Marcos 7.24-37

Auxílio Homilético

09/09/2012

Prédica: Marcos 7.24-37
Leituras: Isaías 35.4-7a e Tiago 2.1-10 (11-13), 14-17
Autora: Pedro Kalmbach
Data Litúrgica: 15º. Domingo após Pentecostes
Data da Pregação: 09/09/2012
Proclamar Libertação - Volume: XXXVI


1. Introdução

Em geral, todo o capítulo 35 de Isaías é um canto de esperança e um convite para celebrar antecipadamente a alegria da libertação (J. S. Croatto). O cumprimento do anúncio e da promessa de um tempo diferente, no qual os cegos poderão ver e os surdos poderão ouvir (Isaías), irrompe finalmente de uma maneira radical por meio da atuação salvífica e curadora de Jesus. Esse cumprimento não se restringe tão somente a um povo, mas abarca todas as nações, todas as pessoas sem acepção e, de maneira especial, os pobres e os oprimidos, aquelas pessoas que são marginalizadas na sociedade. A presença e a proximidade de Deus convidam a confiar, a não desanimar, a crer em sua promessa e, por sua vez, chamam a atenção para a necessidade de não discriminar, de não fazer diferenças entre as pessoas (Tiago).

2. Marcos 7.24-37

O texto apresenta dois relatos: a) sobre a mulher siro-fenícia (7.24-30); b) a cura de um surdo-mudo (7.31-37).

A respeito do primeiro relato, diversos autores (entre eles V. Taylor) concordam que a principal intenção do texto tem a ver com a atitude de Jesus frente aos gentios. O relato da mulher siro-fenícia teria, segundo esses autores, como objetivo mostrar aos judeu-cristãos que também para os pagãos a fé abre caminho a Jesus. Na cena relatada, mostra-se uma mulher estrangeira muito preocupada com sua filha, que está possuída de um espírito imundo (não se especifica qual espírito). Sua preocupação leva-a a ultrapassar barreiras e a rogar aberta e publicamente a Jesus que retire o demônio de sua filha. Jesus, que estava buscando um lugar tranquilo porque queria e necessitava estar a sós (V. Taylor), responde da seguinte maneira: “Deixa primeiro que se fartem os filhos, porque não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos” (v. 27). Frente a essa resposta, a mulher não se dá por vencida. Ela insiste e mostra-se firme em seu pedido: “Sim, Senhor; mas os cachorrinhos debaixo da mesa comem das migalhas das crianças” (v. 28). A mulher mostra estar de acordo com a expressão de Jesus, a saber, ela não nega a veracidade de suas palavras, mas as completa. E Jesus ordena à mulher para voltar à sua casa, assegurando-lhe que sua filha está livre do demônio.

Na segunda narração (v. 31-37), apresenta-se o relato de um milagre. Segundo V. Taylor, é incontestável que, quando o mesmo foi contado pela primeira vez, o narrador tinha em vista o texto de Isaías 35.5s, entendendo que, no agir curador de Jesus, estavam se completando as promessas anunciadas pelo profeta.

A ação curadora de Jesus refere-se basicamente a dois aspectos, se for considerada a enfermidade que o homem tinha. Pessoas que sofrem de surdez e gagueira são pessoas que, muitas vezes, se encontram com dificuldades para a comunicação com outras pessoas, dificuldades que podem levar à exclusão da comunidade. O fato de encontrar-se diante de sérias dificuldades de comunicação leva que a surdez e a gagueira adquirem uma dimensão social. A cura não se reduz, então, simplesmente à restituição das funções corporais e orgânicas, mas também diz respeito à abertura para novas possibilidades e capacidades de comunicação e de convivência.

Chama a atenção o fato de que Marcos transporta a cura do surdo-mudo para a região de Decápolis, a leste do Jordão, e que localiza seu relato logo após a narração sobre a mulher siro-fenícia. É provável que o autor tenha a intenção de mostrar que a mensagem da salvação trazida por Jesus também está aberta ao mundo pagão. Assim como a mulher estrangeira (siro-fenícia) se mostra aberta à proclamação de Jesus, assim o surdo-mudo é libertado de seu “recolhimento” e está “aberto” à salvação de Deus trazida por Jesus. Com isso o surdo-mudo estaria representando o mundo pagão, que se abre à fé em Deus.

3. Meditação

Os dois relatos apresentam pessoas que sofrem de algum mal: a filha da mulher siro-fenícia está possuída por um demônio e o surdo-mudo. Ambas as pessoas são libertadas de sua dor pela ação curadora de Jesus, que atua a partir do pedido e da intercessão de outras pessoas. No caso da filha da mulher siro-fenícia, é a mãe quem roga a Jesus por sua filha e que, frente à primeira negativa de Jesus, não desiste. No caso do surdo-mudo, não está especificado quem são as pessoas que o trouxeram a Jesus, rogando que impusesse sua mão sobre ele. Creio que esse aspecto é interessante para levar em conta na prédica: duas pessoas são curadas, libertadas do mal que as afligia a partir da intercessão de outras pessoas perante Jesus, que age curando-as.

A mulher siro-fenícia foi buscar Jesus, jogou-se a seus pés (sinal de respeito e de profunda dor) e começou a rogar-lhe que tirasse o demônio de sua filha (no texto paralelo de Marcos, a mulher grita pedindo misericórdia a Jesus, diante do qual reagem os discípulos de Jesus pedindo que ele, Jesus, mande-a embora). Diante disso, Jesus responde com uma réplica (v. 27). Sem dúvida, a mulher não desiste; ela não nega as palavras de Jesus – que não é bom pegar o pão das crianças e jogá-lo aos cachorros – e completa-as afirmando que mesmo os cachorros debaixo da mesa comem as migalhas que as crianças deixam cair. Marcos (e também Mateus) apresenta uma mãe profundamente preocupada e desesperada por sua filha e um Jesus que se compadece no final.

