar fora dos caminhos do Senhor é estar no caminho da morte. Essa pregação da lei provoca a ira. Foi o que aconteceu com Herodias. Mas ela visa ao arrependimento e à salvação das pessoas. Foi essa a intenção de João Batista ao denunciar a situação de pecado que o rei vivia.

Coragem e amor devem acompanhar a pregação da lei. Coragem para não ficar constrangido e sem ação. Coragem também é necessária para andar nos caminhos do Senhor. Se Herodes e Herodias tivessem a coragem de andar nos caminhos do Senhor, não teriam andado em muitos dos caminhos que eles percorreram. Amor é necessário para, mesmo em situação de risco, buscar o pecador.

A pregação da Palavra visa ao arrependimento. Essa ênfase é muito forte no texto. O que João Batista pretendia não era apenas mostrar o erro. Ele pretendia a salvação do rei e de sua família. Foi a mesma ênfase que Jesus deu ao ensinar os discípulos. Eles deveriam pregar o arrependimento. Arrependimento significa meia-volta. Significa mudar de direção. Significa começar a andar no caminho certo.

Por isso a pregação da Palavra visa à novidade de vida. Nova vida é o resultado do arrependimento e da fé em Jesus. Deus dá a todos uma nova oportunidade. Esse é o objetivo principal. Não é destruir, mas levantar, construir, edificar. Novidade de vida é o resultado da pregação da palavra de Deus.

Finalmente, o texto nos indica que a pregação da Palavra aponta para o sofrimento, a morte e a ressurreição de Cristo. João Batista foi morto. Jesus estava se dirigindo para o final de seu ministério. Ele também seria morto. Mas ele não foi vencido pela morte. Ele ressuscitou. Ele trouxe vida eterna para todos.

4. Imagens para a prédica

Uma imagem que pode ser explorada na pregação encontra-se no mundo da comunicação. Comerciais veiculados pelos meios de comunicação (rádio, TV, jornais/revistas etc.) visam gerar um comportamento no público-alvo. Comerciais de carros esperam que as pessoas comprem o carro anunciado. Há também mensagens dúbias. Em carteiras de cigarros, vê-se um design muito bonito e, concorrendo com a mensagem de prazer, está um anúncio de que fumar faz mal à saúde. Qual das duas mensagens é compreendida e seguida pela pessoa que vê a carteira de cigarros?

Por outro lado, devemos pensar a respeito do que Deus espera que seus discípulos comuniquem. Qual o objetivo da pregação? O que as pessoas captam da pregação em nossos dias?

5. Subsídios litúrgicos

No culto, uma parte importante da liturgia é chamada “da palavra”. Ali a Bíblia é lida e o sermão anunciado. Será que as pessoas que participam do culto percebem essa dinâmica? O que poderia ser melhorado ou enfatizado na estrutura do culto, para que o anúncio da Palavra ficasse mais marcante? Poderiam ser usados mais recursos técnicos, como data-show, vídeos, internet? Ou deveria haver mais ênfase no conteúdo da mensagem, para que o anúncio do juízo de graça ficasse mais evidente?

De qualquer forma, a pregação da Palavra vai acompanhar a igreja até o final dos tempos. Que Deus abençoe sempre essa pregação.

Bibliografia

BÍBLIA de Estudo Almeida. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil.
BÍBLIA de Estudo Nova Tradução na Linguagem de Hoje. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2010.
GRUNDMANN, Walter. Das Evangelium nach Markus. Berlin: Evangelische Verlagsanstalt, 1977.
 


Autor(a): Erní Walter Seibert
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 7º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: Marcos / Capitulo: 6 / Versículo Inicial: 14 / Versículo Final: 29
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2011 / Volume: 36
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 25571
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Porque nem eu nem tu jamais poderíamos saber algo a respeito de Cristo ou crer nele e conseguir que seja nosso Senhor, se o espírito não o oferecesse e presenteasse ao coração pela pregação do Evangelho.
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