Na história do surdo-mudo, observamos que alguém é levado/apresentado a Jesus. As pessoas que levam o surdo-mudo pedem a Jesus que coloque sua mão sobre ele (a saber, que o cure). E Jesus colocou-a ao lado e, estando a sós com ele, colocou seus dedos em seus ouvidos e tocou sua língua com saliva. Jesus age a partir do pedido, da intercessão das pessoas que trouxeram o surdo-mudo. O fato de tê-lo colocado ao lado para estar a sós com ele possibilita a abertura (é muito difícil que alguém se abra estando em meio a uma multidão; para isso, muitas vezes, é necessário estar a dois para conversar, para escutar e estar em silêncio). Jesus procede de uma maneira bastante corporal: colocar os dedos nos ouvidos e tocar sua língua com saliva.

O pedido que fazem a mulher siro-fenícia e as pessoas que apresentam o surdo-mudo a Jesus é um pedido que inclui movimento, traslado, petição e que não desanima diante da primeira negativa. As pessoas que intercedem comprometem-se com o corpo frente às demais pessoas que estão com Jesus e de alguma maneira se expõem ao engano.

4. Imagens para a prédica

Compartilho algumas reflexões de Madre Teresa de Calcutá, que, seguramente, podem ajudar e inspirar a elaboração da mensagem para este domingo:

“Penso que hoje o mundo está de cabeça para baixo e está sofrendo tanto porque há tão pouco amor no lar e na vida da família. Não temos tempo para nossas crianças, não temos tempo para nosso próximo, não há tempo para poder desfrutar da companhia”;

“O amor começa no lar, o amor vive nos lares, e essa é a razão pela qual há tanto sofrimento e tanta infelicidade no mundo de hoje... Todo o mundo parece estar sob essa terrível pressa, ansioso por desenvolvimentos e riquezas grandiosas, de tal forma que as crianças têm muito pouco tempo para seus pais. Os pais têm muito pouco tempo para elas, e no lar começa a destruição da paz no mundo”;

“A mais terrível pobreza são a solidão e o sentimento de não ser amado”;

“A maior enfermidade hoje em dia não são a lepra nem a tuberculose, mas o sentimento de não ser reconhecido”;

“Existe mais fome no mundo por amor e por ser estimado do que por pão”;

“Algumas vezes, pensamos que a pobreza é somente ter fome, frio e não ter um lugar onde dormir. Mas a pobreza de não ser reconhecido, amado e protegido é a maior das pobrezas. Devemos começar em nossos próprios lares a remediar essa classe de pobreza”;

“Se tu julgas as pessoas, não tens tempo para amá-las”;

“Sentir-se não reconhecido, não amado, não protegido, esquecido por todos, penso que é uma fome muito maior, uma pobreza muito maior, que a da pessoa que não tem nada para comer”.

5. Subsídios litúrgicos

Interessante e importante é assegurar a participação no culto daquelas pessoas que querem participar, mas que por alguma deficiência não podem chegar por seus próprios meios (pessoas em cadeiras de roda, pessoas cegas etc.). Essencial é buscar formas de inclusão e participação para todas as pessoas. Para isso, é necessário que pessoas da comunidade estejam dispostas a colaborar ativamente. Também é necessário pensar e, se necessário, ambientar o espaço litúrgico. Parece-me importante assegurar que o espaço permita às pessoas todas sentirem-se cômodas e que permita o encontro entre irmãs e irmãos na fé. Como sinal e gesto de inclusão e de comunhão, pode-se convidar à saudação/abraço da paz no momento da liturgia que se achar apropriado.

Ideias para a oração de intercessão:

Deus de amor e de entrega,
oramos pelas vítimas de toda forma de violência,
pelas pessoas que sofrem;
pelas vítimas da guerra, pela fome e pelas enfermidades.
Oramos pelas vítimas da injustiça de tão variadas formas,
pelas pessoas sem teto e sem esperança,
pelas pessoas que caminham pelas ruas e dormem sob elevadas ou na sujeira.
Oramos pelas vítimas desse sistema e modelo econômico que mata e destrói;
pelas pessoas sem trabalho e sem recurso
e pelas pessoas que perderam a autoestima.
Oramos pelas vítimas de nossos preconceitos
e pelas pessoas indefesas que sofrem enganos e dor.
Deus de amor e de entrega,
cada um e cada uma te falam em voz alta ou em voz baixa
o nome de pessoas por quem pedem: …
Estende tuas mãos sobre elas, dá-lhes a tua presença,
tua paz e teu amor.
Deus de amor e de entrega,
teu amor é mais forte do que nossas dores,
mais forte ainda do que a morte,
por isso trazemos para ti nosso pedido,
nossa intercessão
e o fazemos humildemente
em nome de teu Filho, nosso Senhor. Amém.

Bibliografia

CROATTO, J. Severino. Isaías 1-39. Comentario bíblico ecuménico AT. Buenos Aires: La Aurora, 1989.
TAYLOR, Vincent. Evangelio según San Marcos. Madrid: Ediciones Cristian¬dad, 1979.
 


Autor(a): Pedro Kalmbach
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 15º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: Marcos / Capitulo: 7 / Versículo Inicial: 24 / Versículo Final: 37
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2011 / Volume: 36
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 25563
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